Pe. Tomas Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
Revisão do texto: www.maikol.com.br
Padre Tomas Hughes, Missionário da Sociedade
do Verbo Divino, nascido em Dublin na Irlanda, escreve as seguintes REFLEXÕES
HOMILÉTICAS:
- - -
Reflexões sobre a Palavra de Deus para os domingos:
Festa da Sagrada Família (27.12.09)
Lc 2, 22-40
“Ele crescia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”.
O Evangelho da Festa da Sagrada Família é tirado do segundo
capítulo de Lucas. Mais uma vez encontramos um tema muito importante
para esse Evangelho - o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante
o Advento, Lucas fazia o paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista
de um lado, e Maria, José e Jesus, do outro. No texto de hoje, os justos
da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão
e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam
nesse relato - o Espírito Santo e a opção pelos pobres.
Lucas enfatiza que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8),
para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício
era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da
manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus para os pobres.
Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles - como,
aliás, era toda a população do Nazaré de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel,
os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido
no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”.
É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir
em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança
agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa
Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada
de Maria com Jesus, agora Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a
novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas
coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (Lc 4, 25-28;
4, 31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23, 55-24, 35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste
que o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em
dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que
os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério
de Jesus. V. 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados
do que se dizia d’Ele” - mais uma vez nos apresentando José,
e especialmente Maria, como modelos de fé. Não obstante, qualquer
revelação que eles tivessem, também tiveram que caminhar
na escuridão da fé, descobrindo passo a passo o que significava
ser discípulo de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava
com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradual, como com todos nós,
e a família de Jesus tinha um papel importantíssimo no seu crescimento.
Se, como adulto, Ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema
tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através
da experiência do seu pai adotivo, José. Se Ele foi criado na espiritualidade
dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus
pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia
no ambiente familiar. Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar,
o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José,
na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o
amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose,
a importância do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão
da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família
unida uma ameaça aos seus contra-valores.
Missa do Dia (25.12.09)
Jo 1, 1-18
“O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós”
Embora estejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente
ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho da Missa
do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o sentido profundo
dos eventos do primeiro Natal.
O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” - “Logos”
em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de
Jesus com o batismo d’Ele, Lucas e Mateus remontam até a sua concepção,
o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:
“No princípio já existia a Palavra e a Palavra estava com
Deus; e a Palavra era Deus. A Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós”
(Jo 1, 1.14)
Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares
para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição
do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar
a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma
discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas muito
mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica
a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do
Deus de amor de libertação.
O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda
(ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen”
deriva-se do termo “skêne”, que significa uma tenda de campanha.
Na visão do Quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou
sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!”
Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo,
lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto
de Jesus de Nazaré. N’Ele e por Ele a Palavra Criadora age, operando
a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério
da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável
da sua missão e projeto.
Mas, essa Encarnação tornou-se o divisor das águas para
a humanidade. Pois, “Veio aos seus e os seus não a acolheram”.
Assim, o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa
existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra encarnada
não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir
de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma
adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em
nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que
me disser “Senhor, Senhor!” entrará no reino de Deus, mas
aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21).
O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus,
e nos diz: “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus,
os que creram n’Ele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo
da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).
Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme na nossa
fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição
de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 7) e como resultado
dessa renovação espiritual nos encoraje para continuarmos na luta
para criar o mundo que Deus quer - de justiça, solidariedade e fraternidade,
no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância”
(Jo 10, 10). Como nos diz Hebreus: “Corramos com perseverança na
corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé...
Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo,
pensem atentamente em Jesus.” (Hb 12, 1-3)
Missa da Aurora (25.12.09)
Lc 2, 15-20
Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo
que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor numa verdadeira
orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento
do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda hoje com a
sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o néo-paganismo
pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.
As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos de
Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através
da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que
põem a origem de Maria e José em Nazaré e junto-as às
que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere na história
humana e universal, através das suas referências a grandes figuras
históricas da época, César Augusto, Herodes o Grande e
o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que
contem oito dos seus temas preferidos - alimento, graça, alegria, pequenez,
paz, salvação, “hoje”, e universalismo, para trazer
à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria
para todo o povo” (Lc 2, 10).
Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos
em Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não
se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento
feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador
bem dentro da história humana - e especialmente a história humana
dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados
a sair da sua casa pela força opressora do império, pois a finalidade
de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim
o Messias nasce em condições subumanas e indignas - como nascem
e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade
atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um
tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no
primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios,
algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá
à luz numa gruta ou estrebaria e deita Jesus numa manjedoura.
Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião
e sociedade de então - os pastores. No tempo de Jesus eram considerados
como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem, por isso não
mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É
importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias
proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe
para testemunhar os dois eventos mais importantes da história - o nascimento
e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão
dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía - enquanto
a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente
nos templos de consumo de hoje - os Shoppings, onde pessoas pobres são
excluídas do banquete de poucos. Que contradição!
É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: “Glória
a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas
cria um binômio - dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar
glória a Deus no alto e a criação da paz entre as pessoas
aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal
de reflexões teológicas, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo
“paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica
“Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de
violência física, mas inclui a realização de tudo
que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos
convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso
esforço em criar um mundo de Shalom - onde todos possam “ter a
vida e a vida em abundância!” (Jo 10,10)
É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa
da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se”
(v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu
íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo
verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrever a perplexidade
íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um
fato. Assim Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido
do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu
significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo
dos acontecimentos - se tornou peregrina na fé, modelo para todos nós,
nos convidando a mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os
mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós,
hoje.
A festa do Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos
no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação.
Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais
colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar
e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do
ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings - mas
retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo
de uma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu para nos
o Salvador!
NATAL: MISSA DA VIGÍLIA DO NATAL - (24.12.09)
Lucas 2, 1-20
Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito
material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e
José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as
com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através
dessas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”,
“graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”,
“salvação”, “hoje”, e “universalismo”.
Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas! Este trecho
pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus – Lc 2, 1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus – Lc
2, 8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos – Lc 2, 15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos Lc
11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará
o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste
com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância,
Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso
Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino
de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade,
o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa
“paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força
militar prepotente - a “Pax Americana!”. Essa revelação
da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada
por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que
meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um
dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom
não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente
sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato
quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem
as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios,
até o boi e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou
estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes
a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de
hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que
é mais forte do que os homens! (I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas
dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas
desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. Mas, é para essa
gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros
a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas
à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente
são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição
- as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção
preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não
ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”.
Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação
de Deus irrompe no mundo “hoje” - não numa data futura distante.
Esta idéia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura
de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem”
(4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou
nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje
estarás comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação
está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social,
e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura
e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força
e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido
em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia
complementa o que foi já anunciado à Maria em Lc 1, 31-33, por
Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo
o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria,
porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração”
(v. 19). Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a
diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta
o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A idéia
volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração
todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada
de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos
o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos
pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam
visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que
não dê para os oprimidos motivos de alegria, coragem e louvor a
Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!
QUARTO DOMINGO DO ADVENTO (20.12.09)
Lc 1, 26-38
“Faça-se em mim segundo a tua palavra”
Maria de Nazaré, junto com o Batista e o profeta Segundo-Isaías,
é figura importante nas leituras do tempo do Advento. O texto de hoje
é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado.
É essencial para entendermos a figura de Maria que as Escrituras nos
apresentam.
No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe
àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Entre os dois relatos há
um paralelismo claro. Naquele relato, quem recebe o anúncio é
um sacerdote, idoso, no Templo judaico. No texto de hoje, é uma moça,
jovem, no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acreditou,
e ficou mudo... simbolizando que os ritos do Templo não tem mais nada
a dizer! Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres”
(1, 42).
Infelizmente ,muitas vezes esse trecho é interpretado de maneira a nos
apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão - é ideologicamente
usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, devem ficar passivas
e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente
o que Lucas quer nos dizer!
Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1, 29; 2, 19; 2, 50s), aceita
não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas, ser protagonista
da realização desse plano divino. A frase “faça-se
em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como
o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização
do plano de Deus o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar
- isso seria muito pouco - mas à grande visão de Deus para os
seus filhos e filhas. Um pouco adiante, Lucas vai mostrar o alcance dessa frase,
quando na boca de Maria ele coloca o grande canto de libertação,
que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade
da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat
(Lc 1, 46-55). O que é que Maria quer quando ela pede que seja feita
a vontade de Deus n’Ela? Ela quer a realização da viravolta
no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar
os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e
exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos
vazias” (Lc 1 ,51-53).
Num mundo onde a realidade é a prepotência e a violência
dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão
na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista
da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber
o Salvador no Natal, tem que se comprometer de uma maneira concreta na construção
de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário
ao que vivemos hoje, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.
TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO (13.12.09)
Jo 1, 6-8. 19-28
“Aplainai o caminho do Senhor”
Novamente, a figura central do evangelho de um domingo do Advento é
o Precursor, João Batista. Essa vez, em um texto tirado do Evangelho
de João, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele
assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”,
usando uma frase tirada de Isaías 40, 3. No texto de Isaías, essa
frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados
do cativeiro na Babilônia, no início do tal chamado “Livro
da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João
Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria - a vinda
do Messias, Jesus de Nazaré!
Nesse texto, já no primeiro capítulo do Quarto Evangelho, entram
em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus - as autoridades
dos judeus. Embora às vezes nesse Evangelho o termo “os judeus”
designe o povo de Israel em geral (Jo 3, 25; 4, 9.22 etc), aqui, como na maioria
das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende,
e eventualmente hostiliza, Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente
as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época,
ou seja, os sumos sacerdotes, os fariseus e os escribas, ou doutores da Lei.
Atrás do texto também dá para entrever a tensão
que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado, nas décadas
depois de Jesus, entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por
isso, a insistência no texto em informar que João “não
era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus.
No mais, o evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1, 1-8) - um convite
para que todos nós preparemos o caminho do Senhor. “Aplainai o
caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós,
tirando das nossas vidas tudo que possa impedir um encontro real com Jesus.
No nível individual, aqui há um convite para uma conversão
pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós.
Mas, também, há o desafio para que nos empenhemos na luta contra
tudo que possa diminuir a vida humana - tudo que causa sofrimento aos nossos
irmãos e irmãs. Pois, o pecado que existe no mundo não
é somente pessoal, mas também social - e muito mais do que a soma
dos erros individuais.
O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que
tiram de tanta gente a dignidade dos filhos e filhas de Deus. Basta lembrar
das estatísticas publicadas há pouco que demonstram que atualmente
mais de um bilhão de pessoas na terra passam fome - num mundo que esbanja!
A voz do precursor, como a de Isaías quinhentos anos antes dele, nos
desafia para que a nossa conversão pessoal também se manifeste
no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo,
humano e fraterno - o mundo que Deus sonhava, o Povo de Deus vislumbrava e Jesus
veio estabelecer, a concretização do Reinado de Deus entre nós.
SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (06.12.09)
Mc 1, 1-8
“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”
O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos
a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, talvez na Síria. Marcos tem
o grande mérito de ser o criador desse gênero literário,
hoje tão conhecido, chamado “Evangelho”, o que literalmente
significa “Boa Nova” ou “Boa Notícia”. Porém,
quando no primeiro versículo da sua obra ele se refere ao “começo
do Evangelho”, ele não se refere ao gênero literário,
mas à própria Boa Nova, que é a mensagem de salvação
em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois, o escrito é
somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa
Boa Notícia, - tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos
(pois morreu pelo ano 66), pôde falar aos Gálatas do “Evangelho
por mim anunciado” (Gl 1, 11).
Como parte da nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos
apresenta a pessoa e mensagem de um dos grandes personagens do Advento - João
Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento,
tiradas do profeta Malaquias 3, 20, Isaías 40, 3 e Êxodo 23, 20,
Marcos enfatiza o papel de João como Precursor - aquele que prepara o
caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz
uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias.
Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança,
anunciando a chegada da Boa Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré.
O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o
reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora
o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação,
o texto nos lembra que não será possível uma preparação
adequada para a vinda do Senhor no Natal, sem que passemos pelo processo de
arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no
perdão dos pecados.
A ênfase mesmo está na aceitação não somente
do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente “atrás
de mim”. A expressão, que denota a dignidade da pessoa que há
de vir, como num cortejo, põe toda a importância nela - pois tirar
as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais
importante, pois com a vinda d’Ele inaugura-se o tempo de salvação,
esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
A voz de João ressoa de novo hoje, convidando a todos nós, não
somente pessoalmente, mas também como comunidade, Igreja e sociedade,
a prepararmos os caminhos do Senhor, endireitando as suas veredas! A preparação
para o Natal implica o empenho de todos para que os males, individuais e sociais,
sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador
e não somente uma festinha, vazia de sentido.
A crise econômica e social em que o mundo se encontra atualmente mergulhado,
deve nos levar a refletir sobre os valores e destinos da nossa sociedade consumista
e excludente. Centenas de bilhões de dólares já foram gastos
para escorar um sistema que mostra graves sinais de falência. Mais uma
vez, são os menos favorecidos que vão pagar pelos erros dos especuladores
financeiros. O Natal, muitas vezes “sequestrado” como festa de compras
e gastos, pode ser para nós um novo começo, uma redescoberta dos
verdadeiros valores familiares, religiosos e de solidariedade. Mas, isso exige
a conversão de uma mentalidade consumista para uma de partilha, em que
o que vale é o “ser” e não o “ter”. Mais
do que nunca, a mensagem de João, o Batista, torna-se atual e desafiante.
PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (29.11.09)
Lucas 21, 25-28.34-36
“A libertação de vocês está próxima”
Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha num dos
discursos escatalógicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa imagens e
símbolos que não são da nossa cultura e época, e
por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes
de hoje. Porém, na literatura apocalíptica não é
necessário interpretar cada imagem detalhadamente - o mais importante
não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não
cada imagem e símbolo, mas a sua mensagem de conjunto.
O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” - o título
que nos Evangelhos Jesus mais usava para si mesmo, e que nós pouco usamos.
Este título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel:
“Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu
vinha alguém como um filho de homem... Foi-lhe dado poder, glória
e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram.
O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o
seu reino é tal que jamais será destruído.” ( Dn
7, 13s)
Então, Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo
que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano
175 a.C. - que embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios
opressores sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de
uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, através do seu
Ungido - o Filho do Homem - revelará o seu poder, e estabelecerá
um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em Jesus!
Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota
medo nos ouvintes é necessariamente errada, pois a função
da literatura apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos
e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é uma
mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem
a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação
de vocês está próxima.” (v. 28)
Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica - nos afirma
que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em controle todos as forças,
sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar - símbolo de forças indomináveis
na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado
traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia
dos malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça
erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem.
Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem
cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis
por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida.”
( v. 34)
Pois, é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a
não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com
um conselho válido também para os discípulos dos tempos
modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força.”
( v. 36)
O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir
se realmente estamos atentos o tempo todo para não perdermos as manifestações
da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos
mais à oração, para renovarmos as nossas forças,
para não cairmos na armadilha da “inatenção”
no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que
os nossos corações continuem “sensíveis” aos
apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso
dia-a-dia!
FESTA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (22.11.09)
Jo 18, 33b-37
“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”
Como é de costume na Igreja Católica, hoje, no último
domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários
nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar
que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que
milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo
disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual
a inspiração original da festa - que Deus é o único
Absoluto. Num mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois
presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas
atitudes e ações concretas - para descobrir o que é para
nós, na verdade, o valor absoluto da nossa vida.
O texto é tirado da paixão segundo João - o diálogo
entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que
lhe é típica, João faz com que Pilatos - o representante
do poder absoluto da época, o Império Romano - apresente Jesus
como Rei, o que Ele é na verdade, mas, não da maneira que Pilatos
possa entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império
Romano - não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas
o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do
Deus da Vida.
É exatamente por ter semeado este Reino que Jesus deve morrer –
aliás, não morrer, mas ser matado, o que é diferente. Pilatos
- como também acontece nos outros Evangelhos - demonstra isso quando
ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo,
mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender
o que isso significa, pois, se Jesus foi matado, houve algum motivo, e houve
alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos
nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerusalemita,
donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. E o Templo funcionava
como Banco Central, centro de arrecadação de impostos, e lugar
de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a
moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político,
econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado
por Pilatos. Pois, o Reino de Deus se opõe frontalmente com qualquer
reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção
de um Reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente vai
entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e
da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar
a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças,
torne-se porta-voz dos valores desses reinos. Não faltarão incentivos,
monetários e outros, para que as Igrejas caiam nesta cilada. Por isso,
como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é mister ficarmos
sempre vigilantes, para que verifiquemos se a nossa vida prática está
mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.
Para João, Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade,
que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta,
não causa a divisão; mas, desmascara a divisão que existe
dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto
da morte e um projeto de vida, uma divisão que permeia todos os elementos
da sociedade. Diante d’Ele, não há lugar para meio-termo
- todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo
triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência
- tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o
nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada,
continua sendo Pilatos!
TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (15.11.09)
Mc 13, 24-32
“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”
O texto nos apresenta diversas dificuldades de interpretação,
pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências
veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas
de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para
nós. Porém, a sua mensagem central fica clara - o triunfo final
do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu Reino. A linguagem
vetero-testamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do
Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas num contexto
novo, em que a vinda escatalógica de Jesus como Filho do Homem se torna
o evento central. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como
prova da vitória de Deus - e a expectativa desta chegada serve como base
da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos
ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência
a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10; Ez 32, 7; Am 8, 9; Jl 2, 10.31; 3,
1-5; Is 34, 4; Ag 2, 6.21. Mas, em nenhum lugar no Antigo Testamento se referem
à vinda do Filho do Homem - é uma novidade do evangelho. A lista
desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação
assinalará a sua vinda final. A descrição da chegada do
Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7, 13;
mas, aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica
“em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação
de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2, 10. Este reunir-se
dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30, 4; Is 11, 11.16;
27, 12, Ez 39, 7 etc, - mas nunca no Antigo Testamento é o Filho do Homem
que faz esse trabalho.
A segunda parte do texto consiste numa parábola (vv. 28-29), um ditado
sobre a hora do fim (v. 30), sobre a autoridade de Jesus (v. 31) e de novo sobre
a hora (v. 32). Nem sempre fica claro a que se refere - o que se fala sobre
essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como
contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola
sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição
a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas, continua clara
a mensagem básica - a vitória final do projeto de Deus, concretizada
através de Jesus, o Filho do Homem. Mas, a certeza dessa vitória
não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos,
para que não se desviem do caminho.
Pode parecer confuso o nosso texto - e para nós hoje, de uma certa forma
o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatalógico (referente
aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e
uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória
de Deus é garantida - um elemento fundamental em todo apocaliptismo.
A advertência está na necessidade de vigilância constante,
para que não percamos a hora do Filho.
Num mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos,
o texto nos convida, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva
a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós.
Mas, também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não
sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas
vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus.
As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar
as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu
a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.
TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (08.11.09)
Mc 12, 38-44
“Esta viúva pobre depositou mais do que todos os que depositaram dinheiro”
No Evangelho de Marcos, Jesus, na sua última semana de vida em Jerusalém,
só encontra uma coisa positiva - o gesto da viúva pobre que depositou
duas das menores moedas da época no cofre do Templo. Ela aparece no texto
de hoje em contraste com um certo tipo de liderança religiosa da época.
O texto relata dois acontecimentos (vv. 38-40; vv. 41-44). O primeiro condena
os escribas hipócritas, que concretizam tudo que Jesus quer que os seus
discípulos evitem. Ele adverte contra o seu anseio de ter prestígio
e honras (vv. 38b-39) - perigo constante para os líderes religiosos,
clericais ou leigos/as, de todos os tempos e de todas as religiões! -
e o fato de eles esgotarem os recursos das viúvas, enquanto demonstravam
a aparência de piedade (v.40). Embora essa passagem seja muito mais suave
do que Mateus 23, também tem sido usado historicamente para atacar os
judeus. Mas, Jesus não critica todos os escribas, muito menos todos os
judeus, mas somente um certo tipo de escriba (vv. 28-34), os que desviavam o
verdadeiro sentido do seu serviço religioso.
Na antiguidade, os escribas podiam servir como administradores dos bens das
viúvas. Muitas vezes cobravam uma parte dos bens como pagamento - e um
escriba com fama de piedade tinha muitas possibilidades de ganhar clientes!
Por causa da sua avareza e hipocrisia, esses escribas receberão uma condenação
severa no Dia do Juízo, o tribunal mais alto que existe!
Do outro lado, a viúva pobre, embora contribua com quase nada em termos
monetários, representa a verdadeira espiritualidade dos seguidores de
Jesus. Pois, ela contribui com tudo o que ela tinha para viver, e não
com o supérfluo (v. 44). Ela simboliza o grupo dos “pobres de Javé”
- os que depositavam toda a sua confiança em Deus e não nas riquezas
nem no poder. Já em outros textos (Mc 10, 17-30) Jesus enfatizou que
é difícil para um rico entrar no Reino de Deus - pois facilmente
ele confia nas suas riquezas e não no poder e na graça de Deus.
A viúva anônima demonstra o fundamento da espiritualidade dos “pobres
de Javé” - gratuidade e doação total, aliadas a uma
confiança absoluta em Deus. Contrastando a sua ação com
a atitude dos ricos, Jesus implicitamente condena o sistema do Templo, pois
ele explorava os mais pobres, exigindo até a oferta dos seus parcos recursos
para que pudessem ter acesso a Deus! Assim, Jesus mostra que Deus rejeita qualquer
religião que explora e se enriquece às custas dos pobres.
Hoje não é nada raro encontrar grupos religiosos que exploram
os mais pobres em nome de Deus, com falsas promessas. O texto de hoje nos convida
a examinarmos a nós mesmos, para verificar se as nossas práticas
religiosas estão revelando o rosto verdadeiro do Deus dos pobres, e para
que evitemos totalmente quaisquer projetos - mesmo em nome de Deus - que tiram
dos mais necessitados o pouco que eles ainda têm. Também somos
convidados a evitar os critérios humanos em julgar as pessoas, pois pode
acontecer que alguém doe muito, sem que lhe custe nada, pois vem do seu
supérfluo, enquanto frequentemente a “moeda da viúva”,
oferecida pelos pobres, tem muito mais valor diante do Senhor. Somos convidados
a olhar e enxergar as coisas com os olhos de Deus e não com os olhos
da sociedade materialista e consumista de hoje.
FESTA DE TODOS OS SANTOS (01.11.09)
Mt 5, 1-12a
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”
Esses primeiros versículos do Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução
e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades
do verdadeiro(a) discípulo(a), daquele que, no seguimento de Jesus, procura
viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que
a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade
vigente - tanto a do tempo de Jesus, como a de hoje. Embora de uma forma menos
contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o
seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar
e viver.
Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que
a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo
no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos
perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois
os que buscam a justiça são “pobres em espírito”.
Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele
esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será
perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser
“pobre em espírito”.
As outras bem-aventuranças traçam as características de
quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças
e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista.
É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não
é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância
e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.
Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes
não passa de uma legitimação oficial da exploração
e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio
Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem
ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o
mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce
do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar
a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome
da paz!”
Mas, Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida
- a perseguição! Pois, um sistema baseado em valores anti-evangélicos
não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história
dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja
cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico
excludente precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência
das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio
(que na sua raiz significa “testemunho”) é a pedra-de-toque
dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física,
mas muitas vezes pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de
dominação, numa vivência fiel da luta pela justiça
do Reino de Deus. É a concretização da declaração
de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz,
e me siga.” (Mt 16,24)
A festa de hoje não é tanto para que recordemos os nomes e façanhas
dos grandes Santos/as conhecidos/as; mas, também para que lembremos de
tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões,
que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias, na luta de
viver na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade
é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à
família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando
cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência d’Ele.
Se examinarmos a nossa vida, veremos que já conhecíamos muitas
pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos, mas que serviram
como exemplo dos verdadeiros valores para nós. Que a celebração
nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não
em grandes milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja o
que for.
TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (25.10.09)
Mc 10, 46-52
“E seguia Jesus pelo caminho”
Estamos no fim da caminhada central de Jesus, desde Cesaréia de Felipe
até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No
texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último
milagre que ele relata de Jesus - a cura do cego Bartimeu.
O texto começa com um senso de urgência - chegaram a Jericó
e logo saíram. Parece que têm pressa para caminhar até Jerusalém.
E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho!
Enquanto Jesus está “a caminho” com os seus discípulos,
o cego está à beira do caminho! Simboliza todos os que não
conseguem caminhar no discipulado, mas estão parados, à beira
do seguimento de Jesus.
Mas, esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve
que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi, tem
piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia
- o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo
grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus
na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa
toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação
dos transeuntes é típica - mandam que Bartimeu se cale! O poder
dominante sempre quer abafar o grito do excluído! E isso não mudou
até os dias de hoje! Até nas Igrejas há quem não
queira ouvir o grito, e que faz tudo para abafar qualquer iniciativa popular.
Mas, Deus ouve!
Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus,
os mesmos que o mandaram calar agora têm que convidá-lo para falar
com Jesus. Mas, para isso, Bartimeu tem que lançar fora o manto - a única
coisa que ele possuía, a sua única segurança. Como os primeiros
discípulos no lago (Mc 1, 18.20), ele aprende que não é
possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança
humana para experimentar a mão de Deus.
Mas, Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita
a liberdade do cego e pergunta “o que quer que faça por você?”
(v. 51). Pois, Jesus não obriga ninguém a se libertar - há
quem prefira ficar sentado à beira do caminho, na sua comodidade e não
opte pela libertação. Mas, Bartimeu quer ver de novo - diferente
do cego de Jo 9, ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui
ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza
da fé, e que precisava o toque de Jesus para que voltasse a ver claramente.
Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas,
ele faz uma outra opção: “no mesmo instante o cego começou
a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). Ele usava para Jesus
um título não muito adequado “filho de Davi”, pois
em Mc 12, 35-37, Jesus fez muitas restrições a este título
messiânico, mas ele tem a prática certa - segue Jesus pelo caminho.
Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo
“Tu és o Messias” (Mc 8, 29), mas a prática errada!
Não quis que Jesus caminhasse para a morte! Assim, em Marcos, o modelo
de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu! Pois, mais importante
do que os títulos e expressões teológicas, sem negar a
sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus!
Um alerta para todos nós, para que a nossa prática seja coerente
com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus.
VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (18.10.09)
Mc 10, 35-45
“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos”
No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje situa-se quase no fim da
caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar
do desfecho de toda a sua missão. Pela terceira vez, Ele tem dado aos
seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre a sua paixão
e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do
Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles
o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos.
Vão caçoar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-Lo
e matá-Lo”. De novo, a colocação muito clara sobre
o que significa ser o Messias de Deus não surte efeito - os discípulos,
cegados pela ideologia dominante, são incapazes de entender o sentido
da vida de Jesus, e por conseguinte, o sentido de serem discípulos d’Ele.
Como Pedro, depois do primeiro anúncio, e todos os Doze, depois do segundo,
João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus numa tentativa
de impor a sua própria agenda!
Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a sua vida em serviço de todos,
os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse na sua glória.
O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante
o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos
que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo
com que a mãe deles fizesse o pedido! (Mt 10, 20). A queixa de Deus no
Antigo Testamento de que o seu povo era um povo de “cabeça dura”
se atualiza nos Doze!
Mas, não podemos pensar que era só os dois filhos de Zebedeu que
sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a
reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os
outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva
de Tiago e João” (v. 41). Por que ficaram com raiva? Não
porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um
deles queria ter o lugar de honra e poder! O vírus de dominação
é mais do que contagioso!
Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com os seus seguidores.
Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que
queria para a comunidade dos seus discípulos: “entre vocês
não deve ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se
o servo de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá
tornar-se o servo de todos” (vv. 43-44). E deixa bem claro o motivo -
não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo:
“porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para
servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (v. 45).
Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática
do que Ele!
O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste
feito por Jesus entre os seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem
sempre se verifica. Existe, talvez nos últimos anos de forma mais acentuada,
uma busca de status e do poder no seio das igrejas, especialmente entre o clero
mais jovem. Mas, ninguém pode se achar imune diante dessa tentação,
pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística
bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura,
poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstra
que “entre vocês não deve ser assim”.
FESTA DA NOSSA SENHORA APARECIDA
Jo 2, 1-12
“Façam tudo o que ele lhes disser”
A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro
dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais
que, passo por passo, revelam quem é Jesus e qual é a sua missão
(embora algumas bíblias traduzem o termo grego por “milagre”,
a tradução mais acertada é: “Sinal”). O primeiro
desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o nosso texto
de hoje. Como quase todo o Evangelho de João, o relato está carregado
de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente,
para nos levar além da superfície das coisas, numa caminhada de
descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de
Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a
hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição.
Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se refere
a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma
maneira um tanto estranha este termo para a sua mãe, João quer
indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação
para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe
dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho
- ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento
de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza
a comunidade dos discípulos do Senhor.
Não devemos reduzir a ação da Maria no texto à de
uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação
na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético.
É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a
resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão
d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar
n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante.
Não era qualquer água - era a água da purificação
dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante
os ritos judaicos de purificação estão superados, pois
a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos
entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada
no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma
nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim,
em Caná Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo
do Templo, o que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção - mais de 600 litros! O vinho
em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e na tradição
rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante
de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se
realiza em Jesus. E as talhas transbordantes simbolizam a graças abundante
que Jesus traz.
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a
dos serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não
sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo
que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos
que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João
quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os
ritos e práticas judaicos, ligados à purificação
e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era
de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está no v. 11: “Foi em Caná
que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulo acreditaram
n’Ele”. E a fé deles não é intelectual ou teórica,
mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos
de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais
para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é
o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu
nome” (Jo 20, 31).
VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM (11.10.09)
Mc 10, 17-30
“Como é difícil entrar no Reino de Deus”
O nosso texto inicia-se com a frase “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”.
Mais uma vez, estamos na caminhada com Jesus, na caminhada que é uma
aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto
a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo desta caminhada
Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até
dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia
dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a viravolta de valores
que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos outros domingos, já vimos
essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio,
das crianças. No nosso texto hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento
comum sobre a riqueza e a pobreza.
A cena é muito conhecida - um homem pede orientação sobre
como entrar na vida eterna. Num primeiro momento, Jesus coloca diante dele as
exigências conhecidas por todo judeu piedoso e ensinadas pelas escolas
rabínicas - o cumprir dos mandamentos. Mas o homem - sem dúvida
um praticante piedoso da Lei - sente que isso não é o suficiente,
antes, é o mínimo. E assim Jesus põe diante ele as exigências
do Reino - o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens e a partilha e
solidariedade. Aqui, o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos
seus bens, pois era muito rico (v. 22). Fez a sua opção - optou
por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento,
e como conseqência foi embora “muito abatido”- pois tinha
colocado bens secundários acima do bem maior.
Mas o centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos.
O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo
buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25).
Muitas vezes gastamos tanta energia em debater o que significa “o buraco
da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!), e deixamos
de lado o aspecto mais importante - a reação dos discípulos!
Eles ficam “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram:
“então quem pode ser salvo?” Por que ficaram espantados?
O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está
o âmago da questão.
O espanto dos discípulos - também todos judeus praticantes e piedosos
- era causado pelo fato que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerado
sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição
(uma idéia presente em certos grupos cristãos hoje e que às
vezes infiltra algumas pregações sobre o dízimo, na própria
Igreja Católica). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre,
pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de
“entrar no Reino de Deus”, que não é sinônimo
com a salvação eterna. A salvação depende da gratuidade
e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe
à gente se calar. Mas o Reino de Deus deve ser uma experiência
já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que
significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra
nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a
um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade tanto de repartir como
de sentir a sua dependência de Deus.
A proposta de Jesus desafia as ideologias que veem a riqueza como sinal da bênção
de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha,
não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça,
para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver
esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem
segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais
duradoura, mas com perseguição, pois já vive a certeza
da plenitude do Reino que virá (v.29-31).
VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (04.10.09)
Mc 10, 2-16
“O que Deus uniu, o homem não deve separar”
Continuando a sua caminhada rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político
vai condená-lo à morte no intuito de acabar não somente
com a pessoa d’Ele, mas com o seu ensinamento, Jesus, no texto de hoje,
entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da
prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de grande prestígio diante
da população mais simples, se outorgavam o direito de serem os
únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus. Por isso,
entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade
do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo” (v. 2).
O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de
referência para eles era Dt 24,1-4, onde não se trata da legitimidade
do divórcio, mas dos critérios para que possa acontecer.
O evangelho de Mateus, no Capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos
o sentido do debate (Mt 19, 1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários
para que um homem pudesse se divorciar de sua mulher (nem se cogitava na época
que a mulher pudesse se divorciar do marido, pois a mulher era considerada “um
bem” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências,
simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai.
Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar a mulher
por qualquer motivo, mesmo sendo dos mais banais - por ter queimado a comida
era um exemplo. A escola mais rigorosa - do Shammai - só permitia o divórcio
por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor:
“é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?”
(Mt 19, 4).
Em ambos os Evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate casuístico
que cercava a questão, e se limitava a reafirmar o projeto do Pai para
o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar”.
Aqui Jesus reafirma com toda firmeza o ideal do casamento cristão - uma
união permanente baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento.
Seria inútil buscar neste trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento,
muito menos orientações pastorais para os problemas práticos
de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção
do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que
Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão
de quando é que Deus realmente uniu o casal! Será que, só
porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada, um casal é
necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos,
angustiantes e difíceis de serem solucionados.
O trecho continua com a questão das crianças. A questão
aqui não é a criança como símbolo da inocência,
mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com eles
vivem esta situação de dependência, de “sem-poder”.
Quem quer entrar no Reino de Deus terá que despojar-se de todo o poder
dominador, tornando-se como criança.
Negando aceitar a situação em que a mulher era simples objeto
de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco
e dependente como modelo, numa sociedade que valorizava o prepotente, Jesus
mostra que os valores do Reino de Deus estão na contra-mão dos
valores da sociedade do seu tempo - e de hoje. Propõe uma igualdade de
dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e
a busca de uma vida de serviço e não de dominação!
Realmente, uma proposta no contra-fluxo da sociedade pós-moderna que
nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador! O texto
de hoje nos convida para que entremos “com Jesus, na contramão”
e para que criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os hoje em
vigor, às vezes até no seio das próprias Igrejas. Continua
muito atual o dilema enfrentado pelos autores bíblicos em livros como
Eclesiástico e Sabedoria - como ser fiel aos valores da fé num
mundo profundamente materialista e egoísta. Não será possível
sem que aprofundemos a nossa caminhada no discipulado de Jesus, alimentando-nos
com a Palavra de Deus, em diálogo com esta e com a sociedade que nos
cerca.
VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (27.09.09)
Mc 9, 38-43.45.47-48
“Quem não está contra nós está a nosso favor”
O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de Jesus
aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já
vimos que a partir da “crise galalaica”, Jesus mudou a sua estratégia,
afastou-se das multidões e dedicou-se à formação
mais intensa dos seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de
acolher a novidade do evangelho, com a mudança radical de atitudes que
ele implicava.
A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é
a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade.
João queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios
em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de
Deus, sequestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente
em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham
que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens
estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos
ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam,
pois... quem não está contra nós, está a nosso favor”
(v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras
do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar
alertas para que nós mesmos não o escondamos ou deturpemos!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo dos
pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos”
não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade
cristã. E é bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”.
Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então
trata-se da situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”,
isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por
causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar
que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não
aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico
no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt 18, 6-14). Usando imagens
e linguagem tipicamente semitas, Jesus manda cortar e jogar fora “a mão,
o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente
não se propõe aqui uma mutilação física,
mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por
exemplo, Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira
de agir, “pé” o modo de caminhar na vida e “olho”
o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a nossa ideologia. Então
o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres,
pastores, irmãs, ministros etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar
e julgar, para averiguar se não estamos causando a queda dos pequenos
e humildes. E se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos
“cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o problema. Caso
contrário, não experimentaremos na comunidade a presença
do Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu
a vida para estabelecer.
A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande
ensinamento de Jesus para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por
trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada
pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele
nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso,
e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência
cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus.
PS - 27 de setembro, dia de São Vicente de Paulo: dia da caridade, dia
do ancião.
VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (20.09.09)
Mc 9, 30-37
“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos”
Na estrutura do Marcos, depois da chamada “Crise Galalaica”, manifestada
no episódio da Estada de Cesaréia de Felipe, Jesus muda totalmente
de tática e estratégia. Ele não anda mais com as multidões,
quase não faz mais milagres - dos 19 milagres em Marcos, somente dois
acontecem depois do acontecimento de Cesaréia. Em lugar disso, ele se
dedica quase totalmente à formação dos seus discípulos,
tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os
que o Caminho d’Ele é o caminho da Cruz, da entrega, da doação,
e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos faz isso
de uma maneira bem planejada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a
sua futura paixão (8, 81; 9,31; 10, 33-34). Em cada ocasião os
discípulos não compreendem (8, 32; 8, 34; 10, 35-37). E, a partir
dessas incompreensões, Jesus torna a dar um ensinamento, aprofundando
vários aspectos do verdadeiro seguimento d’Ele (8, 34-38; 9, 35-37;
10, 38-45).
O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa
da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha
deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento d’Ele é uma
vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem
entre si qual deles era a maior! O poder - tentação permanente
em todas as comunidades, não isentando as Igrejas! Talvez mais do que
outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas Igrejas
- mais do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século
dezenove, o estadista e historiador católico inglês Lord Acton
falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.
E não há poder mais perigoso do que o religioso, que fala em nome
de Deus!
Quantos sofrimentos e males causados por essa sede do poder, disfarçada
como mandato de Deus! Desde o fundamentalismo fanático da Talibã
no Afeganistão, até a ufania de certos padres - mormente recém
ordenados - que se ostentam com roupas finas e carros do ano, e dominam, de
uma maneira opressora, religiosas e leigos de muito mais experiência e
sabedoria do que eles... a sede do poder e da dominação - em nome
de Deus - continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro
e fora do Cristianismo.
Diante da recusa dos seus discípulos em entender o seu ensinamento, Jesus,
o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem
deve segui-lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente!
Mas porque é sem-poder, dependente dos adultos de tudo. No tempo de Jesus,
criança era sem direitos, entre os últimos da sociedade. Os seus
discípulos são convidados a despojar-se do poder para serem servos,
da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se apegou à
sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo
a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim,
apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente
até a morte, e morte da cruz” (Fl 2,6-8).
O poder em si é um bem - para ser usado a serviço dos outros!
Todos nós - clero, religiosos, leigos - somos vulneráveis diante
da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de
hoje, pois só pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo
de todos! Evitemos títulos, privilégios, e comportamentos que
tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que
o nosso modelo seja sempre Ele - e não os critérios da sociedade
vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de
Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil
e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante”
(1Cor 1, 28).
VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (13.09.09)
Mc 8, 27-35
“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga”
Como evangelho de hoje temos a história do caminho de Cesaréia
de Felipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas,
o relato mais original está no evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se
torna o pivô de todo o Evangelho.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta
bastante inócua: “quem dizem os homens que eu sou?” Assim,
chovem respostas, pois esta pergunta não compromete - é o “diz
que...” Mas a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem
dizem que eu sou?” Agora não vem muitas respostas, pois quem responde
em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca
e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente,
Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade
do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação
do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos
bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até
o v. 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer.
Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso,
triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo
contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo
de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor
de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Deus”
- que vem de Daniel 7, 13ss - Jesus confirmou que era o Messias, mas não
o Messias que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo,
quis um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os
seus seguidores, até a Cruz. Por isso, Pedro contesta Jesus, pedindo
que nada disso acontecesse. E como recompensa ganha uma das frases mais duras
da Bíblia: “Afasta-se de mim, satanás! Você não
pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.” (v. 33). Pedro, cuja
proclamação de fé parecia ser tão acertada, é
agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência! Pedro tinha
os títulos certos, mas a prática errada! Usando os nossos termos
de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha
ortodoxia mas não ortopraxis!
E assim Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser
seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si
mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 34). Ter fé em Jesus não
é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico,
mas uma prática, o seguimento d’Ele na construção
do seu projeto, até às últimas consequências.
Hoje, dois mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte - a segunda pergunta.
Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não
para o Papa ou o Bispo, mas para cada de nós pessoalmente? No fundo a
resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos
e nos comprometemos com o projeto de Jesus - ele que veio para que todos tivessem
a vida e a vida plenamente! (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos
na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina
e a teoria certas, mas a prática errada!
VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (06.09.09)
Mc 7, 31-37
“Jesus faz bem todas as coisas”
O relato do texto de hoje, situa-se no território pagão de Tiro
e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar
o contexto geográfico - talvez uma referência à missão
aos gentios que marcava a sua Igreja. Mais uma vez, estamos diante de um milagre
de Jesus que manifesta o poder de Deus que age n’Ele, que causa espanto
e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia
se espalhe no território.
Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros - uma pessoa sofrendo (neste
caso de surdez e incapacidade de falar corretamente), a compaixão da
parte de Jesus que o leva a atender o pedido de uma cura, a cura em si, a proibição
de espalhar a notícia (o “Segredo Messiânico) e a incapacidade
das testemunhas de guardar o segredo.
A violação da proibição por parte da multidão
traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando
a impressão de que ele é muito mais do que um simples curador!
As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante d’Ele
(7, 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de
Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz
presente.
Mais uma vez, o Segredo Messiânico em Marcos nos faz perguntar sobe o
seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos de que Jesus
é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que a sua verdadeira identidade
só se revelará na sua Cruz e Ressurreição. Pois
é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é
proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana - o oficial que
exclamou aos pés da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De
fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Mc 15, 39). Para Marcos, uma
fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar
ao seguimento de Jesus por motivos errôneos e duvidosos. Para corrigir
essa tendência na sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar
Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé
da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só
se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte
do que a força humana (1Cor 1, 25).
A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir
e os mudos falar” alude a Is 35, 5-6, que faz parte da visão apocalíptica
do futuro glorioso de Israel (Is 34-35, relacionado com Is 40-66). O uso aqui
deste texto vétero-testamentário indica que o futuro glorioso
do novo Israel já está presente no ministério de Jesus.
Podemos ver um sentido mais simbólico, para os nossos dias, na cura relatada
- o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois, o sistema hegemônico
de hoje, e os Meios de Comunicação frequentemente atrelados e
coniventes, procuram tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos.
Pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões,
escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários
de televisão. Também as forças dominantes cada vez mais
deixam os excluídos sem voz - só pode ter voz ativa quem produz
e consome, na nossa sociedade materialista e consumista. Diante da surdez e
mudez físicas, Jesus cura! O evangelho e a atividade evangelizadora das
igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos
e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. O
XII Encontro Inter-Eclesial das CEBs em Porto Velho-RO no mês de julho-2009
captou o grito da terra da Amazônia espoliada. Dia 7 de setembro é
o dia do Grito dos Excluídos - uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas
de boa vontade assinalarem que a nossa luta está em favor dos excluídos
e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita à passeata
de um dia, mas que é a tônica da nossa ação evangelizadora,
retomada com muita força no Documento de Aparecida.
“Jesus fez bem todas as coisas - fez os surdos ouvir e os mudos falar!”
Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais - que ajudamos a devolver
a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas
pela ideologia dominante, e que ajudamos os sem-voz a recuperar a voz ativa,
nas decisões das igrejas e da sociedade em geral.
VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (30.08.09)
Mc 7, 1-8.14-15.21-23
“Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”
Para que entendamos o alcance do nosso texto de hoje, é necessário
entender o contexto religioso do tempo de Jesus. Um dos elementos chaves na
prática religiosa do judaísmo daquela época eram os conceitos
de “puro” e “impuro”. Na nossa teologia, não
é possível cometer um pecado inconscientemente; mas, para o povo
do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das
pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas
impuras, isso é, não aptas para participar do culto, sem primeiro
passar pelos ritos de purificação. A seita dos Essênios
levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos; também
os fariseus - cujo nome vem de uma palavra que significa “separados”
- davam suma importância à pureza ritual, assim, muitas vezes,
impossibilitando o acesso do povo comum ao culto do Deus da vida.
Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente
libertadora. Sem recusar-se a participar nos ritos tradicionais, ele entendeu
que nada que vem de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura!
Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado
o povo para que vivesse a justiça e o seguimento da vontade de Deus,
em lugar de preocupar-se com rituais externos. Jesus reintegrava as massas pobres,
excluídas da vivência comunitária pelas exigências
de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria,
e voltava a atenção às disposições internas
das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante
de Deus: “as más intenções, a imoralidade, os roubos,
crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia,
devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”
(v. 21-22).
Assim Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías,
que diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza
ritual enquanto oprimiam os seus irmãos, e ainda esperavam a proteção
de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as
prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade
os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa
fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra
nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58,
6-7).
E também nos desafia hoje para que examinemos a realidade de nossa prática
religiosa. Sem negar a importância e o papel de ritos, rituais e devoções,
o nosso texto exige dos seguidores de Jesus um sério exame de consciência,
para que verifiquemos se a nossa religião não está semelhante
à dos fariseus - perfeita nas expressões externas, mas vazia por
dentro - ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem -
uma religião de prática de solidariedade e justiça, coerente
com a nossa fé no Deus da vida, onde os ritos têm o seu lugar,
mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus.
Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do
legalismo farisaico: “este povo me honra com os lábios, mas o coração
deles está longe de mim” (v. 6).
VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (23.08.09)
Jo 6, 60-69
“Tu tens palavras de vida eterna”
O texto de hoje forma a conclusão do grande discurso sobre o Pão
da Vida. Mais uma vez, a bíblia deixa claro que diante de Jesus e das
suas palavras, o ouvinte tem que tomar uma decisão radical. Os versículos
do nosso texto não escondem o fato que nem todos conseguem optar por
Jesus.
As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram
que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar
o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias
dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus de que
Ele dá o seu corpo como pão da vida e o fato que o texto se dirige
aos discípulos, indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico
a fonte de divisão. Porém, a afirmação de Jesus
de que ele “dá a vida” - o que causou já uma divisão
em 5, 19-47, e a identificação da sua palavra reveladora com “o
pão vindo do céu” na primeira parte do discurso, talvez
tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira é importante
notar que a divisão não se dá entre “os judeus”,
mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus
neste momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência
da Comunidade do Discípulo Amado, pelo ano 90, quando estava sentindo
na pele as dores de divisão, pois muitos dos seus membros estavam abandonando-a
(essa divisão é o pano do fundo das três Cartas Joaninas).
É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono
da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda o pé; mas,
com toda calma, até convida os Doze para saírem, se não
podem aceitar a sua palavra. Jesus não se preocupa com números
- mas com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não
vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo
importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação
de julgar o êxito pelos números! Igrejas cheias indicam sucesso!
Mas nem sempre é assim - é mais importante ser coerente com o
Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a
sociedade, às vezes através de uma pregação tão
insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências
sociais.
Mas ,devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus
em v. 63 quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne
para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João)
para justificar uma religião dualista, onde tudo que é “espírito”
é bom e tudo que é material é do mal! Aqui João
não distingue duas partes do ser humano; mas, duas maneiras de viver!
A carne é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o
sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o espírito é
a força que ilumina as pessoas e abre os seus olhos para que possam entender
a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus.
Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem em
Jesus algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Pois só Jesus
tem as palavras de vida eterna! Declaração atual, pois é
moda na nossa sociedade - até entre muitos católicos praticantes
- de correr atrás de tudo que é novidade: supostas aparições,
esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas,
às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de
Deus nas Escrituras.
O texto de hoje nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente
buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando -
como as multidão no texto - que o seguimento de Jesus “é
duro demais”! No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados
a reencontrarmos a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo
a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de
vida eterna”.
FESTA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (16.08.09)
Lucas 1, 39-45
“Você é bendita entre as mulheres
Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à
concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo
da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar
o grande contraste, mesmo que haja ainda continuidade, entre a Antiga e a Nova
Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor
do nascimento de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel,
Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento
de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga
Aliança está esgotada - os seus símbolos são Isabel,
estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio
do anjo, e o nenê que será um profeta, figura típica do
Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos
a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio
Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana
e Simeão, no Templo, (Lc 2, 25-38), especialmente quando Simeão
reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo
partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2,
29). Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato
que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida.
Se a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado versículo
56, que mostra ela deixando Isabel depois do nascimento de João: “Maria
ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”.
Também não é verossímil que uma moça judia
de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como
a da Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas
é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes,
para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas,
e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de
Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João,
para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado,
Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz
recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e
Jacó “pulavam” no ventre dela, na tradução
da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43,
salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação
do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação”
de João - é porque Maria está carregando o Senhor.
As palavras referentes à Maria: “Você é bendita entre
as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar
mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo: Jael
(Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre
o libertador definitivo do seu povo.
Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada”
(v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita
em primeiro lugar, não pela sua maternidade, mas pela fé - em
contraste com Zacarias, que não acreditou. Aqui Maria é principalmente
modelo de fé.
Podemos também acrescentar que neste primeiro capítulo nós
encontramos as frases da primeira parte da oração da “Ave
Maria”: “Ave Maria” (1, 28); “Cheia de graça”
(1, 28); “O Senhor é convosco” (1, 28); “Bendita sois
vós entre as mulheres” (1, 42); “Bendito o fruto do vosso
ventre” (1, 42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria, mãe
do Senhor, modelo de fé para todos nós! Mas, a fé de Maria
- como, aliás, sempre é na Bíblia - não foi uma
adesão somente intelectual a Deus. Era o assumir do projeto de Deus -
justiça, libertação, solidariedade e salvação
integral. Por isso, Lucas põe na boca de Maria o grande Cântico
do Magnificat, atualizando o Canto de Ana, (1 Sm 2, 1-10), cantando a grandeza
do nosso Deus, que se põe ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba
os poderosos e prepotentes!
O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora, totalmente comprometida
com o projeto de Deus para um mundo fraterno. Se ela estivesse entre nós
hoje, sem dúvida ela - como também Jesus - estaria nos movimentos
e pastorais sociais, lutando pela vida digna de todos e celebrando com os irmãos
e irmãs a fé no Deus de Justiça, Libertação
e Salvação.
DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (09.08.09)
Jo 6, 41-51
“Quem come deste pão viverá para sempre”
No texto de hoje, nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão
da Vida”. O gancho que João usa para pendurar o discurso é
o pedido dos judeus em v. 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.
Em resposta, Jesus começa o seu grande discurso. Divide-se em duas partes.
Na primeira parte (vv. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial
que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o
tema sapiencial); na segunda parte (vv. 51-58) será a eucaristia (tema
sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do
céu” com o material eucarístico da Última Ceia e
assim formou a segunda parte do discurso como um paralelo à primeira.
Isso explica a ausência de um relato da instituição da eucaristia
nos textos da Ceia em João - pois o seu conteúdo básico
foi colocado aqui.
Como os seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus
mandava - o maná - agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo
aparece uma característica do João - a ironia. Os judeus (aqui
se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem
a origem de Jesus, pois só pensam na sua família de origem; e
Jesus mostra que na verdade não a conhecem, pois eles não viram
o Pai, a sua verdadeira origem. Aqui também aparece em v. 47 - mais uma
característica joanina - a escatologia realizada. Enquanto para os Sinóticos
o juízo é algo que acontece no último dia, para João,
frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada
já, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho
de Deus.
Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das
palavras da instituição da eucaristia: “O pão que
eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida”
(v. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado
a sua carne como alimento da vida eterna.
O texto não é fácil, pois é extraído de um
discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado
à multiplicação dos pães - a participação
eucarística no corpo e sangue de Jesus exige uma vivência de partilha
e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado na
sua Primeira Carta.
DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM (02.08.09)
Jo 6, 24-35
“Eu Sou o Pão da Vida”
Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto Capítulo
de João. Este capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo
e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o
tema central versa sobre Jesus como “O Pão da Vida”
No Antigo Testamento muitas vezes pão é usado como símbolo
da Palavra de Deus; por exemplo, Is 55,10-11; Amós fala não de
fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de
Deus, em Am 8, 11-12; A Sabedoria convida os simples a comer do seu pão
e beber da sua seu vinho em Pr 9, 5; Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria
que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água
de sabedoria (Eclo 15, 4). Até o maná no deserto chegou a ser
usado como símbolo da Tora, ou Lei (Dt 8, 2-3). Podemos ligar essas idéias
com Cap. 6 de João.
Divisão do Capítulo:
- 1-15: Multiplicação dos pães
- 16, 21: Jesus anda nas águas
- 22-24: Situa o discurso
- 25-29: Introdução ao discurso
- 30-40: Discurso
- I parte: 30-34
- II parte: 35-40
- 41-51: Segunda Parte
- 52-58: Terceira Parte
- 50: Aparte
- 60-61: Reação e opção dos discípulos
O início do relato deixa claro que a multidão reconheceu de
fato o poder de Jesus; mas, era incapaz de entrar mais profundamente no sentido
dos seus sinais (lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre”
para as sete ações principais de Jesus, mas “sinais”,
embora haja ainda edições que traduzem de maneira errada). Eles
buscam as vantagens imediatas que podem esperar de Jesus; mas, Jesus insiste
que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras d’Ele como
sinais - que demonstram uma verdade mais profunda, que Jesus é o alimento
que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu e os sinais que Ele
opera garantem a sua origem e a sua missão. Jesus quer que creiam e recebam
o que Deus lhes oferece n’Ele.
A turba quer saber de um sinal para que pudesse “ver” e “crer”
em Jesus. Mas, na visão do João, o “ver” real é
conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não
parar só nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus
confirme as suas expectativas messiânicas, realizando milagres - e não
entendem a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas.
Os próprios judeus começam a falar da história do maná
no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do
maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula
as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo
maná do céu, insistindo, que o verdadeiro pão da vida é
dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”,
não “deu”; e que o pão que o Pai dá é
aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão
da vida” porque crer n’Ele é participar da verdadeira vida.
Nesse trecho encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou” - o que soava
aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus
na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êx
3, 14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato que a verdadeira
vida só se acha n’Ele.
Hoje também esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos
os limites de uma religião superficial, e para que nos mergulhemos no
mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com
Ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários,
apaixonados por Ele e pelo seu projeto, o projeto d’Aquele que veio para
que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,
10).
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (26.07.09)
Jo 6, 1-15
“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”
A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere
um trecho tirado do capítulo sexto de João - o que comumente chamamos
o milagre da “Multiplicação dos Pães”. Logo,
vale lembrar que este é o único milagre contado pelos quatro evangelhos,
tanto pela tradição sinótica como da Comunidade do Discípulo
Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs
de diversas tradições, a história hoje relatada possuía
um grande valor e uma mensagem muito importante.
Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências
próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental”
ou “eucarístico” é do João, mostrando mais
uma vez uma das características da comunidade do Discípulo Amado:
a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida.
Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar
um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos
refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”,
em nenhum dos quatro relatos usa-se o verbo “multiplicar”! Usa-se
outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “distribuir”,
“partilhar”! Não é o caso de discutir aqui o que foi
que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque
é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o
“multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então
a história não teria grandes consequencias para nós hoje,
pois nós não temos o poder de fazer milagres! Mas, colocando a
ênfase sobre a o “partilhar” e o “distribuir”,
então os evangelistas nos desafiam hoje! Pois, partilhar e distribuir
estão ao nosso alcance!
No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria,
não precisamos multiplicar nada! O Brasil não precisa multiplicar
terras - somos um dos maiores países do mundo! Nem precisa multiplicar
a renda - somos a oitava ou nona potência econômica do mundo! Não!
O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição
das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade,
de coração e das estruturas, e não milagres paliativos.
A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução
para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição,
a partir da nossa fé no Deus da Vida.
Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação
do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos - o seu lanche.
Mesmo sendo suficiente somente para ele, ele dispõe dos pães e
peixes, através do André. Esse gesto de partilha, abençoado
por Jesus, faz com que todos se fartem! O relato ressalta que foram pães
de cevada - a comido do pobre. Também aqui há uma releitura de
um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou”
pães de cevada (II Rs 4, 42-44.) Sem a colaboração deste
rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado
essas pessoas. Assim o texto nos desafia para descobrirmos quais são
os “cinco pães de cevada” que eu tenho, e de colocá-los
a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm,
sobrará! Quando cada um que tem algo segura para si, falta para muitos!
Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo
sexto, onde tem o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico.
Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade
e partilha, onde os bens materiais - mais do que suficientes - serão
distribuídos e partilhados, criando assim, de uma maneira real entre
nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar
é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação”
dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da
nossa participação na Eucaristia!
DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (19.07.09)
Mc 6, 30-34
“Jesus teve compaixão”
Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um
tema muito central - o da “compaixão” de Jesus. Aliás,
os evangelhos todos - e especialmente Lucas - enfatizam este aspecto da personalidade
e da missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira
natureza de Deus: de ter compaixão para todos os que sofrem.
