Pe. Tomas Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
Revisão do texto: www.maikol.com.br
Padre Tomas Hughes, Missionário da Sociedade
do Verbo Divino, nascido em Dublin na Irlanda, escreve as seguintes REFLEXÕES
HOMILÉTICAS:
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Reflexões sobre a Palavra de Deus para os domingos:
Festa da Sagrada Família - 28 dezembro 2008
Lc 2, 22-40
“Ele crescia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”.
O Evangelho da Festa da Sagrada Família, é tirado do segundo
capítulo de Lucas. Mais uma vez encontramos um tema muito importante
para esse Evangelho - o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante
o Advento, Lucas fazia o paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista;
e Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança
são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza.
Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato - o Espírito
Santo e a opção pelos pobres.
Lucas enfatiza que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8),
para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício
era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da
manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus para os pobres.
Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles - como,
aliás, era toda a população do Nazaré de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel,
os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido
no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”.
É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir
em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança
agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa
Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada
de Maria com Jesus, agora Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a
novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez Lucas coloca
juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (Lc 4, 25-28; 4, 31-39;
7, 1-17; 7, 36-50; 23,55-24,35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste que o homem
e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade
e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que
os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério
de Jesus. V. 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados
do que se dizia dele” - mais uma vez nos apresentando José, e especialmente
Maria, como modelos de fé. Não obstante, qualquer revelação
que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da
fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo
de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava
com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradual, como com todos nós;
e a sua família tinha um papel importantíssimo no seu crescimento.
Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema
tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através
da experiência do seu pai adotivo, José. Se crescia na espiritualidade
dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus
pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia
no ambiente familiar. Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar,
o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José,
na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o
amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose,
a importância do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão
da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família
unida uma ameaça aos seus contra-valores.
NATAL: MISSA DA VIGÍLIA DO NATAL - 24 dezembro 2008
Lucas 2, 1-20
Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito
material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e
José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as
com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através
destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”,
“graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”,
“salvação”, “hoje”, e “universalismo”.
Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!
Este trecho pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2, 1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2, 8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2, 15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14.
Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o
dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com
a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância,
Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso
Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino
de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade,
o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa
“paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força
militar prepotente - a “Pax Americana!”. Essa revelação
da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada
por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que
meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um
dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom
não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente
sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato
quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem
as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios,
até os bois e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta
ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes
a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de
hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que
é mais forte do que os homens! (I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas
dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas
desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. Mas, é para essa
gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros
a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas
à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente
são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição
- as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção
preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não
ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”.
Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação
de Deus irrompe no mundo “hoje” - não numa data futura distante.
Esta idéia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura
de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem”
(4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou
nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje
estará comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação
está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social,
e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura
e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força
e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido
em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia
complementa o que foi já anunciado à Maria em 1, 31-33, por Maria
em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo
que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria,
porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração.”
( v. 19) Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a
diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta
o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A idéia
volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração
todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada
de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos
o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos
pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam
visto e ouvido” ( v. 20). Qualquer celebração de Natal que
não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor
a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!
QUARTO DOMINGO DO ADVENTO - 21 dezembro 2008
Lc 1, 26-38
“Faça-se em mim segundo a tua palavra”
Maria de Nazaré, junto com o Batista e o profeta Segundo-Isaías,
é figura importante nas leituras do tempo do Advento. O texto de hoje
é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado.
É essencial para entendermos a figura de Maria que as Escrituras nos
apresentam.
No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe
àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Naquele relato, quem recebe o anúncio
é um sacerdote, idoso, no Templo judaico. No texto de hoje, é
uma moça, jovem, no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote
não acreditou, e ficou mudo... simbolizando que os ritos do Templo não
tem mais nada a dizer! Maria acredita e é proclamada “bendita entre
as mulheres” (1, 42).
Infelizmente ,muitas vezes, esse trecho é interpretado de maneira a nos
apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão - é ideologicamente
usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas
e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente
o que Lucas quer nos dizer!
Maria, embora não entenda plenamente (cf. 1, 29; 2, 19; 2, 50s) aceita
não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas, ser protagonista
da realização desse plano divino. A frase “faça-se
em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como
o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização
do plano de Deus o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar
- isso seria muito pouco - mas à grande visão de Deus para os
seus filhos e filhas. Um pouco adiante, Lucas vai mostrar o alcance dessa frase,
quando na boca de Maria ele coloca o grande canto de libertação,
que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade
da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat
(1, 46-55). O que é que Maria quer quando Ela pede que seja feita a vontade
de Deus n’Ela? Ela quer a realização da viravolta no mundo
que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os
homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar
os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias”
(1 ,51-53).
Num mundo onde a realidade é a prepotência e a violência
dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão
na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista
da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber
o Salvador no Natal, tem que se comprometer de uma maneira concreta na construção
de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário
ao que vivemos hoje, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.
TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO - 14 dezembro 2008
Jo 1, 6-8. 19-28
“Aplainai o caminho do Senhor”
Mais uma vez, a figura central do evangelho de um domingo do Advento é
o Precursor, João Batista. Essa vez, num texto tirado do Evangelho de
João; o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume
a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”,
usando uma frase tirada de Isaías 40, 3. No texto de Isaías, essa
frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados
do cativeiro na Babilônia, no início do tal chamado “Livro
da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João
Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria - a vinda
do Messias, Jesus de Nazaré!
Nesse texto, já no primeiro capítulo do Quarto Evangelho, entram
em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus - as autoridades
dos judeus. Embora às vezes neste Evangelho o termo “os judeus”
designe o povo de Israel em geral (cf. 3, 25; 4, 9.22 etc), aqui, como na maioria
das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende,
e eventualmente hostiliza, Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente
as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época
- os sumos sacerdotes, fariseus e escribas.
Atrás do texto, também dá para entrever a tensão
que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado entre os seguidores
de João Batista e os de Jesus. Por isso, a insistência no texto
em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunho
do fato de que Jesus era o enviado de Deus.
No mais, o evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1, 1-8) - um convite
para que todos nós preparemos o caminho do senhor. “Aplainai o
caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós,
tirando das nossas vidas tudo que possa impedir um encontro real com Jesus.
No nível individual, aqui há um convite para uma conversão
pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós.
Mas, também, há o desafio para que nos empenhemos na luta contra
tudo que possa diminuir a vida humana - tudo que causa sofrimento aos nossos
irmãos e irmãs. Pois, o pecado que existe no mundo não
é somente pessoal, mas também social - e muito mais do que a soma
dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas
e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos e filhas de Deus.
A voz do precursor, como a de Isaías quinhentos anos antes dele, nos
desafia para que a nossa conversão pessoal também se manifeste
no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo,
humano e fraterno - o mundo que Jesus veio estabelecer.
SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO - 07 dezembro 2008
Mc 1, 1-8
“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”
O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos
a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, talvez na Síria. Marcos tem
o grande mérito de ser o criador desse gênero literário,
hoje tão conhecido, chamado “Evangelho”, o que literalmente
significa “Boa Nova” ou “Boa Notícia”. Porém,
quando no primeiro versículo da sua obra ele se refere ao “começo
do Evangelho”, ele não se refere ao gênero literário,
mas à própria Boa Nova, que é a mensagem de salvação
em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois, o escrito é
somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa
Boa Notícia, - tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos
(pois morreu pelo ano 66) pôde falar aos Gálatas do “Evangelho
por mim anunciado” (Gl 1, 11).
Como parte da nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos
apresenta a pessoa e mensagem de um dos grandes personagens do Advento - João
Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento,
tiradas do profeta Malaquias 3, 20, Isaías 40, 3 e Êxodo 23, 20,
Marcos enfatiza o papel de João como Precursor - aquele que prepara o
caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz
uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias.
Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança,
anunciando a chegada da Boa Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré.
O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o
reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora
o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação,
o texto nos lembra que não será possível uma preparação
adequada para a vinda do Senhor no Natal, sem que passemos pelo processo de
arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no
perdão dos pecados.
A ênfase mesmo está na aceitação não somente
do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente “atrás
de mim”. A expressão, que denota a dignidade da pessoa que há
de vir, como num cortejo, põe toda a importância nela - pois tirar
as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais
importante, pois com a vinda d’Ele inaugura-se o tempo de salvação,
esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
A voz de João ressoa de novo hoje, convidando a todos nós, não
somente pessoalmente, mas também como comunidade, Igreja e sociedade,
a preparar os caminhos do Senhor, endireitando as suas veredas! A preparação
para o Natal implica o empenho de todos para que os males, individuais e sociais,
sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador
e não somente uma festinha, vazia de sentido.
A crise econômica e social em que o mundo se encontra atualmente mergulhado,
deve nos levar a refletir sobre os valores e destinos da nossa sociedade consumista
e excludente. Centenas de bilhões de dólares já foram gastos
para escorar um sistema que mostra graves sinais de falência. Mais uma
vez, são os menos favorecidos que vão pagar pelos erros dos especuladores
financeiros. O Natal, muitas vezes “seqüestrado” como festa
de compras e gastos, pode ser para nós um novo começo, uma redescoberta
dos verdadeiros valores familiares, religiosos e de solidariedade. Mas, isso
exige a conversão de uma mentalidade consumista para uma de partilha,
em que o que vale é o “ser” e não o “ter”.
Mais do que nunca, a mensagem de João, o Batista, torna-se atual e desafiante.
PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (30.11.08)
Marcos 13, 33-37
“Digo a todos: fiquem vigiando!”
Com a celebração do Primeiro Domingo do Advento, a Igreja inicia
um novo Ano Litúrgico, num ciclo que celebra todos os principais eventos
da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Advento é
um tempo não tanto de penitência, mas de expectativa e preparação
para a vinda do Senhor no Natal. Três figuras muito importantes da liturgia
do Advento são: o profeta Isaías; o Precursor - São João
Batista; e, Maria de Nazaré - a Mãe do Senhor.
Um tema constante no Advento é o da vigilância. “O que digo
a vocês, digo a todos: fiquem vigiando”. Obviamente, não
no sentido de vigiar os outros, mas da vigilância evangélica, uma
atitude constante de compromisso com o seguimento de Jesus. É preciso
vigiar a nós mesmos, para que não deixemos de pôr em prática
as mesmas atitudes e opções concretas de Jesus de Nazaré.
É vigiar para que façamos sempre não o que Jesus fazia,
mas o que ele faria se estivesse no meio de nós hoje.
O convite à vigilância não é somente pessoal, mas
também comunitário. Pois, com o decorrer dos anos, é possível
que tanto os indivíduos como as instituições eclesiais
– congregações religiosas, pastorais específicas,
movimentos espirituais e até as próprias igrejas - caiam no comodismo,
perdendo de vista a finalidade última da sua atuação -
o Reino - e se contentando com uma prática meramente externa de uma moral
ou ética. O texto de hoje convida a todos nós para que façamos
do discernimento um modo de viver, que sejamos sempre vigilantes para que o
nosso modo de ser, atuar e falar estejam coerentes com as opções
concretas de Jesus de Nazaré, em favor do Reino de Deus, da justiça,
solidariedade e fraternidade.
Daqui quatro semanas, celebrar-se-á o Natal. Para muitos, será
simplesmente uma festa comercial ou uma oportunidade de festejar e alegrar-se.
Para outros, mergulhados na miséria e na fome, endêmicas em muitas
regiões do planeta, será sem sentido. A qualidade do nosso Natal
dependerá em grande parte da qualidade do nosso Advento. Se fizermos
desse tempo um verdadeiro momento de discernimento, avaliação,
vigilância e renovação, então teremos realmente um
Natal - um renascimento de Jesus na nossa vida. Caso contrário, somente
teremos uma festa no dia 25 de Dezembro, que logo acabará e passará
sem deixar rastros, a não ser dívidas a pagar ou ressacas! Atendamos
o convite de Jesus! Façamos do Advento deste ano um tempo de avaliação,
de oração, de renovação, e teremos a imensa alegria
de um verdadeiro Natal - um reencontro verdadeiro com Jesus, o Emanuel - o Deus-Conosco!
“O que digo a vocês, digo a todos: Fiquem vigiando”.
FESTA DE JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO (23.11.08)
Mateus 25, 31-46
“Quando fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim”
Hoje encerramos as celebrações dominicais do ano litúrgico
com a festa de Cristo Rei. O evangelho de hoje é o famoso texto de Mateus
25 sobre o Juízo Final. Nesse texto, enfatiza-se a sorte eterna dos que
optaram ou não pela vivência da “justiça do Reino
dos Céus”. O primeiro discurso do evangelho - o Sermão da
Montanha - enfatizou que quem vivesse essa justiça seria perseguido (5,
12); o segundo discurso, o Missionário, insistiu que os discípulos
não deveriam ter medo diante dessas perseguições, sofrimentos
e rejeição (10, 23.28.31); o terceiro - as parábolas do
Reino - ensinou a paciência e perseverança diante do lento crescimento
do Reino e da fraqueza da comunidade (13); o quarto - o Discurso Eclesiológico
- traçou as características da comunidade dos que procuram essa
justiça. Agora, o último discurso - o Escatológico - mostra
que a vivência dessa justiça será o critério de Deus
para o julgamento final. Ilustra-se, de uma maneira viva, o sentido da frase
lapidar do Sermão da Montanha: “Se a justiça de vocês
não for superior à dos doutores da lei e dos fariseus, não
entrarão no Reino do Céu” (5, 20). Jesus - o Rei - não
pergunta sobre o cumprimento das leis de ritual e de pureza, tão caras
aos doutores da lei e fariseus, mas sobre a prática da justiça
do Reino, diante do sofrimento de tanta gente - famintos, sedentos, migrantes,
esfarrapados, doentes e presos. A prática de solidariedade com os oprimidos
é a única prova de uma verdadeira fé em Jesus, e do seguimento
fiel dele.
Esse texto não pode deixar de nos questionar, vivendo como estamos numa
sociedade cada vez mais excludente. Celebramos hoje Jesus como “Rei do
Universo”. Mas, Ele se torna rei da nossa vida somente na medida em que
fazemos essa opção real pelos oprimidos, e vivenciamos “a
justiça do Reino do Céu”, tema central do Evangelho de Mateus.
Num mundo que nos apresenta tantas outras opções “régias”
- ou seja, opções que regem a nossa vida e manifestam o que são
os nossos valores últimos, o texto nos leva a verificar se realmente
Jesus é o Rei da nossa vida - se é o Evangelho d’Ele que
as rege, ou se o título não passa de mais um dos rótulos
vazios, sem conseqüências práticas, tão queridos dos
arautos de uma religião intimista, sentimentalista e individual, tanto
em voga nos nossos tempos. Será que a utopia do Reino de Deus, o seguimento
de Jesus até a Cruz, a prática da Justiça do Reino são
os elementos que norteiam as nossas práticas, individuais e comunitárias?
Se não, então Jesus Cristo ainda não se tornou Rei do nosso
universo pessoal e eclesial. É o questionamento do texto de hoje, que
nos lembra que Jesus não é Rei conforme os padrões deste
mundo, mas o Rei pobre e justo, tão esperado pelos oprimidos de todos
os tempos. A sua proposta para a sociedade não é a confirmação
de uma estrutura piramidal, conforme os modelos históricos, mas a sua
mudança radical para que o mundo seja regido por princípios de
solidariedade e justiça, de partilha e fraternidade. Ele é Rei,
no sentido da esperança dos “pobres de Javé” do Antigo
Testamento, tão bem retratada pelo profeta Segundo Zacarias: “O
seu Rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado
num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros
de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, quebrará o arco
de guerra. Anunciará paz a todas as nações, e o seu domínio
irá de mar ao mar, do Rio Eufrates até os confins da terra”
(Zc 9, 9s). Jesus será o nosso rei na medida em que vivemos esses valores
da verdadeira Shalom, que inclui a paz, a não violência, a partilha
e a justiça.
A crise atual no sistema financeiro mundial, com as suas cifras astronômicas
de apoio aos bancos e banqueiros falidos - enquanto somente migalhas são
destinadas aos bilhões e famintos e sofridos do mundo - demonstra bem
como a sociedade atual é dominada pelos interesses do lucro e do capital,
mesmo em países que se dizem cristãos. Estamos longe de um mundo
onde Jesus Cristo seja realmente o Rei - regido pelos valores que Jesus encarnou
na sua pessoa, projeto, ensinamento e opções, e que nós
herdamos como discípulos/as d’Ele.
TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (16.11.08)
Mateus 25, 14-30
“Muito bem, empregado bom e fiel”
O Evangelho de hoje situa-se no quinto e último grande discurso do
Evangelho de Mateus - o Discurso Escatológico, ou aquele que trata do
fim último das coisas. O tema básico do discurso é a vigilância,
ilustrada pela leitura dos sinais dos tempos (24, 1-44), a parábola do
empregado responsável (24, 45-51), a das virgens prudentes e imprudentes
(25, 1-13), e que vai terminar no próximo domingo, Festa de Cristo Rei,
com o texto sobre o Juízo Final (25, 31-46).
O texto de hoje versa sobre os empregados e os talentos - no tempo de Jesus
um talento era uma soma considerável de dinheiro, e hoje, no contexto
da parábola, pode ser interpretado em termos de dons recebidos de Deus.
O trecho demonstra que o importante é arriscar-se e lançar-se
à ação em prol do crescimento do Reino de Deus, para que
os dons que recebemos de Deus possam crescer e se frutificar (de forma alguma
se deve interpretar o texto ao pé-da-letra, como se ela tratasse de investimentos
e lucros financeiros, pois ele é uma parábola, que é uma
comparação que usa imagens e símbolos conhecidos).
Jesus confiou à comunidade cristã a revelação dos
segredos do Reino e a revelação de Deus como o “Abbá”,
ou querido Pai. Esse dom é um privilégio, mas também um
desafio e uma responsabilidade. Nem a comunidade cristã, nem o cristão
individual podem guardar para si essa riqueza. Embora carreguemos “esse
tesouro em vasos de barro” (2 Cor 4,7), como disse São Paulo, temos
que partir para a missão, para que o maior número possível
chegue a essa experiência de Deus e do Reino. Não é suficiente
que estejamos preparados para o encontro com o Senhor (mensagem do texto anterior
a este, o das virgens) - o outro lado da medalha é a atividade missionária,
que faz com que o Reino de Deus cresça, mediante o testemunho da nossa
prática da justiça!
FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO (09.11.08)
João 2, 13-22
“Mas Ele falava do templo do seu corpo”
A Basílica de São João Lateranense, a catedral da Igreja
de Roma, é considerada a mãe de todas as Igrejas Católicas
do mundo. Foi construída por Constantino nas primeiras décadas
do século quatro.
No contexto do Quarto Evangelho, esse texto se situa durante a visita de Jesus
a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas
neste Evangelho (nos Sinóticos a vida pública de Jesus só
durou um ano e eles só mencionam uma Páscoa). No Templo, que deveria
ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro de Israel, o Deus de libertação,
o Deus dos pobres e sofridos, ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio
externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios,
e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era
aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além
da mera condenação de um abuso. Pois, os animais e o câmbio
eram necessários para o funcionamento do Templo. Como nos versículos
precedentes do Capítulo 2, Jesus substituiu a purificação
dos judeus no sinal das bodas de Caná, aqui ele demonstra que o centro
do culto judaico perdeu o seu sentido. Pois, a presença de Deus, antes
achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante
reside em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias
e Zacarias que predisseram uma religião sem templo nacionalista, explorador
econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).
João entende que o verdadeiro e duradouro templo é o corpo de
Jesus, que será ressuscitado em três dias - ele usa de propósito
o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos
(Mt 26, 61). As autoridades judaicas (não “os judeus,” como
raça ou religião) destruíram o sentido do Templo, abusando
do povo economicamente, como vão destruir o corpo de Jesus, matando-o;
mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na Ressurreição,
depois de três dias.
Mais uma vez Jesus, através de uma ação profética,
desmascara a deturpação da religião, por parte das autoridades
de Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias
pomposas bem freqüentadas, a sua religião era vazia, pois escondia
o rosto verdadeiro do Deus da Bíblia. As Igrejas correm este mesmo risco
nos dias de hoje. Além da descarada exploração financeira
dos seus fiéis por parte de algumas seitas religiosas (cuidemos para
não generalizarmos aqui e que a mesma coisa não aconteça
na nossa Igreja!), as poucos muitas comunidades cristãs perderam a sua
dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se
ao mundo neo-liberal de consumismo e gratificação emocional imediata,
tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing,
que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu uma
vez o Frei Beto, a religião assim “brilha sob as luzes da ribalta,
trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação
pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na
esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o
de três fatores fundamentais na constituição da igreja,
mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades,
a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no
serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações
que não incomodam as consciências”.
Assim, o texto de hoje nos traz um alerta - Jesus não veio compactuar
com uma religião exploradora, alienadora, aliada ao poder, mas para encarnar
as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda
exploração; ele veio “para que todos tenham a vida e a vida
em abundância”(Jo 10, 10). Uma religião que abandonasse a
sua função profética seria tão traidora como a religião
decadente das elites do Templo. Diante da arrogância despótica
dos que se consideram “donos” do mundo e dos seus recursos, por
causa do seu poderio militar e econômico (embora esse último esteja
com os alicerces minados nesses últimos meses), as vozes de Bento XVI,
do Arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos
soam profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos que a religião não
se confina à sacristia, mas tem que levar à prática dos
princípios do Reino, que recusa legitimar o derramamento de sangue e
a destruição do meio-ambiente em troca de petróleo e do
lucro. A Campanha da Fraternidade de 2009 convocará todos os cristãos
para que recuperem essa dimensão profética na luta em favor das
pessoas que sofrem todo tipo de violência hoje, com o lema “Da Justiça
Florescerá a Paz”.
Neste domingo em que a Igreja celebra a dedicação da Basílica
de São João de Latrão, em Roma, verifiquemos o estado de
reparo da nossa Igreja Viva - feita não de pedras talhadas e construções
imponentes, por tão bonitas e até necessárias que possam
ser, mas de discípulos/as-missionários/as, inspirados pela pessoa
e projeto de Jesus. Aproveitemos do ensejo para reavaliar a nossa prática
religiosa, para que não caiamos na desgraça do Templo - bonito,
atraente e emocionante, mas vazio de sentido.
COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS (02.11.08)
João 6, 37-44
A celebração de hoje deve ser vista em relação
com a de ontem, dia 1 de novembro - a Festa de Todos os Santos. É a grande
celebração da “Comunhão dos Santos” - nós,
a Igreja peregrina, ontem comemoramos a Igreja já vivendo a plenitude
de vida com Deus; e hoje comemoramos a Igreja ainda em processo de purificação
(a palavra “purgatório” vem do termo latino que significa
“purificar” e não “sofrer”). No fundo, celebramos
o imenso amor de Deus para conosco, todos participantes daquilo que celebramos
todos os domingos no Credo quando declaramos que acreditamos, “Na Comunhão
dos Santos, na Ressurreição da Carne e na Vida eterna”.
Embora para muitas pessoas a celebração de hoje traga conotações
de tristeza, pois suscita lembranças e saudades dos seus entes queridos
já falecidos, realmente é uma celebração de esperança
e confiança na bondade, no perdão e no amor de Deus.
O texto escolhido para hoje, ligado às declarações de Jesus
sobre o Pão da Vida, é extremamente alentador e animador. Explicita
com todas as letras que a vontade do Pai é de que Jesus ressuscite todos/as
que lhe foram confiados pelo Pai, no último dia. Longe de nos apresentar
o Pai como um juiz implacável, Jesus declara que a vontade de Pai é
que “toda pessoa que vê o Filho e n’Ele acredita, tenha a
vida eterna” e que Ele “o ressuscite no último dia”
(v 40).
Naturalmente, o texto foi dirigido em primeiro lugar à comunidade joanina,
e por isso enfatiza a ressurreição de todos/as que receberam de
Deus o dom da fé (vêem Jesus e n’Ele acreditam); mas, fica
clara a vontade do Pai de salvar para a vida eterna todas as pessoas que procuram
viver a verdade. O que perpassa todo este discurso de Jesus é a confirmação
da vontade salvífica de Deus, a misericórdia de Deus e a manifestação
desta compaixão na pessoa e obra de Jesus de Nazaré.
É mais do que natural que hoje a gente sinta saudade dos falecidos -
especialmente dos que partiram deste mundo há pouco tempo. Mas a celebração
deve nos animar e encorajar, pois desde ontem a Igreja toda está em festa
de celebração da grandeza do amor de Deus - nós ainda em
peregrinação na terra, os falecidos no processo de serem purificados
pelo amor de Deus e os que já estão na plenitude da vida, pois
somos todos recipientes da bondade de Deus, através de Jesus que veio
“para que todos tenham a vida e a vida em plenitude” (Jo 10, 10).
TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (26.10.08)
Mt 22, 34-40
“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”
Hoje, temos mais uma das controvérsias do Capítulo 22, esta
vez com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é
para descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus - o verbo traduzido
aqui como “para O pôr à prova” é o mesmo usado
em v. 22, 8 (“armar cilada”). O que seria o maior mandamento era
discutido entre as diversas escolas rabínicas da época - para
alguns o maior era o amor a Deus, para a maioria era a observância do
sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a Deus
e de amar o próximo (Lv 19, 18 e Dt 6, 5). A originalidade de Jesus está
no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e,
sobretudo, na simplificação e concentração da Lei
(que tinha 613 mandamentos) nesses dois elementos. A colocação
de Jesus exige uma forma correta de amor próprio - não de egoísmo,
mas de auto-respeito. A ligação íntima dos dois mandamentos
não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante.
Mais uma vez, Jesus desloca o eixo da questão, como fez domingo passado
na passagem sobre o imposto a César. Esta vez Ele se recusa a entrar
em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central
do amor - tanto a Deus como ao próximo.
É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não
é um mero sentimento ou emoção, como muitas vezes é
na linguagem de hoje. O amor é uma atitude de vida, uma fidelidade à
Aliança com Deus, uma vivência solidária com os irmãos
e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizar-nos
com cada pessoa, nem gostar de cada pessoa. Mas, é possível superar
antipatias e aversões, na caminhada da construção do projeto
de Deus para o nosso mundo.
A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo torna-se
muito urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações
intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas
vezes não passam de uma busca disfarçada de auto-realização,
mas que jamais levam a um compromisso com a transformação da nossa
realidade. A frase de Jesus desautoriza qualquer pregação religiosa
que separa o amor a Deus do amor ao próximo - um amor não somente
afetivo (que talvez muitas vezes nem possa ser), mas, efetivo - concretizando
de maneira prática a solidariedade e a justiça.
O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência alienante ou legalista
- os mandamentos não são para serem discutidos, mas vividos, no
amor e compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo dependia
da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus fez com que
a própria Lei dependa dos atos de amor solidário. Esse avanço
feito por Jesus desafia a todos nós para que não caiamos na tentação
perene de separar os dois aspectos do amor - não é possível
amar a Deus sem que amemos o irmão, e o verdadeiro amor ao próximo
brota do nosso amor a Deus.
VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (19.10.08)
Mt 22, 1-15
“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”
Com o texto de hoje, entramos num bloco de quatro unidades tratando de diversas
controvérsias com lideranças judaicas diferentes - os fariseus,
os herodianos, os saduceus. A discussão de hoje talvez seja a mais conhecida,
mas muitas vezes tem sido interpretada de maneira errada, projetando sobre Jesus
os nossos preconceitos políticas e sociais.
É necessário entender que não se tratava de uma pergunta
sincera feita a Jesus, mas de uma cilada. Pois, quem a faz são membros
de dois grupos politicamente opostos e antagônicos - os herodianos, “pelegos”
da dominação romana e os fariseus, muitos dos quais olhavam os
herodianos como impuros, pela sua colaboração com o poder estrangeiro.
Se Jesus respondesse que é lícito pagar o imposto, correria o
risco de ser apresentado pelos nacionalistas como um opressor do povo. Se Ele
negasse, poderia ser denunciado pelos herodianos como subversivo político.
É uma situação semelhante à da pergunta de João
8, 1-11 (a mulher adúltera), onde qualquer resposta deixaria Jesus em
maus lençóis. Como naquela ocasião, Jesus se mostra verdadeiro
mestre, escapando da cilada, e por cima, dando um ensinamento importante.
Primeiro, Ele deixa claro que Ele entende a jogada: “Hipócritas,
por que me armais uma cilada?” Coloca os seus interlocutores contra a
parede, pedindo uma moeda do imposto, e perguntando: “De quem são
esta efígie e esta inscrição?” A inscrição
seria “Tibério César Filho do Divino Augusto, Sumo Pontífice”
- mostrando as pretensões do Império Romano à divinização.
Com a resposta: “Dai, pois, a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus”, Jesus joga para os seus ouvintes a pergunta
essencial: o que pertence a César, e o que pertence a Deus? A Deus pertence
a divindade, não ao Império Romano nem a César. Assim,
ele evita confirmar o projeto nacionalista violento de muitos judeus da sua
época, mas condena também qualquer projeto que divinizasse o poder
civil. Uma advertência muito atual para os nossos dias, quando o único
poder imperial hegemônico, (muito semelhante à situação
do Império Romano do tempo de Jesus) reivindica para si o poder de impor
as suas decisões sobre todas as nações, taxando quem discorda
da sua dominação ideológico, econômico e militar
de “terrorista”. O poder civil existe para cuidar do povo - que
é de Deus - e não para explorá-lo. Jesus assim nega as
aspirações imperialistas e, evitando uma resposta direta à
pergunta, enfatiza e relativiza todo e qualquer poder, pois o verdadeiro poder
só pertence a Deus.
Nos nossos dias, ainda existem poderes com as mesmas aspirações
dos romanos. Embora não digam abertamente, os arautos do neo-liberalismo
desenfreado divinizam um sistema que só visa o lucro e a ganância
e explora o povo sofrido. As palavras de Jesus nos lembram que nenhum cristão
pode compactuar com qualquer sistema - seja político, econômico
ou religioso - que atribui a si o que pertence a Deus. O texto de forma alguma
justifica um dualismo entre o espiritual (de Deus) e o material (de César).
Pelo contrário, mostra que o poder político, econômico e
religioso deve estar a serviço do bem comum, pois, se não, está
roubando o que é de Deus - o seu povo. Não se pode entregar às
garras de um poder opressor, seja ele estrangeiro ou nacional, o que pertence
ao Pai. O poder é legítimo quando está a serviço
da vida e do bem-estar comum, e não de uns poucos privilegiados. “Dar
a Deus o que é de Deus” não se resume em rituais religiosos,
mas na construção de uma sociedade de solidariedade, justiça
e fraternidade, onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância”
(Jo 10, 10). Na medida em que lutamos por esse objetivo, estaremos dando “a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
FESTA DE NOSSA SENHORA APARECIDA (12.10.08)
Jo 2, 1-12
“Façam tudo o que Ele lhes disser”
A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro
dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais
que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão
(embora algumas bíblias traduzam o termo grego que João usa por
“milagre”, a tradução mais acertada é “sinal”).
O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o nosso
texto de hoje. Como quase todo o Evangelho de João, o relato está
carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente,
para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de
descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do Quarto Evangelho é o da “hora” de
Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas à
hora da glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição.
Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se refere
a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), o autor quer
indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação
para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe
dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho
- ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumirão
um relacionamento de Mãe e Filho. Devemos lembrar que o Discípulo
Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós
hoje.
Apesar da nossa tradição devocional mariana, é importante
não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável
intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção
popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É
melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta
de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão
d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar
n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante.
Não era qualquer água - era a água da purificação
dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante
os ritos judaicos de purificação estão superados, pois
a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos
entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada
no medo do pecado, para uma nova relação entre Deus e a humanidade,
a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as
práticas do judaísmo do Templo, algo que vai continuar ao longo
do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância
era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição
rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante
de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se
realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante
que Jesus traz.
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a
dos serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não
sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo
que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos
que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João
quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os
ritos e práticas judaicos, ligados à purificação
e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era
de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está em v.11: “Foi em Caná
que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram
n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica,
mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos
de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais
para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é
o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em Seu
nome” (Jo 20, 31).
VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (05.10.08)
Mt 21, 33-43
“O Reino de Deus será entregue a uma nação que produzirá seus frutos”
A parábola de hoje é a segunda numa série de três,
referentes ao julgamento final de Deus sobre o seu povo (antes houve a parábola
dos dois irmãos e virá ainda a da festa de casamento). Com certeza,
a redação atual é resultado de uma longa história
de transmissão oral e redação. Na boca de Jesus, a história
visava a sorte da vinha (v. 41); a tradição pré-sinótica
concentrou a atenção na sorte do Filho, acrescentando a citação
de Sl 118 e as alusões escriturísticas (vv. 42-44); finalmente,
Mateus deixa claro que o advento do novo povo (v. 41) está ligado ao
destino d’Aquele que fala e que deve ser condenado e morto, para depois
ressuscitar (cf. notas da Bíblia TEB).
