Pe. Tomas Hughes, SVD
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Revisão do texto: www.maikol.com.br

Padre Tomas Hughes, Missionário da Sociedade do Verbo Divino, nascido em Dublin na Irlanda, escreve as seguintes REFLEXÕES HOMILÉTICAS:
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Reflexões sobre a Palavra de Deus para os domingos:

Festa da Sagrada Família - 28 dezembro 2008

Lc 2, 22-40

“Ele crescia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”.

O Evangelho da Festa da Sagrada Família, é tirado do segundo capítulo de Lucas. Mais uma vez encontramos um tema muito importante para esse Evangelho - o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante o Advento, Lucas fazia o paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista; e Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato - o Espírito Santo e a opção pelos pobres.
Lucas enfatiza que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8), para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus para os pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles - como, aliás, era toda a população do Nazaré de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”. É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus, agora Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (Lc 4, 25-28; 4, 31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23,55-24,35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste que o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. V. 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia dele” - mais uma vez nos apresentando José, e especialmente Maria, como modelos de fé. Não obstante, qualquer revelação que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradual, como com todos nós; e a sua família tinha um papel importantíssimo no seu crescimento. Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através da experiência do seu pai adotivo, José. Se crescia na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar. Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça aos seus contra-valores.

NATAL: MISSA DA VIGÍLIA DO NATAL - 24 dezembro 2008

Lucas 2, 1-20

Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!
Este trecho pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2, 1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2, 8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2, 15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade, o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar prepotente - a “Pax Americana!”. Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até os bois e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. Mas, é para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não numa data futura distante. Esta idéia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração.” ( v. 19) Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A idéia volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” ( v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO - 21 dezembro 2008

Lc 1, 26-38

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”

Maria de Nazaré, junto com o Batista e o profeta Segundo-Isaías, é figura importante nas leituras do tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria que as Escrituras nos apresentam.
No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Naquele relato, quem recebe o anúncio é um sacerdote, idoso, no Templo judaico. No texto de hoje, é uma moça, jovem, no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acreditou, e ficou mudo... simbolizando que os ritos do Templo não tem mais nada a dizer! Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1, 42).
Infelizmente ,muitas vezes, esse trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão - é ideologicamente usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer!
Maria, embora não entenda plenamente (cf. 1, 29; 2, 19; 2, 50s) aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas, ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização do plano de Deus o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar - isso seria muito pouco - mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante, Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando na boca de Maria ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat (1, 46-55). O que é que Maria quer quando Ela pede que seja feita a vontade de Deus n’Ela? Ela quer a realização da viravolta no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (1 ,51-53).
Num mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal, tem que se comprometer de uma maneira concreta na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.

TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO - 14 dezembro 2008

Jo 1, 6-8. 19-28

“Aplainai o caminho do Senhor”

Mais uma vez, a figura central do evangelho de um domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Essa vez, num texto tirado do Evangelho de João; o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías 40, 3. No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do tal chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria - a vinda do Messias, Jesus de Nazaré!
Nesse texto, já no primeiro capítulo do Quarto Evangelho, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus - as autoridades dos judeus. Embora às vezes neste Evangelho o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (cf. 3, 25; 4, 9.22 etc), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende, e eventualmente hostiliza, Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época - os sumos sacerdotes, fariseus e escribas.
Atrás do texto, também dá para entrever a tensão que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por isso, a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunho do fato de que Jesus era o enviado de Deus.
No mais, o evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1, 1-8) - um convite para que todos nós preparemos o caminho do senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando das nossas vidas tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas, também, há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo que possa diminuir a vida humana - tudo que causa sofrimento aos nossos irmãos e irmãs. Pois, o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social - e muito mais do que a soma dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos e filhas de Deus. A voz do precursor, como a de Isaías quinhentos anos antes dele, nos desafia para que a nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno - o mundo que Jesus veio estabelecer.

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO - 07 dezembro 2008

Mc 1, 1-8

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”

O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, talvez na Síria. Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “Evangelho”, o que literalmente significa “Boa Nova” ou “Boa Notícia”. Porém, quando no primeiro versículo da sua obra ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não se refere ao gênero literário, mas à própria Boa Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois, o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa Boa Notícia, - tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66) pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1, 11).
Como parte da nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e mensagem de um dos grandes personagens do Advento - João Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias 3, 20, Isaías 40, 3 e Êxodo 23, 20, Marcos enfatiza o papel de João como Precursor - aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré.
O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra que não será possível uma preparação adequada para a vinda do Senhor no Natal, sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados.
A ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade da pessoa que há de vir, como num cortejo, põe toda a importância nela - pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois com a vinda d’Ele inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
A voz de João ressoa de novo hoje, convidando a todos nós, não somente pessoalmente, mas também como comunidade, Igreja e sociedade, a preparar os caminhos do Senhor, endireitando as suas veredas! A preparação para o Natal implica o empenho de todos para que os males, individuais e sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido.
A crise econômica e social em que o mundo se encontra atualmente mergulhado, deve nos levar a refletir sobre os valores e destinos da nossa sociedade consumista e excludente. Centenas de bilhões de dólares já foram gastos para escorar um sistema que mostra graves sinais de falência. Mais uma vez, são os menos favorecidos que vão pagar pelos erros dos especuladores financeiros. O Natal, muitas vezes “seqüestrado” como festa de compras e gastos, pode ser para nós um novo começo, uma redescoberta dos verdadeiros valores familiares, religiosos e de solidariedade. Mas, isso exige a conversão de uma mentalidade consumista para uma de partilha, em que o que vale é o “ser” e não o “ter”. Mais do que nunca, a mensagem de João, o Batista, torna-se atual e desafiante.

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (30.11.08)

Marcos 13, 33-37

“Digo a todos: fiquem vigiando!”

Com a celebração do Primeiro Domingo do Advento, a Igreja inicia um novo Ano Litúrgico, num ciclo que celebra todos os principais eventos da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Advento é um tempo não tanto de penitência, mas de expectativa e preparação para a vinda do Senhor no Natal. Três figuras muito importantes da liturgia do Advento são: o profeta Isaías; o Precursor - São João Batista; e, Maria de Nazaré - a Mãe do Senhor.
Um tema constante no Advento é o da vigilância. “O que digo a vocês, digo a todos: fiquem vigiando”. Obviamente, não no sentido de vigiar os outros, mas da vigilância evangélica, uma atitude constante de compromisso com o seguimento de Jesus. É preciso vigiar a nós mesmos, para que não deixemos de pôr em prática as mesmas atitudes e opções concretas de Jesus de Nazaré. É vigiar para que façamos sempre não o que Jesus fazia, mas o que ele faria se estivesse no meio de nós hoje.
O convite à vigilância não é somente pessoal, mas também comunitário. Pois, com o decorrer dos anos, é possível que tanto os indivíduos como as instituições eclesiais – congregações religiosas, pastorais específicas, movimentos espirituais e até as próprias igrejas - caiam no comodismo, perdendo de vista a finalidade última da sua atuação - o Reino - e se contentando com uma prática meramente externa de uma moral ou ética. O texto de hoje convida a todos nós para que façamos do discernimento um modo de viver, que sejamos sempre vigilantes para que o nosso modo de ser, atuar e falar estejam coerentes com as opções concretas de Jesus de Nazaré, em favor do Reino de Deus, da justiça, solidariedade e fraternidade.
Daqui quatro semanas, celebrar-se-á o Natal. Para muitos, será simplesmente uma festa comercial ou uma oportunidade de festejar e alegrar-se. Para outros, mergulhados na miséria e na fome, endêmicas em muitas regiões do planeta, será sem sentido. A qualidade do nosso Natal dependerá em grande parte da qualidade do nosso Advento. Se fizermos desse tempo um verdadeiro momento de discernimento, avaliação, vigilância e renovação, então teremos realmente um Natal - um renascimento de Jesus na nossa vida. Caso contrário, somente teremos uma festa no dia 25 de Dezembro, que logo acabará e passará sem deixar rastros, a não ser dívidas a pagar ou ressacas! Atendamos o convite de Jesus! Façamos do Advento deste ano um tempo de avaliação, de oração, de renovação, e teremos a imensa alegria de um verdadeiro Natal - um reencontro verdadeiro com Jesus, o Emanuel - o Deus-Conosco!
“O que digo a vocês, digo a todos: Fiquem vigiando”.

FESTA DE JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO (23.11.08)

Mateus 25, 31-46

“Quando fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim”

Hoje encerramos as celebrações dominicais do ano litúrgico com a festa de Cristo Rei. O evangelho de hoje é o famoso texto de Mateus 25 sobre o Juízo Final. Nesse texto, enfatiza-se a sorte eterna dos que optaram ou não pela vivência da “justiça do Reino dos Céus”. O primeiro discurso do evangelho - o Sermão da Montanha - enfatizou que quem vivesse essa justiça seria perseguido (5, 12); o segundo discurso, o Missionário, insistiu que os discípulos não deveriam ter medo diante dessas perseguições, sofrimentos e rejeição (10, 23.28.31); o terceiro - as parábolas do Reino - ensinou a paciência e perseverança diante do lento crescimento do Reino e da fraqueza da comunidade (13); o quarto - o Discurso Eclesiológico - traçou as características da comunidade dos que procuram essa justiça. Agora, o último discurso - o Escatológico - mostra que a vivência dessa justiça será o critério de Deus para o julgamento final. Ilustra-se, de uma maneira viva, o sentido da frase lapidar do Sermão da Montanha: “Se a justiça de vocês não for superior à dos doutores da lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu” (5, 20). Jesus - o Rei - não pergunta sobre o cumprimento das leis de ritual e de pureza, tão caras aos doutores da lei e fariseus, mas sobre a prática da justiça do Reino, diante do sofrimento de tanta gente - famintos, sedentos, migrantes, esfarrapados, doentes e presos. A prática de solidariedade com os oprimidos é a única prova de uma verdadeira fé em Jesus, e do seguimento fiel dele.
Esse texto não pode deixar de nos questionar, vivendo como estamos numa sociedade cada vez mais excludente. Celebramos hoje Jesus como “Rei do Universo”. Mas, Ele se torna rei da nossa vida somente na medida em que fazemos essa opção real pelos oprimidos, e vivenciamos “a justiça do Reino do Céu”, tema central do Evangelho de Mateus. Num mundo que nos apresenta tantas outras opções “régias” - ou seja, opções que regem a nossa vida e manifestam o que são os nossos valores últimos, o texto nos leva a verificar se realmente Jesus é o Rei da nossa vida - se é o Evangelho d’Ele que as rege, ou se o título não passa de mais um dos rótulos vazios, sem conseqüências práticas, tão queridos dos arautos de uma religião intimista, sentimentalista e individual, tanto em voga nos nossos tempos. Será que a utopia do Reino de Deus, o seguimento de Jesus até a Cruz, a prática da Justiça do Reino são os elementos que norteiam as nossas práticas, individuais e comunitárias? Se não, então Jesus Cristo ainda não se tornou Rei do nosso universo pessoal e eclesial. É o questionamento do texto de hoje, que nos lembra que Jesus não é Rei conforme os padrões deste mundo, mas o Rei pobre e justo, tão esperado pelos oprimidos de todos os tempos. A sua proposta para a sociedade não é a confirmação de uma estrutura piramidal, conforme os modelos históricos, mas a sua mudança radical para que o mundo seja regido por princípios de solidariedade e justiça, de partilha e fraternidade. Ele é Rei, no sentido da esperança dos “pobres de Javé” do Antigo Testamento, tão bem retratada pelo profeta Segundo Zacarias: “O seu Rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, quebrará o arco de guerra. Anunciará paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar ao mar, do Rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9s). Jesus será o nosso rei na medida em que vivemos esses valores da verdadeira Shalom, que inclui a paz, a não violência, a partilha e a justiça.
A crise atual no sistema financeiro mundial, com as suas cifras astronômicas de apoio aos bancos e banqueiros falidos - enquanto somente migalhas são destinadas aos bilhões e famintos e sofridos do mundo - demonstra bem como a sociedade atual é dominada pelos interesses do lucro e do capital, mesmo em países que se dizem cristãos. Estamos longe de um mundo onde Jesus Cristo seja realmente o Rei - regido pelos valores que Jesus encarnou na sua pessoa, projeto, ensinamento e opções, e que nós herdamos como discípulos/as d’Ele.

TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (16.11.08)

Mateus 25, 14-30

“Muito bem, empregado bom e fiel”

O Evangelho de hoje situa-se no quinto e último grande discurso do Evangelho de Mateus - o Discurso Escatológico, ou aquele que trata do fim último das coisas. O tema básico do discurso é a vigilância, ilustrada pela leitura dos sinais dos tempos (24, 1-44), a parábola do empregado responsável (24, 45-51), a das virgens prudentes e imprudentes (25, 1-13), e que vai terminar no próximo domingo, Festa de Cristo Rei, com o texto sobre o Juízo Final (25, 31-46).
O texto de hoje versa sobre os empregados e os talentos - no tempo de Jesus um talento era uma soma considerável de dinheiro, e hoje, no contexto da parábola, pode ser interpretado em termos de dons recebidos de Deus. O trecho demonstra que o importante é arriscar-se e lançar-se à ação em prol do crescimento do Reino de Deus, para que os dons que recebemos de Deus possam crescer e se frutificar (de forma alguma se deve interpretar o texto ao pé-da-letra, como se ela tratasse de investimentos e lucros financeiros, pois ele é uma parábola, que é uma comparação que usa imagens e símbolos conhecidos).
Jesus confiou à comunidade cristã a revelação dos segredos do Reino e a revelação de Deus como o “Abbá”, ou querido Pai. Esse dom é um privilégio, mas também um desafio e uma responsabilidade. Nem a comunidade cristã, nem o cristão individual podem guardar para si essa riqueza. Embora carreguemos “esse tesouro em vasos de barro” (2 Cor 4,7), como disse São Paulo, temos que partir para a missão, para que o maior número possível chegue a essa experiência de Deus e do Reino. Não é suficiente que estejamos preparados para o encontro com o Senhor (mensagem do texto anterior a este, o das virgens) - o outro lado da medalha é a atividade missionária, que faz com que o Reino de Deus cresça, mediante o testemunho da nossa prática da justiça!

FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO (09.11.08)

João 2, 13-22

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”

A Basílica de São João Lateranense, a catedral da Igreja de Roma, é considerada a mãe de todas as Igrejas Católicas do mundo. Foi construída por Constantino nas primeiras décadas do século quatro.
No contexto do Quarto Evangelho, esse texto se situa durante a visita de Jesus a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas neste Evangelho (nos Sinóticos a vida pública de Jesus só durou um ano e eles só mencionam uma Páscoa). No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro de Israel, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios, e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois, os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como nos versículos precedentes do Capítulo 2, Jesus substituiu a purificação dos judeus no sinal das bodas de Caná, aqui ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu o seu sentido. Pois, a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante reside em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem templo nacionalista, explorador econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).
João entende que o verdadeiro e duradouro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias - ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mt 26, 61). As autoridades judaicas (não “os judeus,” como raça ou religião) destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na Ressurreição, depois de três dias.
Mais uma vez Jesus, através de uma ação profética, desmascara a deturpação da religião, por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem freqüentadas, a sua religião era vazia, pois escondia o rosto verdadeiro do Deus da Bíblia. As Igrejas correm este mesmo risco nos dias de hoje. Além da descarada exploração financeira dos seus fiéis por parte de algumas seitas religiosas (cuidemos para não generalizarmos aqui e que a mesma coisa não aconteça na nossa Igreja!), as poucos muitas comunidades cristãs perderam a sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neo-liberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu uma vez o Frei Beto, a religião assim “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências”.
Assim, o texto de hoje nos traz um alerta - Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora, aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração; ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância”(Jo 10, 10). Uma religião que abandonasse a sua função profética seria tão traidora como a religião decadente das elites do Templo. Diante da arrogância despótica dos que se consideram “donos” do mundo e dos seus recursos, por causa do seu poderio militar e econômico (embora esse último esteja com os alicerces minados nesses últimos meses), as vozes de Bento XVI, do Arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soam profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos que a religião não se confina à sacristia, mas tem que levar à prática dos princípios do Reino, que recusa legitimar o derramamento de sangue e a destruição do meio-ambiente em troca de petróleo e do lucro. A Campanha da Fraternidade de 2009 convocará todos os cristãos para que recuperem essa dimensão profética na luta em favor das pessoas que sofrem todo tipo de violência hoje, com o lema “Da Justiça Florescerá a Paz”.
Neste domingo em que a Igreja celebra a dedicação da Basílica de São João de Latrão, em Roma, verifiquemos o estado de reparo da nossa Igreja Viva - feita não de pedras talhadas e construções imponentes, por tão bonitas e até necessárias que possam ser, mas de discípulos/as-missionários/as, inspirados pela pessoa e projeto de Jesus. Aproveitemos do ensejo para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caiamos na desgraça do Templo - bonito, atraente e emocionante, mas vazio de sentido.

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS (02.11.08)

João 6, 37-44

A celebração de hoje deve ser vista em relação com a de ontem, dia 1 de novembro - a Festa de Todos os Santos. É a grande celebração da “Comunhão dos Santos” - nós, a Igreja peregrina, ontem comemoramos a Igreja já vivendo a plenitude de vida com Deus; e hoje comemoramos a Igreja ainda em processo de purificação (a palavra “purgatório” vem do termo latino que significa “purificar” e não “sofrer”). No fundo, celebramos o imenso amor de Deus para conosco, todos participantes daquilo que celebramos todos os domingos no Credo quando declaramos que acreditamos, “Na Comunhão dos Santos, na Ressurreição da Carne e na Vida eterna”.
Embora para muitas pessoas a celebração de hoje traga conotações de tristeza, pois suscita lembranças e saudades dos seus entes queridos já falecidos, realmente é uma celebração de esperança e confiança na bondade, no perdão e no amor de Deus.
O texto escolhido para hoje, ligado às declarações de Jesus sobre o Pão da Vida, é extremamente alentador e animador. Explicita com todas as letras que a vontade do Pai é de que Jesus ressuscite todos/as que lhe foram confiados pelo Pai, no último dia. Longe de nos apresentar o Pai como um juiz implacável, Jesus declara que a vontade de Pai é que “toda pessoa que vê o Filho e n’Ele acredita, tenha a vida eterna” e que Ele “o ressuscite no último dia” (v 40).
Naturalmente, o texto foi dirigido em primeiro lugar à comunidade joanina, e por isso enfatiza a ressurreição de todos/as que receberam de Deus o dom da fé (vêem Jesus e n’Ele acreditam); mas, fica clara a vontade do Pai de salvar para a vida eterna todas as pessoas que procuram viver a verdade. O que perpassa todo este discurso de Jesus é a confirmação da vontade salvífica de Deus, a misericórdia de Deus e a manifestação desta compaixão na pessoa e obra de Jesus de Nazaré.
É mais do que natural que hoje a gente sinta saudade dos falecidos - especialmente dos que partiram deste mundo há pouco tempo. Mas a celebração deve nos animar e encorajar, pois desde ontem a Igreja toda está em festa de celebração da grandeza do amor de Deus - nós ainda em peregrinação na terra, os falecidos no processo de serem purificados pelo amor de Deus e os que já estão na plenitude da vida, pois somos todos recipientes da bondade de Deus, através de Jesus que veio “para que todos tenham a vida e a vida em plenitude” (Jo 10, 10).

TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (26.10.08)

Mt 22, 34-40

“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”

Hoje, temos mais uma das controvérsias do Capítulo 22, esta vez com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é para descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus - o verbo traduzido aqui como “para O pôr à prova” é o mesmo usado em v. 22, 8 (“armar cilada”). O que seria o maior mandamento era discutido entre as diversas escolas rabínicas da época - para alguns o maior era o amor a Deus, para a maioria era a observância do sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a Deus e de amar o próximo (Lv 19, 18 e Dt 6, 5). A originalidade de Jesus está no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e, sobretudo, na simplificação e concentração da Lei (que tinha 613 mandamentos) nesses dois elementos. A colocação de Jesus exige uma forma correta de amor próprio - não de egoísmo, mas de auto-respeito. A ligação íntima dos dois mandamentos não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante.
Mais uma vez, Jesus desloca o eixo da questão, como fez domingo passado na passagem sobre o imposto a César. Esta vez Ele se recusa a entrar em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central do amor - tanto a Deus como ao próximo.
É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não é um mero sentimento ou emoção, como muitas vezes é na linguagem de hoje. O amor é uma atitude de vida, uma fidelidade à Aliança com Deus, uma vivência solidária com os irmãos e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizar-nos com cada pessoa, nem gostar de cada pessoa. Mas, é possível superar antipatias e aversões, na caminhada da construção do projeto de Deus para o nosso mundo.
A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo torna-se muito urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas vezes não passam de uma busca disfarçada de auto-realização, mas que jamais levam a um compromisso com a transformação da nossa realidade. A frase de Jesus desautoriza qualquer pregação religiosa que separa o amor a Deus do amor ao próximo - um amor não somente afetivo (que talvez muitas vezes nem possa ser), mas, efetivo - concretizando de maneira prática a solidariedade e a justiça.
O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência alienante ou legalista - os mandamentos não são para serem discutidos, mas vividos, no amor e compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo dependia da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus fez com que a própria Lei dependa dos atos de amor solidário. Esse avanço feito por Jesus desafia a todos nós para que não caiamos na tentação perene de separar os dois aspectos do amor - não é possível amar a Deus sem que amemos o irmão, e o verdadeiro amor ao próximo brota do nosso amor a Deus.

VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (19.10.08)

Mt 22, 1-15

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”

Com o texto de hoje, entramos num bloco de quatro unidades tratando de diversas controvérsias com lideranças judaicas diferentes - os fariseus, os herodianos, os saduceus. A discussão de hoje talvez seja a mais conhecida, mas muitas vezes tem sido interpretada de maneira errada, projetando sobre Jesus os nossos preconceitos políticas e sociais.
É necessário entender que não se tratava de uma pergunta sincera feita a Jesus, mas de uma cilada. Pois, quem a faz são membros de dois grupos politicamente opostos e antagônicos - os herodianos, “pelegos” da dominação romana e os fariseus, muitos dos quais olhavam os herodianos como impuros, pela sua colaboração com o poder estrangeiro. Se Jesus respondesse que é lícito pagar o imposto, correria o risco de ser apresentado pelos nacionalistas como um opressor do povo. Se Ele negasse, poderia ser denunciado pelos herodianos como subversivo político. É uma situação semelhante à da pergunta de João 8, 1-11 (a mulher adúltera), onde qualquer resposta deixaria Jesus em maus lençóis. Como naquela ocasião, Jesus se mostra verdadeiro mestre, escapando da cilada, e por cima, dando um ensinamento importante.
Primeiro, Ele deixa claro que Ele entende a jogada: “Hipócritas, por que me armais uma cilada?” Coloca os seus interlocutores contra a parede, pedindo uma moeda do imposto, e perguntando: “De quem são esta efígie e esta inscrição?” A inscrição seria “Tibério César Filho do Divino Augusto, Sumo Pontífice” - mostrando as pretensões do Império Romano à divinização. Com a resposta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, Jesus joga para os seus ouvintes a pergunta essencial: o que pertence a César, e o que pertence a Deus? A Deus pertence a divindade, não ao Império Romano nem a César. Assim, ele evita confirmar o projeto nacionalista violento de muitos judeus da sua época, mas condena também qualquer projeto que divinizasse o poder civil. Uma advertência muito atual para os nossos dias, quando o único poder imperial hegemônico, (muito semelhante à situação do Império Romano do tempo de Jesus) reivindica para si o poder de impor as suas decisões sobre todas as nações, taxando quem discorda da sua dominação ideológico, econômico e militar de “terrorista”. O poder civil existe para cuidar do povo - que é de Deus - e não para explorá-lo. Jesus assim nega as aspirações imperialistas e, evitando uma resposta direta à pergunta, enfatiza e relativiza todo e qualquer poder, pois o verdadeiro poder só pertence a Deus.
Nos nossos dias, ainda existem poderes com as mesmas aspirações dos romanos. Embora não digam abertamente, os arautos do neo-liberalismo desenfreado divinizam um sistema que só visa o lucro e a ganância e explora o povo sofrido. As palavras de Jesus nos lembram que nenhum cristão pode compactuar com qualquer sistema - seja político, econômico ou religioso - que atribui a si o que pertence a Deus. O texto de forma alguma justifica um dualismo entre o espiritual (de Deus) e o material (de César). Pelo contrário, mostra que o poder político, econômico e religioso deve estar a serviço do bem comum, pois, se não, está roubando o que é de Deus - o seu povo. Não se pode entregar às garras de um poder opressor, seja ele estrangeiro ou nacional, o que pertence ao Pai. O poder é legítimo quando está a serviço da vida e do bem-estar comum, e não de uns poucos privilegiados. “Dar a Deus o que é de Deus” não se resume em rituais religiosos, mas na construção de uma sociedade de solidariedade, justiça e fraternidade, onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Na medida em que lutamos por esse objetivo, estaremos dando “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

FESTA DE NOSSA SENHORA APARECIDA (12.10.08)

Jo 2, 1-12

“Façam tudo o que Ele lhes disser”

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão (embora algumas bíblias traduzam o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “sinal”). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o nosso texto de hoje. Como quase todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do Quarto Evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas à hora da glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), o autor quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho - ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumirão um relacionamento de Mãe e Filho. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje.
Apesar da nossa tradição devocional mariana, é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, algo que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz.
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a dos serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está em v.11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em Seu nome” (Jo 20, 31).

VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (05.10.08)

Mt 21, 33-43

“O Reino de Deus será entregue a uma nação que produzirá seus frutos”

A parábola de hoje é a segunda numa série de três, referentes ao julgamento final de Deus sobre o seu povo (antes houve a parábola dos dois irmãos e virá ainda a da festa de casamento). Com certeza, a redação atual é resultado de uma longa história de transmissão oral e redação. Na boca de Jesus, a história visava a sorte da vinha (v. 41); a tradição pré-sinótica concentrou a atenção na sorte do Filho, acrescentando a citação de Sl 118 e as alusões escriturísticas (vv. 42-44); finalmente, Mateus deixa claro que o advento do novo povo (v. 41) está ligado ao destino d’Aquele que fala e que deve ser condenado e morto, para depois ressuscitar (cf. notas da Bíblia TEB).
Na sua forma atual, a parábola é uma alegoria da História da Salvação. “Os mensageiros” são os profetas que foram matados pelo povo de Israel, culminando com Jesus, como o Filho. “O Reino” provavelmente se refere à promessa da bênção em plenitude, dos últimos tempos. “O Povo” se refere à Igreja; no caso de Mateus, composta principalmente de judeu-cristãos, mas também de gentios convertidos, que juntos formam o Novo Povo de Deus, o verdadeiro Israel. Essa conclusão de v. 43 é a principal contribuição de Mateus à interpretação da parábola, e é mais suave do que a própria parábola, pois os maus vinhateiros não serão destruídos, mas perderão a promessa.
Como o Evangelho de Mateus foi escrito num contexto de polêmica entre a sua comunidade e o judaísmo formativo do fim do primeiro século, queria ensinar para a sua comunidade que a promessa antiga feita ao Povo de Deus foi retirada das autoridades farisaicas e das suas comunidades, e foi dada à comunidade da Igreja. Mas, isso não dava às comunidades motivo para comodismo. Como o povo original perdeu a promessa porque “não deu fruto”, também a Igreja não a possui de modo incondicional. Também as comunidades cristãs têm que “dar fruto” de justiça, fraternidade, solidariedade, e partilha. A História da Salvação nos mostra que Deus não se deixa manipular, nem permite que qualquer comunidade ou religião se torne “dona” d’Ele, mas que o seu verdadeiro povo é aquele que se dedica à construção dos valores do Reino de Deus. O texto convida a um sério exame e revisão das nossas práticas e estruturas eclesiais e eclesiásticas, para que a nossa Igreja cristã não chegue a merecer o destino dos vinhateiros, que, por não terem correspondido com a Aliança, viram a promessa retirada deles e dada a um outro povo “que produzirá os seus frutos” (v. 43).

VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (28.09.08)

Mt 21, 28-32

“Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”

Esta é a primeira de uma série de três parábolas sobre o julgamento. Todas estão dirigidas ao mesmo público - os chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, ao grupo de elite dentro do sistema religioso de Israel.
A parábola aqui trabalha com um esquema - o que é o “dizer” e o “agir” em resposta à vontade de Deus. Sendo parábola, que trabalha com simbologia, os dois filhos podem representar diversas personagens: o mais jovem pode representar o povo de Israel histórico que disse “sim” (Ex 19, 8) e não cumpriu com a sua palavra (cf. Jr 2, 20), ou a geração do tempo de Jesus diante da pregação de João Batista e de Jesus. O segundo filho pode representar qualquer um que se arrepende: as duas categorias que recebiam então o rótulo de “pecadores”, mas, que aceitavam o convite de João para o arrependimento; também os pagãos que se convertem e crêem em Jesus.
No fundo, a parábola retoma um tema muito claro no Sermão da Montanha: “Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! Entrará no Reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21). Mateus é o Evangelho da prática da vontade do Pai, revelada em Jesus. O contraste entre os grupos na parábola chega a ser chocante - de propósito. De um lado temos a elite do sistema religioso judaico, que se considerava justa e sem qualquer necessidade de arrependimento; do outro lado, os pecadores públicos, bem conscientes da necessidade de conversão sincera. A parábola traz a mesma mensagem daquela do fariseu e do publicano em Lc 18, 9-14, e tem ecos de uma outra parábola com dois irmãos - a do “Filho Pródigo” em Lc 15, 11-32.
Esse texto nos desafia para que façamos um exame de consciência. Quantas vezes rotulamos pessoas e grupos como pecadores, injustos, desprezíveis, a partir das aparências e dos nossos preconceitos, enquanto nos contentamos com uma prática externa de religião sem conseqüências práticas para a sociedade, assim como faziam os chefes dos sacerdotes e anciãos do tempo de Jesus. Hoje em dia podemos não ter publicanos, mas quantos são desprezados nas nossas comunidades como os publicanos de então, por serem “drogados”, “aidéticos” “homossexuais”, “prostitutas” “divorciados” ou por outros motivos? Quantas vezes nos contentamos com uma religião que consiste em simplesmente cumprir a tabela dos ritos e rituais, com a moral burguesa da sociedade idolátrica consumista, sem perguntarmo-nos sobre os frutos de justiça da tal prática.
Mateus insiste que é pelos frutos que se conhece a árvore. Os ouvintes dessa parábola devem ter ficado chocados e ofendidos com a frase de Jesus, “os cobradores de impostos e as prostitutas (pessoas consideradas irremediavelmente perdidas) vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”. Pois, Jesus desmascarava a religião dominante em Israel, que, escondida atrás de rituais e minúcias legais, marginalizava a maioria e lisonjeava uma minoria que se outorgava o direito de julgar os outros, sem dar frutos de justiça, partilha e solidariedade! “É pelos frutos que se conhece a árvore” (Mt 7, 20). Deixemos que este texto chocante nos interpele, examinando os frutos reais da nossa prática, para que não caiamos na cilada dos chefes dos sacerdotes e anciãos, apontando os erros dos outros e julgando-os, sem sentir a nossa própria necessidade de arrependimento.

VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (21.09.08)

Mt 20, 1-16

“Os últimos serão os primeiros”

Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o centro da pregação de Jesus era O Reino de Deus (dos Céus, em Mateus, ou que significa a mesma coisa). Mas, Jesus nunca define o Reino, pelo contrário, sempre o descreve por meio de parábolas, para que o ouvinte se esforce para descobrir quais são os valores que tornam o Reino de Deus presente no meio de nós.
A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do povo da Galiléia. Era uma região rica, de terra boa, mas com o seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos, e a maioria trabalhava ou como arrendatários ou como “bóias-frias” como diríamos hoje. Embora a cena situe-se na Galiléia de dois mil anos atrás, bem poderia ser o Brasil da atualidade! Apresenta uma situação de trabalhadores braçais desempregados, não por querer, mas “porque ninguém os contratou” (v. 7). Talvez haja uma diferença, comparando com a situação de hoje - na parábola, o salário combinado era uma moeda de prata, um denário, que na época era o suficiente para o sustento de uma família por um dia - o que nem sempre se verifica hoje.
O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz - logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, aposentado, doente, excepcional. Na parábola, o patrão (símbolo do Pai) usa como critério de pagamento, não a produção, mas o sustento da vida - também o trabalhador da última hora precisa sustentar a família; e por isso, recebe o valor suficiente, um denário.
O Reino tem outros valores do que a sociedade neo-liberal do nosso tempo - a vida é o critério, não a produção. Por isso, quem procura vivenciar os valores do Reino estará na contramão da sociedade dominante. O texto nos convida a imitar o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade e no trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção e consumo.
Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido. Começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade - eram “da última hora”. Mateus conta a parábola para ensinar a eles que no Reino, experimentado através da comunidade, não pode haver discriminação entre cristãos de várias origens; por isso, “os últimos serão os primeiros”. O critério é a gratuidade de Deus Pai, pois tudo o que temos, recebemos d’Ele, e sendo todos filhos e filhas amados d’Ele, a comunidade cristã não pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja.

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (14.09.08)

Jo 3, 13-17

“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio d’Ele”

A liturgia da Igreja Católica hoje interrompe a série dos Domingos do Tempo Comum para celebrar a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Essa festa litúrgica tem destaque maior nas Igrejas do Oriente, onde é comparada com a Festa de Páscoa. A sua celebração tem as suas origens ligadas à dedicação das basílicas constantinianas construídas nos lugares tradicionalmente identificados com Calvário e o Santo Sepulcro.
O título “Exaltação da Santa Cruz” chama a atenção, pois destaca o grande paradoxo da nossa fé - foi exatamente através da Cruz, o mais terrível entre os suplícios, que veio a salvação. Humanamente falando, a morte de Jesus na cruz significava o fracasso total da sua vida e missão, mas, de fato, escondia a vitória de Deus sobre o mal, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado - uma vitória que se manifestaria ao terceiro dia, na Ressurreição. No mistério pascal da vida-morte-ressurreição de Jesus verifica-se o que proclama Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante.”(1Cor 1, 27s).
Torna-se muito importante resgatar uma sadia teologia e espiritualidade da Cruz. De um lado temos que superar uma pregação errada que identificava a Cruz com qualquer sofrimento, como se o sofrimento em si fosse um valor positivo. Quantas pessoas sofreram injustiças a vida toda, agüentando situações quase insuportáveis, por causa de tal pregação que levava à passividade diante das injustiças e opressões. No fundo, faziam de Deus um sádico! Do outro lado, na sociedade de hoje, a Cruz não está muito popular, pois o sacrifício, a auto-doação em favor de outros, está na contramão da sociedade hedonista e consumista. Até dentro da Igreja muitas vezes há uma busca da Ressurreição e vitória, sem que se mencione que o triunfo de Jesus veio através de uma vida de doação que o levou à cruz - e como conseqüência dessa coerência, à Ressurreição.
A festa de hoje celebra a Cruz, não o sofrimento. Jesus não nos salvou porque sofreu três horas na cruz - ele nos salvou porque a sua vida foi totalmente fiel à vontade do Pai. Por causa dessa fidelidade, as suas opções concretas o colocaram em conflito com as estruturas de dominação sócio-político-religiosas, o que causou o seu assassinato judicial. A morte de Jesus foi muito mais do que uma tentativa de eliminar alguém que incomodasse! Era a tentativa de aniquilar o seu movimento, a sua pregação, a visão de Deus e do projeto de Deus que Ele ensinava. A Cruz então se tornava o símbolo de doação total numa vida de fidelidade absoluta ao projeto do Pai. Era o último passo de coerência, conseqüência lógica do seguimento da vontade de Deus.
Assim, Jesus deixa bem claro nas páginas dos Evangelhos que a Cruz é a característica do discípulo/a. “Se alguém quer me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” (Mc 8, 24). Jesus não nos convida a buscar o sofrimento, mas a carregar a cruz - conseqüência de uma religião que é vivencial, que acarreta ações e atitudes coerentes com o Deus em que acreditamos, e que traz em seu bojo as sementes de conflito com todo poder opressor, pois “os meus projetos não são os projetos de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos” (Is 55, 8).
Paulo descobriu que pregar Cristo sem a Cruz era esvaziar a evangelização. Assim declara à comunidade de Corinto: “Entre vocês eu não quis saber outra coisa a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado.”(1Cor 2, 2). A Cruz de Cristo é inseparável da sua vida, pois é a conseqüência dela. Mas, a Cruz também não se separa da Ressurreição, pois ela é o resultado de tal coerência e fidelidade. A festa de hoje nos desafia para que respondamos ao convite de Jesus para carregar a nossa cruz numa vida de discipulado e missionariedade, continuando a sua missão ao mundo. Pois, como diz o nosso texto hoje, “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3, 17)


VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (07.09.08)

Mt 18, 15-20

“Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome, eu estarei no meio deles”

O texto de hoje é tirado do Discurso Eclesiológico, que trata de problemas da vida cotidiana da comunidade dos discípulos, que Mateus chama de “Igreja” (nos Evangelhos, o termo “Igreja” só acorre aqui e em Mt 16, 18). Entre esses problemas podemos detectar a busca do poder (vv 1-5), o escândalo dado aos pobres e humildes (vv 6-14), a questão do irmão que erra (vv 15-20) e o perdão das ofensas (vv 21-25). São questões ainda atuais para as comunidades de hoje.
Um dos grandes assuntos que perpassa o capítulo é a preocupação com o irmão (irmã) que se desgarra ou se desvia. A lição é que os dirigentes - e a comunidade - devem ter a mesma atitude de Jesus diante de tais pessoas, ou seja, a compaixão, a compreensão, a vontade de reintegrá-las na comunidade. Somente em último caso o erro de um irmão deve ser levado à comunidade mais ampla (a Igreja), pois a caridade exige que primeiro se procure resolver a questão em particular. É nesse espírito que a comunidade recebe o poder que Pedro recebeu em Mt 16, 19, o de excluir o infrator da comunidade. Mas, é essencial interpretar esse direito à luz de vv 12-14, onde a busca da ovelha desgarrada é dever primordial dos dirigentes comunitários, a exemplo do Pai Celeste. Esse sentido da exclusão é ressaltado por Paulo em 1Cor 5, 5: “humanamente ele será arrasado, mas o seu espírito será salvo no dia do Senhor”.
O texto conclui dizendo que “se dois de vocês estiverem de acordo sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido”. Certamente, “qualquer coisa” se situa dentro das preocupações desta seção de Mt que trata do seguimento de Jesus e da vivência da comunidade. Não se refere a um pedido qualquer, ou que não fomenta a chegada do Reino, da justiça, da partilha, da fraternidade. Quantas vezes os nossos pedidos são nada mais do que expressões do nosso individualismo? Cumpre lembrar que o Deus da Bíblia ouve “o clamor do sofrido”, como tantos textos afirmam os salmos e os profetas. O Evangelho afirma que o Pai vai atender qualquer pedido em nome de Jesus, em favor da chegada do Reino. Não é que não podemos rezar por nossas preocupações individuais e pessoais, mas elas não podem dominar o horizonte da nossa fé. Devemos realmente lembrar a frase tão importante de Mateus que nos ensina: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso será dado em acréscimo”. A nossa oração jamais poderá ser desvinculada dos grandes temas do Reino e do sofrimento de tantos irmãos no mundo de hoje.

Vigésimo Segundo Domingo Comum (31.08.2008)

Mt 16, 21-27

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”

Seria um erro grave não complementar a reflexão sobre o texto do Domingo passado com o trecho de hoje. Pois ele mostra que embora Pedro tivesse usado os termos certos para descrever quem era Jesus, ele os entendia de modo errado. Para Jesus, ser o Cristo significava assumir a missão do Servo de Javé, descrito pelo profeta Segundo-Isaías, nos Cantos do Servo de Javé (Is 42, 1-9; 49, 1-9ª; 50, 4-11; 52, 13-53, 12). Jesus deixa claro que ser o Cristo não significava triunfo nos termos desse mundo, mas o contrário: “O Filho do Homem deve sofrer muito ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia”.
Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias, não era comum - em geral o povo esperava um messias triunfante e glorioso. Mateus nos mostra que Pedro partilhava essa visão errada, a ponto de tentar corrigir Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura:“Fique longe de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33).
Não basta usar os termos certos - temos que ter o conteúdo certo. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas na verdade muitas vezes nós criamos Deus na nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Lc 9 ,23).
O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz, não é agüentar qualquer sofrimento passivamente. Fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as conseqüências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje. E como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem definidos “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem conseqüências políticas, econômicas ou ideológicas. A nossa resposta à pergunta “E você, quem diz que eu sou?” se dá, não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus não exigente, que não traz conseqüências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Pois, o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou claro: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24)

Vigésimo Primeiro Domingo (24.08.2008)

Mt 16, 13-20

“E vocês, quem dizem que eu sou?”