Na sua forma atual, a parábola é uma alegoria da História
da Salvação. “Os mensageiros” são os profetas
que foram matados pelo povo de Israel, culminando com Jesus, como o Filho. “O
Reino” provavelmente se refere à promessa da bênção
em plenitude, dos últimos tempos. “O Povo” se refere à
Igreja; no caso de Mateus, composta principalmente de judeu-cristãos,
mas também de gentios convertidos, que juntos formam o Novo Povo de Deus,
o verdadeiro Israel. Essa conclusão de v. 43 é a principal contribuição
de Mateus à interpretação da parábola, e é
mais suave do que a própria parábola, pois os maus vinhateiros
não serão destruídos, mas perderão a promessa.
Como o Evangelho de Mateus foi escrito num contexto de polêmica entre
a sua comunidade e o judaísmo formativo do fim do primeiro século,
queria ensinar para a sua comunidade que a promessa antiga feita ao Povo de
Deus foi retirada das autoridades farisaicas e das suas comunidades, e foi dada
à comunidade da Igreja. Mas, isso não dava às comunidades
motivo para comodismo. Como o povo original perdeu a promessa porque “não
deu fruto”, também a Igreja não a possui de modo incondicional.
Também as comunidades cristãs têm que “dar fruto”
de justiça, fraternidade, solidariedade, e partilha. A História
da Salvação nos mostra que Deus não se deixa manipular,
nem permite que qualquer comunidade ou religião se torne “dona”
d’Ele, mas que o seu verdadeiro povo é aquele que se dedica à
construção dos valores do Reino de Deus. O texto convida a um
sério exame e revisão das nossas práticas e estruturas
eclesiais e eclesiásticas, para que a nossa Igreja cristã não
chegue a merecer o destino dos vinhateiros, que, por não terem correspondido
com a Aliança, viram a promessa retirada deles e dada a um outro povo
“que produzirá os seus frutos” (v. 43).
VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (28.09.08)
Mt 21, 28-32
“Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”
Esta é a primeira de uma série de três parábolas
sobre o julgamento. Todas estão dirigidas ao mesmo público - os
chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, ao grupo de elite dentro do
sistema religioso de Israel.
A parábola aqui trabalha com um esquema - o que é o “dizer”
e o “agir” em resposta à vontade de Deus. Sendo parábola,
que trabalha com simbologia, os dois filhos podem representar diversas personagens:
o mais jovem pode representar o povo de Israel histórico que disse “sim”
(Ex 19, 8) e não cumpriu com a sua palavra (cf. Jr 2, 20), ou a geração
do tempo de Jesus diante da pregação de João Batista e
de Jesus. O segundo filho pode representar qualquer um que se arrepende: as
duas categorias que recebiam então o rótulo de “pecadores”,
mas, que aceitavam o convite de João para o arrependimento; também
os pagãos que se convertem e crêem em Jesus.
No fundo, a parábola retoma um tema muito claro no Sermão da Montanha:
“Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! Entrará no Reino
de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt
7, 21). Mateus é o Evangelho da prática da vontade do Pai, revelada
em Jesus. O contraste entre os grupos na parábola chega a ser chocante
- de propósito. De um lado temos a elite do sistema religioso judaico,
que se considerava justa e sem qualquer necessidade de arrependimento; do outro
lado, os pecadores públicos, bem conscientes da necessidade de conversão
sincera. A parábola traz a mesma mensagem daquela do fariseu e do publicano
em Lc 18, 9-14, e tem ecos de uma outra parábola com dois irmãos
- a do “Filho Pródigo” em Lc 15, 11-32.
Esse texto nos desafia para que façamos um exame de consciência.
Quantas vezes rotulamos pessoas e grupos como pecadores, injustos, desprezíveis,
a partir das aparências e dos nossos preconceitos, enquanto nos contentamos
com uma prática externa de religião sem conseqüências
práticas para a sociedade, assim como faziam os chefes dos sacerdotes
e anciãos do tempo de Jesus. Hoje em dia podemos não ter publicanos,
mas quantos são desprezados nas nossas comunidades como os publicanos
de então, por serem “drogados”, “aidéticos”
“homossexuais”, “prostitutas” “divorciados”
ou por outros motivos? Quantas vezes nos contentamos com uma religião
que consiste em simplesmente cumprir a tabela dos ritos e rituais, com a moral
burguesa da sociedade idolátrica consumista, sem perguntarmo-nos sobre
os frutos de justiça da tal prática.
Mateus insiste que é pelos frutos que se conhece a árvore. Os
ouvintes dessa parábola devem ter ficado chocados e ofendidos com a frase
de Jesus, “os cobradores de impostos e as prostitutas (pessoas consideradas
irremediavelmente perdidas) vão entrar antes de vocês no Reino
de Deus”. Pois, Jesus desmascarava a religião dominante em Israel,
que, escondida atrás de rituais e minúcias legais, marginalizava
a maioria e lisonjeava uma minoria que se outorgava o direito de julgar os outros,
sem dar frutos de justiça, partilha e solidariedade! “É
pelos frutos que se conhece a árvore” (Mt 7, 20). Deixemos que
este texto chocante nos interpele, examinando os frutos reais da nossa prática,
para que não caiamos na cilada dos chefes dos sacerdotes e anciãos,
apontando os erros dos outros e julgando-os, sem sentir a nossa própria
necessidade de arrependimento.
VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (21.09.08)
Mt 20, 1-16
“Os últimos serão os primeiros”
Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o centro
da pregação de Jesus era O Reino de Deus (dos Céus, em
Mateus, ou que significa a mesma coisa). Mas, Jesus nunca define o Reino, pelo
contrário, sempre o descreve por meio de parábolas, para que o
ouvinte se esforce para descobrir quais são os valores que tornam o Reino
de Deus presente no meio de nós.
A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do
povo da Galiléia. Era uma região rica, de terra boa, mas com o
seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos, e a
maioria trabalhava ou como arrendatários ou como “bóias-frias”
como diríamos hoje. Embora a cena situe-se na Galiléia de dois
mil anos atrás, bem poderia ser o Brasil da atualidade! Apresenta uma
situação de trabalhadores braçais desempregados, não
por querer, mas “porque ninguém os contratou” (v. 7). Talvez
haja uma diferença, comparando com a situação de hoje -
na parábola, o salário combinado era uma moeda de prata, um denário,
que na época era o suficiente para o sustento de uma família por
um dia - o que nem sempre se verifica hoje.
O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica
da sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz -
logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do
idoso, aposentado, doente, excepcional. Na parábola, o patrão
(símbolo do Pai) usa como critério de pagamento, não a
produção, mas o sustento da vida - também o trabalhador
da última hora precisa sustentar a família; e por isso, recebe
o valor suficiente, um denário.
O Reino tem outros valores do que a sociedade neo-liberal do nosso tempo - a
vida é o critério, não a produção. Por isso,
quem procura vivenciar os valores do Reino estará na contramão
da sociedade dominante. O texto nos convida a imitar o Pai do Céu, lutando
por novas relações na sociedade e no trabalho, baseadas no valor
da vida, não na produção e consumo.
Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido. Começavam
a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem judaica
tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade - eram “da
última hora”. Mateus conta a parábola para ensinar a eles
que no Reino, experimentado através da comunidade, não pode haver
discriminação entre cristãos de várias origens;
por isso, “os últimos serão os primeiros”. O critério
é a gratuidade de Deus Pai, pois tudo o que temos, recebemos d’Ele,
e sendo todos filhos e filhas amados d’Ele, a comunidade cristã
não pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja.
FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (14.09.08)
Jo 3, 13-17
“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio d’Ele”
A liturgia da Igreja Católica hoje interrompe a série dos Domingos
do Tempo Comum para celebrar a Festa da Exaltação da Santa Cruz.
Essa festa litúrgica tem destaque maior nas Igrejas do Oriente, onde
é comparada com a Festa de Páscoa. A sua celebração
tem as suas origens ligadas à dedicação das basílicas
constantinianas construídas nos lugares tradicionalmente identificados
com Calvário e o Santo Sepulcro.
O título “Exaltação da Santa Cruz” chama a
atenção, pois destaca o grande paradoxo da nossa fé - foi
exatamente através da Cruz, o mais terrível entre os suplícios,
que veio a salvação. Humanamente falando, a morte de Jesus na
cruz significava o fracasso total da sua vida e missão, mas, de fato,
escondia a vitória de Deus sobre o mal, da vida sobre a morte, da graça
sobre o pecado - uma vitória que se manifestaria ao terceiro dia, na
Ressurreição. No mistério pascal da vida-morte-ressurreição
de Jesus verifica-se o que proclama Paulo na Primeira Carta aos Coríntios:
“Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios;
e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é
forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor,
isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante.”(1Cor
1, 27s).
Torna-se muito importante resgatar uma sadia teologia e espiritualidade da Cruz.
De um lado temos que superar uma pregação errada que identificava
a Cruz com qualquer sofrimento, como se o sofrimento em si fosse um valor positivo.
Quantas pessoas sofreram injustiças a vida toda, agüentando situações
quase insuportáveis, por causa de tal pregação que levava
à passividade diante das injustiças e opressões. No fundo,
faziam de Deus um sádico! Do outro lado, na sociedade de hoje, a Cruz
não está muito popular, pois o sacrifício, a auto-doação
em favor de outros, está na contramão da sociedade hedonista e
consumista. Até dentro da Igreja muitas vezes há uma busca da
Ressurreição e vitória, sem que se mencione que o triunfo
de Jesus veio através de uma vida de doação que o levou
à cruz - e como conseqüência dessa coerência, à
Ressurreição.
A festa de hoje celebra a Cruz, não o sofrimento. Jesus não nos
salvou porque sofreu três horas na cruz - ele nos salvou porque a sua
vida foi totalmente fiel à vontade do Pai. Por causa dessa fidelidade,
as suas opções concretas o colocaram em conflito com as estruturas
de dominação sócio-político-religiosas, o que causou
o seu assassinato judicial. A morte de Jesus foi muito mais do que uma tentativa
de eliminar alguém que incomodasse! Era a tentativa de aniquilar o seu
movimento, a sua pregação, a visão de Deus e do projeto
de Deus que Ele ensinava. A Cruz então se tornava o símbolo de
doação total numa vida de fidelidade absoluta ao projeto do Pai.
Era o último passo de coerência, conseqüência lógica
do seguimento da vontade de Deus.
Assim, Jesus deixa bem claro nas páginas dos Evangelhos que a Cruz é
a característica do discípulo/a. “Se alguém quer
me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” (Mc 8,
24). Jesus não nos convida a buscar o sofrimento, mas a carregar a cruz
- conseqüência de uma religião que é vivencial, que
acarreta ações e atitudes coerentes com o Deus em que acreditamos,
e que traz em seu bojo as sementes de conflito com todo poder opressor, pois
“os meus projetos não são os projetos de vocês, e
os caminhos de vocês não são os meus caminhos” (Is
55, 8).
Paulo descobriu que pregar Cristo sem a Cruz era esvaziar a evangelização.
Assim declara à comunidade de Corinto: “Entre vocês eu não
quis saber outra coisa a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado.”(1Cor
2, 2). A Cruz de Cristo é inseparável da sua vida, pois é
a conseqüência dela. Mas, a Cruz também não se separa
da Ressurreição, pois ela é o resultado de tal coerência
e fidelidade. A festa de hoje nos desafia para que respondamos ao convite de
Jesus para carregar a nossa cruz numa vida de discipulado e missionariedade,
continuando a sua missão ao mundo. Pois, como diz o nosso texto hoje,
“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas
para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3, 17)
VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (07.09.08)
Mt 18, 15-20
“Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome, eu estarei no meio deles”
O texto de hoje é tirado do Discurso Eclesiológico, que trata
de problemas da vida cotidiana da comunidade dos discípulos, que Mateus
chama de “Igreja” (nos Evangelhos, o termo “Igreja”
só acorre aqui e em Mt 16, 18). Entre esses problemas podemos detectar
a busca do poder (vv 1-5), o escândalo dado aos pobres e humildes (vv
6-14), a questão do irmão que erra (vv 15-20) e o perdão
das ofensas (vv 21-25). São questões ainda atuais para as comunidades
de hoje.
Um dos grandes assuntos que perpassa o capítulo é a preocupação
com o irmão (irmã) que se desgarra ou se desvia. A lição
é que os dirigentes - e a comunidade - devem ter a mesma atitude de Jesus
diante de tais pessoas, ou seja, a compaixão, a compreensão, a
vontade de reintegrá-las na comunidade. Somente em último caso
o erro de um irmão deve ser levado à comunidade mais ampla (a
Igreja), pois a caridade exige que primeiro se procure resolver a questão
em particular. É nesse espírito que a comunidade recebe o poder
que Pedro recebeu em Mt 16, 19, o de excluir o infrator da comunidade. Mas,
é essencial interpretar esse direito à luz de vv 12-14, onde a
busca da ovelha desgarrada é dever primordial dos dirigentes comunitários,
a exemplo do Pai Celeste. Esse sentido da exclusão é ressaltado
por Paulo em 1Cor 5, 5: “humanamente ele será arrasado, mas o seu
espírito será salvo no dia do Senhor”.
O texto conclui dizendo que “se dois de vocês estiverem de acordo
sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido”.
Certamente, “qualquer coisa” se situa dentro das preocupações
desta seção de Mt que trata do seguimento de Jesus e da vivência
da comunidade. Não se refere a um pedido qualquer, ou que não
fomenta a chegada do Reino, da justiça, da partilha, da fraternidade.
Quantas vezes os nossos pedidos são nada mais do que expressões
do nosso individualismo? Cumpre lembrar que o Deus da Bíblia ouve “o
clamor do sofrido”, como tantos textos afirmam os salmos e os profetas.
O Evangelho afirma que o Pai vai atender qualquer pedido em nome de Jesus, em
favor da chegada do Reino. Não é que não podemos rezar
por nossas preocupações individuais e pessoais, mas elas não
podem dominar o horizonte da nossa fé. Devemos realmente lembrar a frase
tão importante de Mateus que nos ensina: “Buscai primeiro o Reino
de Deus e a sua justiça, e tudo isso será dado em acréscimo”.
A nossa oração jamais poderá ser desvinculada dos grandes
temas do Reino e do sofrimento de tantos irmãos no mundo de hoje.
Vigésimo Segundo Domingo Comum (31.08.2008)
Mt 16, 21-27
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”
Seria um erro grave não complementar a reflexão sobre o texto
do Domingo passado com o trecho de hoje. Pois ele mostra que embora Pedro tivesse
usado os termos certos para descrever quem era Jesus, ele os entendia de modo
errado. Para Jesus, ser o Cristo significava assumir a missão do Servo
de Javé, descrito pelo profeta Segundo-Isaías, nos Cantos do Servo
de Javé (Is 42, 1-9; 49, 1-9ª; 50, 4-11; 52, 13-53, 12). Jesus deixa
claro que ser o Cristo não significava triunfo nos termos desse mundo,
mas o contrário: “O Filho do Homem deve sofrer muito ser rejeitado
pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser
morto, e ressuscitar no terceiro dia”.
Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias, não era
comum - em geral o povo esperava um messias triunfante e glorioso. Mateus nos
mostra que Pedro partilhava essa visão errada, a ponto de tentar corrigir
Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura:“Fique longe
de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as
coisas dos homens” (Mc 8, 33).
Não basta usar os termos certos - temos que ter o conteúdo certo.
A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e
semelhança, mas na verdade muitas vezes nós criamos Deus na nossa
imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência
é de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas,
para Jesus não há meio-termo. O discípulo tem que andar
nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie
a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Lc 9 ,23).
O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes
e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes
contrários ao Evangelho. Carregar a cruz, não é agüentar
qualquer sofrimento passivamente. Fosse assim, a religião seria masoquismo!
Carregar a cruz é viver as conseqüências de uma vida coerente
com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto
fazer o que Jesus fazia, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje. E como
Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem definidos
“os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”
(a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos),
os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam
os mesmos interesses. Por isso, sempre haverá a tentação
de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado
a uma religião intimista e individualista, sem conseqüências
políticas, econômicas ou ideológicas. A nossa resposta à
pergunta “E você, quem diz que eu sou?” se dá, não
tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos
quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas
opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos
da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus não
exigente, que não traz conseqüências sociais, que não
nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Pois, o Jesus real, o Jesus
de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou claro:
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a
sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la;
mas quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc
9, 24)
Vigésimo Primeiro Domingo (24.08.2008)
Mt 16, 13-20
“E vocês, quem dizem que eu sou?”
Aqui temos a versão mateana da profissão de fé de Pedro,
que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Esse
trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: Quem é
Jesus? O que é ser discípulo d’Ele?
São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito
da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu
seguimento d’Ele.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem
dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua,
pois não compromete - o “diz que” compromete ninguém,
pois expressa a opinião de outros. Por isso chove respostas da parte
dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos
profetas!”. Mas Jesus não quer parar aqui - esta pergunta foi só
uma introdução. Depois vem a facada!: “E vocês, quem
dizem que eu sou?”
Agora não chove respostas, pois quem responde vai se comprometer - não
será a opinião de outros, mas a pessoal! Esta opinião traz
conseqüências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca:
“O Messias, o Filho de Deus vivo”.
Aqui Mateus acrescenta os vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e
por conseguinte dos líderes da sua própria comunidade), na função
de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap.
18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino”
não se refere ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar
pessoas da comunidade dos discípulos.
O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo da profissão
de Pedro “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Mas, continuam
no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é
Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?“ Pois os termos que
Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme
a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha:
“Ele ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém
que ele era o Messias!” Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se
fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera angariar discípulos
deste jeito? O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”,
conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus.
Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”.
Pois cada um pode entender este termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar
bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo
Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente
vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas,
e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não
o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então.
No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”,
sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação
social, o texto nos desafia para clarificar em que Jesus acreditamos? O Jesus
“Ôba! Ôba!” tão amado por setores da mídia,
e também das Igrejas, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé,
que veio para dar a vida em favor de todos? Esse assunto virá à
tona no evangelho do próximo domingo.
Festa da Assunção de Maria (17.08.2008)
Lc 1, 39-56
“Olhou para a humilhação da sua Serva”
Pode-se dividir esse texto em duas partes - a história da visitação
da Maria a Isabel, e o “Canto de Maria”- ou “Magnificat”.
Reduzir o sentido da Visitação a um simples gesto serviçal
da parte da Maria para com a sua parente, idosa, seria empobrecer muito o pensamento
de Lucas. Esta cena é altamente simbólica - Lucas quer mostrar
o acolhimento do “Novo” (representado por Maria e Jesus) por parte
do “Antigo”, (representado por Isabel e João). Isabel, símbolo
de todos os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito
Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma frase
usada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na libertação
do seu povo, Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jt 13,18). Assim, apresenta Maria como
mulher corajosa, que, animada pela fé em Javé libertador, colabora
na luta pelo mundo que Deus quer. Esse mundo, a chegada do Reino de Deus, já
é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu
ventre”. Nesse trecho é importante destacar o motivo pelo qual
Maria é bem-aventurada: “Feliz aquela que acreditou”. Para
Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas
porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa do Senhor
- não somente a promessa da gravidez, mas no projeto de Deus, desde Abraão,
de dar ao seu povo a terra, a descendência e a bênção.
Enfim, a promessa da realização do projeto do Reino.
O Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição
literária magistral, inspirada no Canto da Ana (1 Sam 2,1-10) e outros
trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “Pobres de
Javé”, os deserdados dessa terra, que apesar de tudo acreditavam
no projeto libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria
exulta, pois experimentou que Deus olhou para a sua pequenez e humilhação
(não “humildade”!). Ela celebra a mudança radical
que o Reino traz - os poderosos, soberbos e ricaços serão derrubados
e os pobres, humilhados e famintos, serão erguidos.
Esse retrato da Maria contrasta muito com a personalidade passiva e pálida
que muitas vezes inventamos para Ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre
e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres das nossas comunidades
hoje. Diante das forças opressoras do seu tempo (o abuso do poder religioso
e econômico, o machismo, o racismo), Ela canta a experiência do
Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos.
Essa Maria nos desafia para que nos unamos na luta pela construção
do Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores.
No nosso mundo, pelo menos tão opressor quanto naquela época,
esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados
na medida em que nós acreditamos e nos empenhamos na construção
de um mundo mais fraterno, justo e igualitário, conforme a vontade e
o projeto de Deus, celebrado por Maria no Canto do Magnificat e demonstrado
na pessoa e missão do seu Filho Jesus.
DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (10.08.2008)
Mt 14, 22-33
“Coragem! Sou eu! Não tenham Medo!”
É comum ler nos jornais e revistas os resultados de pesquisas que apontam
o medo e a insegurança entre as principais preocupações
do nosso povo - o medo da violência, do desemprego, da pobreza, da solidão,
da velhice e muitos outros. O medo parece até tomar conta de uma boa
parte de nossas instituições - o medo de tomar as medidas necessárias
para uma justa reforma agrária, por parte das autoridades competentes;
o medo por parte de muitos líderes religiosos diante dos desafios do
mundo de pós-modernidade, levando até a paralisia e o fechamento;
o medo de procurar novas soluções para novos desafios. O medo
parece ser a força motora da atividade - ou da falta da mesma - de muitas
pessoas, grupos e instituições.
A comunidade eclesial onde nasceu o Evangelho de Mateus também sentia
medo. Os seus membros (na sua quase totalidade judeu-cristãos, bem diferente
etnicamente das comunidades lucanas) enfrentavam oposição e perseguição
por parte das autoridades das sinagogas. A comunidade estava em luta com o chamado
“judaísmo formativo”, para definir o rumo que o judaísmo
iria tomar depois do desastre de 70 d.C., quando foram destruídos Jerusalém
e o Templo. Com a eliminação, pela repressão romana ou
por guerra civil, dos Saduceus, dos Zelotas e dos Essênios, somente dois
grupos organizados sobreviveram para disputar a hegemonia dentro do judaísmo
- a linha farisaica e a linha judeu-cristã, representada pela comunidade
de Mateus. Era uma luta de muita radicalidade, como costuma acontecer nas brigas
fratricidas. O sofrimento da comunidade de Mateus é retratado em Mt 10,
22: “Sereis odiados por todos por causa do meu nome; ma,s quem perseverar
até o fim será salvo”.
É neste contexto que se entende o texto de hoje. Os discípulos,
ao verem Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A comunidade
de Mateus era semelhante - diante da perseguição e do sofrimento,
Jesus parecia para eles um fantasma - uma ilusão, uma fugacidade, incapaz
de dar sustento à sua vida comunitária de fé. Diante do
medo dos discípulos, Jesus é taxativo: “Coragem! Não
tenham medo! Sou eu!”. Mateus relata essa história - acrescentando
esses elementos em comparação com o texto mais sóbrio de
João 6, 16-21 - para ajudar a sua comunidade a entender que Jesus não
é um fantasma, mas uma presença real, vivificante, fortalecedora
e libertadora no meio da comunidade, especialmente na hora das dificuldades
e perseguições.
Tipicamente, o Evangelho de Mateus destaca a figura de Pedro (como também
em 16,13-20; 17, 24-27). Pedro era personagem muito importante em Antioquia,
talvez o local da última redação de Mateus. Aqui Pedro
é o protótipo do discípulo - cheio de amor, mas com uma
fé enfraquecida pela dúvida. O estender da mão de Jesus
é um convite a Pedro, à comunidade de Mateus, e a nós hoje,
para dar uns passos para o desconhecido, para não nos fecharmos nas nossas
seguranças, freqüentemente falsas, que nós mesmos construímos,
mas para termos a coragem de enfrentar os ventos da vida, mesmo quando contrários,
pois Jesus está realmente conosco e como disse Paulo “Se Deus está
conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8, 31).
Ter fé e não ter medo por causa de Jesus não quer dizer:
“Não tenham medo, confiem em Deus, e Ele garantirá que as
coisas que os amedrontam não lhes acontecerão”, mas antes:
“Não tenham medo, confiem em Deus. É bem possível
que as coisas que os amedrontam vão lhes acontecer, mas não devem
ter medo disso, porque Deus estará ao seu lado”!
A fé em Deus não tira os nossos sofrimentos e dificuldades, como
querem tantos hoje, mas nos dá as forças necessárias para
vencê-los. Deus não é um analgésico para as dores
e dificuldades da vida, mas uma presença amorosa que anima, fortalece
e estimula, pois, como disse Paulo “a fraqueza de Deus é mais forte
do que os homens” (I Cor 1, 25)
Décimo Oitavo Domingo Comum (03.08.2008)
Mt 14, 13-21
“Dai-lhes vós mesmos de comer”
No Evangelho de Mateus, o texto do Evangelho de hoje vem logo após a
história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário
do Tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta o “Banquete da Morte”
promovida por Herodes, com “O Banquete da Vida”, protagonizado por
Jesus!
O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”,
é o único milagre de Jesus relatado nos quatro Evangelhos. Isso
aponta à importância dada nas primeiras comunidades a este relato,
tanto que a sua memória persistiu não somente nas comunidades
da tradição Sinótica (Mc, Mt, e Lc), mas também
na Comunidade do Discípulo Amado.
Mesmo fazendo leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17;
Mt 14, 13-21; Jo 6, 1-15), alguns elementos importantes saltam aos olhos:
1) A reação dos discípulos diante do problema da fome da
multidão. Nos Sinóticos, a solução sugerida por
eles é a de despedir a turba para que pudesse comprar pão. Assim,
ignora a situação dos que não tinham possibilidade de comprar!
É a solução de muita gente hoje diante do escândalo
da pobreza no mundo - que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições,
que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução”
- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos
e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se
revela uma solução inadequada. Jesus insiste: “Dai-lhes
vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução
de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair num assistencialismo.
Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada
numa nova proposta de vida - a da partilha!
2) Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”! O
motivo é simples - se a ênfase caísse sobre o “multiplicar”
milagroso, teria poucas conseqüências para os discípulos (nós,
hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas.
Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir”
- porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais
que temos. O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens
ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar e redistribuir
os bens que Deus nos deu para o sustento de todos!
Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga
a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26,
26). Também concentra a atenção nos pães, pois neste
relato somente eles são distribuídos. Assim o texto nos lembra
que a participação eucarística exige compromisso com uma
visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida,
e não na acumulação da parte de alguns junto com a falta
do básico para muitos. O cristão não pode compactuar-se
com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes, mas deve
lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo
as pegadas do Jesus de Nazaré.
O texto de hoje relê Êx. 16, (o maná), Nm 11 (as codornas)
e 2Rs 4, 1-7.42-44 (onde Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto
do Êx.16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos
outros leva à podridão.
É claro que diante do enorme sofrimento da maioria da população
do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram os discípulos
no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que não devemos cair na
cilada de aceitar as falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica
- ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo.
O cristão, sustentado pela eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do
Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade,
que exige que nós façamos o que é possível para
a construção de um mundo de justiça, e fraternidade.
Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão
dela e agiu. Com certeza ele olha hoje a situação de tantos irmãos
e irmãs e pede que os seus seguidores façam algo para mudar a
situação. Ultimamente, os jornais nos trouxeram notícias
do aumento assustador da fome no mundo por causa da crescente falta de alimentos
e do aumento dos preços de alimentos básicos como o arroz. Paira
sobre nós cristãos o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes
vos mesmos de comer!” O que significa isso na prática para mim,
para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta
da nossa vida?
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM (27.07.2008)
Mt 13, 44-52
“Vocês compreenderam tudo isso?”
Hoje terminamos a leitura do capítulo treze de Mateus, com as últimas
três parábolas do Reino - as do tesouro escondido, da pérola
preciosa e da rede lançada ao mar. Nas duas primeiras parábolas
podemos notar duas ênfases - uma sobre o grande valor do achado (simbolizando
o Reino) e outra sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede no
mar ecoa a mensagem da parábola do campo de trigo e joio, que fez parte
do texto do domingo passado.
O contexto histórico do tesouro achado é do Oriente Médio
Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática comum
enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou guerra.
Só que, muitas vezes, o dono morria na violência, e o tesouro ficava
escondido por muito tempo, até ser achado por acaso.
Usando este exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude do
discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável,
que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante
notar que o texto enfatiza que “cheio de alegria” ele vende todos
os seus bens, para poder possuir o valor maior que é o Reino. A vivência
dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não
um peso. Sem dúvida é exigente, pois meias-medidas não
servem (ele vende tudo o que tem), mas o resultado é uma alegria enorme.
Não a alegria falsa de um programa de Faustão ou Sílvio
Santos, mas uma alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois descobrimos
a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa
vida - o Reino de Deus. É pena que, com tanta freqüência,
conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo,
que nos afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante
como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão chata e irrelevante!
Mais uma vez, como na parábola do campo do trigo e joio, a última
parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos
e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser
deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária,
devemos mostrar paciência e tolerância, mas sem indiferença
ou comodismo.
O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho que
denominamos Mateus era um escriba ou doutor da Lei, convertido ao discipulado
de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais dados aos
autores dos Evangelhos são somente atribuições; nenhum
evangelho identifica o seu autor, e é consenso absoluto entre os exegetas
que o Evangelho de Mateus não foi escrito pelo apóstolo daquele
nome). Ele está bem enraizado nas “coisas antigas” - ou seja,
no Antigo Testamento. Mas está aberto às coisas novas, ou seja,
à nova interpretação da Lei que Jesus trouxe. Assim nos
ensina algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes
de um lado e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e
intolerância, do outro. Nem tudo que é antigo é ultrapassado
e nem tudo que é novidade é boa. Igualmente, nem tudo que é
antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É
importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem
da sabedoria antiga, nem da busca de atualização para os dias
de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (20.07.2008)
Mt 13, 24-43
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”
Esse texto continua o capítulo treze de Mateus, onde se proclama as
parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas, que comparam
o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento
na massa, quando se faz pão. Termina como uma explicação
alegórica do sentido da parábola do trigo e do joio. Podemos entender
essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a pequena
comunidade mateana e para nós hoje. Uma leitura atenta delas deve nos
reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo
nem desesperança.
Isso fica claro nas curtas parábolas do grão de mostrada e do
fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando
brota forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se
usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o
suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho
ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno
que dá resultados inesperados.
Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento
depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém,
onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo
interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois
é movida pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no
tempo do escrito, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para
enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo.
Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição
dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça real de perseguição,
muitos desanimaram, sentindo-se fracos demais para esta caminhada. Algo semelhante
facilmente ocorre hoje - diante do rolo compressor da globalização
do mercado, do projeto neo-liberal, muitos acham que nós não temos
forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos
donos do poder. Mas, isso é julgar somente com critérios humanos.
É fácil esquecer a ação do Espírito e que
para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam
a valorizar os nossos grãos de mostarda e a nossa medida de fermento
- ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade, que trazem
o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes.
Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil
no Brasil, diante de quais os governantes se ufanam, quem não sente que
é resultado do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral
da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental
diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da
vida. E poder-se-ia multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé
e de Deus e não com os do mundo, que só valoriza a força
do dinheiro, do poder e da dominação.
Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio
(erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar o joio à
força, mas o patrão não permite, pois talvez faça
mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja.
Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística.
Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio. A parábola
alerta contra dois perigos muitas vezes presentes na Igreja. Uma é a
tendência ao puritanismo - de criar uma comunidade de “santos”
ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas,
criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso
de Deus. O outro perigo é o oposto - simplesmente ignorar o joio, e assim
correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoque o trigo na comunidade.
A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os
dois entremos de “elitismo” e de “tanto faz”, pois ambas
as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.
O Reino é de Deus, e Ele não falha. Somos convidados a caminhar
juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar der
sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com
que o nosso grão de mostarda e o fermento na massa dão frutos,
muito além das expectativas humanas.
DÉCIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (13.07.2008)
Mt 13, 1-23
“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”
Com o texto de hoje, entramos no capítulo treze de Mateus, que estruturalmente
é o centro do Evangelho. Tudo se concentra no ponto central da mensagem
de Jesus, o Reino de Deus, que continua algo misterioso (v. 11). O capítulo
consiste em sete parábolas - as parábolas do Reino - e alguma
explicação delas. O trecho de hoje consiste na parábola
que é conhecida como a parábola do semeador (embora o texto enfatize
mais a semente), junto com uma explicação do seu sentido.