Aqui temos a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Esse trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: Quem é Jesus? O que é ser discípulo d’Ele?
São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua, pois não compromete - o “diz que” compromete ninguém, pois expressa a opinião de outros. Por isso chove respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos profetas!”. Mas Jesus não quer parar aqui - esta pergunta foi só uma introdução. Depois vem a facada!: “E vocês, quem dizem que eu sou?”
Agora não chove respostas, pois quem responde vai se comprometer - não será a opinião de outros, mas a pessoal! Esta opinião traz conseqüências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias, o Filho de Deus vivo”.
Aqui Mateus acrescenta os vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e por conseguinte dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se refere ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.
O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Mas, continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?“ Pois os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha: “Ele ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias!” Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera angariar discípulos deste jeito? O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender este termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então.
No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para clarificar em que Jesus acreditamos? O Jesus “Ôba! Ôba!” tão amado por setores da mídia, e também das Igrejas, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé, que veio para dar a vida em favor de todos? Esse assunto virá à tona no evangelho do próximo domingo.


Festa da Assunção de Maria (17.08.2008)

Lc 1, 39-56

“Olhou para a humilhação da sua Serva”

Pode-se dividir esse texto em duas partes - a história da visitação da Maria a Isabel, e o “Canto de Maria”- ou “Magnificat”. Reduzir o sentido da Visitação a um simples gesto serviçal da parte da Maria para com a sua parente, idosa, seria empobrecer muito o pensamento de Lucas. Esta cena é altamente simbólica - Lucas quer mostrar o acolhimento do “Novo” (representado por Maria e Jesus) por parte do “Antigo”, (representado por Isabel e João). Isabel, símbolo de todos os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma frase usada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na libertação do seu povo, Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jt 13,18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa, que, animada pela fé em Javé libertador, colabora na luta pelo mundo que Deus quer. Esse mundo, a chegada do Reino de Deus, já é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu ventre”. Nesse trecho é importante destacar o motivo pelo qual Maria é bem-aventurada: “Feliz aquela que acreditou”. Para Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa do Senhor - não somente a promessa da gravidez, mas no projeto de Deus, desde Abraão, de dar ao seu povo a terra, a descendência e a bênção. Enfim, a promessa da realização do projeto do Reino.
O Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição literária magistral, inspirada no Canto da Ana (1 Sam 2,1-10) e outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “Pobres de Javé”, os deserdados dessa terra, que apesar de tudo acreditavam no projeto libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus olhou para a sua pequenez e humilhação (não “humildade”!). Ela celebra a mudança radical que o Reino traz - os poderosos, soberbos e ricaços serão derrubados e os pobres, humilhados e famintos, serão erguidos.
Esse retrato da Maria contrasta muito com a personalidade passiva e pálida que muitas vezes inventamos para Ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres das nossas comunidades hoje. Diante das forças opressoras do seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo, o racismo), Ela canta a experiência do Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos. Essa Maria nos desafia para que nos unamos na luta pela construção do Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores. No nosso mundo, pelo menos tão opressor quanto naquela época, esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados na medida em que nós acreditamos e nos empenhamos na construção de um mundo mais fraterno, justo e igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus, celebrado por Maria no Canto do Magnificat e demonstrado na pessoa e missão do seu Filho Jesus.

DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (10.08.2008)

Mt 14, 22-33

“Coragem! Sou eu! Não tenham Medo!”

É comum ler nos jornais e revistas os resultados de pesquisas que apontam o medo e a insegurança entre as principais preocupações do nosso povo - o medo da violência, do desemprego, da pobreza, da solidão, da velhice e muitos outros. O medo parece até tomar conta de uma boa parte de nossas instituições - o medo de tomar as medidas necessárias para uma justa reforma agrária, por parte das autoridades competentes; o medo por parte de muitos líderes religiosos diante dos desafios do mundo de pós-modernidade, levando até a paralisia e o fechamento; o medo de procurar novas soluções para novos desafios. O medo parece ser a força motora da atividade - ou da falta da mesma - de muitas pessoas, grupos e instituições.
A comunidade eclesial onde nasceu o Evangelho de Mateus também sentia medo. Os seus membros (na sua quase totalidade judeu-cristãos, bem diferente etnicamente das comunidades lucanas) enfrentavam oposição e perseguição por parte das autoridades das sinagogas. A comunidade estava em luta com o chamado “judaísmo formativo”, para definir o rumo que o judaísmo iria tomar depois do desastre de 70 d.C., quando foram destruídos Jerusalém e o Templo. Com a eliminação, pela repressão romana ou por guerra civil, dos Saduceus, dos Zelotas e dos Essênios, somente dois grupos organizados sobreviveram para disputar a hegemonia dentro do judaísmo - a linha farisaica e a linha judeu-cristã, representada pela comunidade de Mateus. Era uma luta de muita radicalidade, como costuma acontecer nas brigas fratricidas. O sofrimento da comunidade de Mateus é retratado em Mt 10, 22: “Sereis odiados por todos por causa do meu nome; ma,s quem perseverar até o fim será salvo”.
É neste contexto que se entende o texto de hoje. Os discípulos, ao verem Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A comunidade de Mateus era semelhante - diante da perseguição e do sofrimento, Jesus parecia para eles um fantasma - uma ilusão, uma fugacidade, incapaz de dar sustento à sua vida comunitária de fé. Diante do medo dos discípulos, Jesus é taxativo: “Coragem! Não tenham medo! Sou eu!”. Mateus relata essa história - acrescentando esses elementos em comparação com o texto mais sóbrio de João 6, 16-21 - para ajudar a sua comunidade a entender que Jesus não é um fantasma, mas uma presença real, vivificante, fortalecedora e libertadora no meio da comunidade, especialmente na hora das dificuldades e perseguições.
Tipicamente, o Evangelho de Mateus destaca a figura de Pedro (como também em 16,13-20; 17, 24-27). Pedro era personagem muito importante em Antioquia, talvez o local da última redação de Mateus. Aqui Pedro é o protótipo do discípulo - cheio de amor, mas com uma fé enfraquecida pela dúvida. O estender da mão de Jesus é um convite a Pedro, à comunidade de Mateus, e a nós hoje, para dar uns passos para o desconhecido, para não nos fecharmos nas nossas seguranças, freqüentemente falsas, que nós mesmos construímos, mas para termos a coragem de enfrentar os ventos da vida, mesmo quando contrários, pois Jesus está realmente conosco e como disse Paulo “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8, 31).
Ter fé e não ter medo por causa de Jesus não quer dizer: “Não tenham medo, confiem em Deus, e Ele garantirá que as coisas que os amedrontam não lhes acontecerão”, mas antes: “Não tenham medo, confiem em Deus. É bem possível que as coisas que os amedrontam vão lhes acontecer, mas não devem ter medo disso, porque Deus estará ao seu lado”!
A fé em Deus não tira os nossos sofrimentos e dificuldades, como querem tantos hoje, mas nos dá as forças necessárias para vencê-los. Deus não é um analgésico para as dores e dificuldades da vida, mas uma presença amorosa que anima, fortalece e estimula, pois, como disse Paulo “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (I Cor 1, 25)


Décimo Oitavo Domingo Comum (03.08.2008)

Mt 14, 13-21

“Dai-lhes vós mesmos de comer”

No Evangelho de Mateus, o texto do Evangelho de hoje vem logo após a história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário do Tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta o “Banquete da Morte” promovida por Herodes, com “O Banquete da Vida”, protagonizado por Jesus!
O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado nos quatro Evangelhos. Isso aponta à importância dada nas primeiras comunidades a este relato, tanto que a sua memória persistiu não somente nas comunidades da tradição Sinótica (Mc, Mt, e Lc), mas também na Comunidade do Discípulo Amado.
Mesmo fazendo leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Mt 14, 13-21; Jo 6, 1-15), alguns elementos importantes saltam aos olhos:
1) A reação dos discípulos diante do problema da fome da multidão. Nos Sinóticos, a solução sugerida por eles é a de despedir a turba para que pudesse comprar pão. Assim, ignora a situação dos que não tinham possibilidade de comprar! É a solução de muita gente hoje diante do escândalo da pobreza no mundo - que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições, que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução” - “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se revela uma solução inadequada. Jesus insiste: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair num assistencialismo. Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada numa nova proposta de vida - a da partilha!
2) Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”! O motivo é simples - se a ênfase caísse sobre o “multiplicar” milagroso, teria poucas conseqüências para os discípulos (nós, hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir” - porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que temos. O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos!
Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26, 26). Também concentra a atenção nos pães, pois neste relato somente eles são distribuídos. Assim o texto nos lembra que a participação eucarística exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida, e não na acumulação da parte de alguns junto com a falta do básico para muitos. O cristão não pode compactuar-se com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes, mas deve lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas do Jesus de Nazaré.
O texto de hoje relê Êx. 16, (o maná), Nm 11 (as codornas) e 2Rs 4, 1-7.42-44 (onde Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto do Êx.16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos outros leva à podridão.
É claro que diante do enorme sofrimento da maioria da população do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram os discípulos no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que não devemos cair na cilada de aceitar as falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica - ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado pela eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós façamos o que é possível para a construção de um mundo de justiça, e fraternidade.
Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão dela e agiu. Com certeza ele olha hoje a situação de tantos irmãos e irmãs e pede que os seus seguidores façam algo para mudar a situação. Ultimamente, os jornais nos trouxeram notícias do aumento assustador da fome no mundo por causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços de alimentos básicos como o arroz. Paira sobre nós cristãos o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vos mesmos de comer!” O que significa isso na prática para mim, para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida?

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM (27.07.2008)

Mt 13, 44-52

“Vocês compreenderam tudo isso?”

Hoje terminamos a leitura do capítulo treze de Mateus, com as últimas três parábolas do Reino - as do tesouro escondido, da pérola preciosa e da rede lançada ao mar. Nas duas primeiras parábolas podemos notar duas ênfases - uma sobre o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e outra sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede no mar ecoa a mensagem da parábola do campo de trigo e joio, que fez parte do texto do domingo passado.
O contexto histórico do tesouro achado é do Oriente Médio Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática comum enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria na violência, e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado por acaso.
Usando este exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude do discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável, que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante notar que o texto enfatiza que “cheio de alegria” ele vende todos os seus bens, para poder possuir o valor maior que é o Reino. A vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida é exigente, pois meias-medidas não servem (ele vende tudo o que tem), mas o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria falsa de um programa de Faustão ou Sílvio Santos, mas uma alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois descobrimos a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida - o Reino de Deus. É pena que, com tanta freqüência, conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo, que nos afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão chata e irrelevante!
Mais uma vez, como na parábola do campo do trigo e joio, a última parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas sem indiferença ou comodismo.
O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho que denominamos Mateus era um escriba ou doutor da Lei, convertido ao discipulado de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais dados aos autores dos Evangelhos são somente atribuições; nenhum evangelho identifica o seu autor, e é consenso absoluto entre os exegetas que o Evangelho de Mateus não foi escrito pelo apóstolo daquele nome). Ele está bem enraizado nas “coisas antigas” - ou seja, no Antigo Testamento. Mas está aberto às coisas novas, ou seja, à nova interpretação da Lei que Jesus trouxe. Assim nos ensina algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes de um lado e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e intolerância, do outro. Nem tudo que é antigo é ultrapassado e nem tudo que é novidade é boa. Igualmente, nem tudo que é antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de atualização para os dias de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (20.07.2008)

Mt 13, 24-43

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”

Esse texto continua o capítulo treze de Mateus, onde se proclama as parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas, que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa, quando se faz pão. Termina como uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo e do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a pequena comunidade mateana e para nós hoje. Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança.
Isso fica claro nas curtas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando brota forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados.
Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois é movida pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo do escrito, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo. Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça real de perseguição, muitos desanimaram, sentindo-se fracos demais para esta caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje - diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neo-liberal, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos donos do poder. Mas, isso é julgar somente com critérios humanos. É fácil esquecer a ação do Espírito e que para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar os nossos grãos de mostarda e a nossa medida de fermento - ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade, que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante de quais os governantes se ufanam, quem não sente que é resultado do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida. E poder-se-ia multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação.
Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar o joio à força, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio. A parábola alerta contra dois perigos muitas vezes presentes na Igreja. Uma é a tendência ao puritanismo - de criar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto - simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoque o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de “tanto faz”, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.
O Reino é de Deus, e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar der sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que o nosso grão de mostarda e o fermento na massa dão frutos, muito além das expectativas humanas.

DÉCIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (13.07.2008)

Mt 13, 1-23

“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”

Com o texto de hoje, entramos no capítulo treze de Mateus, que estruturalmente é o centro do Evangelho. Tudo se concentra no ponto central da mensagem de Jesus, o Reino de Deus, que continua algo misterioso (v. 11). O capítulo consiste em sete parábolas - as parábolas do Reino - e alguma explicação delas. O trecho de hoje consiste na parábola que é conhecida como a parábola do semeador (embora o texto enfatize mais a semente), junto com uma explicação do seu sentido.
O que é uma parábola? Um exegeta, C.H. Dodd, deu a seguinte definição: “Uma metáfora tirada da vida diária ou da natureza, que chama a atenção do ouvinte pelas suas imagens vivas ou estranhas, e que deixa-o com dúvida suficiente sobre o seu sentido exato para que seja estimulado a refletir por si mesmo.” A parábola de hoje usa imagens conhecidas na Palestina rural de então - a semeadura - e na sua forma original não trazia explicação. Terminava com o desafio de Jesus para que os ouvintes aprofundassem por si mesmos o seu sentido: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Para entender as imagens, é bom lembrar que na Palestina antiga, se jogava a semente antes de arar a terra. Por isso, alguma semente caía nas picadas que atravessavam os campos “à beira do caminho”; outra parte seria logo queimada pelo sol terrível do país; outra parte comida pelas aves, outra parte perdida por que a terra era rala e cheia de ervas daninhas. Mas uma parte cairia em terra fértil que dava frutos, conforme a sua possibilidade.
Provavelmente, a explicação dada em vv. 18-23 nasceu mais tarde, durante a catequese da Igreja primitiva. Assim, no início podemos supor que o semeador era Deus; Jesus, ou um emissário d’Ele, a semente seria a Palavra de Deus e os tipos diferentes de solo às respostas diferentes dos ouvintes. Alguns deixam o fascínio do mal, nas suas diversas formas, roubar a semente; outros acolhem a Palavra, mas de uma maneira superficial, e não demora muito para que se torne infrutífera nas suas vidas. Outros aceitam a revelação divina, mas a colocam em segundo plano, enquanto correm atrás das riquezas de um mundo consumista. Relegando assim Deus e o seu projeto, fazem com que a religião se torne algo de fachada, que em nada ajuda o Reino a crescer. Mas, a finalidade da historia é de dar esperança. Embora haja muitos fracassos, em última instância o trabalho do semeador dá certo - sempre há pessoas que recebem com entusiasmo a Palavra, e suas vidas, baseadas numa fé viva, dão muitos frutos. Não é necessário que todos dêem frutos iguais - mas que todos dêem fruto conforme as suas possibilidades, cem, sessenta e trinta por um.
Depois de dois mil anos de semeadura, cabe perguntar sobre os frutos da semeadura na nossa sociedade, dita cristã. Depois de quinhentos anos da Igreja no Brasil, será que o solo - nós cristãos - demos os frutos de uma sociedade justa, conforme o desejo de Deus? Estamos sendo - individualmente e comunitariamente - que tipo de solo? Deixamos a semente penetrar no solo dos nossos corações, ou deixamos na superfície como a que caiu à beira do caminho? Ou a aceitamos através da catequese sacramental e da tradição familiar, sem aprofundá-la, ficando numa prática estéril para manter aparências e tradição, mas que não afeta em nada a sociedade? Ou deixamos os espinhos modernos - as tentações de uma sociedade materialista e consumista, de competitividade - sufocar as reações de fraternidade e solidariedade, que devem marcar os que acolhem a Palavra? Ou, com a graça de Deus, procuramos ser solo fértil, onde a fertilidade inerente na semente possa brotar em frutos de bondade e justiça, conforme as nossas possibilidades, deixando acontecer o que profetizou Segundo-Isaías: “Assim acontece com a minha Palavra que sai da minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei” (Is 55, 11). O semeador é Deus, a semente é boa - mas que tipo de solo sou eu, somos nós? “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”


DÉCIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (06.07.2008)

Mt 11, 25-30

“Eu te louvo, Pai, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”

Os primeiros três versículos do texto não têm uma vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus os coloca (Lucas situa o ditado num outro contexto) e por isso “essas coisas” não se refere ao que veio antes no capítulo (a condenação de Corozaim e Betsaida), mas aos “mistérios do Reino”, que são revelados aos pequenos e humildes (neste contexto, os discípulos) e escondido aos que se acham auto-suficientes na sua sabedoria e estudo (os fariseus e doutores da Lei) (Mt 13, 11). Essa oração de louvor de Jesus brotava da sua própria experiência na missão - que enquanto a sua pessoa e o seu ensinamento e projeto de vida foram rejeitados pela elite política, econômica e religiosa da época, os pobres e massacrados pelo sistema O acolheram. A auto-suficiência da elite impediu que ela pudesse reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua espiritualidade do Servo de Javé, conseguiram em grande parte acolhê-Lo, mesmo sem compreender inteiramente a profundeza da sua identidade.
O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos Sapienciais, podemos ver reflexos de Pr 8, onde a Sabedoria é personificada, Eclo 51, 1-12; 13-30 e Sb 6-8. Mas também nos faz lembrar de textos apocalípticos como Daniel, onde os sábios são incapazes de decifrar o sentido do sonho de Nabucodonosor (Dn 2, 3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando na revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria (Dn 2, 23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio Deus (Dn 2, 44). No tempo de Jesus, os sábios também não conseguiram decifrar os mistérios do Reino de Deus, um dom que é dado aos humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos (Mt 10, 42) a quem é revelado o mistério do Reino dos Céus (Mt 13, 11).
Os versículos 26-28 são importantes, pois afirmam o relacionamento único entre Jesus e o seu “Abbá”, Pai. Aqui, a comunidade mateana (de Mateus) expressa a sua fé em Jesus como Filho Absoluto do Pai Absoluto. É uma de três passagens em Mateus nas quais Jesus expressa, de uma maneira indireta, ter uma relação única com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21, 37 e 24, 36.
A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo Testamento (Jr 2, 20; Jr 5, 5; Os 10, 11). No judaísmo do tempo de Jesus era usada como imagem da Lei de Deus escrita e oral (Eclo 6, 24-30; 51, 26s). O termo não tinha necessariamente uma conotação de peso ou opressão quando usado assim. O nosso texto usa a imagem corrente para contrastar a interpretação farisaica da Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas e conceitos que excluíam muitos, com a interpretação de Jesus, que não rejeita a Lei, mas lhe devolve o seu sentido original - uma garantia de manter viva na comunidade o projeto libertador de Javé. O problema não estava na Lei, mas na sua interpretação. Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes que ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência religiosa um pesadelo para muitos. A interpretação de Jesus não é “light” – mas, é exigente, pois exige uma vivência de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação e a rejeição de todo egoísmo e individualismo. No fundo, é mais exigente do que a dos fariseus, pois não se esgota em práticas externas, mas num processo infinito de doação de si. Mas, Ele garante que este projeto de vida, exigente como for, trará a alegria do Reino de Deus.
Esses últimos versículos nos levam a rever a nossa pregação, a nossa interpretação da Lei de Deus, a nossa prática pastoral. Pois, ao longo da história, muitas vezes a pregação nas Igrejas e na catequese tem sido uma série de legalismos moralizantes, reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas, freqüentemente colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecido para eles qualquer ajuda para carregá-los. Não poucas vezes o seguimento de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à vivência de uma moral ou ética, sem a revelação do Deus misericordioso e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra que embora a religião exija leis e moral, fundamentalmente é uma mística, uma experiência do amor de Deus que nos convida a assumir o seu jugo como resposta, um jugo que não mata, mas que liberta, que não esconde o rosto de Deus; mas, que traz a alegria do Reino!

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (29.06.08)

Mt 16, 13-19

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.”

Hoje, a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesaréia de Felipe. O relato mais antigo está em Marcos (Mc 8, 27-38), onde se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente, mas o relato tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo dele.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro Jesus faz uma pergunta inócua: “quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” Assim chove respostas, pois esta pergunta não compromete, é o “diz que”. Mas a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente, Pedro acertou e realmente; em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é mister que continuemos a leitura pelo menos até o v. 25, pois, o assunto é mais complicado do que possa parecer.
Aapós afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com ele, até a Cruz! Por isso, Pedro remonta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse, e como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Fique atrás de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v.18), é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência - e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não tinha a ortopraxis!
Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento dele na construção do seu projeto, até às últimas conseqüências.
Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários e iniciamos na Igreja Católica o Ano Paulino”, a segunda pergunta de Jesus ressoa forte: para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo ou Pastor, mas, para cada de nós pessoalmente? No fundo, a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente! (Jo 10, 10).
Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada, de cairmos na tentação de substituir o caminho humilde e serviçal da cruz pela pompa e ritual, de esquecermos dos valores do Reino de Deus para substituí-los com os valores da sociedade vigente. Pedro aprendeu na vida o que é ser discípulo, pois terminou crucificado também; mas, não foi fácil a mudança de mentalidade. Paulo também teve que despojar-se de toda a sua formação farisaica, quando descobriu que a Lei não salva ninguém, mas somente a graça de Jesus. Hoje, quando o pobre quase desaparece dos documentos oficiais das Igrejas, (embora o Espírito inspirasse os participantes da V Assembléia do CELAM em Aparecida a voltar à esta opção “com renovado vigor”), quando acentua-se o clericalismo e se esquece do Vaticano II e o seu conceito do povo de Deus, torna-se mais importante do que nunca lembrar o ensinamento de Jesus sobre o discipulado: Ele que não veio para ser servido, mas para servir.

DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (29.06.08)

Mt 10, 37-42

“Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.

O grande discurso missionário de Mateus termina com as palavras do texto de hoje. De novo, deve ser colocado dentro do contexto sócio-histórico da comunidade de Mateus. Mais uma vez - como nos domingos passados - o autor enfrenta o problema de uma comunidade em situação de conflito e perseguição. E o pior, este conflito e a perseguição aconteciam também no seio das famílias, onde alguns membros aderiram à comunidade cristã e outros não. De novo, Mateus liga a perseguição à mística do seguimento, de Jesus quando no v. 34 ele diz: “Não pensem que vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Aqui retoma a imagem da Palavra de Deus como “espada de dois gumes”, que exige opções concretas, muitas vezes com conseqüências dolorosas.
O seguimento de Jesus exige freqüentemente decisões duras e nada pode ser mais importante do que o Reino. Por isso, Mateus diz que nem o amor ao pai ou à mãe pode ter mais importância do que o amor a Jesus (Mateus suaviza a frase de Lucas 12, 26 que diz que quem não “odeia seu próprio pai, mãe, mulher, filhos, irmãs e até a própria vida não pode ser meu discípulo”. Na língua aramaica, pobre em vocábulos, a frase de Lucas quer dizer de uma maneira coloquial o que Mateus expressa como “amar mais”. Não é “odiar” conforme se entende a palavra em português).
A vivência dessas opções é na prática, o que significa “tomar a sua cruz”. Tomar a cruz não é sofrer por sofrer. E a conseqüência da coerência com a opção por Jesus. Mas não é para nos assustarmos, pois temos a garantia que a busca de coerência com essas opções nos darão como herança “encontrar a vida” - a verdadeira vida em Deus.
O discipulado não é somente dureza. Teremos muitas oportunidades de experimentar as suas recompensas - de sermos acolhidos exatamente por causa d’Ele (o sentido da “copo de água”). Quantas vezes a pregação da “cruz” tem trazido conotações negativas, como se seguir Jesus fosse um sofrimento sem fim. Pelo contrário, exige dedicação, sacrifício e desprendimento - que acarreta também sofrimento - mas, as suas alegrias são muito maiores. O seguimento de Jesus deve ser uma alegria - não somente um obedecer de leis, a prática de uma moral ou ética, um acreditar em dogmas, que muitas vezes parecem ter pouca coisa a ver com as nossas vidas! É uma experiência de seguir as pegadas do mestre, de ser colaborador(a) na sua missão, de sentir-nos realizadas como pessoas e cristãos por termos procurado colaborar na construção do Reino, com todas as nossas limitações e erros. É um privilégio e não um peso!

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (22.06.08)

Mt 10, 26 - 33

“Não tenham medo!”

“Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Este tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia! Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza a mesma coisa com tanta ênfase quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade.
Então, parece que o medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de que? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos16-25 Jesus fala das perseguições que os seus discípulos terão que enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela a autoridade religiosa judaica (“açoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das suas próprias famílias (“irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, este cenário já era conhecido no meio das suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros anos da Igreja os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, tolerados pelo Império Romano, o que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos depois de 85 dC tudo mudou.
Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e Gamaliel II, tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém, e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir na Lei, na sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados na sua identidade religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam e os judeu-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, não ter medo?
Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus! Por isso, não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado.
Hoje, em geral não somos perseguidos por causa da nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada. O mundo até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha conseqüências sociais e econômicas. Mas, persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Nesses últimos meses presenciamos isso nas ameaças sofridas por três dos nossos bispos no Pará. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas, ai de quem procura concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos etc.
Por isso, devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências de uma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com o seu “corpo” - templos, festas, honras, prédios etc, mas matando a sua “alma” - a prática da opção evangélica pelos oprimidos.
O Brasil também tem os seus mártires - e a lista é comprida - que deram a sua vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários e elites. É sinal de uma Igreja viva. Mas, não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim, soa atual a última advertência do trecho, “quem me renegar diante os homens, eu também o renegarei diante do meu Pai”. Mas, também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação, normalmente, não se faz com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”.

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (15.06.08)

Mt 9, 36 - 10, 8

“A colheita é grande, mas, os trabalhadores são poucos.”