O que é uma parábola? Um exegeta, C.H. Dodd, deu a seguinte definição:
“Uma metáfora tirada da vida diária ou da natureza, que
chama a atenção do ouvinte pelas suas imagens vivas ou estranhas,
e que deixa-o com dúvida suficiente sobre o seu sentido exato para que
seja estimulado a refletir por si mesmo.” A parábola de hoje usa
imagens conhecidas na Palestina rural de então - a semeadura - e na sua
forma original não trazia explicação. Terminava com o desafio
de Jesus para que os ouvintes aprofundassem por si mesmos o seu sentido: “quem
tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Para entender as imagens, é bom lembrar que na Palestina antiga, se jogava
a semente antes de arar a terra. Por isso, alguma semente caía nas picadas
que atravessavam os campos “à beira do caminho”; outra parte
seria logo queimada pelo sol terrível do país; outra parte comida
pelas aves, outra parte perdida por que a terra era rala e cheia de ervas daninhas.
Mas uma parte cairia em terra fértil que dava frutos, conforme a sua
possibilidade.
Provavelmente, a explicação dada em vv. 18-23 nasceu mais tarde,
durante a catequese da Igreja primitiva. Assim, no início podemos supor
que o semeador era Deus; Jesus, ou um emissário d’Ele, a semente
seria a Palavra de Deus e os tipos diferentes de solo às respostas diferentes
dos ouvintes. Alguns deixam o fascínio do mal, nas suas diversas formas,
roubar a semente; outros acolhem a Palavra, mas de uma maneira superficial,
e não demora muito para que se torne infrutífera nas suas vidas.
Outros aceitam a revelação divina, mas a colocam em segundo plano,
enquanto correm atrás das riquezas de um mundo consumista. Relegando
assim Deus e o seu projeto, fazem com que a religião se torne algo de
fachada, que em nada ajuda o Reino a crescer. Mas, a finalidade da historia
é de dar esperança. Embora haja muitos fracassos, em última
instância o trabalho do semeador dá certo - sempre há pessoas
que recebem com entusiasmo a Palavra, e suas vidas, baseadas numa fé
viva, dão muitos frutos. Não é necessário que todos
dêem frutos iguais - mas que todos dêem fruto conforme as suas possibilidades,
cem, sessenta e trinta por um.
Depois de dois mil anos de semeadura, cabe perguntar sobre os frutos da semeadura
na nossa sociedade, dita cristã. Depois de quinhentos anos da Igreja
no Brasil, será que o solo - nós cristãos - demos os frutos
de uma sociedade justa, conforme o desejo de Deus? Estamos sendo - individualmente
e comunitariamente - que tipo de solo? Deixamos a semente penetrar no solo dos
nossos corações, ou deixamos na superfície como a que caiu
à beira do caminho? Ou a aceitamos através da catequese sacramental
e da tradição familiar, sem aprofundá-la, ficando numa
prática estéril para manter aparências e tradição,
mas que não afeta em nada a sociedade? Ou deixamos os espinhos modernos
- as tentações de uma sociedade materialista e consumista, de
competitividade - sufocar as reações de fraternidade e solidariedade,
que devem marcar os que acolhem a Palavra? Ou, com a graça de Deus, procuramos
ser solo fértil, onde a fertilidade inerente na semente possa brotar
em frutos de bondade e justiça, conforme as nossas possibilidades, deixando
acontecer o que profetizou Segundo-Isaías: “Assim acontece com
a minha Palavra que sai da minha boca: ela não volta para mim sem efeito,
sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão
para a qual eu a mandei” (Is 55, 11). O semeador é Deus, a semente
é boa - mas que tipo de solo sou eu, somos nós? “Quem tem
ouvidos para ouvir, ouça!”
DÉCIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM (06.07.2008)
Mt 11, 25-30
“Eu te louvo, Pai, porque escondeste essas coisas aos sábios
e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”
Os primeiros três versículos do texto não têm uma
vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus os coloca
(Lucas situa o ditado num outro contexto) e por isso “essas coisas”
não se refere ao que veio antes no capítulo (a condenação
de Corozaim e Betsaida), mas aos “mistérios do Reino”, que
são revelados aos pequenos e humildes (neste contexto, os discípulos)
e escondido aos que se acham auto-suficientes na sua sabedoria e estudo (os
fariseus e doutores da Lei) (Mt 13, 11). Essa oração de louvor
de Jesus brotava da sua própria experiência na missão -
que enquanto a sua pessoa e o seu ensinamento e projeto de vida foram rejeitados
pela elite política, econômica e religiosa da época, os
pobres e massacrados pelo sistema O acolheram. A auto-suficiência da elite
impediu que ela pudesse reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua
espiritualidade do Servo de Javé, conseguiram em grande parte acolhê-Lo,
mesmo sem compreender inteiramente a profundeza da sua identidade.
O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos Sapienciais,
podemos ver reflexos de Pr 8, onde a Sabedoria é personificada, Eclo
51, 1-12; 13-30 e Sb 6-8. Mas também nos faz lembrar de textos apocalípticos
como Daniel, onde os sábios são incapazes de decifrar o sentido
do sonho de Nabucodonosor (Dn 2, 3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando
na revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria
(Dn 2, 23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio Deus (Dn
2, 44). No tempo de Jesus, os sábios também não conseguiram
decifrar os mistérios do Reino de Deus, um dom que é dado aos
humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos (Mt 10, 42)
a quem é revelado o mistério do Reino dos Céus (Mt 13,
11).
Os versículos 26-28 são importantes, pois afirmam o relacionamento
único entre Jesus e o seu “Abbá”, Pai. Aqui, a comunidade
mateana (de Mateus) expressa a sua fé em Jesus como Filho Absoluto do
Pai Absoluto. É uma de três passagens em Mateus nas quais Jesus
expressa, de uma maneira indireta, ter uma relação única
com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21, 37 e 24, 36.
A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo Testamento
(Jr 2, 20; Jr 5, 5; Os 10, 11). No judaísmo do tempo de Jesus era usada
como imagem da Lei de Deus escrita e oral (Eclo 6, 24-30; 51, 26s). O termo
não tinha necessariamente uma conotação de peso ou opressão
quando usado assim. O nosso texto usa a imagem corrente para contrastar a interpretação
farisaica da Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas
e conceitos que excluíam muitos, com a interpretação de
Jesus, que não rejeita a Lei, mas lhe devolve o seu sentido original
- uma garantia de manter viva na comunidade o projeto libertador de Javé.
O problema não estava na Lei, mas na sua interpretação.
Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes que
ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência religiosa
um pesadelo para muitos. A interpretação de Jesus não é
“light” – mas, é exigente, pois exige uma vivência
de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação e a
rejeição de todo egoísmo e individualismo. No fundo, é
mais exigente do que a dos fariseus, pois não se esgota em práticas
externas, mas num processo infinito de doação de si. Mas, Ele
garante que este projeto de vida, exigente como for, trará a alegria
do Reino de Deus.
Esses últimos versículos nos levam a rever a nossa pregação,
a nossa interpretação da Lei de Deus, a nossa prática pastoral.
Pois, ao longo da história, muitas vezes a pregação nas
Igrejas e na catequese tem sido uma série de legalismos moralizantes,
reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas, freqüentemente
colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecido para
eles qualquer ajuda para carregá-los. Não poucas vezes o seguimento
de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à vivência de uma
moral ou ética, sem a revelação do Deus misericordioso
e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra que embora a religião
exija leis e moral, fundamentalmente é uma mística, uma experiência
do amor de Deus que nos convida a assumir o seu jugo como resposta, um jugo
que não mata, mas que liberta, que não esconde o rosto de Deus;
mas, que traz a alegria do Reino!
FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (29.06.08)
Mt 16, 13-19
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.”
Hoje, a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo.
Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesaréia
de Felipe. O relato mais antigo está em Marcos (Mc 8, 27-38), onde se
tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente,
mas o relato tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus
e o que significa ser discípulo dele.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro Jesus faz uma pergunta
inócua: “quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”
Assim chove respostas, pois esta pergunta não compromete, é o
“diz que”. Mas a segunda pergunta traz a facada: “E vocês,
quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois
quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente
Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias,
o Filho do Deus vivo”. Aparentemente, Pedro acertou e realmente; em Mateus,
Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de
uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé.
Mas, para que entendamos bem o trecho, é mister que continuemos a leitura
pelo menos até o v. 25, pois, o assunto é mais complicado do que
possa parecer.
Aapós afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o
que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso,
conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser
fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso,
torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou
que era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme as
expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador, não
um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com ele, até a Cruz! Por
isso, Pedro remonta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse, e como recompensa
ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Fique atrás
de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para
mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23).
Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra
fundamental da Igreja (v.18), é agora chamado de Satanás - o Tentador
por excelência - e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro
tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada! Usando
os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer
que ele tinha ortodoxia, mas não tinha a ortopraxis!
Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser
seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se
mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não
é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico,
mas uma prática, o seguimento dele na construção do seu
projeto, até às últimas conseqüências.
Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários e iniciamos
na Igreja Católica o Ano Paulino”, a segunda pergunta de Jesus
ressoa forte: para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo,
não para o Papa ou o Bispo ou Pastor, mas, para cada de nós pessoalmente?
No fundo, a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira
em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - Ele que veio para
que todos tivessem a vida e a vida plenamente! (Jo 10, 10).
Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco
de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada, de cairmos
na tentação de substituir o caminho humilde e serviçal
da cruz pela pompa e ritual, de esquecermos dos valores do Reino de Deus para
substituí-los com os valores da sociedade vigente. Pedro aprendeu na
vida o que é ser discípulo, pois terminou crucificado também;
mas, não foi fácil a mudança de mentalidade. Paulo também
teve que despojar-se de toda a sua formação farisaica, quando
descobriu que a Lei não salva ninguém, mas somente a graça
de Jesus. Hoje, quando o pobre quase desaparece dos documentos oficiais das
Igrejas, (embora o Espírito inspirasse os participantes da V Assembléia
do CELAM em Aparecida a voltar à esta opção “com
renovado vigor”), quando acentua-se o clericalismo e se esquece do Vaticano
II e o seu conceito do povo de Deus, torna-se mais importante do que nunca lembrar
o ensinamento de Jesus sobre o discipulado: Ele que não veio para ser
servido, mas para servir.
DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (29.06.08)
Mt 10, 37-42
“Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.
O grande discurso missionário de Mateus termina com as palavras do
texto de hoje. De novo, deve ser colocado dentro do contexto sócio-histórico
da comunidade de Mateus. Mais uma vez - como nos domingos passados - o autor
enfrenta o problema de uma comunidade em situação de conflito
e perseguição. E o pior, este conflito e a perseguição
aconteciam também no seio das famílias, onde alguns membros aderiram
à comunidade cristã e outros não. De novo, Mateus liga
a perseguição à mística do seguimento, de Jesus
quando no v. 34 ele diz: “Não pensem que vim trazer paz à
terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Aqui retoma a
imagem da Palavra de Deus como “espada de dois gumes”, que exige
opções concretas, muitas vezes com conseqüências dolorosas.
O seguimento de Jesus exige freqüentemente decisões duras e nada
pode ser mais importante do que o Reino. Por isso, Mateus diz que nem o amor
ao pai ou à mãe pode ter mais importância do que o amor
a Jesus (Mateus suaviza a frase de Lucas 12, 26 que diz que quem não
“odeia seu próprio pai, mãe, mulher, filhos, irmãs
e até a própria vida não pode ser meu discípulo”.
Na língua aramaica, pobre em vocábulos, a frase de Lucas quer
dizer de uma maneira coloquial o que Mateus expressa como “amar mais”.
Não é “odiar” conforme se entende a palavra em português).
A vivência dessas opções é na prática, o que
significa “tomar a sua cruz”. Tomar a cruz não é sofrer
por sofrer. E a conseqüência da coerência com a opção
por Jesus. Mas não é para nos assustarmos, pois temos a garantia
que a busca de coerência com essas opções nos darão
como herança “encontrar a vida” - a verdadeira vida em Deus.
O discipulado não é somente dureza. Teremos muitas oportunidades
de experimentar as suas recompensas - de sermos acolhidos exatamente por causa
d’Ele (o sentido da “copo de água”). Quantas vezes
a pregação da “cruz” tem trazido conotações
negativas, como se seguir Jesus fosse um sofrimento sem fim. Pelo contrário,
exige dedicação, sacrifício e desprendimento - que acarreta
também sofrimento - mas, as suas alegrias são muito maiores. O
seguimento de Jesus deve ser uma alegria - não somente um obedecer de
leis, a prática de uma moral ou ética, um acreditar em dogmas,
que muitas vezes parecem ter pouca coisa a ver com as nossas vidas! É
uma experiência de seguir as pegadas do mestre, de ser colaborador(a)
na sua missão, de sentir-nos realizadas como pessoas e cristãos
por termos procurado colaborar na construção do Reino, com todas
as nossas limitações e erros. É um privilégio e
não um peso!
DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (22.06.08)
Mt 10, 26 - 33
“Não tenham medo!”
“Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus
ressoa três vezes neste curto trecho! Este tipo de conselho indica que
o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia!
Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também
somente se enfatiza a mesma coisa com tanta ênfase quando é para
combater um perigo na vida de uma comunidade.
Então, parece que o medo era um problema para os membros das comunidades
mateanas. Medo de que? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos
versículos16-25 Jesus fala das perseguições que os seus
discípulos terão que enfrentar. Inclui perseguição
por parte do poder civil (“entregarão vocês aos tribunais”),
perseguição pela a autoridade religiosa judaica (“açoitarão
vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição
e rejeição pelos membros das suas próprias famílias
(“irmão entregará à morte o próprio irmão;
o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais
e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, este cenário
já era conhecido no meio das suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros
anos da Igreja os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus
como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram,
portanto, tolerados pelo Império Romano, o que dava ao judaísmo
o status de “religião lícita”, nos anos depois de
85 dC tudo mudou.
Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e
Gamaliel II, tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio,
sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente
reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém,
e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir
na Lei, na sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio”
cristão parecia algo que pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos
começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados
na sua identidade religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela
sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam e os judeu-cristãos
eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não
mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem
perseguidos também pelo poder imperial. Como então não
entrar em crise, não ter medo?
Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu
com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição
não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus!
Por isso, não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los.
O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar
de opção de vida, escolhendo a aprovação humana
em lugar da fidelidade do discipulado.
Hoje, em geral não somos perseguidos por causa da nossa religião,
pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada. O mundo
até aprova a religião como opção particular, uma
vez que não tenha conseqüências sociais e econômicas.
Mas, persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas
do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham
em abundância” (Jo 10, 10). Nesses últimos meses presenciamos
isso nas ameaças sofridas por três dos nossos bispos no Pará.
O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho”
da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião
que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos,
a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas, ai de quem procura
concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos
etc.
Por isso, devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “não
tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”.
Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências
de uma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar
a alma das Igrejas, deixando-as com o seu “corpo” - templos, festas,
honras, prédios etc, mas matando a sua “alma” - a prática
da opção evangélica pelos oprimidos.
O Brasil também tem os seus mártires - e a lista é comprida
- que deram a sua vida nas perseguições lançadas pelas
ditaduras, latifundiários e elites. É sinal de uma Igreja viva.
Mas, não é fácil manter-se firme diante das seduções
da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do
poder. Assim, soa atual a última advertência do trecho, “quem
me renegar diante os homens, eu também o renegarei diante do meu Pai”.
Mas, também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior,
“quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei
testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação,
normalmente, não se faz com a boca, mas com as opções concretas
em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial.
Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas e encontros:
“Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça
vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”.
DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (15.06.08)
Mt 9, 36 - 10, 8
“A colheita é grande, mas, os trabalhadores são poucos.”
O texto de hoje fecha a seção de Mt 4, 23 - 9, 34, que manifesta
Jesus como Messias em palavra e ação e abre caminho para a missão
dos discípulos e o discurso missionário do Cap. 10. Coloca a missão
dos discípulos - portanto de nós cristão hoje, individual
e eclesialmente - como continuação e atualização
da missão de Jesus. Não deixa dúvida sobre a natureza dessa
missão - v. 35 fala que Jesus “percorria as cidades e povoados,
ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino e curando
todo tipo de doença e enfermidade”. A estrutura da frase mostra
que o cerne era a Boa Notícia do Reino - Reino de libertação
de todos os males, espirituais, econômicos, sociais e materiais. Essa
chegada do Reino em Jesus constituía então o conteúdo do
seu ensinamento nos sinagogas e era demonstrado pelas curas, entendidas como
libertação do poder do mal.
Mas, Jesus não era somente um curador! Ele era movido por compaixão
- não por pena, mas “compaixão”, um termo que significa
“sofrer com” alguém. O termo grego usado, “splanchnizein”,
deriva-se da palavra para “entranhas”, símbolo da sede das
emoções. Ele sente “nas entranhas” o sofrimento do
povo abandonado pelos seus líderes espirituais, mais preocupados com
ritos e estruturas religiosos do que com as pessoas, e pelos líderes
políticos, mais engajados em se enriquecer às custas do povo.
A imagem do pastor é comum na Bíblia como termo que descreve liderança
religiosa e legal (cf. Nm 27, 17; Ez 34, 5; 1Rs 22, 17; 2 Cr 18, 16; Zc 10,
2; 13, 17; Mt 10, 6; 15, 24; 18, 12; 26, 31). O que dizer da situação
do nosso povo hoje? Será que é tão diferente? Quanta descrença
e cinismo diante dos políticos, diante das provas de corrupção
e impunidade! E será que nós, que somos de uma certa maneira líderes
religiosos, sempre mostramos para os sofredores o rosto misericordioso do Deus
verdadeiro, ou o escondemos atrás de legalismos, casuísmos e ritualismo?
Diante da crescente clericalização e centralização
do poder na Igreja, vale a pena uma análise honesta das nossas atitudes
e prioridades.
Jesus não é derrotista nem pessimista. Diante do desafio das ovelhas
sem pastor, ele vê uma oportunidade de fazer colheita. Mas, reconhece
a escassez de operários e operárias! Sempre se usa esse texto
para estimular um crescimento nas vocações sacerdotais e religiosas
- com razão. Mas é muito mais abrangente no seu alcance. Pois,
todo batizado é conclamado a ser “trabalhador na messe”.
O Documento de Aparecida insiste na ligação essencial e intrínseca
ente discipulado e missão. Não há duas classes de cristãos
- todos participam na missão sacerdotal, profética e régia
de Jesus. Todos, sem exceção, têm o dever de ser missionários
- não num sentido proselitista, somente angariando mais adeptos para
a sua Igreja, mas no sentido de semear e regar o Reino, de mostrar a misericórdia
de Deus, de lutar junto com pessoas de boa vontade para que cresça o
mundo de justiça, solidariedade e verdadeira paz que Deus quer! Mas,
Jesus insiste na oração, pois somente uma comunidade que nutre
a sua fé pela oração será capaz de gerar pessoas
comprometidas com o Reino e à missão.
O trecho termina com a vocação dos Doze - e aqui Mateus une a
noção de discipulado e Apóstolo. Ambos têm uma missão
clara - expulsar espíritos maus e curar todo tipo de doença. As
doenças eram entendidas naquela época como sinal da dominação
dos poderes do mal. Cumpre perguntar - quais são os espíritos
maus da sociedade de hoje que devem ser exorcizados, quais as enfermidades a
serem curadas? Hoje tem-se mania de demonizar tudo, em certos setores e movimentos
das Igrejas - mas muito mais do que o “capeta” tradicional, existem
os espíritos maus de ganância, egoísmo, individualismo,
exclusão, que tomam corpo, não em possessão demoníaca,
mas no sistema pecaminoso do neoliberalismo, excludente, na busca desenfreada
de lucro sem levar em conta as conseqüências sociais, da dominação
da lei selvagem do mercado, na proliferação de religião
alienante... Como Jesus chamou os Doze para lutar contra os males que oprimiam
o povo do seu tempo, nos chama hoje, à mesma missão, diante dos
desafios do mundo moderno. Cada um(a) pode adicionar o seu nome ao rol dos chamados
em Mateus. Na verdade não falta oportunidade para cada cristão
engajar-se de maneira concreta nessa luta. A opção alternativa
é ficar acomodado numa religião individualista e intimista, juntando-nos
às fileiras dos pastores maus, que deixam as ovelhas abandonadas à
sua sorte.
DÉCIMO DOMINGO COMUM (08.06.08)
Mt 9, 9-13
“Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”
O texto nos apresenta uma polêmica entre Jesus e os doutores da Lei,
por causa da sua prática evangélica. Lembremo-nos que o Evangelho
de Mateus foi escrito pelo ano 85/90, num contexto de luta entre o judaísmo
rabínico formativo, baseado na interpretação farisaica
da Lei, e o judaísmo-cristão da comunidade mateana (Mateus), baseado
na interpretação e prática de Jesus. Um ponto fundamental
na prática farisaica era o conceito de “puro” e “impuro”,
não no sentido de castidade, mas no sentido ritual ou cultual. Certas
pessoas, por serem impuras, eram consideradas inaptas para participar no culto,
e assim marginalizadas pela comunidade ortodoxa. Jesus, também um mestre
judaico, aqui rompe com a prática dos fariseus - não com o intuito
de destruir o judaísmo, mas para salvar os seus membros, cada vez mais
marginalizados pelos preceitos de pureza.
O relato começa com a vocação do cobrador de impostos (ou
publicano, pois o imposto se chamava “publicum”, um tipo de ICMS
daquela época!), chamado Mateus, apelido de Levi em outros textos (Lc
5, 27-32; Mc 2, 13-17). Os cobradores de impostos eram marginalizados porque
colaboravam com o poder opressor romano e porque tiraram o seu lucro cobrando
a mais através de extorsão. Jesus, quando entra na casa de Mateus
para uma refeição, misturando-se com outros publicanos e pecadores,
infringe prescrições fundamentais farisaicas e entra em comunhão
com essas pessoas marginalizadas. O termo “pecadores” era um termo
técnico da época para membros de profissões desprezadas
e consideradas suscetíveis de impureza ritual. Uma lista da época
indica pessoas que trabalhavam com asnos ou camelos, marinheiros, pastores,
comerciantes, médicos (por causa do sangue), açougueiros, curtidores
e cobradores de impostos como membros dessa categoria de “pecadores”.
Jesus se defende usando um provérbio de bom senso, também conhecido
nos escritos de outros autores como Plutarco. Como o médico tem que se
expor ao contágio para curar doentes, o médico espiritual se expõe
às impurezas legais para salvar os marginalizados.
Mateus usa aqui (e em 12, 7) uma frase tirada de Os 6, 6, que contesta a prática
dos legalistas. Esses evitam qualquer contato com “impuros”, em
nome de Deus, para poderem participar do culto. Assim, a prática ritual
se torna mais importante do que a prática de misericórdia. E tudo
feito em nome de Deus, que é misericórdia! A misericórdia
de Deus não somente acolhe, mas vai em busca dos perdidos e os reintegra
na comunidade de fé, como também mostra especialmente Lucas (Lc
15).
O texto pode nos levar a questionar a nossa prática de misericórdia.
Pois, nós também criamos categorias de “puros” e “impuros”,
muitas vezes em nome de Deus. Sempre existe a tendência de formar comunidades
elitizadas, que se gabam de ser praticantes, observadoras da lei, e quem sabe,
desprezam, sem que digam isso, os que não correspondem aos seus critérios.
Como são tratadas as pessoas com problemas de divórcio, de vícios,
ou orientação sexual, em nossas comunidades? As nossas comunidades
se assemelham ao tempo de Jesus, que ia atrás das pessoas taxadas de
impuras no seu tempo, ou se assemelham aos fariseus, que se fechavam nos seus
rituais e rotulavam e marginalizavam os outros - comunicando um Deus mais preocupado
com a pureza ritual do que com a misericórdia? Jesus não condena
o sacrifício e os ritos, mas denuncia a situação quando
o apego a eles leva ao abandono do mandamento fundamental de misericórdia.
Para todos nós ressoa fortemente o desafio lançado por Jesus “aprendam,
pois, o que significa: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”.
Seja Jesus o nosso modelo de compaixão, para não cairmos numa
prática religiosa que rotula e marginaliza em nome de Deus exatamente
os que mais precisam encontrar o seu rosto misericordioso e compassivo.
NONO DOMINGO COMUM (01.06.08)
Mt 7, 21-21
“Só entrará no Reino do Céu quem põe em prática a vontade do meu Pai”
O texto de hoje conclui o grande discurso da vida cristã, que é
o Sermão da Montanha. Depois de dar-nos as orientações
para uma vida de seguimento e discipulado, Jesus termina insistindo na necessidade
da nossa fé nos levar à prática das obras do Reino de Deus.
Não adianta uma fé que consiste somente em adesão intelectual
às verdades sobre Jesus, pois precisa uma fé que nos leva a construir
a justiça do Reino na nossa sociedade. Mais tarde, a Carta de Tiago vai
retomar esse tema quando o autor escreve que “fé sem obras, é
morta em si mesma.” (Tg 2, 17)
O texto se divide em duas partes - a primeira, vv. 21-23, adverte contra uma
religião, mesmo no nome do seguimento de Jesus, que não compromete
com a luta em favor da justiça. Parece que na comunidade de Mateus, por
volta do ano 90, havia uma tendência entre alguns de invocar o nome de
Jesus, profetizar, fazer milagres, expulsar demônios, e ir atrás
de manifestações extraordinárias do Espírito, sem
que se comprometessem com a construção do Reino da Justiça.
As palavras de Jesus para essas pessoas soam duras - chama-as de malfeitores,
pois não se empenham na realização do projeto d’Ele,
se vangloriam dos seus milagres e dons que chamam a atenção, mas
que não brotam de uma vida de comprometimento com o Reino de Deus.
É atual esta advertência do texto, pois hoje também muitas
vezes existe a tendência de buscar uma religião de “sinais”
e milagres, de manifestações aparentemente milagrosas do Espírito,
mas que freqüentemente esconde uma opção religiosa individualista
e intimista, sem conseqüências para a construção da
sociedade que Deus quer. Assim a religião torna-se alienada e alienante
e lugar de ser expressão de discípulos/as que são fermento
na massa, sal da terra, luz do mundo.
A segunda parte do texto, vv. 24-27, usa uma imagem bastante comum na Palestina
de Jesus - as enchentes repentinas que resultavam das chuvas torrenciais da
época do inverno, e que causavam estragos nas vilas e roças. Usa
a imagem da construção de casas - uma feita com alicerce, outra
sem. De fato, a falta de um alicerce firme não se faz sentir no tempo
de bonança. As construções parecem igualmente sólidas.
Mas, na tempestade, das enxurradas e enchentes, logo se revela qual é
a casa com alicerce, e qual carece de um fundamento. É nessa hora que
se revela tudo. Assim também com a vida cristã - enquanto tudo
corre bem, não se manifesta a presença ou a falta do alicerce.
Mas, quando batem as ventanias da vida, quando acontecem as enxurradas que ameaçam
levar embora o que nós construímos, então se revela a presença
ou a ausência de um alicerce. Isso pode acontecer no casamento, na vida
religiosa e sacerdotal, no empenho pastoral. Enquanto tudo corre bem, não
há problema. Porém, é só uma vida com fundamento
forte que resistirá às pressões dos contratempos da caminhada!
Mateus deixa bem claro qual deve ser o alicerce de uma vida cristã -
Jesus e o seu projeto de vida, manifestado nas palavras do Sermão da
Montanha. Uma vida cristã, uma vida missionária, uma vida religiosa
construída sobre qualquer outro alicerce, está condenada a desmoronar.
Paulo mais tarde advertirá à elite da comunidade de Corinto, tentada
a substituir Jesus com a filosofia grega “que ninguém ponha outro
afundamento a não ser aquele que já foi posto, Jesus Cristo”
(I Cor 3, 11).
Portanto, somos convidados a fazer uma revisão honesta e sincera da nossa
vida em todos os sentidos. Qual é o alicerce sobre o que construo a minha
vida - sobre algo movediço, que não resiste à prova do
tempo e do desgaste diário, ou sobre o único alicerce que é
rocha firme, inabalável e permanente - Jesus de Nazaré, e o seu
projeto do Reino? A minha religião se baseia só no ouvir e no
falar, ou me leva a um engajamento real para que o mundo se torne aquele que
Deus sonha? O texto de hoje reforça uma outra frase lapidar do Sermão:
“Se a justiça do vocês não for maior do que a dos
escribas e fariseus, não entrarão no Reino dos Céus”
(6, 20). Fortaleçamos o alicerce da nossa vida cristã, fundamentando-a
cada vez mais em Jesus, nas suas palavras, para que possa agüentar as enxurradas
e enchentes e ventanias que a vida traz. Outro caminho é receita para
o desastre!
OITAVO DOMINGO COMUM (25.05.08)
Mt 6, 24-34
“Ninguém pode servir a dois senhores”
O texto de hoje, quando voltamos a celebrar os domingos comuns, nos mergulha
de novo no espírito do Sermão da Montanha (Mt 5, 1 - 7, 27). Coloca
os ouvintes diante da sua escolha fundamental na vida - a quem ou a que querem
servir? - a Deus, vivendo os valores delineados no Sermão da Montanha,
ou o Dinheiro, (que a Bíblia TEB escreve com “D” maiúsculo),
ou seja, o Dinheiro como potência que escraviza o mundo a si? Embora essa
escolha seja exigência de todos os tempos e lugares, torna-se mais urgente
ainda em nossa sociedade de consumo, de exclusão e de acumulação,
que exclui a maioria absoluta da humanidade, condenando-a a uma vida de miséria
e sofrimento. Jesus deixa bem claro que os seus discípulos/as não
podem assumir esses valores consumistas e materialistas, se querem ser fiéis
a Ele e ao seu projeto do Reino de Deus.
Como conseqüência desse princípio, Jesus continua: “por
isso é que lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o
que comer; nem com o corpo, com o que vestir”. Com certeza uma declaração
que soa como estranha a quase todos nós, obrigados a lutar com insegurança
para que as nossas famílias tenham o que comer e vestir. Como não
se preocupar com essas coisas num mundo de insegurança, de desemprego,
de exclusão? Realmente seria no mínimo uma falta de sensibilidade
proclamar aos famintos ou esfarrapados que não era para se preocuparem
com a comida e a roupa. Então o que quer dizer esse trecho?
Essas palavras não são convite a descuidar dessas necessidades
básicas, que seria um atentado contra a vida, e portanto, contra a proposta
de Jesus. A frase deve ser entendida no contexto da situação da
comunidade mateana pelo ano 85 DC, que parece ter sido uma comunidade que tinha
bastante gente próspera (p. ex., Mateus diz que são os “pobres
em espírito” que são bem-aventurados, enquanto Lucas diz
simplesmente “vocês, os pobres”!). O sentido do texto gira
ao redor do sentido do verbo grego “meirmnao” que as nossas Bíblias
traduzem como “preocupeis” (Pastoral, TEB, Jerusalém, Ave
Maria). Isso, obviamente, não quer dizer não cuidar, zelar, ocupar-nos,
mas não deixar que essas coisas nos absorvam de tal maneira que se tornem
o absoluto da nossa vida. Assim, em lugar de usar essas frases para acalmar
os que sofrem falta dessas necessidades da vida, esse texto implica uma denúncia
de uma sociedade excludente como a nossa, que obriga a maioria das pessoas a
dedicar-se totalmente à sobrevivência, esgotando as suas forças
físicas, espirituais e psicológicas na luta diária de simplesmente
sobreviver nesse mundo cruel. Seria beirando a blasfêmia usar essas frases
para apaziguar os sofridos, falando chavões sobre a providência
de Deus, enquanto apoiamos e nos mergulhamos nos valores materialistas da sociedade
neoliberal, sem notar que essa mesma sociedade é a negação
de tudo que o Sermão da Montanha ensina sobre simplicidade, solidariedade,
justiça e o seguimento de Jesus. A chave da interpretação
do ensinamento de hoje está em v. 33: “Procurai primeiro o Reino
e a justiça de Deus, e tudo isso vos será dado por acréscimo”
(trad. TEB). Pois, se criarmos um mundo ou uma comunidade que vive os valores
do Reino e a justiça de Deus (não o que os homens consideram “justiça”
a partir de uma ideologia positivista que favorece os interesses da minoria
dominante), então teremos solidariedade, que garantirá que todos
tenham pelo menos o mínimo para ter uma vida digna dos filhos e filhas
de Deus.
Então, longe de ser “pano quente”, para que possamos ignorar
com tranqüilidade o sofrimento e carência de tantos, o texto nos
desafia para que descubramos sinceramente quais são os nossos valores,
os do Evangelho ou os do consumismo. É uma questão vital para
todos e todas que querem ser seguidores/as de Jesus, pois “onde está
o seu tesouro, aí estará também o seu coração”
(Mt 6, 21).
FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (18.05.08)
Jo 3, 16-18
“Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único”
Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima
Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja
lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza
do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima
do Credo Niceno-Constantinopolitano, infelizmente tão pouco usado nas
celebrações de hoje, onde celebra o Pai “criador de todas
as coisas”, do Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro
de Deus verdadeiro, gerado, não criado”, e o Espírito que
“dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas
expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade,
pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria
Deus.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes
à Trindade, especialmente no último Discurso de Jesus. Dentro
das limitações da linguagem humana, tentamos expressar a mistério
da Trindade como “três pessoas numa única natureza”.