O texto de hoje fecha a seção de Mt 4, 23 - 9, 34, que manifesta Jesus como Messias em palavra e ação e abre caminho para a missão dos discípulos e o discurso missionário do Cap. 10. Coloca a missão dos discípulos - portanto de nós cristão hoje, individual e eclesialmente - como continuação e atualização da missão de Jesus. Não deixa dúvida sobre a natureza dessa missão - v. 35 fala que Jesus “percorria as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade”. A estrutura da frase mostra que o cerne era a Boa Notícia do Reino - Reino de libertação de todos os males, espirituais, econômicos, sociais e materiais. Essa chegada do Reino em Jesus constituía então o conteúdo do seu ensinamento nos sinagogas e era demonstrado pelas curas, entendidas como libertação do poder do mal.
Mas, Jesus não era somente um curador! Ele era movido por compaixão - não por pena, mas “compaixão”, um termo que significa “sofrer com” alguém. O termo grego usado, “splanchnizein”, deriva-se da palavra para “entranhas”, símbolo da sede das emoções. Ele sente “nas entranhas” o sofrimento do povo abandonado pelos seus líderes espirituais, mais preocupados com ritos e estruturas religiosos do que com as pessoas, e pelos líderes políticos, mais engajados em se enriquecer às custas do povo. A imagem do pastor é comum na Bíblia como termo que descreve liderança religiosa e legal (cf. Nm 27, 17; Ez 34, 5; 1Rs 22, 17; 2 Cr 18, 16; Zc 10, 2; 13, 17; Mt 10, 6; 15, 24; 18, 12; 26, 31). O que dizer da situação do nosso povo hoje? Será que é tão diferente? Quanta descrença e cinismo diante dos políticos, diante das provas de corrupção e impunidade! E será que nós, que somos de uma certa maneira líderes religiosos, sempre mostramos para os sofredores o rosto misericordioso do Deus verdadeiro, ou o escondemos atrás de legalismos, casuísmos e ritualismo? Diante da crescente clericalização e centralização do poder na Igreja, vale a pena uma análise honesta das nossas atitudes e prioridades.
Jesus não é derrotista nem pessimista. Diante do desafio das ovelhas sem pastor, ele vê uma oportunidade de fazer colheita. Mas, reconhece a escassez de operários e operárias! Sempre se usa esse texto para estimular um crescimento nas vocações sacerdotais e religiosas - com razão. Mas é muito mais abrangente no seu alcance. Pois, todo batizado é conclamado a ser “trabalhador na messe”. O Documento de Aparecida insiste na ligação essencial e intrínseca ente discipulado e missão. Não há duas classes de cristãos - todos participam na missão sacerdotal, profética e régia de Jesus. Todos, sem exceção, têm o dever de ser missionários - não num sentido proselitista, somente angariando mais adeptos para a sua Igreja, mas no sentido de semear e regar o Reino, de mostrar a misericórdia de Deus, de lutar junto com pessoas de boa vontade para que cresça o mundo de justiça, solidariedade e verdadeira paz que Deus quer! Mas, Jesus insiste na oração, pois somente uma comunidade que nutre a sua fé pela oração será capaz de gerar pessoas comprometidas com o Reino e à missão.
O trecho termina com a vocação dos Doze - e aqui Mateus une a noção de discipulado e Apóstolo. Ambos têm uma missão clara - expulsar espíritos maus e curar todo tipo de doença. As doenças eram entendidas naquela época como sinal da dominação dos poderes do mal. Cumpre perguntar - quais são os espíritos maus da sociedade de hoje que devem ser exorcizados, quais as enfermidades a serem curadas? Hoje tem-se mania de demonizar tudo, em certos setores e movimentos das Igrejas - mas muito mais do que o “capeta” tradicional, existem os espíritos maus de ganância, egoísmo, individualismo, exclusão, que tomam corpo, não em possessão demoníaca, mas no sistema pecaminoso do neoliberalismo, excludente, na busca desenfreada de lucro sem levar em conta as conseqüências sociais, da dominação da lei selvagem do mercado, na proliferação de religião alienante... Como Jesus chamou os Doze para lutar contra os males que oprimiam o povo do seu tempo, nos chama hoje, à mesma missão, diante dos desafios do mundo moderno. Cada um(a) pode adicionar o seu nome ao rol dos chamados em Mateus. Na verdade não falta oportunidade para cada cristão engajar-se de maneira concreta nessa luta. A opção alternativa é ficar acomodado numa religião individualista e intimista, juntando-nos às fileiras dos pastores maus, que deixam as ovelhas abandonadas à sua sorte.


DÉCIMO DOMINGO COMUM (08.06.08)

Mt 9, 9-13

“Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”

O texto nos apresenta uma polêmica entre Jesus e os doutores da Lei, por causa da sua prática evangélica. Lembremo-nos que o Evangelho de Mateus foi escrito pelo ano 85/90, num contexto de luta entre o judaísmo rabínico formativo, baseado na interpretação farisaica da Lei, e o judaísmo-cristão da comunidade mateana (Mateus), baseado na interpretação e prática de Jesus. Um ponto fundamental na prática farisaica era o conceito de “puro” e “impuro”, não no sentido de castidade, mas no sentido ritual ou cultual. Certas pessoas, por serem impuras, eram consideradas inaptas para participar no culto, e assim marginalizadas pela comunidade ortodoxa. Jesus, também um mestre judaico, aqui rompe com a prática dos fariseus - não com o intuito de destruir o judaísmo, mas para salvar os seus membros, cada vez mais marginalizados pelos preceitos de pureza.
O relato começa com a vocação do cobrador de impostos (ou publicano, pois o imposto se chamava “publicum”, um tipo de ICMS daquela época!), chamado Mateus, apelido de Levi em outros textos (Lc 5, 27-32; Mc 2, 13-17). Os cobradores de impostos eram marginalizados porque colaboravam com o poder opressor romano e porque tiraram o seu lucro cobrando a mais através de extorsão. Jesus, quando entra na casa de Mateus para uma refeição, misturando-se com outros publicanos e pecadores, infringe prescrições fundamentais farisaicas e entra em comunhão com essas pessoas marginalizadas. O termo “pecadores” era um termo técnico da época para membros de profissões desprezadas e consideradas suscetíveis de impureza ritual. Uma lista da época indica pessoas que trabalhavam com asnos ou camelos, marinheiros, pastores, comerciantes, médicos (por causa do sangue), açougueiros, curtidores e cobradores de impostos como membros dessa categoria de “pecadores”. Jesus se defende usando um provérbio de bom senso, também conhecido nos escritos de outros autores como Plutarco. Como o médico tem que se expor ao contágio para curar doentes, o médico espiritual se expõe às impurezas legais para salvar os marginalizados.
Mateus usa aqui (e em 12, 7) uma frase tirada de Os 6, 6, que contesta a prática dos legalistas. Esses evitam qualquer contato com “impuros”, em nome de Deus, para poderem participar do culto. Assim, a prática ritual se torna mais importante do que a prática de misericórdia. E tudo feito em nome de Deus, que é misericórdia! A misericórdia de Deus não somente acolhe, mas vai em busca dos perdidos e os reintegra na comunidade de fé, como também mostra especialmente Lucas (Lc 15).
O texto pode nos levar a questionar a nossa prática de misericórdia. Pois, nós também criamos categorias de “puros” e “impuros”, muitas vezes em nome de Deus. Sempre existe a tendência de formar comunidades elitizadas, que se gabam de ser praticantes, observadoras da lei, e quem sabe, desprezam, sem que digam isso, os que não correspondem aos seus critérios. Como são tratadas as pessoas com problemas de divórcio, de vícios, ou orientação sexual, em nossas comunidades? As nossas comunidades se assemelham ao tempo de Jesus, que ia atrás das pessoas taxadas de impuras no seu tempo, ou se assemelham aos fariseus, que se fechavam nos seus rituais e rotulavam e marginalizavam os outros - comunicando um Deus mais preocupado com a pureza ritual do que com a misericórdia? Jesus não condena o sacrifício e os ritos, mas denuncia a situação quando o apego a eles leva ao abandono do mandamento fundamental de misericórdia. Para todos nós ressoa fortemente o desafio lançado por Jesus “aprendam, pois, o que significa: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Seja Jesus o nosso modelo de compaixão, para não cairmos numa prática religiosa que rotula e marginaliza em nome de Deus exatamente os que mais precisam encontrar o seu rosto misericordioso e compassivo.


NONO DOMINGO COMUM (01.06.08)

Mt 7, 21-21

“Só entrará no Reino do Céu quem põe em prática a vontade do meu Pai”

O texto de hoje conclui o grande discurso da vida cristã, que é o Sermão da Montanha. Depois de dar-nos as orientações para uma vida de seguimento e discipulado, Jesus termina insistindo na necessidade da nossa fé nos levar à prática das obras do Reino de Deus. Não adianta uma fé que consiste somente em adesão intelectual às verdades sobre Jesus, pois precisa uma fé que nos leva a construir a justiça do Reino na nossa sociedade. Mais tarde, a Carta de Tiago vai retomar esse tema quando o autor escreve que “fé sem obras, é morta em si mesma.” (Tg 2, 17)
O texto se divide em duas partes - a primeira, vv. 21-23, adverte contra uma religião, mesmo no nome do seguimento de Jesus, que não compromete com a luta em favor da justiça. Parece que na comunidade de Mateus, por volta do ano 90, havia uma tendência entre alguns de invocar o nome de Jesus, profetizar, fazer milagres, expulsar demônios, e ir atrás de manifestações extraordinárias do Espírito, sem que se comprometessem com a construção do Reino da Justiça. As palavras de Jesus para essas pessoas soam duras - chama-as de malfeitores, pois não se empenham na realização do projeto d’Ele, se vangloriam dos seus milagres e dons que chamam a atenção, mas que não brotam de uma vida de comprometimento com o Reino de Deus.
É atual esta advertência do texto, pois hoje também muitas vezes existe a tendência de buscar uma religião de “sinais” e milagres, de manifestações aparentemente milagrosas do Espírito, mas que freqüentemente esconde uma opção religiosa individualista e intimista, sem conseqüências para a construção da sociedade que Deus quer. Assim a religião torna-se alienada e alienante e lugar de ser expressão de discípulos/as que são fermento na massa, sal da terra, luz do mundo.
A segunda parte do texto, vv. 24-27, usa uma imagem bastante comum na Palestina de Jesus - as enchentes repentinas que resultavam das chuvas torrenciais da época do inverno, e que causavam estragos nas vilas e roças. Usa a imagem da construção de casas - uma feita com alicerce, outra sem. De fato, a falta de um alicerce firme não se faz sentir no tempo de bonança. As construções parecem igualmente sólidas. Mas, na tempestade, das enxurradas e enchentes, logo se revela qual é a casa com alicerce, e qual carece de um fundamento. É nessa hora que se revela tudo. Assim também com a vida cristã - enquanto tudo corre bem, não se manifesta a presença ou a falta do alicerce. Mas, quando batem as ventanias da vida, quando acontecem as enxurradas que ameaçam levar embora o que nós construímos, então se revela a presença ou a ausência de um alicerce. Isso pode acontecer no casamento, na vida religiosa e sacerdotal, no empenho pastoral. Enquanto tudo corre bem, não há problema. Porém, é só uma vida com fundamento forte que resistirá às pressões dos contratempos da caminhada! Mateus deixa bem claro qual deve ser o alicerce de uma vida cristã - Jesus e o seu projeto de vida, manifestado nas palavras do Sermão da Montanha. Uma vida cristã, uma vida missionária, uma vida religiosa construída sobre qualquer outro alicerce, está condenada a desmoronar. Paulo mais tarde advertirá à elite da comunidade de Corinto, tentada a substituir Jesus com a filosofia grega “que ninguém ponha outro afundamento a não ser aquele que já foi posto, Jesus Cristo” (I Cor 3, 11).
Portanto, somos convidados a fazer uma revisão honesta e sincera da nossa vida em todos os sentidos. Qual é o alicerce sobre o que construo a minha vida - sobre algo movediço, que não resiste à prova do tempo e do desgaste diário, ou sobre o único alicerce que é rocha firme, inabalável e permanente - Jesus de Nazaré, e o seu projeto do Reino? A minha religião se baseia só no ouvir e no falar, ou me leva a um engajamento real para que o mundo se torne aquele que Deus sonha? O texto de hoje reforça uma outra frase lapidar do Sermão: “Se a justiça do vocês não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrarão no Reino dos Céus” (6, 20). Fortaleçamos o alicerce da nossa vida cristã, fundamentando-a cada vez mais em Jesus, nas suas palavras, para que possa agüentar as enxurradas e enchentes e ventanias que a vida traz. Outro caminho é receita para o desastre!

OITAVO DOMINGO COMUM (25.05.08)

Mt 6, 24-34

“Ninguém pode servir a dois senhores”

O texto de hoje, quando voltamos a celebrar os domingos comuns, nos mergulha de novo no espírito do Sermão da Montanha (Mt 5, 1 - 7, 27). Coloca os ouvintes diante da sua escolha fundamental na vida - a quem ou a que querem servir? - a Deus, vivendo os valores delineados no Sermão da Montanha, ou o Dinheiro, (que a Bíblia TEB escreve com “D” maiúsculo), ou seja, o Dinheiro como potência que escraviza o mundo a si? Embora essa escolha seja exigência de todos os tempos e lugares, torna-se mais urgente ainda em nossa sociedade de consumo, de exclusão e de acumulação, que exclui a maioria absoluta da humanidade, condenando-a a uma vida de miséria e sofrimento. Jesus deixa bem claro que os seus discípulos/as não podem assumir esses valores consumistas e materialistas, se querem ser fiéis a Ele e ao seu projeto do Reino de Deus.
Como conseqüência desse princípio, Jesus continua: “por isso é que lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir”. Com certeza uma declaração que soa como estranha a quase todos nós, obrigados a lutar com insegurança para que as nossas famílias tenham o que comer e vestir. Como não se preocupar com essas coisas num mundo de insegurança, de desemprego, de exclusão? Realmente seria no mínimo uma falta de sensibilidade proclamar aos famintos ou esfarrapados que não era para se preocuparem com a comida e a roupa. Então o que quer dizer esse trecho?
Essas palavras não são convite a descuidar dessas necessidades básicas, que seria um atentado contra a vida, e portanto, contra a proposta de Jesus. A frase deve ser entendida no contexto da situação da comunidade mateana pelo ano 85 DC, que parece ter sido uma comunidade que tinha bastante gente próspera (p. ex., Mateus diz que são os “pobres em espírito” que são bem-aventurados, enquanto Lucas diz simplesmente “vocês, os pobres”!). O sentido do texto gira ao redor do sentido do verbo grego “meirmnao” que as nossas Bíblias traduzem como “preocupeis” (Pastoral, TEB, Jerusalém, Ave Maria). Isso, obviamente, não quer dizer não cuidar, zelar, ocupar-nos, mas não deixar que essas coisas nos absorvam de tal maneira que se tornem o absoluto da nossa vida. Assim, em lugar de usar essas frases para acalmar os que sofrem falta dessas necessidades da vida, esse texto implica uma denúncia de uma sociedade excludente como a nossa, que obriga a maioria das pessoas a dedicar-se totalmente à sobrevivência, esgotando as suas forças físicas, espirituais e psicológicas na luta diária de simplesmente sobreviver nesse mundo cruel. Seria beirando a blasfêmia usar essas frases para apaziguar os sofridos, falando chavões sobre a providência de Deus, enquanto apoiamos e nos mergulhamos nos valores materialistas da sociedade neoliberal, sem notar que essa mesma sociedade é a negação de tudo que o Sermão da Montanha ensina sobre simplicidade, solidariedade, justiça e o seguimento de Jesus. A chave da interpretação do ensinamento de hoje está em v. 33: “Procurai primeiro o Reino e a justiça de Deus, e tudo isso vos será dado por acréscimo” (trad. TEB). Pois, se criarmos um mundo ou uma comunidade que vive os valores do Reino e a justiça de Deus (não o que os homens consideram “justiça” a partir de uma ideologia positivista que favorece os interesses da minoria dominante), então teremos solidariedade, que garantirá que todos tenham pelo menos o mínimo para ter uma vida digna dos filhos e filhas de Deus.
Então, longe de ser “pano quente”, para que possamos ignorar com tranqüilidade o sofrimento e carência de tantos, o texto nos desafia para que descubramos sinceramente quais são os nossos valores, os do Evangelho ou os do consumismo. É uma questão vital para todos e todas que querem ser seguidores/as de Jesus, pois “onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6, 21).

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (18.05.08)

Jo 3, 16-18

“Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único”

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, infelizmente tão pouco usado nas celebrações de hoje, onde celebra o Pai “criador de todas as coisas”, do Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado”, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no último Discurso de Jesus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar a mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível, e descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita na diferença. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na medida que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão.
A festa de hoje não é de um mistério matemático - como pode ter um em três - mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança.

DOMINGO DE PENTECOSTES (11.05.08)

At 2, 1-11

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas (Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de cinqüenta dias. Por isso, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At , 2, 4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso – mas, isso se deve a habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos: os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram, assíduos na oração” (At 1, 14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas conseqüência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” - glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica à uma comunidade universal, missionária mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

Jo 20, 19-23: No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que Jesus tinha prometido na último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Na proclamação do saudoso Papa Paulo VI “A justiça e o novo nome da paz!”. Jesus não promete a paz do comodismo, mas pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalom, pois ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.
Que a celebração nos anime para que busquemos a criação de um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa das armas, da opressão e da injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo - agora depende de nós usar essa força que temos na construção do mundo que Deus quer.

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (04.05.08)

Mt 28, 16-20

“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”

Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 17: “Ajoelharam-se diante d’Ele” - uma postura de adoração, de reconhecimento da sua natureza divina. Porém o trecho nos adverte que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante, quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.
Depois de um longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina de uma forma muito resumida, neste texto de hoje. É um texto tão denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais coisas em tão poucas palavras. Como gênero literário, reúne elementos das “entronizações” do Antigo Testamento, com a comissão apostólica.
Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento, em Mateus - na Galiléia. Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos voltam para a Galiléia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado. Aqui “Galiléia” significa mais do que um local geográfico! A Galiléia era lugar da missão de Jesus, onde ele serviu os pobres e marginalizados da sociedade e da religião. Voltar para a Galiléia significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém, símbolo da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado deve assumir o seguimento de Jesus, na prática das suas opções, aplicadas às condições e desafios da sociedade de hoje. O que significa assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo e exclusão?
Embora haja uma referência à visão que os apóstolos tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras. Não há nenhum relato de uma ascensão, pois para Mateus, já tinha acontecido junto com a ressurreição. As últimas palavras de Jesus poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao presente e ao futuro. Jesus declara que toda autoridade foi dada a Ele no céu e sobre a terra - o verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus a autoridade como Filho do Homem. Essa autoridade é a do Reino de Deus (Dn 7, 14; 2 Cr 36, 23; Mt 6, 10). O mandamento missionário se refere ao presente dos discípulos - a sua missão universal e permanente de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus. Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza, e uma Igreja que não está traindo a sua natureza e identidade. Missão não é proselitismo, não é angariar novos adeptos para a Igreja - mas é continuar a missão de Jesus, cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus. Assim somos chamados a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o Reino de Deus - a vivência da vontade do Pai - se torne realidade no nosso mundo.
Mas, Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão. Cinqüenta anos depois da Ascensão, a sua comunidade, perseguida e fraca, experimentava a tentação do desânimo. Por isso, Mateus insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porque desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades. Pois, como Paulo dizia, a partir da sua experiência prática de missionário “quando Deus está conosco, nada estará contra nós”(Rm 8, 11).
A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua comunidade, mas o contrário, a sua presença de uma nova forma - na comunidade missionária dos discípulos. Domingo próximo, celebraremos essa nova presença, na Festa de Pentecostes.

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (27.04.08)

Jo 14, 15-21

“Ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre”

O nosso texto dá início, dentro da primeira parte do Último Discurso de Jesus, à seção trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e ao Pai (vv. 23-24) – o tema de que, se guardarmos os mandamentos, cada personagem divino virá e habitará conosco.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, e ao Espírito Santo, especialmente no último Discurso de Jesus. Nesse trecho, se enfatiza a necessidade de guardar os mandamentos, para que possamos receber o dom do Espírito Santo. Aqui encontramos a primeira de duas promessas no capítulo da chegada do Paráclito, uma palavra grega que significava, em nossa linguagem, o advogado da defesa. Em diversos textos João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurreicional. Aqui o Espírito agirá como defensor dos discípulos diante dos ataques do mundo de incredulidade (lembremos, que na época do escrito, a comunidade joanina estava sofrendo muitos ataques de diversas origens). Vale a pena notar aqui que o Espírito Santo será “outro Paráclito”, pois Jesus já tinha sido defensor dos discípulos durante a sua vida terrestre, e continuará a sê-lo no céu. O Espírito Santo será o espírito da Verdade, ou seja, o Espírito que revelará ao mundo a verdade sobre Jesus, como Jesus já tinha feito, mostrando-nos a verdade sobre o Pai.
A partir do v. 18, como fez no início do capítulo 14, Jesus volta a consolar os seus discípulos e a falar da sua volta. Só que aqui não se refere tanto à sua vinda na Parusia, ou a Segunda Vinda, mas uma volta espiritual, através de inhabitação divina em cada discípulo, uma presença real que fará com que os discípulos compreendam que Jesus e o Pai são um. Assim os discípulos conhecerão a relação verdadeira entre Jesus e o Pai, e descobrirão que existe o mesmo relacionamento entre Jesus e eles próprios. De novo, põe-se a observância dos mandamentos como pré-condição para que aconteça essa presença, espiritual, mas real. A observância dos mandamentos não é uma simples exigência legal, mas a demonstração do amor dos discípulos para Jesus.
Atrás desse texto está o desejo do autor de fortalecer a fé da sua comunidade em tempos difíceis. Assim, tem muita relevância para a Igreja, a comunidade dos discípulos hoje. Como então, às vezes a nossa fé poderá vacilar diante dos ataques, da perseguição ou até da indiferença do mundo. O texto procura renovar nos leitores a certeza da presença da Trindade no nosso meio – pois o Espírito nos dará força para que vençamos as dificuldades e sofrimentos que eventualmente poderão nos assolar, individual ou comunitariamente. Também insiste na necessidade de criarmos uma comunidade de amor e solidariedade, para que a inhabitação divina em cada pessoa e na comunidade possa tornar-se uma força efetiva no fortalecimento da nossa fé, da nossa caminhada. Lembremo-nos que no Quarto Evangelho, o Grande Mandamento era de amar-nos uns aos outros, como Ele nos amou, ou seja na doação de nós mesmos na luta de criar um mundo onde se vive o sonho de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (20.04.08)

Jo 14, 1-12

“Credes em Deus; crede também em mim”

O Evangelho de João inicia o tal chamado Último Discurso de Jesus, com o texto de hoje. Esses versículos – a primeira das três partes do discurso – contêm a maioria das referências à partida iminente de Jesus; portanto, é o trecho mais apropriado para o contexto da Última Ceia. A moldura do texto consiste em dois mandamentos fortes para acreditar em Deus e em Jesus (vv 1.11). Novamente, cumpre lembrar que “crer” não é somente um exercício mental, mas um compromisso de vida – uma atitude vivencial de seguimento de Jesus, no cumprimento da vontade do Pai.
O primeiro tema do texto nasce da insegurança dos discípulos diante da partida iminente de Jesus e a perspectiva de serem entregues à sua própria sorte num mundo hostil, o que ameaça a sua fidelidade e perseverança (Jo 14, 27; 16, 6.20). Jesus demonstra que a sua partida não é um abandono, mas o início de uma união mais profunda com Ele e com o Pai, e que o Espírito Santo os defenderá contra as pressões do mundo incrédulo. Eles têm que alcançar uma fé concreta e firme em Jesus, o Filho encarnado, em que se manifesta a revelação suprema de Deus (cf. 5, 38; 8, 46-47). Jesus os reconforta com a promessa de uma volta Sua, quando Ele os reunirá a Ele. Aqui parece ter uma referência à parusia, a segunda vinda de Jesus, uma das poucas referências em João à chamada “escatologia final”. Mas é importante que não se limite este retorno de Jesus aos últimos tempos – pois os verbos no v. 3 estão no futuro e no presente! Assim o texto enfatiza a presença de Jesus na sua comunidade, a Igreja. De uma certa maneira, onde se vive a verdadeira comunidade do discipulado, o que pertence ao futuro escatalógico já acontece.
Tomé mostra que ele entende tão pouco de Jesus como os judeus. Jesus explica que Ele é o caminho ao Pai, pois Ele encarna a verdade sobre o Pai e dá a vida que vem do Pai aos seres humanos. Ele é a única fonte de conhecimento sobre o Pai. Para chegar ao Pai é necessário um seguimento de Jesus mesmo. Ele não é somente um guia no caminho, mas a fonte da vida e da verdade. As palavras de Jesus enfatizam a sua unidade total como Pai – ele o revela e nem as suas palavras nem as suas obras são d’Ele mesmo, mas nascem da sua unidade com o Pai. Àqueles que crêem, será dado o dom de manifestar obras semelhantes e até maiores do que as do Filho. Não se trata de fenômenos assombrosos (tão queridos de muitos grupos fundamentalistas hoje!), mas do testemunho dos discípulos, animados pela presença do Espírito, para que o mundo creia em Jesus. A maior obra seria a criação de uma comunidade alternativa de amor e justiça – a Igreja – fiel ao seguimento radical de Jesus. Esses versículos nos convidam a um profundo exame de consciência sobre a nossa maneira de vivenciar a Igreja – tantas vezes simplesmente uma conglomeração de pessoas, sem partilha, sem solidariedade, sem testemunho profético diante do mundo de classes, de consumismo, de materialismo. Enfatiza a necessidade de recuperarmos a base mística da nossa fé, que é o seu fundamento. Sem esta intimidade com Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, as Igrejas facilmente tornam-se grupos unidos por uma crença, uma lei, uma ética, mas não por uma experiência profunda do Deus da vida, manifestado em Jesus Cristo. Para que isso aconteça, o texto enfatiza a necessidade da oração em nome de Jesus, que vai atender a nossa prece (somente em João é Jesus que nos atende – normalmente é o Pai que nos atende através da intercessão de Jesus).
O texto vai continuar com uma reflexão trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e ao Pai (vv. 23-24) – o tema é de que a pessoa divina virá e habitará em nós, se obedecermos os mandamentos.
O texto nasceu na comunidade do Discípulo Amado, numa época de incertezas e dúvidas. Hoje em dia a nossa Igreja passa por muitas incertezas, dúvidas e até às vezes parece balançar. Diante dos questionamentos (até benéficos, na verdade), dúvidas e porque não, escândalos, que nos abalam, vale a mensagem central do texto, da certeza da presença de Jesus entre nós, ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (13.04.08)

Jo 10, 1-10

“Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”
O texto de hoje manifesta claramente o ambiente pastoril da Palestina no tempo de Jesus. Os versículos estão carregados de imagens tiradas da vida dos pastores, nas montanhas de Judéia, imagens rurais que talvez sejam difíceis de serem bem compreendidas no ambiente urbano de hoje. Porém, a mensagem básica permanece clara, e é de valor perene.
Podemos dividir o texto em duas grandes partes. Versículos 1-5 e vv 6-10. Alguns exegetas acham duas parábolas separadas nos vv. 1-5: os primeiros três versículos fazem contraste entre duas maneiras de se aproximar às ovelhas. Quem não entra pela porta é maléfico. Os vv. 3b-5 têm como enfoque o relacionamento entre a ovelha e o pastor. Elas só respondem à voz do seu verdadeiro pastor. No contexto do Evangelho, fica claro que aqui se contém uma advertência contra o perigo de responder aos ensinamentos dos fariseus, que João apresenta como falsos mestres. Podemos atualizar essa advertência para os dias de hoje!
É claro que também aqui temos ecos do Capítulo 34 de Ezequiel, que castigava os líderes do povo de Israel como maus pastores, que engordavam às custas do povo. Assim as ovelhas estavam dispersas como ovelhas sem pastor (Ez 34, 1-10). Nesse capítulo, o Senhor promete que vai reunir as suas ovelhas dispersas, e conduzi-las às boas pastagens (34, 11-16). O nosso texto faz compreender que Jesus é o instrumento desta missão de Javé, pois é Ele o verdadeiro Bom Pastor.
A segunda parte, 10, 7-10, usa as metáforas da porta e do bom pastor. Jesus é a porta do aprisco, e também o bom pastor. João quer insistir que Jesus é a única fonte de salvação. Os que vieram antes d’Ele, provavelmente uma referência aos mestres judaicos e às suas tradições, são rejeitados. É Jesus que veio para que todos tivessem a vida plena.
Aqui é necessário insistir que a missão de Jesus era trazer a vida para todos – não para alguns – e a vida plena, não uma suposta “vida espiritual”. Vida plena, em abundância, exige tanto os bens materiais necessários para uma vida digna, como os bens espirituais. Assim, o seguimento do Bom Pastor, nos coloca em choque com a sociedade vigente que restringe a vida plena a alguns privilegiados, enquanto exclui a maioria da humanidade. O texto impede que nós nos refugiemos numa interpretação espiritualista, oferecendo uma vida plena após a morte, pois o Reino de Deus que Jesus anuncia já está no meio de nós, mesmo que a sua realização pela só acontece no além. O v. 11 nos manifesta o preço a ser pago por ser bom pastor! Jesus afirma que “o bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas” (v. 11). Enquanto o mercenário sacrifica as suas ovelhas ao seu interesse, o bom pastor entrega a sua vida até a morte para que os outros vivam.
As imagens do texto são por demais conhecidas. Todos conhecemos cartazes mostrando Jesus como o Bom Pastor. Cumpre assumir a continuidade da sua missão, entregando a nossa vida na luta diária para a criação de uma sociedade mais justa e humana – portanto, divina – pois só assim seremos fiéis a Aquele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”.