Mas, mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar
o que no fundo é inexprimível, e descobrir o que a doutrina da
Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de
Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem
à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e
mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de
Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita
na diferença. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na medida
que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado
à frustração e infelicidade, pois está negando a
sua própria natureza. O egoísmo é a negação
de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados
na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois
é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo
social, econômico e religioso é tido como critério fundamental
da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação
comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça,
no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança
deste Deus que é amor e comunhão.
A festa de hoje não é de um mistério matemático
- como pode ter um em três - mas do mistério do amor de Deus, que
nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança.
DOMINGO DE PENTECOSTES (11.05.08)
At 2, 1-11
“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”
A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a
comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas
(Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos
olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda
muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois
no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão
e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto
Lucas separa os três eventos, num período de cinqüenta dias.
Por isso, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos
diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição
e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de
Jesus no deserto, para a sua missão. Pois como Jesus ficou “repleto
do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão
“com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade
cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica
de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos
do Espírito Santo” (At , 2, 4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um
relato uniforme e coeso – mas, isso se deve a habilidade literária
do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de
duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições:
a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e
apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética
e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos
se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos:
os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos
do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas
diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos
estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram, assíduos na
oração” (At 1, 14). Quer dizer, a descida do Espírito
não é algo mágico, mas conseqüência da unidade
na fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos
da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o
som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da
descida do Espírito é o “falar em outras línguas”
(não o “falar em línguas” - glossolalia - tão
valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para
um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível
da presença do Espírito não é mais o falar em outras
línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na
sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1,
6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”.
Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir”
na sua própria língua (vv. 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar
que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético
- de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem,
que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade,
do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças,
áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as
maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do evangelho
não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação
cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura
específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas,
e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia.
Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”,
de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais
das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre
de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto
de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído
por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar
o evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação
da Igreja de uma seita judaica à uma comunidade universal, missionária
mas não proselitista, comprometida com a construção do
Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que
a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é
uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito
Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os
samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos,
sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito
Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos
do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária,
não a de falar em línguas, mas de falar a língua única
do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre
todos os povos, culturas, raças e etnias.
Jo 20, 19-23: No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia
da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora
é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação
nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente
a alegria e a paz que Jesus tinha prometido na último discurso. Duas
vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos:
“A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz”
procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom”,
que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende.
O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da
justiça do Reino. Na proclamação do saudoso Papa Paulo
VI “A justiça e o novo nome da paz!”. Jesus não promete
a paz do comodismo, mas pelo contrário, envia os seus discípulos
na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalom, pois
ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo)
sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria
com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos
em Pentecostes, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito
para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do
Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação
de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver
com o perdão dos pecados.
Que a celebração nos anime para que busquemos a criação
de um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa das
armas, da opressão e da injustiça, mas do Reino de Deus, fruto
de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito
Santo - agora depende de nós usar essa força que temos na construção
do mundo que Deus quer.
DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (04.05.08)
Mt 28, 16-20
“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”
Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que
o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo
17: “Ajoelharam-se diante d’Ele” - uma postura de adoração,
de reconhecimento da sua natureza divina. Porém o trecho nos adverte
que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante,
quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.
Depois de um longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina
de uma forma muito resumida, neste texto de hoje. É um texto tão
denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais
coisas em tão poucas palavras. Como gênero literário, reúne
elementos das “entronizações” do Antigo Testamento,
com a comissão apostólica.
Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento,
em Mateus - na Galiléia. Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor
na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos
voltam para a Galiléia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado. Aqui
“Galiléia” significa mais do que um local geográfico!
A Galiléia era lugar da missão de Jesus, onde ele serviu os pobres
e marginalizados da sociedade e da religião. Voltar para a Galiléia
significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém,
símbolo da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina
que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado deve assumir
o seguimento de Jesus, na prática das suas opções, aplicadas
às condições e desafios da sociedade de hoje. O que significa
assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo
e exclusão?
Embora haja uma referência à visão que os apóstolos
tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras. Não há
nenhum relato de uma ascensão, pois para Mateus, já tinha acontecido
junto com a ressurreição. As últimas palavras de Jesus
poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao
presente e ao futuro. Jesus declara que toda autoridade foi dada a Ele no céu
e sobre a terra - o verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus
a autoridade como Filho do Homem. Essa autoridade é a do Reino de Deus
(Dn 7, 14; 2 Cr 36, 23; Mt 6, 10). O mandamento missionário se refere
ao presente dos discípulos - a sua missão universal e permanente
de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias
e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus.
Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza,
e uma Igreja que não está traindo a sua natureza e identidade.
Missão não é proselitismo, não é angariar
novos adeptos para a Igreja - mas é continuar a missão de Jesus,
cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus. Assim somos chamados
a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo
profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o
Reino de Deus - a vivência da vontade do Pai - se torne realidade no nosso
mundo.
Mas, Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão.
Cinqüenta anos depois da Ascensão, a sua comunidade, perseguida
e fraca, experimentava a tentação do desânimo. Por isso,
Mateus insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará
com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porque
desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades.
Pois, como Paulo dizia, a partir da sua experiência prática de
missionário “quando Deus está conosco, nada estará
contra nós”(Rm 8, 11).
A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua
comunidade, mas o contrário, a sua presença de uma nova forma
- na comunidade missionária dos discípulos. Domingo próximo,
celebraremos essa nova presença, na Festa de Pentecostes.
SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (27.04.08)
Jo 14, 15-21
“Ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre”
O nosso texto dá início, dentro da primeira parte do Último
Discurso de Jesus, à seção trinitária, onde o mesmo
tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e
ao Pai (vv. 23-24) – o tema de que, se guardarmos os mandamentos, cada
personagem divino virá e habitará conosco.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes
à Trindade, e ao Espírito Santo, especialmente no último
Discurso de Jesus. Nesse trecho, se enfatiza a necessidade de guardar os mandamentos,
para que possamos receber o dom do Espírito Santo. Aqui encontramos a
primeira de duas promessas no capítulo da chegada do Paráclito,
uma palavra grega que significava, em nossa linguagem, o advogado da defesa.
Em diversos textos João expressa a função do Espírito
dentro da comunidade pós-ressurreicional. Aqui o Espírito agirá
como defensor dos discípulos diante dos ataques do mundo de incredulidade
(lembremos, que na época do escrito, a comunidade joanina estava sofrendo
muitos ataques de diversas origens). Vale a pena notar aqui que o Espírito
Santo será “outro Paráclito”, pois Jesus já
tinha sido defensor dos discípulos durante a sua vida terrestre, e continuará
a sê-lo no céu. O Espírito Santo será o espírito
da Verdade, ou seja, o Espírito que revelará ao mundo a verdade
sobre Jesus, como Jesus já tinha feito, mostrando-nos a verdade sobre
o Pai.
A partir do v. 18, como fez no início do capítulo 14, Jesus volta
a consolar os seus discípulos e a falar da sua volta. Só que aqui
não se refere tanto à sua vinda na Parusia, ou a Segunda Vinda,
mas uma volta espiritual, através de inhabitação divina
em cada discípulo, uma presença real que fará com que os
discípulos compreendam que Jesus e o Pai são um. Assim os discípulos
conhecerão a relação verdadeira entre Jesus e o Pai, e
descobrirão que existe o mesmo relacionamento entre Jesus e eles próprios.
De novo, põe-se a observância dos mandamentos como pré-condição
para que aconteça essa presença, espiritual, mas real. A observância
dos mandamentos não é uma simples exigência legal, mas a
demonstração do amor dos discípulos para Jesus.
Atrás desse texto está o desejo do autor de fortalecer a fé
da sua comunidade em tempos difíceis. Assim, tem muita relevância
para a Igreja, a comunidade dos discípulos hoje. Como então, às
vezes a nossa fé poderá vacilar diante dos ataques, da perseguição
ou até da indiferença do mundo. O texto procura renovar nos leitores
a certeza da presença da Trindade no nosso meio – pois o Espírito
nos dará força para que vençamos as dificuldades e sofrimentos
que eventualmente poderão nos assolar, individual ou comunitariamente.
Também insiste na necessidade de criarmos uma comunidade de amor e solidariedade,
para que a inhabitação divina em cada pessoa e na comunidade possa
tornar-se uma força efetiva no fortalecimento da nossa fé, da
nossa caminhada. Lembremo-nos que no Quarto Evangelho, o Grande Mandamento era
de amar-nos uns aos outros, como Ele nos amou, ou seja na doação
de nós mesmos na luta de criar um mundo onde se vive o sonho de Jesus,
que veio “para que todos tenham a vida e vida em abundância”
(Jo 10, 10).
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (20.04.08)
Jo 14, 1-12
“Credes em Deus; crede também em mim”
O Evangelho de João inicia o tal chamado Último Discurso de Jesus,
com o texto de hoje. Esses versículos – a primeira das três
partes do discurso – contêm a maioria das referências à
partida iminente de Jesus; portanto, é o trecho mais apropriado para
o contexto da Última Ceia. A moldura do texto consiste em dois mandamentos
fortes para acreditar em Deus e em Jesus (vv 1.11). Novamente, cumpre lembrar
que “crer” não é somente um exercício mental,
mas um compromisso de vida – uma atitude vivencial de seguimento de Jesus,
no cumprimento da vontade do Pai.
O primeiro tema do texto nasce da insegurança dos discípulos diante
da partida iminente de Jesus e a perspectiva de serem entregues à sua
própria sorte num mundo hostil, o que ameaça a sua fidelidade
e perseverança (Jo 14, 27; 16, 6.20). Jesus demonstra que a sua partida
não é um abandono, mas o início de uma união mais
profunda com Ele e com o Pai, e que o Espírito Santo os defenderá
contra as pressões do mundo incrédulo. Eles têm que alcançar
uma fé concreta e firme em Jesus, o Filho encarnado, em que se manifesta
a revelação suprema de Deus (cf. 5, 38; 8, 46-47). Jesus os reconforta
com a promessa de uma volta Sua, quando Ele os reunirá a Ele. Aqui parece
ter uma referência à parusia, a segunda vinda de Jesus, uma das
poucas referências em João à chamada “escatologia
final”. Mas é importante que não se limite este retorno
de Jesus aos últimos tempos – pois os verbos no v. 3 estão
no futuro e no presente! Assim o texto enfatiza a presença de Jesus na
sua comunidade, a Igreja. De uma certa maneira, onde se vive a verdadeira comunidade
do discipulado, o que pertence ao futuro escatalógico já acontece.
Tomé mostra que ele entende tão pouco de Jesus como os judeus.
Jesus explica que Ele é o caminho ao Pai, pois Ele encarna a verdade
sobre o Pai e dá a vida que vem do Pai aos seres humanos. Ele é
a única fonte de conhecimento sobre o Pai. Para chegar ao Pai é
necessário um seguimento de Jesus mesmo. Ele não é somente
um guia no caminho, mas a fonte da vida e da verdade. As palavras de Jesus enfatizam
a sua unidade total como Pai – ele o revela e nem as suas palavras nem
as suas obras são d’Ele mesmo, mas nascem da sua unidade com o
Pai. Àqueles que crêem, será dado o dom de manifestar obras
semelhantes e até maiores do que as do Filho. Não se trata de
fenômenos assombrosos (tão queridos de muitos grupos fundamentalistas
hoje!), mas do testemunho dos discípulos, animados pela presença
do Espírito, para que o mundo creia em Jesus. A maior obra seria a criação
de uma comunidade alternativa de amor e justiça – a Igreja –
fiel ao seguimento radical de Jesus. Esses versículos nos convidam a
um profundo exame de consciência sobre a nossa maneira de vivenciar a
Igreja – tantas vezes simplesmente uma conglomeração de
pessoas, sem partilha, sem solidariedade, sem testemunho profético diante
do mundo de classes, de consumismo, de materialismo. Enfatiza a necessidade
de recuperarmos a base mística da nossa fé, que é o seu
fundamento. Sem esta intimidade com Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, as
Igrejas facilmente tornam-se grupos unidos por uma crença, uma lei, uma
ética, mas não por uma experiência profunda do Deus da vida,
manifestado em Jesus Cristo. Para que isso aconteça, o texto enfatiza
a necessidade da oração em nome de Jesus, que vai atender a nossa
prece (somente em João é Jesus que nos atende – normalmente
é o Pai que nos atende através da intercessão de Jesus).
O texto vai continuar com uma reflexão trinitária, onde o mesmo
tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e
ao Pai (vv. 23-24) – o tema é de que a pessoa divina virá
e habitará em nós, se obedecermos os mandamentos.
O texto nasceu na comunidade do Discípulo Amado, numa época de
incertezas e dúvidas. Hoje em dia a nossa Igreja passa por muitas incertezas,
dúvidas e até às vezes parece balançar. Diante dos
questionamentos (até benéficos, na verdade), dúvidas e
porque não, escândalos, que nos abalam, vale a mensagem central
do texto, da certeza da presença de Jesus entre nós, ele que é
o Caminho, a Verdade e a Vida.
QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (13.04.08)
Jo 10, 1-10
“Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”
O texto de hoje manifesta claramente o ambiente pastoril da Palestina no tempo
de Jesus. Os versículos estão carregados de imagens tiradas da
vida dos pastores, nas montanhas de Judéia, imagens rurais que talvez
sejam difíceis de serem bem compreendidas no ambiente urbano de hoje.
Porém, a mensagem básica permanece clara, e é de valor
perene.
Podemos dividir o texto em duas grandes partes. Versículos 1-5 e vv 6-10.
Alguns exegetas acham duas parábolas separadas nos vv. 1-5: os primeiros
três versículos fazem contraste entre duas maneiras de se aproximar
às ovelhas. Quem não entra pela porta é maléfico.
Os vv. 3b-5 têm como enfoque o relacionamento entre a ovelha e o pastor.
Elas só respondem à voz do seu verdadeiro pastor. No contexto
do Evangelho, fica claro que aqui se contém uma advertência contra
o perigo de responder aos ensinamentos dos fariseus, que João apresenta
como falsos mestres. Podemos atualizar essa advertência para os dias de
hoje!
É claro que também aqui temos ecos do Capítulo 34 de Ezequiel,
que castigava os líderes do povo de Israel como maus pastores, que engordavam
às custas do povo. Assim as ovelhas estavam dispersas como ovelhas sem
pastor (Ez 34, 1-10). Nesse capítulo, o Senhor promete que vai reunir
as suas ovelhas dispersas, e conduzi-las às boas pastagens (34, 11-16).
O nosso texto faz compreender que Jesus é o instrumento desta missão
de Javé, pois é Ele o verdadeiro Bom Pastor.
A segunda parte, 10, 7-10, usa as metáforas da porta e do bom pastor.
Jesus é a porta do aprisco, e também o bom pastor. João
quer insistir que Jesus é a única fonte de salvação.
Os que vieram antes d’Ele, provavelmente uma referência aos mestres
judaicos e às suas tradições, são rejeitados. É
Jesus que veio para que todos tivessem a vida plena.
Aqui é necessário insistir que a missão de Jesus era trazer
a vida para todos – não para alguns – e a vida plena, não
uma suposta “vida espiritual”. Vida plena, em abundância,
exige tanto os bens materiais necessários para uma vida digna, como os
bens espirituais. Assim, o seguimento do Bom Pastor, nos coloca em choque com
a sociedade vigente que restringe a vida plena a alguns privilegiados, enquanto
exclui a maioria da humanidade. O texto impede que nós nos refugiemos
numa interpretação espiritualista, oferecendo uma vida plena após
a morte, pois o Reino de Deus que Jesus anuncia já está no meio
de nós, mesmo que a sua realização pela só acontece
no além. O v. 11 nos manifesta o preço a ser pago por ser bom
pastor! Jesus afirma que “o bom pastor se despoja da própria vida
por suas ovelhas” (v. 11). Enquanto o mercenário sacrifica as suas
ovelhas ao seu interesse, o bom pastor entrega a sua vida até a morte
para que os outros vivam.
As imagens do texto são por demais conhecidas. Todos conhecemos cartazes
mostrando Jesus como o Bom Pastor. Cumpre assumir a continuidade da sua missão,
entregando a nossa vida na luta diária para a criação de
uma sociedade mais justa e humana – portanto, divina – pois só
assim seremos fiéis a Aquele que veio “para que todos tenham a
vida e a tenham em abundância”.