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (06.04.08)

Lc 24, 13-35

“Reconheceram Jesus quando Ele repartiu o pão”

Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús. Aqui temos o retrato das suas comunidades - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado entre elas. Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário, estão caminhando junto com a presença do Senhor que venceu a morte.
Essa história pode nos ajudar bastante hoje, pois nos indica como devemos usar a Bíblia para animar a nossa caminhada. Jesus é o mestre da Bíblia, e aqui ele ensina como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e nos dar coragem na nossa missão de evangelizadores.
O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:

O primeiro ato: versículos 13-19a: “Introdução”

O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”. Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade para sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando para a sua casa. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem esperança.
Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas! E o outro? O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19, 25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos fossem um casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é uma hipótese agradável e possível. Pois, sendo assim, a descoberta da presença do Ressuscitado dar-se-á num lar e não numa hospedaria anônima. Seria bem de acordo com a valorização na obra de Lucas da Igreja Doméstica, a Igreja que se reuniu nas casas, como fazem tantas Igrejas vivas de hoje.
De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver - tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar como Jesus se comporta, através do verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas. Ele criou um ambiente de fraternidade onde fosse possível explicar tanto a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância! Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e irmãs! E por isso mesmo, muitas vezes não têm efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.
O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois.

Segundo ato: vv 19b-24: “Os discípulos falam”

Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos que ele fosse o libertador de Israel”(v. 21) Eles “esperavam”, portanto não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus, pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos vão muito além de uma simples tristeza!
É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi que matou Jesus - não foi o povo, foram grupos de interesse bem definidos: “Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram”(v. 20). Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer, ou a algo desejado pelo Pai, é mister examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas. Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes saduceus, que dominavam o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e profetismo de Jesus. Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do sinédrio, na maioria pertencentes ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), e colaboradores com o poder romano, lucrando bastante com isso. Então Jesus foi morto não por acaso, mas para defender os privilégios da elite dominante! A cruz era a conseqüência lógica da vida de Jesus!
Outro elemento importante é o fato de que eles sabiam do túmulo vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história das mulheres. Mas isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que a nossa fé não se baseia num túmulo vazio! É a nossa fé na Ressurreição que explica porque o túmulo estava vazio, e não o túmulo que dá consistência à nossa fé!

Terceiro ato: vv 25-27: a Bíblia

Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram”(v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam de cor os salmos e as profecias. O seu problema era que embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isso é, Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus!

Quarto ato: vv 28-32: a partilha

Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não numa hospedaria, como normalmente a gente supõe. E aqui temos o ponto central da história - pois até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas agora sim. Jesus se põe a mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles”(v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31). E, neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles! Por que? Porque, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física. E agora eles caem dentro de si e reconhecem que: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?”(v. 32). A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas para “abrir os olhos” é necessária a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!

Quinto ato: vv 33-36: a missão

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de missão. Os mesmos dois que de manhã fugiam de Jerusalém, pois era o lugar da morte, da perseguição, do fracasso, de tarde se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. E a história que começou com a comunidade se desintegrando, termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34). E os dois de Emaús puderam contar: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando Ele partiu o pão” (v. 36).

Esta história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais - a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade. E é na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna: “Lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7)

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (30.03.08)

Jo 20, 19-31

“A Paz Esteja Com Vocês”

No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena traz a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que já tinha prometido no ultimo discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos – “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir – embora duma maneira inadequada – o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. O SHALOM pode ser definido como “o bem-estar total para todos/as” - é tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Tem muitas conotações de justiça social. Como disse o saudoso Papa Paulo VI, “A justiça e o novo nome da paz!”. Jesus não promete a paz do comodismo, mas pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalôm, pois ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão, quando infundiu nele o espírito de vida. Jesus os recria com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.
Mais uma vez, num domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase sobre o Domingo – duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. E assim nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os que acreditaram sem ter visto!”. Essa muitas vezes será a realidade da nossa fé – acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vai nos dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35,23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo – Jesus é Senhor e Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o evangelho original terminava. (O Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora ele repete essa afirmação e abençoa todos os que a aceita baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada – mostrar a divindade de Jesus para que, acreditando, todos pudessem ter a vida nele.

DOMINGO DE PÁSCOA (23.03.08)

Jo 20, 1-9

“Ele viu e acreditou”

Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Mas certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo estar vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), e de que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição – e a Igreja sofre até hoje as conseqüências, com pouco espaço para mulheres nas instâncias decisórias da Igreja, apesar da sua enorme participação nas atividades das comunidades.
Lendo os relatos, um fato salta aos olhos – ninguém esperava a Ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem sonhar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir confirmar o seu amor por Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!
Como em Lucas 24, na historia dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - e a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, salário mínimo baixo, saúde e educação sucateadas, sem falar de desastres naturais que assolam tantos lugares no mundo! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Nós todos somos discípulos amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (cf. Rom 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos a Jesus e ao próximo? E lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros”(I Jo 4, 10-11).
A Ressurreição é um elemento básico da nossa fé – não a re-encarnação, que é doutrina totalmente não cristão, nem a imortalidade da alma, mas a ressurreição do corpo. Pois como disse Paulo aos Coríntios: “se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória”(I Cor 15, 16-17).
Tem dois pontos que são muito importantes quando refletimos sobre a Ressurreição: primeiro, Jesus vive! Ele continua a ser experimentado na vida das comunidades como presente e atuante, ainda que dum modo radicalmente novo. Ele se torna uma figura do presente e não somente do passado. Essa afirmação se baseia na experiência de cristãos ao longo dos séculos. Jesus continua a viver e atuar e é experimentado por cristãos até hoje.
Segundo, a Ressurreição prova que Jesus é o Senhor! Isso quer dizer que Deus vindicou Jesus e disse “não” aos poderes que o mataram. A Ressurreição de Jesus não trata somente da vida depois da morte ou dum final feliz da história, como em novela. A ressurreição de Jesus é o sim de Deus contra os poderes que o mataram. Os relatos na NT destacam isso de maneiras diferentes: Em Lucas e João, Jesus ressuscitado mantém os ferimentos do império que o executara. Em Mt, Jesus ressuscitado recebeu poder sobre todas as autoridades do mundo. Mc simplesmente diz “vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado; ele ressuscitou”. Os evangelhos não falam da ressurreição de Jesus sem ligá-la à crucificação por ordem dos poderes dominadores do mundo. Jesus é o Senhor, então eles não o são. A Ressurreição afirma que os poderes desse mundo não têm a última palavra. Essa também foi a convicção de Paulo - e o colocou em roteiro de choque não somente com os líderes do seu povo, mas com a autoridade imperial também Dizer que “Jesus é o Senhor” significa que “César não é o Senhor!” O poder imperial crucificou “o Senhor da Glória” (I Cor 2,8), mas Deus o ressuscitou e lhe concedeu o nome que está acima de todos os demais. (cf. Fil 2, 9-11). (cf. o livro de Borg e Crossan “A Última Semana”)
Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas.

DOMINGO DE RAMOS (16.03.08)

Mt 21, 1-12; Mt 26,14 – 27,66

Bendito aquele que vem em nome do Senhor!


Neste primeiro dia da Semana Santa, pelo menos na tradição católica no Brasil, com certeza não há comunidade que não celebre, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém. Organizam-se procissões e encenações, e quase todos fazem questão de levar alguns ramos bentos para a casa.
Porém é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando em v. 5 cita o profeta Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9, 9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando Palestina e o seu povo eram dominados pelos Impérios Helenistas (Cultura gerga), depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido, manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada dum Messias, que teria três grandes características: seria rei (9, 9-10), bom pastor (11,4-17) e “transpassado”(12, 9-14). Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé.
Mas o rei proclamado por Zacarias e concretizado em Jesus era bem diferente dos reis dos páises de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei previsto por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado num jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9,9).
A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, e uma viravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressores dos Reinos mundanos, a celebração de Javé, o libertador, que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (veja Ex 3,7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve nos levar a um cumpromisso maior com a construção dum mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que é o triunfo da fraqueza de Deus, da Cruz, do projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(I Cor 1,25). Cuidemos de não transformar a celebração litúrgica num folclore, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e por isso não creram nele e mataram o Salvador”. A celebração de Domigo de Ramos é realmente uma da vitória, mas da vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus, até a Cruz e a Ressurreição. Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus – reacender a esperança dos excluídos, marginalizados, pobres e oprimidos, assumindo cada vez mais ações concretas na busca da construção do Reino de Deus entre nós.

QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (09.03.08)

Jo 11, 1-45

“Eu sou a Ressurreição e a Vida”

Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão literária e teológica deste Evangelho. Nele os primeiros onze capítulos formam que é normalmente entitulado “O Livros dos Sinais” ou seja, relatam onze sinais (tradução melhor do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná (2, 1-11), a cura do filho dum funcionário real (4, 46-54), a cura do paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães, (6, 1-15) caminhar sobre as àguas (6, 16-21), a cura do cego de nascença (9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro (11, 1-45), o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação para Capítulos 13-20, O Livro da Glorificação.
Portanto devemos sempre ter presente que o relato dum sinal sempre quer revelar algo sobre Jesus. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre a não ser que já se tem fé em Jesus, os sinais em João revelam uma verdade sobre Jesus e leva as pessoas a aprofundar a sua fé nele. Assim, no texto de hoje, não devemos centralizar-nos sobre a pessoa de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas descobrir o que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através do texto.
Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos 21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo, mas rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição e a Vida acontece através da fé nele, o Enviado de Deus, que veio para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse (veja Jo 10, 10-11). Vale a pena notar que, no Evangelho de João, a primeira pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher, Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição e Vida ( 11, 25-27).
Mas Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria vida. Pois o relato de João enfatiza que ele dará a sua vida para que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase famosa “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe não acontece sem que ele se esbarre contra os interesses dos poderosos da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-o. É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga me”(Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra tudo que é de morte, de dominação, de exploração, de exclusão, tem bem desenvolvido pela Campanha de Fraternidade deste ano.
Vale notar que no fim da história, Lázaro é desatado dos panos e sudário – pois ele vai precisá-los de novo, pois ainda passará pela morte! A Ressurreição de Jesus, que logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio, eles vêem o sudário e os panos no chão – pois Jesus não foi simplesmente ressuscitado, mas passou pela ressurreição, para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura o que aconteceria com Jesus duma maneira mais definitiva e por conseguinte, a todos nós. Que a nossa fé naquele que é “a Ressurreição e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena” nos leve, não à religião intimista e individualista, mas a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, seja qual for a sua raça, cultura ou religião.

QUARTO DOMINGO DE QUARESMA (02.03.08)

Jo 9, 1-41

“Eu sou a luz do mundo”

Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto de hoje é mais uma vez um texto comprido, um capitulo inteiro, tirado do Evangelho de João. Como no Domingo passado (A Samaritana), mais uma vez encontramos traços característicos do Quarto Evangelho – o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos, de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade joanina que Jesus era “a luz do mundo”(v.5).
O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura dum cego de nascença. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original, e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego curado simboliza todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.
Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura – Silóe, que significa “enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal, João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus – O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o batismo.
Analisando as etapas do texto, podemos encontrar um aprofundamento na fé do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus, ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, ou seja, o Enviado de Deus.
A historia reflete algo da situação da comunidade joanina, pelo fim do primeiro século. Pois no tempo de Jesus ninguém era expulso da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após 85 a.C., com a reconstituição do judaísmo, na sua forma farisaica e rabínica, após a destruição de Jerusalém. Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição, situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luz da vida, a vida plena em Jesus.
O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a situação deles é muito pior – não é que não possam ver, é que não querem ver! A história iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não é causada pelo pecado (v.3). Termina afirmando que a cegueira pior, a espiritual, realmente é conseqüência do pecado. A missão de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que estão cegos e que chegam à fé, são curados e recebem a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de ser os esclarecidos, se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos, mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.
Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença, durante séculos e hoje ainda, diante da situação das massas excluídas e marginalizadas. Quantas vezes a fé em Jesus é proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento daquele que é “Luz do Mundo”. O nosso encontro com O Enviado tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência da mística do seguimento dele, continuando a missão de Jesus que disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.
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