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (06.04.08)
Lc 24, 13-35
“Reconheceram Jesus quando Ele repartiu o pão”
Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos
dois discípulos na estrada de Emaús. Aqui temos o retrato das
suas comunidades - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir
a presença do Ressuscitado entre elas. Lucas procura reanimar o seu pessoal,
mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário,
estão caminhando junto com a presença do Senhor que venceu a morte.
Essa história pode nos ajudar bastante hoje, pois nos indica como devemos
usar a Bíblia para animar a nossa caminhada. Jesus é o mestre
da Bíblia, e aqui ele ensina como aproveitar a Escritura para iluminar
os problemas práticos da nossa caminhada, e nos dar coragem na nossa
missão de evangelizadores.
O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama
que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:
O primeiro ato: versículos 13-19a: “Introdução”
O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos
já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós
seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos
era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de
tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante
onze quilômetros de Jerusalém”. Aqui é bom lembrar
que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no
dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no
dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade para sair de Jerusalém,
e aproveitaram bem - já estão voltando para a sua casa. A cena
começa com a desintegração da comunidade cristã.
Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem
esperança.
Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas! E o outro?
O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe
do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19,
25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos fossem
um casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação
pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é
uma hipótese agradável e possível. Pois, sendo assim, a
descoberta da presença do Ressuscitado dar-se-á num lar e não
numa hospedaria anônima. Seria bem de acordo com a valorização
na obra de Lucas da Igreja Doméstica, a Igreja que se reuniu nas casas,
como fazem tantas Igrejas vivas de hoje.
De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas
quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver
- tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar
como Jesus se comporta, através do verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”,
“caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio
“dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas.
Ele criou um ambiente de fraternidade onde fosse possível explicar tanto
a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas
comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância!
Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer
a realidade dos nossos irmãos e irmãs! E por isso mesmo, muitas
vezes não têm efeito as nossas reuniões, os nossos encontros
bíblicos.
O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é
que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá
uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem
moralismo. Ele parte da realidade dos dois.
Segundo ato: vv 19b-24: “Os discípulos falam”
Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não
titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante
da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos
que ele fosse o libertador de Israel”(v. 21) Eles “esperavam”,
portanto não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção,
desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus,
pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos
vão muito além de uma simples tristeza!
É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi que
matou Jesus - não foi o povo, foram grupos de interesse bem definidos:
“Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado
à morte, e o crucificaram”(v. 20). Para não reduzir a morte
de Jesus a uma fatalidade qualquer, ou a algo desejado pelo Pai, é mister
examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas.
Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes”
- um grupo de sacerdotes saduceus, que dominavam o comércio do Templo,
lucrando muito com a exploração do povo através da religião,
e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e profetismo
de Jesus. Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”,
ou seja, os membros do sinédrio, na maioria pertencentes ao partido elitista
dos saduceus (não dos fariseus), e colaboradores com o poder romano,
lucrando bastante com isso. Então Jesus foi morto não por acaso,
mas para defender os privilégios da elite dominante! A cruz era a conseqüência
lógica da vida de Jesus!
Outro elemento importante é o fato de que eles sabiam do túmulo
vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história
das mulheres. Mas isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que
a nossa fé não se baseia num túmulo vazio! É a nossa
fé na Ressurreição que explica porque o túmulo estava
vazio, e não o túmulo que dá consistência à
nossa fé!
Terceiro ato: vv 25-27: a Bíblia
Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram”(v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam de cor os salmos e as profecias. O seu problema era que embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isso é, Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus!
Quarto ato: vv 28-32: a partilha
Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não numa hospedaria, como normalmente a gente supõe. E aqui temos o ponto central da história - pois até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas agora sim. Jesus se põe a mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles”(v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31). E, neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles! Por que? Porque, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física. E agora eles caem dentro de si e reconhecem que: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?”(v. 32). A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas para “abrir os olhos” é necessária a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!
Quinto ato: vv 33-36: a missão
Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de missão. Os mesmos dois que de manhã fugiam de Jerusalém, pois era o lugar da morte, da perseguição, do fracasso, de tarde se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. E a história que começou com a comunidade se desintegrando, termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34). E os dois de Emaús puderam contar: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando Ele partiu o pão” (v. 36).
Esta história pode servir para nós como paradigma de um círculo
bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós
damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais
- a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade.
E é na união entre estes elementos que se revela a presença
do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes
aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna: “Lâmpada
para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos
unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos
como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem
hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7)
SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (30.03.08)
Jo 20, 19-31
“A Paz Esteja Com Vocês”
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena traz a notícia da Ressurreição
aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus
que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa
nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria
e a paz que já tinha prometido no ultimo discurso. Duas vezes Jesus proclama
o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos – “A paz
esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir
– embora duma maneira inadequada – o termo hebraico “Shalom!”,
que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende.
O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da
justiça do Reino. O SHALOM pode ser definido como “o bem-estar
total para todos/as” - é tudo que Deus deseja para os seus filhos
e filhas. Tem muitas conotações de justiça social. Como
disse o saudoso Papa Paulo VI, “A justiça e o novo nome da paz!”.
Jesus não promete a paz do comodismo, mas pelo contrário, envia
os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas
promete o shalôm, pois ele nunca abandonará quem procura viver
na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo)
sobre Adão, quando infundiu nele o espírito de vida. Jesus os
recria com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos
em Pentecostes, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito
para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do
Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação
de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver
com o perdão dos pecados.
Mais uma vez, num domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase
sobre o Domingo – duas vezes). Esta vez, Tomé está presente.
Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século,
que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos
e tribulações da vida. E assim nos representa, quando nós
vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os
que acreditaram sem ter visto!”. Essa muitas vezes será a realidade
da nossa fé – acreditar contra todas as aparências que o
bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte! Somente uma fé
profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vai nos
dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé
(Sl 35,23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos
deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento
crescente de quem ele era; aqui Tomé lhe dá o título final
e definitivo – Jesus é Senhor e Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o evangelho
original terminava. (O Capítulo 21 é um epílogo, adicionado
mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era
Deus”. Agora ele repete essa afirmação e abençoa
todos os que a aceita baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada
– mostrar a divindade de Jesus para que, acreditando, todos pudessem ter
a vida nele.
DOMINGO DE PÁSCOA (23.03.08)
Jo 20, 1-9
“Ele viu e acreditou”
Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição,
cada um de acordo com as suas tradições. Mas certos elementos
são comuns a todos: o fato do túmulo estar vazio, de que as primeiras
testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e
identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para
vigiar e lamentar), e de que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso
a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo
dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os
homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras
gerações fizeram questão de diminuir a importância
das discípulas na tradição – e a Igreja sofre até
hoje as conseqüências, com pouco espaço para mulheres nas
instâncias decisórias da Igreja, apesar da sua enorme participação
nas atividades das comunidades.
Lendo os relatos, um fato salta aos olhos – ninguém esperava a
Ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança,
a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos
eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar
o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a
Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente,
pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem sonhar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais)
e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um
dos doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão
histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e
a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo
Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê
sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro
só realmente vai conseguir confirmar o seu amor por Jesus no Capítulo
21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13.
Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra
além das aparências!
Como em Lucas 24, na historia dos Discípulos de Emaús, o texto
demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo
vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé
na Ressurreição, mas o contrário - e a experiência
da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo
está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa
fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil
não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto
sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção
endêmica, salário mínimo baixo, saúde e educação
sucateadas, sem falar de desastres naturais que assolam tantos lugares no mundo!
Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador
no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor,
com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas,
da graça sobre o pecado! Nós todos somos discípulos amados,
pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (cf. Rom 8),
mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos
a Jesus e ao próximo? E lembramos que o “ágape”, o
amor proposto pelo evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude
de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste
no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que
nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por
nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos
amar-nos uns aos outros”(I Jo 4, 10-11).
A Ressurreição é um elemento básico da nossa fé
– não a re-encarnação, que é doutrina totalmente
não cristão, nem a imortalidade da alma, mas a ressurreição
do corpo. Pois como disse Paulo aos Coríntios: “se os mortos não
ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não
ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória”(I
Cor 15, 16-17).
Tem dois pontos que são muito importantes quando refletimos sobre a Ressurreição:
primeiro, Jesus vive! Ele continua a ser experimentado na vida das comunidades
como presente e atuante, ainda que dum modo radicalmente novo. Ele se torna
uma figura do presente e não somente do passado. Essa afirmação
se baseia na experiência de cristãos ao longo dos séculos.
Jesus continua a viver e atuar e é experimentado por cristãos
até hoje.
Segundo, a Ressurreição prova que Jesus é o Senhor! Isso
quer dizer que Deus vindicou Jesus e disse “não” aos poderes
que o mataram. A Ressurreição de Jesus não trata somente
da vida depois da morte ou dum final feliz da história, como em novela.
A ressurreição de Jesus é o sim de Deus contra os poderes
que o mataram. Os relatos na NT destacam isso de maneiras diferentes: Em Lucas
e João, Jesus ressuscitado mantém os ferimentos do império
que o executara. Em Mt, Jesus ressuscitado recebeu poder sobre todas as autoridades
do mundo. Mc simplesmente diz “vocês estão procurando Jesus
de Nazaré, que foi crucificado; ele ressuscitou”. Os evangelhos
não falam da ressurreição de Jesus sem ligá-la à
crucificação por ordem dos poderes dominadores do mundo. Jesus
é o Senhor, então eles não o são. A Ressurreição
afirma que os poderes desse mundo não têm a última palavra.
Essa também foi a convicção de Paulo - e o colocou em roteiro
de choque não somente com os líderes do seu povo, mas com a autoridade
imperial também Dizer que “Jesus é o Senhor” significa
que “César não é o Senhor!” O poder imperial
crucificou “o Senhor da Glória” (I Cor 2,8), mas Deus o ressuscitou
e lhe concedeu o nome que está acima de todos os demais. (cf. Fil 2,
9-11). (cf. o livro de Borg e Crossan “A Última Semana”)
Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre
a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar
muito em nossas vidas.
DOMINGO DE RAMOS (16.03.08)
Mt 21, 1-12; Mt 26,14 – 27,66
Bendito aquele que vem em nome do Senhor!
Neste primeiro dia da Semana Santa, pelo menos na tradição católica
no Brasil, com certeza não há comunidade que não celebre,
com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém.
Organizam-se procissões e encenações, e quase todos fazem
questão de levar alguns ramos bentos para a casa.
Porém é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada
de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade.
O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando em v. 5
cita o profeta Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira,
estava fazendo uma releitura de Zacarias 9, 9-10. O profeta (conhecido como
Segundo Zacarias, pois capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos)
vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando
Palestina e o seu povo eram dominados pelos Impérios Helenistas (Cultura
gerga), depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido,
manter viva a chama de resistência através da esperança
na chegada dum Messias, que teria três grandes características:
seria rei (9, 9-10), bom pastor (11,4-17) e “transpassado”(12, 9-14).
Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em
Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do
Rei esperado pelos pobres de Javé.
Mas o rei proclamado por Zacarias e concretizado em Jesus era bem diferente
dos reis dos páises de então. Enquanto estes faziam questão
de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes,
o rei previsto por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado num jumento
– o animal do pequeno agricultor. Pois o seu reino seria, não de
dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça
e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de
alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando,
justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho,
filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os
cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará
a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de
mar a mar” (Zc 9,9).
A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal
– mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, e uma viravolta
nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressores
dos Reinos mundanos, a celebração de Javé, o libertador,
que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (veja Ex 3,7). Celebrar
a memória deste evento no Domingo de Ramos deve nos levar a um cumpromisso
maior com a construção dum mundo de paz verdadeira, fruto de justiça,
partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que
é o triunfo da fraqueza de Deus, da Cruz, do projeto do Reino, pois como
disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens
e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(I Cor 1,25).
Cuidemos de não transformar a celebração litúrgica
num folclore, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que
fizeram em Jerusalém, conforme o hino “Queriam um grande Rei que
fosse forte, dominador e por isso não creram nele e mataram o Salvador”.
A celebração de Domigo de Ramos é realmente uma da vitória,
mas da vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento
de Jesus, até a Cruz e a Ressurreição. Evitemos criar uma
caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade,
e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de
Jesus – reacender a esperança dos excluídos, marginalizados,
pobres e oprimidos, assumindo cada vez mais ações concretas na
busca da construção do Reino de Deus entre nós.
QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (09.03.08)
Jo 11, 1-45
“Eu sou a Ressurreição e a Vida”
Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto
dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão
literária e teológica deste Evangelho. Nele os primeiros onze
capítulos formam que é normalmente entitulado “O Livros
dos Sinais” ou seja, relatam onze sinais (tradução melhor
do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo
mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade
mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão
de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná
(2, 1-11), a cura do filho dum funcionário real (4, 46-54), a cura do
paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães, (6, 1-15)
caminhar sobre as àguas (6, 16-21), a cura do cego de nascença
(9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro
(11, 1-45), o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação
para Capítulos 13-20, O Livro da Glorificação.
Portanto devemos sempre ter presente que o relato dum sinal sempre quer revelar
algo sobre Jesus. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre
a não ser que já se tem fé em Jesus, os sinais em João
revelam uma verdade sobre Jesus e leva as pessoas a aprofundar a sua fé
nele. Assim, no texto de hoje, não devemos centralizar-nos sobre a pessoa
de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas descobrir o
que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através
do texto.
Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos
21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já
corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo,
mas rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo
entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição
e a Vida acontece através da fé nele, o Enviado de Deus, que veio
para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse
(veja Jo 10, 10-11). Vale a pena notar que, no Evangelho de João, a primeira
pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher,
Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do
cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada
através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a
morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição
e Vida ( 11, 25-27).
Mas Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria
vida. Pois o relato de João enfatiza que ele dará a sua vida para
que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase
famosa “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação
toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe
não acontece sem que ele se esbarre contra os interesses dos poderosos
da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-o.
É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele
faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga me”(Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra
tudo que é de morte, de dominação, de exploração,
de exclusão, tem bem desenvolvido pela Campanha de Fraternidade deste
ano.
Vale notar que no fim da história, Lázaro é desatado dos
panos e sudário – pois ele vai precisá-los de novo, pois
ainda passará pela morte! A Ressurreição de Jesus, que
logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão
de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio,
eles vêem o sudário e os panos no chão – pois Jesus
não foi simplesmente ressuscitado, mas passou pela ressurreição,
para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura
o que aconteceria com Jesus duma maneira mais definitiva e por conseguinte,
a todos nós. Que a nossa fé naquele que é “a Ressurreição
e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena”
nos leve, não à religião intimista e individualista, mas
a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo
da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além
do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude
do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, seja
qual for a sua raça, cultura ou religião.
QUARTO DOMINGO DE QUARESMA (02.03.08)
Jo 9, 1-41
“Eu sou a luz do mundo”
Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar
verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto
de hoje é mais uma vez um texto comprido, um capitulo inteiro, tirado
do Evangelho de João. Como no Domingo passado (A Samaritana), mais uma
vez encontramos traços característicos do Quarto Evangelho –
o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos,
de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade
joanina que Jesus era “a luz do mundo”(v.5).
O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura dum cego de
nascença. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original,
e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem
da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego
curado simboliza todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.
Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho
enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura – Silóe, que significa
“enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal,
João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus
– O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o
batismo.
Analisando as etapas do texto, podemos encontrar um aprofundamento na fé
do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado
pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio
Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos
vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus,
ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele
chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica
do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, ou seja, o Enviado de
Deus.
A historia reflete algo da situação da comunidade joanina, pelo
fim do primeiro século. Pois no tempo de Jesus ninguém era expulso
da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após
85 a.C., com a reconstituição do judaísmo, na sua forma
farisaica e rabínica, após a destruição de Jerusalém.
Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição,
situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão
da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luz da vida, a
vida plena em Jesus.
O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus
perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a
situação deles é muito pior – não é
que não possam ver, é que não querem ver! A história
iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de
muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não
é causada pelo pecado (v.3). Termina afirmando que a cegueira pior, a
espiritual, realmente é conseqüência do pecado. A missão
de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que
estão cegos e que chegam à fé, são curados e recebem
a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de
ser os esclarecidos, se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos,
mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.
Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais
gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença,
durante séculos e hoje ainda, diante da situação das massas
excluídas e marginalizadas. Quantas vezes a fé em Jesus é
proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento
daquele que é “Luz do Mundo”. O nosso encontro com O Enviado
tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos
o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência
da mística do seguimento dele, continuando a missão de Jesus que
disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.
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no rádio, sempre citando a fonte: www.maikol.com.br