Os versículos de hoje demonstram este traço de Jesus no seu relacionamento
com os discípulos e com as multidões.
Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das
tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão,
a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma
retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios
que não correspondem com o grande critério da sociedade nossa
- o da eficácia! Para Ele, os apóstolos não eram máquinas;
mas, em primeiro lugar pessoas humanas, que necessitavam de serem tratadas como
tal. O trabalho - mesmo o trabalho missionário - não é
o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos
os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição
para muitos cristãos engajados hoje - embora devamos nos dedicar ao máximo
pelo apostolado, não devemos descuidar das nossas vidas particulares,
do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo
com os outros. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras
máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao
mundo o rosto compassivo do Pai.
Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido.
Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos
de então, que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo
ia atrás d’ Ele. O que atraía tanta gente? Com certeza não
foi em primeiro lugar a doutrina, nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão,
de demonstrar de uma maneira concreta o amor compassivo de Deus. Jesus não
teve “pena” do povo, não teve “dó” dos
sofridos. Teve “compaixão”, literalmente, sofria junto, e
tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva
e efetiva. Este traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e
os seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas
irradiadores da compaixão do Pai. Infelizmente, muitas vezes as nossas
secretarias paroquiais mais parecem repartições públicas
do que lugares de encontro com a comunidade que acredita no Deus de Jesus! A
frieza humana frequentemente marca as nossas atitudes, pregações
e cuidado pastoral. Num mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza
quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos
cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões,
hoje, como dois mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”.
DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (12.07.09)
Mc 6, 7-13
Dava-lhes poder sobre os espíritos maus
Estes versículos dão início ao terceiro e último
bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos, que podemos intitular “a
cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros
dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus.
O nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar
mais de perto as frases que Marcos usa.
O primeiro elemento é que a missão de Jesus, o de construir o
Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão
é o compromisso com Jesus e o seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre
lembrar que a origem da missão está no nosso batismo. Todos somos
Discípulos-Missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos
é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos
nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente, variar;
mas, a missão é fundamentalmente igual.
Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão
cristã é comunitária! Não existe um cristianismo
individualista. A nossa fé tem consequências profundas comunitárias.
Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos
uma religião individualista e intimista, tão comum no nosso mundo
de competitividade e pós-modernidade.
Jesus dava-lhes poder sobre os espíritos imundos! Claro, aqui se expressa
uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos
imundos” significam tudo que pudesse se opor ao Reino. Tudo cujos valores
fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje muitos interpretam essas
palavras ao pé da letra, e criam uma religião que sataniza e demoniza
quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos - mas sempre no nível
intimista e individual. Devemos nos perguntar - quais os espíritos imundos
em nós, nas nossas comunidades, na nossa sociedade, que precisam ser
expulsos? Não é difícil achá-los: tudo que se opõe
à vida, à dignidade humana, à justiça e à
solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito
de individualismo, de competitividade, de exclusão que é característica
da nossa sociedade neo-liberal, nossa sociedade de morte! O cristão não
pode compactuar com tal sociedade e com as suas estruturas. As nossas celebrações
não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos
na luta pelo mundo novo, pela utopia de Jesus! Por isso, em primeiro lugar,
os discípulos tinham que se libertar do espírito de acúmulo
- não levar coisas, como sinal da chegada do Reino.
Mas, Jesus os adverte que nem todos iriam acolher a sua mensagem - pois a mensagem
de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo,
enraizado na sociedade. Vale para os nossos tempos - uma Igreja comprometida
com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes desse
mundo. Quando somos bem aceitos por todos, é porque não questionamos,
porque perdemos a nossa voz profética! A Igreja verdadeira suscita mártires
(literalmente, testemunhas) e não acomodados!
O nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade”
da nossa vida. A minha vida, a da minha comunidade, se resume na vivência
interna das estruturas da Igreja, ou me leva a ser testemunha no meio da sociedade,
profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras,
mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária
(que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos
que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, continuadores
da missão de Jesus! Isso foi muito bem expresso no lema do último
Congresso Missionário da Igreja do Brasil: “De um Brasil de batizados
a um Brasil de discípulos-missionários”.
Décimo Quarto Domingo Comum (05.07.09)
Mc 6, 1-6
“Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré”
O texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho de
Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus. O primeiro bloco mostrou
a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará a cegueira
dos discípulos. Assim, Marcos gradativamente aumenta a tensão
entre o que Jesus é e a incompreensão dos que o conhecem: autoridades,
familiares e discípulos. Tudo para poder lançar como questão
fundamental do seu Evangelho a pergunta: “E vocês, quem dizem que
eu sou?” (Mc 8, 29).
De uma maneira indireta, Marcos aqui toca num dos problemas fundamentais dos
cristãos - o escândalo da encarnação. Frequentemente
não temos tanta dificuldade em assumir a realidade da divindade de Jesus,
mas sim, a sua humanidade! Até hoje, quantas hipóteses esdrúxulas
sobre onde Jesus teria passado os primeiros trinta anos da sua vida, quando
a realidade é que Ele os passou como qualquer outro rapaz da sua geração
- numa família e comunidade do interior, trabalhando com as mãos
e partilhando a dura sorte do seu povo, com uma fé profunda na presença
de Javé no seu meio - uma fé alimentada pelas Escrituras. Mas,
frequentemente relutamos para não enxergar a opção real
de Deus pelos marginalizados através da realidade da encarnação!
Os seus próprios parentes também relutaram para não aceitar
a pessoa e a missão de Jesus. Marcos não esconde a dureza das
críticas: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho
de Maria?” (v. 3). Se fosse um fariseu, ou um “doutor”, ele
teria sido aceito! Quanta coisa semelhante hoje - quando preferimos acreditar
nas palavras retóricas dos “doutores” e desprezamos a sabedoria
popular dos que lutam no meio do povo para um mundo mais justo!
Marcos retoma aqui o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho para
conhecer Jesus não é através de uma correria atrás
de milagres. Pois, os Nazarenos conheciam bem os milagres de Jesus: “E
esses milagres que são realizados pelas mãos d’Ele?”
(v. 2). Aqui tocamos no cerne da questão: em Marcos, Jesus nunca faz
um milagre para despertar a fé em alguém. Pelo contrário,
é a fé das pessoas que causa os milagres da parte de Jesus. Por
isso, é importante notar o verbo que Marcos usa: “E Jesus não
pode fazer milagres em Nazaré”! (v. 5). Não foi que não
quisesse, nem que não fizesse milagres, mas que Ele não pudesse
fazer! Por que? Por causa da falta da fé deles!
O texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem acreditamos!
Conseguimos vê-Lo nos pequenos e humildes e nas pequenas ações
em favor do Reino? Ou o buscamos em ditos “milagres” e coisas estrondosas,
que muitas vezes podem mascarar uma relutância em assumir o caminho da
Cruz? Marcos quer suscitar uma desconfiança na sua comunidade - se nem
as autoridades e nem os parentes de Jesus o compreenderam, será que nós
O compreendemos? Devagarzinho chegaremos ao Capítulo 8, o pivô
de Marcos, onde seremos convidados a responder a pergunta fundamental da nossa
fé: quem é Jesus para mim, para nós, hoje?
FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (28.06.09)
Mt 16, 13-19
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”
Hoje a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo,
e encerra a celebração do Ano Paulino. Como evangelho do dia,
escolheu-se a história do caminho de Cesaréia de Felipe. O relato
mais antigo está no Evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se tornou o pivô
de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente; mas, o relato
tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa
ser discípulo d’Ele.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta
bastante inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do
Homem?” Assim, vem muita resposta, pois essa pergunta não compromete,
- é o “diz que”. Mas, a segunda pergunta traz a facada: “E
vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vem muitas respostas,
pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete!
Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és
o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente Pedro acertou, e realmente,
em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através
de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de
fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário
que continuemos a leitura pelo menos até v. 25. Pois o assunto é
mais complicado do que possa parecer.
Pois, após afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica
o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso,
conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser
fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso,
torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou
que era o Messias, mas não o Messias que Pedro esperava e queria. Ele,
conforme as expectativas do povo do seu tempo, queria um Messias forte e dominador,
não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores também, até
a Cruz! Por isso, Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse.
Como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afasta-se
de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para
mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23).
Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamado a pedra
fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de satanás - o
Tentador por excelência - e “pedra de tropeço” para
Jesus! Pedro usava o título certo, mas tinha a prática errada!
Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos
dizer que ele tinha ortodoxia, mas não, ortopraxis!
Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser
seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se
mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não
é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico,
mas uma prática, o seguimento d’Ele na construção
do seu projeto, até às últimas consequências.
Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta
de Jesus ressoa forte, - a segunda pergunta. Para nós, quem é
Jesus? Não para o catecismo, não para o papa ou o bispo, mas para
cada de nós, pessoalmente? No fundo, a resposta se dá, não
com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto
de Jesus - ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente!(Jo
10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco
de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada!
DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (21.06.09)
Mc 4,35-41
“Quem é este homem?”
Retomamos a caminhada pelo evangelho de Marcos. O trecho de hoje está
situado na primeira parte do evangelho, onde Marcos procura demonstrar que as
autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus
e os discípulos d’Ele não o compreenderam, apesar de verem
as suas obras e milagres (1, 19-8, 26). Toda esta primeira parte do Evangelho
prepara o chão para a pergunta fundamental do evangelho: “E vocês,
quem dizem que eu sou?” Por isso a história hoje relatada leva
os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”
A história do evento no mar de Galiléia retrata simbolicamente
a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o evangelho
foi escrito. A comunidade está vacilando na sua fé, assolada por
dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço
da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres,
sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso, Marcos insiste
que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois
as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e não
chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta de Jesus.
O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos
discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada.
Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para
a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos
e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas, Jesus acalmou o
mar e ainda questionava a pouca fé dos Doze: “por que vocês
são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?”
(v. 3). Assim, Marcos quis mostrar aos leitores do seu tempo que Jesus estava
com eles nas dificuldades e que a sua falta de fé estava causando grande
parte das dificuldades que estavam enfrentando.
Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana, ou ainda como
o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição
da sua influência, para muitos a Igreja esta se afundando. Em lugar de
assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam
numa religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir
o Reino de Deus entre nós. Marcos vem corrigir esta ideologia triunfalista
e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos
e para o mundo “quem é este homem?”, e a segui-Lo no dia
a dia. Pois, Jesus não está alheio às nossas dificuldades!
Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que
não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que
as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé n’Ele não
é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar a
nossa cruz e segui-Lo, na certeza que Ele não nos abandonará!
Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por
que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”
Décimo Primeiro Domingo Comum (14.06.09)
Mc 4, 26-34
“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”
O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o
estudo dos Evangelhos - “o Reino de Deus” e “as parábolas”.
Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses
dois termos ou conceitos.
Existe um consenso entre estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes,
que existem dois termos nos textos evangélicos que provém do próprio
Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades,
ou seja, “Reino” e Abbá”. Estamos tão acostumados
de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos
que Ele não pregou a si mesmo mas o “Reino de Deus” (geralmente
citado em Mateus como o Reino dos Céus, para evitar o uso do nome de
Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que
ele nunca define, pois é uma realidade dinâmica, mas que ele descreve
por comparações, usando parábolas. “Parábola”
é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens
conhecidos na vida dos ouvintes, e que os leva a tirar as suas próprias
conclusões (de fato, várias vezes temos a explicação
de uma parábola nos evangelhos, mas, essa nasceu da catequese da comunidade
e não teria feito parte da parábola original). O Capítulo
13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar
a natureza do Reino - ou Reinado - de Deus.
No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos
religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam
apressar a sua chegada - os fariseus através da observância da
Lei, os essênios através da pureza ritual, os zelotas, através
de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem
possível nem preciso tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino
de Deus, pois ele possui uma dinâmica interna de crescimento própria.
Como a semente semeada cresce, independente do semeador e sem que ele saiba
como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria
força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade.
Assim, o texto nos ensina o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos
coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização
desenvolvido por ele, Apolo e outros/as missionários/as; ele afirma “Paulo
planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (I Cor 3, 6).
Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão
de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se
tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que a gente relembre que é
importante começar com ações pequenas e singelas, pois,
pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos
grandes. Esta parábola é um lembrete para que não caiamos
na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante,
que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa.
A nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade
de semear o Reinado de Deus - ou seja, criar situações onde realmente
reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça,
começando com sementes minúsculas, para que, não através
do nosso esforço, mas da graça de Deus, eventualmente cresça
uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de
que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de
mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas, confiantes no poder
transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita!
FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (07.06.09)
Mt 28, 16-20
“Vão e façam que todos os povos se tornem meus discípulos”
Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima
Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja
lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza
do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo
Niceno-Constantinopolitano, tão pouco usado nas celebrações
de hoje, onde celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho
“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado,
não criado, consubstancial com o Pai’, e o Espírito que
“dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas
expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade,
pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria
Deus!
Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar
o mistério da Trindade como “três pessoas numa única
natureza”. Mas mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas
ou teológicas abstratas para expressar o que no fundo não é
possível definir, é descobrir o que a Doutrina da Trindade pode
nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez, o livro de Gênesis
possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua
imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher”
(Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é
de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita
na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas na medida em
que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado
à frustração e infelicidade, pois está negando a
sua própria natureza. O egoísmo é a negação
de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados
na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois
é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo
social, econômico e religioso é tido como critério fundamental
da vida, a Doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação
comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça,
no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança
deste Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos
faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em
Jesus de Nazaré - a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade
o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja
pela ação do Espírito Santo. Na medida em que criarmos
comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz,
estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade
e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria
vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático
- como se fosse possível explicar “três em um” - mas
do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos
comunitariamente na sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo
tempo celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto
o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus.
DOMINGO DE PENTECOSTES (31.05.09)
At 2, 1-11
“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”
A liturgia de hoje nos apresenta a descida do Espírito Santo sobre a
comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas
(Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos
olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda
muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois
em João, a Ressurreição, a Ascensão e a Descida
do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa
os três eventos, num período de cinquenta dias. Assim, devemos
ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores -
os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão,
correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para
a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito
Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a
força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã
se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes
também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito
Santo” (At , 2, 4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um
relato uniforme e coeso – mas, isso se deve à habilidade literária
do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de
duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições:
a primeira está nos vv.1-4, uma tradição mais antiga e
apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética
e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos
se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos,
os Onze, as mulheres, entre as quais Maria a mãe de Jesus, e os irmãos
do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas
diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos
estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na
oração” (At 1, 14). Ou seja, a descida do Espírito
não é algo mágico, mas consequência da unidade na
fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos
da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o
som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da
descida do Espírito é o “falar em outras línguas”
(não o “falar em línguas”- glossolalia - tão
valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda, da casa para
um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível
da presença do Espírito não é mais o falar em outras
línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na
sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1,
6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”.
Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir”
na sua própria língua (vv. 6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar
que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético
- de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem,
que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade,
do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças,
áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as
maravilhas do Senhor. Lucas ensina que a aceitação do Evangelho
não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação
cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura
específica. Durante séculos, este fato foi esquecido nas Igrejas,
e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia.
Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”,
de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais
das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre
de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto
de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído
por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar
o Evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação
da Igreja de uma seita judaica numa comunidade universal, missionária,
mas, não proselitista, comprometida com a construção do
Reino de Deus “até os confins da terra”. Mas, Lucas insiste
que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é
uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito
Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os
samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos,
sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito
Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos
do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária,
não a de falar em línguas, mas de falar a língua única
do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre
todos os povos, culturas, raças e etnias.
Jo 20, 19-23
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da
Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é
o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação
nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente
a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso.
Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos
- “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz”
procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”,
que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende.
O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da
justiça do Reino. Como cantamos na Campanha de Fraternidade, “da
justiça nascerá a paz.” Jesus não promete a paz do
comodismo; mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão
árdua em favor do Reino, prometendo o Shalom, pois, Ele nunca abandonará
quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo)
sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria
com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos
em Pentecostes; mas, aquilo era a descida oficial e pública do Espírito
para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do
Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação
de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver
com o perdão dos pecados.
Que a celebração nos anime para que busquemos a criação
de um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa da
opressão e injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de justiça,
solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo - agora
depende de nós usarmos essa força que temos, na construção
do mundo que Deus quer.
FESTA DA ASCENSÃO DO SENHOR (24.05.09)
Mc 16, 15-20
“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia para toda a humanidade”
Este texto, desde v. 9, que contém o fim de Marcos, interrompe o fio
da narração precedente, é muito diferente em estilo e vocabulário
do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos.
Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”
provavelmente escrito no segundo século, e baseado basicamente no Capítulo
24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências
de fatos narrados em Atos. Embora não acrescente nada de novo para uma
melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais,
traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje.
Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus - o de levar a Boa-Nova
para toda a humanidade (Mt 28, 18-20). A Igreja é por sua natureza missionária,
e uma Igreja que descuidasse desse mandato estaria traindo a sua identidade.
Porém, faz-se necessário distinguir entre “missão”
e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar
fiéis de outras Igrejas para a sua. Giram ao redor de si mesmas, identificando
a sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária
tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões,
respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas
de boa vontade a descobrirem a presença do Reino - e do anti-Reino -
nas suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento
desse mandato nos fará lembrar que nós não somos donos
da missão - a missão é do próprio Deus, cujo Filho
Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou a comunidade
de discípulos/as para continuar a sua missão da implantação
do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço
dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem
de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária,
fechando-se na sua própria comunidade, movimento, ou Igreja - pelo contrário,
devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo e comprometidos
com a construção da sociedade justa e solidária que será
uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da
missão a longo prazo é de reunir a humanidade inteira no Reino
de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Fazemo-lo através
da proclamação explícita da Boa Nova, e no estabelecimento
de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições
religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho
e serviço e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação
integral.
O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária:
“expulsão de demônios”: expulsando da convivência
humana os sinais do mal, do anti-Reino, que escraviza e oprime milhões
de pessoas, através de estruturas econômicas, sociais e até
religiosas, de exclusão; “falando línguas”: como em
Pentecostes, criando uma nova língua do diálogo e respeito, a
linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”-
superando tanto veneno semeado durante milênios na convivência humana,
expressado através do racismo, machismo, clericalismo, e todos os “ismos”
que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando na prática
para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (Jo 10, 10),
como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando
a saúde integral, das pessoas e da criação, através
da vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria
trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres”
duvidosos, a falação de supostas “línguas dos anjos”,
e a satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio
emocional com a presença diabólica.
Durante séculos, muitas vezes os cristãos do Brasil - e de muitas
outras regiões - têm se acomodado com a vivência de uma religião
individual, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos
uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a
prática religiosa e a transformação social. O mandato de
semearmos a Boa Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a
Jesus - não somente à sua pessoa, mas também à sua
prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade.
SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (17.05.09)
Jo 15, 9-17
“Amem-se uns aos outros”
Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos
como o de hoje, pelo menos pelas diversas frases lapidares tecidas dentro dele.
Sobressai o tema básico do “amor” - como a característica
que deve distinguir os/as discípulos/as de Jesus.
O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os
nossos cantos, poemas e novelas - mesmo que seja mais na fala do que na prática.
Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos
Evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro
sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e burguesa lhe atribui.
Na sociedade atual, o amor não passa de um sentimento agradável,
uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado.
Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel,
sem consistência. Passado o sentimento, termina o amor! Uma das consequências
dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios,
de separações, de desistências de tudo que é compromisso,
pois a base é como areia movediça, não sustenta o peso
do dia-a-dia durante anos.
O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido - é o amor “como
eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando a sua vida por nós.
O amor torna-se uma atitude de vida, e não um sentimento. A comunidade
dos discípulos/as - a Igreja - deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas
com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida
plenamente” (Jo, 10, 10). A comunidade cristã deve ser muito mais
do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá que fosse isso também,
pois frequentemente nem isso é!) - deve ser uma comunidade enraizada
no amor de Jesus, que é a encarnação do Deus da vida, animada
pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer.
A pedra-de-toque de uma comunidade cristã então não será
o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos
que devem permanecer (v. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade
dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça
e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá
ultrapassar os limites da mera simpatia e atração, para assumir
a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai.
É interessante que, embora o trecho situe-se no contexto da véspera
da paixão, Jesus fala da alegra e da alegria completa. É impressionante
como, num mundo que propõe a satisfação imediata pessoal
e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e
pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida.
Quantos jovens, mesmo - ou talvez especialmente - nas classes mais abastadas,
irrequietos e perdidos na vida. Pois a alegria não vem somente das posses
e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente elevar
à frustração. Mas também há muita gente,
muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira
alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre
a rocha - uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca
duma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para
a felicidade - sempre ter mais, numa busca individualista de felicidade, que
só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão
ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria
- uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade,
que tem a alegria não como meta, mas que a traz como consequência.
Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”,
mas há o mandamento do amor! Para isso precisamos de uma vida fortemente
fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois se não temos,
será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos”
e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem o seu projeto.
Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o comprimento
duma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de
vida, continuador da sua missão, no mundo atual. Um projeto além
das nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado
do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz
o texto “o Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês
pedirem em meu nome” (v.16). É um projeto que nos coloca na contramão
da sociedade atual, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos
ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando
é isso - amem-se uns aos outros”. (v. 17)
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (10.05.09)
Jo 15, 1-8
“Sem mim, vocês não podem fazer nada”
Esse texto inicia a seção do quarto evangelho que tem os trechos
que mais se aproximam aos discursos da vida pública de Jesus nos Sinóticos.
Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João - a da vinha
e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus
e os seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15, 18-16, 4)
vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores.
No Antigo Testamento frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira)
escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor; mas, que deu frutas amargas.
Na primeira parte de João vimos como Jesus substitui as instituições
e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se ficarem
unidos a Ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão
ao vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava
podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do Novo
Israel não falhará, sempre haverá ramos secos a serem tirados
e queimados.
A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática
da justiça e solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia toda,
tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas, os cristãos somente poderão
dar este fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim,
nada poderão fazer”. Mais uma vez volta-se à idéia
que é pelos frutos que se conhece a árvore.
Assim nos leva a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização
têm dado no Brasil e na América Latina. Com uma das piores distribuições
de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras
nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com
tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para
que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o
mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de Missa
Dominical, mas de semanas injustas, não agrada o Deus da vida.
Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração,
não é cristã. Uma Igreja que se instala só para
estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não
ouve o clamor dos injustiçados, não é a verdadeira Igreja
do nosso Divino Redentor” (Discurso 04.12.1977). Sem dúvida, há
muita coisa realmente boa acontecendo nas comunidades cristãs do Brasil,
bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção
de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade
e solidariedade e não no lucro, competitividade e na lei da selva.
Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas
as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem
forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neo-liberalismo,
da globalização, das forças do mercado. Seria fácil
cairmos na tentação de desistir da luta para melhorar a sociedade,
pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos
unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia
também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição.
Se sem Ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade
- com Ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos,
mas sem dúvida como colaboradores d’Ele na construção
do Reino de Deus.
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos
e pelos setores mais comprometidos das Igrejas, os sofrimentos dos mártires
da caminhada e das suas famílias, são podas - mas podas que darão
mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano,
aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o
projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão
matar o crescimento do Reino entre nós - uma vez que fiquemos unidos
a Ele, e entre nós, pois “sem mim, nada poderão fazer”!
QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (03.05.09)
Jo 10, 11-18
“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”
Conforme a Tradição, hoje é o dia Mundial de Oração
pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto
de hoje nos demonstra a compreensão que a Comunidade do Discípulo
Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus.
A imagem escolhida é a do “pastor” - uma imagem muito usada
nos escritos do Antigo Testamento (Sl 40, 11; Ez 34, 15; 37, 24; Eclo 18, 13;
Zc 11, 17; etc.). Às vezes é aplicada ao próprio Deus (Sl
23, 1; Is 40, 11; Jr 31, 9), às vezes ao futuro rei messiânico
(Sl 78, 70-72; Ez 37, 24), às vezes aos líderes político-religiosos
de Israel (Jr 2, 8; 10, 21; 23, 1-8; Ez 34). Também os Evangelistas Sinóticos
a usaram bastante (Mc 6, 34; 14, 27; Mt 9, 36; 18, 12-13; 25, 32; 26, 31; Lc
15, 3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa
da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à
vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”,
significa “ideal” ou “nobre” e não somente eficiência
na sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se
da sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho.
O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação
dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente
cuidam dos seus próprios interesses. Aqui o texto está bem na
tradição profética de Ezequiel (Ez 34) que condenava os
“maus pastores” do povo de Deus - os líderes religiosos e
políticos do seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira
deportação para Babilônia e a destruição de
Jerusalém em 587 aC) , que somente exploravam o povo para o seu próprio
proveito, abandonando-o na horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo
de Ezequiel e de Jesus podem ser aplicadas quase que diretamente a muitos líderes
políticos (e às vezes religiosos) dos nosso tempos!
O trecho destaca o verbo “conhecer” - Jesus conhece as suas ovelhas
como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na
linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica
um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que
Jesus tem dos seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe
entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções
ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto
de doar a vida. Assim, a morte na Cruz - assumida livremente por Jesus - é
a expressão suprema desse amor.
Mas o amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da
comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos
“os seus” - todos os povos do mundo. Aqui talvez haja uma referência
às outras comunidades não-joaninas do tempo do escrito, mas também
podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja - a de colaborar
na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo,
sem distinção de raça, cor, cultura ou religião,
são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não
devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até
que toda a humanidade faça parte dela; mas, muito mais como a realização
do pedido do Pai-nosso - “seja feita a vossa vontade, assim na terra como
no Céu”, onde se procura o bem, a justiça e a fraternidade,
mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de
Deus.
Como seguidores do Bom Pastor também somos convidados à vivência
desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não
implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo,
e a todos os “ismos” que nos dividem e separam, seja por causa do
gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa
da vida, lá existe a missão do Bom Pastor, Ele que veio “para
que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” ( Jo 10, 10)
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (26 de abril de 2009)
Lc 24, 35-48
“E vocês são testemunhas disso.”
O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas,
que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de
Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos
na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua
obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não
estamos mais com a primeira geração de discípulos - já
se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade
já está vacilando na sua fé - as perseguições
estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo
diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista
a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece mais forte a morte do que a vida,
a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.
Neste cenário, Lucas escreve este capítulo. Traz uma mensagem
de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época -
e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão
procurando entre os mortos aquele que está vivo?” E afirmam: “Ele
não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos
tempos - diante da péssima situação da maioria do nosso
povo que enfrenta a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo
salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas
de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação,
é muito fácil perder esperança e coragem. Mas, Jesus venceu
o mal, não foi derrotado pela morte, e está no meio de nós!
Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva
da comunidade lucana - e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio,
mas estão desanimados, desiludidos, sem forças - pois ainda não
fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois,
a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário,
a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os
dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A
Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho”
(v. 32), mas não lhes abriu os olhos - para isso era necessário
formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram...
como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35).
Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é
símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em
acreditar - pois a mensagem da Ressurreição é realmente
espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e
se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E
vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados,
desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários
corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão
e o perdão dos pecados a todas as nações” (v. 47).
Hoje em dia, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua
fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência
sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos
a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Mas, essa experiência
não serve somente para o nosso consolo pessoal - somos comandados a imitar
os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram
na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa
experiência religiosa não é algo intimista e individualista,
mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção
de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade
da criação, sem excluídos e marginalizados!
UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS
Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos
dois discípulos na estrada de Emaús. Aqui temos o retrato das
suas comunidades - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir
a presença do Ressuscitado entre elas. Lucas procura reanimar o seu pessoal,
mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário,
estão caminhando junto com a presença do Senhor que venceu a morte.
Essa história também nos pode ajudar bastante hoje, pois nos indica
como devemos usar a Bíblia para animar a nossa caminhada. Jesus é
o mestre da Bíblia; e aqui Ele ensina como aproveitar a Escritura para
iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e nos dar coragem
na nossa missão de evangelizadores.
O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama
que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:
Primeiro ato: vv 13 -19a: “Introdução”
O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos
já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós
seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos
era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de
tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante
onze quilômetros de Jerusalém”.
Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do
que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível
que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade
de sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando
para sua casa. A cena começa com a desintegração da comunidade
cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem
alegria nem esperança.
Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas. E o outro?
O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe
do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19,
25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos fossem
um casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação
pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é
uma hipótese agradável e possível.
De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas
quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver
- mas, Ele tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante
notar como Jesus se comporta, através dos verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”,
“caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio
“dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas.
Ele criou um ambiente de fraternidade onde seria possível explicar tanto
a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas
comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância!
Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer
a realidade dos nossos irmãos e irmãs! Por isso mesmo, muitas
vezes não tem efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.
O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é
que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá
uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem
moralismo. Ele parte da realidade dos dois.
Segundo Ato: vv 19b -24: “Os discípulos falam”
Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não
titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante
da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos
que Ele fosse o libertador de Israel” (v. 21). Eles “esperavam”,
portanto não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção,
desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus,
pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos
vão muito além de uma simples tristeza!
É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi quem
matou Jesus - não foi o povo, foram grupos de interesse bem definidos:
“Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado
à morte, e o crucificaram” (v. 20)
Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer, ou a algo
desejado pelo Pai, é bom examinar mais profundamente esta afirmação
do Cléofas: Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes
dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes saduceus, que dominavam o comércio
do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através
da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação
e pelo profetismo de Jesus.
Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”,
ou seja, os membros do Sinédrio, que governava os judeus nos assuntos
internos, onde a maioria pertencia ao partido elitista dos saduceus (não
dos fariseus), colaboradores com o poder Romano, lucrando bastante com isso.
Então Jesus foi morto não por acaso, mas porque ameaçava
os privilégios da elite dominante! A cruz era a consequência lógica
da vida de Jesus!
Outro elemento importante é o fato de que eles sabiam do túmulo
vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história
das mulheres. Mas isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que
a nossa fé não se baseia no túmulo vazio! É a nossa
fé na Ressurreição que explica por que o túmulo
estava vazio, e não o túmulo que dá consistência
à nossa fé!
Terceiro Ato: VV 25-27: a Bíblia
Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam de cor os salmos e as profecias. O seu problema era que embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isto é, Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus.
Quarto Ato: vv 28-32: a partilha
Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar
a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar
na sua casa, no aconchego do seu lar, e não numa hospedaria, como normalmente
a gente supõe. Aqui temos o ponto central da história - pois até
agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse
ter sido, não mudou a vida deles. Mas agora sim. Jesus se põe
à mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu
e deu a eles” (v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que
recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da
comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos
se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31).
Neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles! Por que? Porque, uma
vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles,
eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença
física. Agora eles caem dentro de si e reconhecem que “estava o
nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho, e nos
explicava as Escrituras?” ( v. 32)
A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”,
mas para “abrir os olhos” é necessária também
a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!
Quinto Ato: vv 33-36: a missão
Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência
bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência
da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de
uma comunidade fraterna de missão. Os mesmos dois que de manha fugiam
de Jerusalém, lugar da morte, da perseguição, do fracasso,
de tardezinha se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém
durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição.
Mas, mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal,
eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo,
há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus
Ressuscitado. A história que começou com a comunidade se desintegrando,
termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois
puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão”
(v. 34).
E os dois de Emaús puderam contar: “O que tinha acontecido no caminho,
e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 36).
Essa história pode servir para nós como paradigma de um círculo
bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós
damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais
- a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade.
É na união entre estes elementos que se revela a presença
do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes
aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna “Lâmpada
para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos
unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos
como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem
hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7).
SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (19 de abril de 2009)
Jo 20, 19-31
“A paz esteja com vocês!”
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da
Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é
o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação
nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente
a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso.
Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos
- “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é
importante na vida de Jesus..
No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo
Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança,
junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o
seu grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a
minha paz. A paz que eu dou para vocês não a paz que o mundo dá”
(Jo 14, 27). Ele usou a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”.
É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada
no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito
Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo
a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Frequentemente
a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força
das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo
sofrido - como tantos países experimentaram, e continuam a experimentar
hoje, durante as ditaduras de direita e da esquerda. Assim, a Campanha da Fraternidade
deste ano quis nos conscientizar que a segurança e a paz não se
alcançam simplesmente com maior repressão policial, mas com a
construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna,
como Deus quer. Lembremo-nos que o tema da Campanha não foi “Segurança
Pública”, mas “Fraternidade e Segurança Pública”.
O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o seu povo. Só
existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação
de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação
da humanidade do pecado e das suas consequências. Como dizia o saudoso
Papa Paulo VI, “Justiça é o novo nome da paz!”. O
“shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo
fato da partida de Jesus, pois é através da volta do Filho para
o Pai que o Shalom vai se instalar.
O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus - mas também
um desafio para nós, os seus discípulos/as. Pede a colaboração
humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo,
da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas
e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se
nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos
ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos
que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, este shalom convive
ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas, quem
experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta
a verdade da frase de Jesus, “não fiquem perturbados, nem tenham
medo” (Jo 14, 27), pois disse ele, “eu venci o mundo” (Jo
16, 33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente
influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”,
entendido como “ordem e progresso” na visão positivista das
elites dominantes. Mas, o próprio texto do Evangelho indica que esse
tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras
em Mt 10, 34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra;
eu não vim trazer a paz, e sim a espada”.
Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário,
veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica
numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética d’Ele
revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões,
no coração das pessoas. Pois, a sua prática e pregação
exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva
ou ocultada. A não violência não é sinônima
com não-ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se
numa vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o Shalom tinha lugar
premente; e por isso, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por esta
pregação do verdadeiro shalom - uma aliança de poderes
religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos
sempre “fazer a memória de Jesus” - da sua pessoa e do seu
projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença
- ou ausência - do “shalom” na nossa sociedade, e nos comprometermos
com a criação do mundo mais justo que Deus quer.
O Reino de Deus não é algo escrito numa tábua rasa. Já
existe a força contrária, a do anti-Reino. Assim também,
o shalom não nasce num vácuo - cria-se em oposição
à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como
paz. Por isso será sempre conflituoso - pois necessariamente provocará
a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação
a ele exigirá uma mística profunda! Uma vida dedicada à
construção do Shalom tem como fundamento uma profunda experiência
de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade
para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise
de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão
necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração
última da nossa luta pelo shalom tem que ser enraizada na nossa fé
- por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê
a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu
clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce
para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra
a vida (Êx 3, 7-10). É coerência com o seguimento de Jesus,
o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós, (Jo
1, 1.14) vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (Jo 10, 10).
Por isso, devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus que conclama
a todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem
na Boa Notícia” (Mc 1, 14).
As raízes da violência, do anti-Reino, estão dentro de todos
nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer
discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer
pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus tratos contra quem quer que seja,
quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à
inveja e ao ciúme, ao ódio e raiva, ao racismo, machismo, classismo,
ou a qualquer outro "ismo" que nos divide - estamos nos opondo ao
shalom de Deus. Quando colocamos a propriedade particular como um valor em cima
da vida humana, quando defendemos a pena da morte, quando apoiamos politicamente
estruturas que acumulam bens nas mãos de poucos, quando aceitamos a ideologia
do neoliberalismo, com o seu Deus do lucro, o seu evangelho de competitividade
que faz do irmão e irmã os meus rivais, estamos contribuindo para
que o shalom não aconteça. A batalha - e é batalha - contra
a violência em favor da paz se travará em muitas frentes - dentro
de cada um de nós, nas instâncias de poder político, religioso,
eclesial, social e cultural. Os cristãos de todas as igrejas terão
uma responsabilidade muito grande de ser tornarem arautos do shalom, protagonistas
de uma nova ordem social, seguindo as pegadas do Mestre que desmascarava a violência
sofrida pelo seu povo - muitas vezes em nome de Deus - e trouxe a proposta de
um mundo diferente, baseado nos valores do Reino.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo)
sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria
com o Espírito Santo.
Normalmente, imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos
em Pentecostes, como Lucas descreve em Atos, mas aquilo era a descida oficial
e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no
mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é
invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta
ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos
pecados.
Mais uma vez, num domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase
sobre o Domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele
representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século,
que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos
e tribulações da vida. Assim nos representa, quando nós
vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os
que acreditaram sem ter visto!”. Essa muitas vezes será a realidade
da nossa fé - acreditar contra todas as aparências que o bem é
mais forte do que o mal, a vida do que a morte, o Shalom do que a prepotência!
Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do
Ressuscitado vai nos dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé
(Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos
deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento
crescente de quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final
e definitivo - Jesus é Senhor e Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o evangelho
terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais
tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”.
Agora ele repete essa afirmação e abençoa todos os que
O aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada -
mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida
n’Ele.
DOMINGO DE PÁSCOA (12 de abril de 2009)
Jo 20, 1-9
“Ele viu e acreditou”
Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição,
cada um de acordo com as suas tradições. Mas, certos elementos
são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras
testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e
identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para
vigiar e lamentar), que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a
conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo
dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os
homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras
gerações fizeram questão de diminuir a importância
das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até
hoje as conseqüências.
Lendo os relatos, um fato salta aos olhos - ninguém esperava a Ressurreição!
Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão
possível. Se somamos a isso o fato que todos eles traíram Jesus
(ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre
eles na manhã do Domingo. Nesse meio chega a Maria com a notícia
de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo
tinha sido roubado. Ressurreição - nem pensar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurreicionais)
e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um
dos Doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão
histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e
a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo
Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê
sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro
só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto
o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só
quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além
das aparências!
Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús,
o texto demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo
vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé
na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência
da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo
está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa
fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil
não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto
sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção
endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas!
Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador
no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor,
com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas,
da graça sobre o pecado! Nós todos somos discípulos/as
amados/as, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo”
(Rm 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que
amamos a Jesus e ao próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto
pelo evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida,
de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no
seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos
amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos
pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos
uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).
Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre
a morte, nos anime e dê força, nesses dias da aparente (mas somente
aparente!) vitória da arrogância e prepotência dos países
hegemônicos, e especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas.
DOMINGO DE RAMOS (5 de abril de 2009)
Mc 11, 1-11
“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”
Quase não existe comunidade católica no Brasil que não
comemore hoje, com muita alegria e entusiasmo, a entrada de Jesus em Jerusalém.
Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente
pisam numa igreja num domingo comum, hoje fazem questão de não
perder a celebração. Mas acredito que, para não reduzirmos
a comemoração a mero folclore ou teatro, seja importante estudar
mais de perto o que significava esta entrada em Jerusalém para Jesus,
e para o evangelista.
Uma das coisas que dificultam o nosso entendimento da passagem - como de outros
textos - é a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre
relembrar hoje um trecho do profeta Zacarias: “Dance de alegria, cidade
de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu
rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado
num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará a paz a
todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar,
do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9-10). Esse era
um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os “Anawim”,
ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada
do Messias libertador. Entre este grupo seguramente estavam Maria e José,
e os discípulos de Jesus. Jesus foi educado dentro dessa espiritualidade.
Zacarias traçava as características do verdadeiro messias - seria
um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra,
mas de paz! Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do
tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde poderosos e ricos oprimiam
os pobres e pacíficos! Um rei jamais entraria numa cidade montado num
jumento - o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco de raça!
Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura do profeta
Zacarias, e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres
e oprimidos!
Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em
Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Presidente
ou Governador dos nossos tempos, - de pompa, imponência e demonstração
de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência
de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus! O contrário
do que significava o que Jesus fez! Chamamos o evento da “entrada triunfal
de Jesus em Jerusalém” - e realmente foi uma entrada triunfal,
mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor,
o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus! Nada mais longe
do sentido original deste evento do que manifestações de poderio
e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho
de Jesus! O texto de hoje convida a todos nós a revermos as nossas atitudes.
Seguimos Jesus - mas, será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré,
o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias?
Ou inventamos um outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força,
poder e prestígio, conforme o mundo entende estes termos? É valiosa
a advertência contida num canto muito usado nas celebrações
de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por
isso não creram nele e mataram o salvador!”
Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, ou só fazemos um
folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica
e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força
do direito (Jesus e o seu projeto de vida) ou no direito da força (George
Bush, Osama-bin-Laden e os tantos aliados deles com o seu projeto de morte?)
QUINTO DOMINGO DA QUARESMA - 29 Março 2009
Jo 12, 20-33
“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”
O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos.
Até uma leitura rápida vai trazer lembranças dos seus textos
sobre o seguimento de Jesus, p. ex. Lc 9, 22-25: “Se alguém quer
me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre
outros. João faz uma redação conforme a sua teologia e
enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a Ele, ou
seja, na luta em favor do seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta
que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos
e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar
ao serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois, o projeto
de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida – ele será
como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre,
fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (v. 24). Não
que Jesus queria a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento
do projeto do Pai – e apesar das aparências, não levam à
derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista,
mas para dar a vida em favor de muitos.
Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era
a comum - em geral as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante,
glorioso, guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher
na sua imagem e semelhança; mas, na verdade, nós muitas vezes
criamos Deus em nossa imagem, e semelhança, para que Ele não nos
incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de
seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus,
não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas
do seu mestre: “S e alguém quer servir a mim, que me siga”
(v. 26).
O seguimento de Jesus leva à cruz; pois, a vivência das atitudes
e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes
contrários ao Evangelho. Mas, é importante compreender o sentido
de “carregar a cruz”. Não é agüentar qualquer
sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz
é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do
Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus
fazia na sua época e situação social e cultural, mas o
que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios da nossa sociedade,
convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado,
não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos,
os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”, (a elite dominante em
termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito,
os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam
os mesmos interesses dos oponentes de Jesus – sejam eles sócio-políticos,
econômicos ou religiosos – normalmente tudo vem misturado! Por isso,
sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”,
sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista,
sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas.
Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato Sinótico,
quando rejeitava o seguimento de um Messias Sofredor (Mc 8, 32).
Mas, que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com
os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é
Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções
concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história.
Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não
traz conseqüências sociais, que não nos engaja na luta por
uma sociedade mais justa. Fiquei triste há pouco tempo ao ouvir uma senhora
que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da Teologia
de Prosperidade, na verdade uma empresa multi-nacional, exclamar “agora
achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria,
mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus
do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro: “Quem tem apego
à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo,
vai conservá-la para a vida eterna” (v. 25). É claro que
aqui se usa um semitismo – o contraste com o “apegar-se” é
expressado pelo verbo “desprezar”- o que significa “amar menos”.
Essa opção é difícil – embora João
não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus
diz “estou perturbado” (v. 27). Mas, o Pai lhe deu força,
como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento
de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção
de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham
a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus
e de cidadãos da sociedade.
QUARTO DOMINGO DA QUARESMA - 22 Março 2009
Jo 3, 14-21
“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por Ele”
Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (vv. 16-21)
que podem ser entendidos como resumo de todo o evangelho de João. Inclui
também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento
judaico da época.
Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar”
do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Nm 21,
1-9. O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na cruz
como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta
de Jesus ao Pai.
A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma
vez cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos
em João. Muitas vezes refere-se às forças opostas a Jesus,
e, portanto tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere
à criação de Deus, o universo, com uma conotação
positiva. Infelizmente nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões
vêem o mundo como algo negativo e pecaminoso – freqüentemente
justificando-se com uma interpretação errônea de João
e assim criando uma religião dualista, onde o “espiritual”
é santo enquanto o “material” é pecaminoso. Assim,
o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se
uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres.
Tal visão deve mais a certas religiões pagãs do que à
mensagem do Evangelho.
A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar. Porém
a própria presença de Jesus já constitui um julgamento,
pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo,
e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da
história; mas, para João se dá quando alguém se
encontra na presença de Jesus e conscientemente recusa a sua mensagem.
O termo que a teologia usa para essa visão é “escatologia
realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há
paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos Essênios.
O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas, é
importante lembrar que “crer” não é somente um exercício
intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é
assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir nas suas pegadas. É
fazer as suas opções concretas, ou melhor, de agir como ele agiria
se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante
dos escândalos e crises que assolam o nosso mundo? Que posição
tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos
de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária? O
que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual,
criada por gananciosos que não sofrem as conseqüências da
sua sede sem limites de lucro. “Crer” n’Ele não é
afirmar teses teológicas, mas seguir na prática esse Jesus de
Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos.
É bom notar que Jesus, enfatizando nessa seção a necessidade
do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos)
nega a importância de nascer fisicamente no Povo Eleito – mais uma
vez, como em Caná e no Templo (2, 1-11.13-22), Jesus substitui um dos
pilares do judaísmo da sua época!
Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo sem
violências, – lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo
a verdade” (v. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida,
contra a exclusa,o realmente “crê” em Jesus, seja qual for
a sua confissão religiosa, e “não é condenado”
(v. 18). Quem não faz essa opção, opta então pelas
trevas, mesmo que professe de uma maneira ortodoxa as teses da fé, mas
realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus”
(v. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo
bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É
pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos
as nossas opções de uma maneira sincera.
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA - 15 Março 2009
João 2, 13-25
“Mas Ele falava do templo do seu corpo”
Na cena do texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três
Páscoas mencionadas em João (nos Sinóticos - Mt, Mc, Lc
- a vida pública de Jesus só durou um ano e eles só mencionam
uma Páscoa). No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro
da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos,
ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível
comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que
a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava
esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação
de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o
funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos
judeus no sinal das bodas de Caná, aqui ele demonstra que o centro do
culto judaico perdeu o seu sentido. Pois, a presença de Deus, antes achada
no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante
reside em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias
e Zacarias que predisseram uma religião sem templo nacionalista, explorador
econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).
João entende que o templo é o corpo de Jesus, que será
ressuscitado em três dias – ele usa de propósito o verbo
“reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos
(Mt 26, 61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo,
abusando do povo economicamente, como vão destruir o corpo de Jesus,
matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita
Deus, na ressurreição, depois de três dias.
Mais uma vez Jesus, através de uma ação profética,
desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades
de Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias
pomposas bem frequentadas, a sua religião era vazia, pois escondia o
rosto verdadeiro de Deus. As igrejas correm este mesmo risco nos dias de hoje.
Além da descarada exploração financeira dos seus fiéis
por parte de algumas seitas (cuidemos para não generalizarmos aqui e
evitemos que a mesma coisa aconteça na nossa Igreja!), aos poucos muitas
comunidades cristãs perderam a sua dimensão profética de
denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neo-liberal de consumismo
e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria
a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os
valores da sociedade vigente. Como escreveu uma vez o Frei Beto, a religião
assim “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela
histeria pública, a meditação pela emoção,
a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna
o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais
na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção
dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica
e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias
se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências”
(Estadão 03.11.99).
Assim, o texto de hoje nos traz um alerta – Jesus não veio compactuar
com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para
encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e
de toda exploração; ele veio “para que todos tenham a vida
e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Uma religião que abandona
a sua função profética é tão traidora como
a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, diante
da arrogância despótica de George W. Bush e seus aliados, verdadeiros
criminosos de guerra, diante do massacre em Gaza, diante da tragédia
de Darfur e do Congo, as vozes de Bento XVI, do Arcebispo Desmond Tutu, do Dalai
Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do
mundo, lembrando-nos que a religião não se confina à sacristia,
mas tem que levar à prática dos princípios do Reino, que
recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios.
A Campanha da Fraternidade 2009 convoca todos os cristãos para que recuperem
essa dimensão profética na luta em favor da verdadeira segurança
com o lema “A Paz é Fruto da Justiça” (Is 32, 17),
e não das armas, dos bombardeios ou da repressão policial. Aproveitemos
do “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa
prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo
– de ser bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido.
SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA - 8 Março 2009
Mc 9, 2-10
“Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!
O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos,
na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria
ser o seu seguimento:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo,
tome cada dia a sua cruz, e me siga” (8, 34). Começando essa passagem
com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente
o texto com a mensagem anterior sobre a cruz.
O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante - o fato que
ele era um homem de oração. Durante a oração aparecem
Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim, Marcos
mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é,
o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois
personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos
no seu tempo - Marcos aqui vislumbra mais uma vez o destino de Jesus, de ser
rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus.
Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre,
é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma
para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Claro, seria bom ficar
ali, num momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas,
dos desentendimentos, da luta. Quem não iria querer? Mas, é uma
sugestão que Jesus não pode aceitar. Terminado o momento de revelação,
“Jesus estava sozinho” e em seguida “desceram da montanha”
(v. 9). Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é precisa
descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência
da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência
da cruz!! Talvez, foi a força da experiência do Monte Tabor que
deu a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem
dolorosa do Calvário!
Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos
de momentos de oração profunda, de união especial com Deus.
Mas, essas experiências não são “intimistas”
- nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento para que possamos seguir
o exemplo d’Ele que lavou os pés dos discípulos:“Eu,
que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês
devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Também,
esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”,
os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos
coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência
de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência
- por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus,
na meditação - mas sempre para que possamos retomar o caminho,
como fizeram Jesus e os três discípulos! Para os momentos de dúvida
e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através
da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!”
(v. 7). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA - 1 Março 2009
Mc 1, 12-15
“Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por satanás”
Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações
de Jesus no deserto - Marcos de uma forma muita resumida, Mateus e Lucas mais
detalhadamente. Mas devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma
experiência mística de Jesus, e então não devem ser
interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista!
Uma coisa logo chama a atenção – nos três Evangelhos
as tentações vêm logo após o batismo de Jesus! O
batismo significava o assumir público da sua missão, como Servo
de Javé. Logo após esse compromisso, ele tem que enfrentar as
tentações. Aqui a experiência de Jesus é como a nossa
própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus; mas, entre
o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem
muitas tentações!!
Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”.
O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas
é a força sustentadora d’Ele, durante as suas tentações.
Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às
suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio
do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência da sua
fé!
O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4, 1-14) pode nos ajudar a aprofundar
o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as
mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente,
enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro, Jesus é tentado
a mandar que uma pedra se tornasse pão. Podemos ver aqui a tentação
do “prazer” - logo que enfrenta um sacrifício por causa da
sua opção, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação
das mais comuns hoje, num mundo que prega a satisfação imediata
dos nossos desejos, criando necessidades falsas através de sofisticadas
campanhas de propaganda. Pois vivemos numa sociedade que prega o individualismo,
onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício,
doação e solidariedade são considerados como ladainha dos
perdedores! É só olhar o número de casamentos que fracassam
diante da primeira crise, ou a quantia de seminaristas, religiosos/as e padres
que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar os
seus votos ou de se ordenar, diante de uma sentida falta de “auto-realização
imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não
só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente,
mas não só! Jesus não é sádico, contra o
necessário para viver dignamente. Mas salienta muito bem que não
é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores
mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a
solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre
bens materiais e espirituais – ambos são necessários para
que se tenha a vida plena! Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam
a sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo
pão de cada dia para todos!
A segunda tentação pode ser vista como a de “ter”.
De novo algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna
da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do consumismo,
do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão
traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário
“ter mais”, e que não importa “ser mais”! Como
sempre, a tentação vem em forma atraente - até a Igreja
pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que
podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação
mais evangélica. Isso sem falar nas pregações midiáticas
que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal
da sua bênção! Somos tentados a não acreditar na
força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré.
Jesus também teve que enfrentar esta tentação - Ele que
veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente
pelos pobres, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para
o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando
a justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor
seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”.
Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos.
Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade
da cruz, para “evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz
e a espada - a América Latina que o diga! Ainda hoje todos nós
enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir,
mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente
de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio
como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar
a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não
tentarás o Senhor seu Deus” (v. 12).
Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São
as tentações do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Coisas
boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente
destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar
o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro
de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação
de discípulos. O relato nos coloca diante da orientação
básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor
seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
SÉTIMO DOMINGO COMUM (22.02.09)
Mc 2, 1-12
“Nunca vimos uma coisa assim”.
O texto de hoje inicia uma série de cinco controvérsias entre
Jesus e diferentes grupos dentro do judaísmo da sua época (fariseus,
escribas, seguidores de João Batista, saduceus, herodianos), mostrando
como o sistema religioso e político vigente era incapaz de reconhecer
a novidade da chegada do Reino de Deus, e se opunha a Jesus. Essa série
vai de 2, 1 até 3, 6 e vai terminar com a frase “faziam um plano
para matar Jesus”. É como se Marcos quisesse mostrar-nos para onde
levaria a fidelidade de Jesus no seguimento da vontade do Pai. Já a Cruz
começa a mostrar a sua sombra desde o início.
A primeira das controvérsias é gerada pela cura de um paralítico.
Para imaginar a cena, devemos lembrar que se trata de uma casa da Palestina
antiga - uma casa de um andar só, cujo teto em forma de terraço
era feito de taipa - por isso a facilidade em descer a maca pelo teto. Mas,
aqui também se esconde uma verdade sobre a vivência que Jesus quer
- o paralítico dependia da solidariedade dos outros para que chegasse
ao lugar da cura. Não é possível o verdadeiro seguimento
de Jesus sem a solidariedade efetiva, especialmente com os mais sofridos e frágeis
da sociedade. Mais uma vez, Marcos enfatiza que a fé precede o milagre,
pois Jesus logo faz a cura “vendo a fé que eles tinham”.
Jesus não se contenta com um milagre que somente sana o sintoma do mal.
Ele diz: “os seus pecados são curados” - pois atrás
de todos os males do mundo há o pecado como raiz - seja pecado individual
ou, muitas vezes, social e comunitário. Como diz Paulo “a criação
inteira geme como em dores do parto” (Rm 8, 22). Quantos sofrimentos hoje
são causados pela ganância e corrupção enraizadas
nas estruturas da nossa sociedade. Jesus ensina que não podemos nos contentar
somente com ações isoladas que dirimem alguns casos individuais
- por tão importantes que possam ser esses gestos de solidariedade. Também
temos que extirpar do nosso meio as raízes dos males - não com
ritos esdrúxulos, mas com ações organizadas, motivadas
pela fé, para que construamos o mundo que Deus quer, onde “todos
tenham a vida e a tenha em abundância” (Jo 10, 10).
Mais uma vez é interessante comparar no texto as reações
das pessoas diante da ação libertadora de Jesus. Os donos do poder,
aqui representados pelos doutores da Lei, ficam escandalizados e enraivecidos
com Jesus, pois a pregação e a ação dele ameaçam
o seu poder sobre o povo. Mas, do outro lado, o povo simples, sofrendo a opressão
da classe dominante político-religiosa, fica cheio de admiração
e de alegria e louva a Deus, pois “nunca vimos coisa assim”. Sempre
há quem se escandalize com a pregação ou ação
libertadora, pois quer a continuidade de um sistema opressor, seja ele político,
econômico, ou religioso, - ou muitas vezes uma combinação
dos três, pois frequentemente a religião é usada para justificar,
em nome de Deus, a exploração sócio-econômica da
maioria.
A ação de Jesus é integral. Ele cura por fora e por dentro.
Não podemos nos contentar com uma ação que não tem
essa integração - não há cura “interior”
a não ser que leve a um mundo material onde todos têm vida digna;
mas uma ação que ataca os sintomas dos males também não
surtirá efeito duradouro se não atingir a raiz dos males - o pecado,
a opção pelo mal, nos seus aspectos individuais, sociais e comunitários.
SEXTO DOMINGO COMUM (15.02.09)
Mc 1, 40-45
“E de toda parte as pessoas iam procurá-lo”
O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer
o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa-Nova” (Mc
1, 38s). Marcos, diferente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo
da pregação de Jesus. Mas ele ilustra esse ensinamento, relatando
ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino
e da sua Boa Notícia.
O texto de hoje descreve a cura de um leproso. Os leprosos estavam entre os
mais marginalizados da época. Eram obrigados a viver fora da cidade ou
aldeia, longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos
(Lv 13, 45-46). A única esperança do leproso de ser reintegrado
na comunidade estava numa cura da parte de Jesus. Ele diz algo significativo:
“Se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus
nunca faz milagre para despertar a fé - pelo contrário só
faz onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé,
mas é a fé que causa o milagre. Isso se torna importante: recordar
no nosso mundo tão afoito em correr atrás de supostos milagres
e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento
d’Ele até a cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a
religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos
das Igrejas cristãs, incluindo a Católica.
A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio
de ira” - certamente não com o leproso, mas com o sistema social
e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de
pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito
de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho
nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar as nossas leis e práticas
para verificar se nós também não criamos classes de excluídos
e cristãos da segunda categoria, em nome de Deus!!
Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do
Evangelho de Marcos - o chamado “segredo messiânico”. Jesus
proíbe que ele conte para os outros a história da cura! Que esperança!
O homem sentiu necessidade de espalhar a boa-notícia da sua cura. Essa
proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos - e no relato da
confissão de Pedro na estrada de Cesaréia de Filipe vamos ver
o motivo atrás dele. Pois Jesus não quer que o povo siga-O buscando
prodígios e milagres, mas quer que todos se tornem os seus discípulos
como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor,
pela concretização do Reino de Deus no meio de nós. Por
isso é de desconfiar de pregações e celebrações
religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, sem um engajamento
na transformação do mundo e das suas estruturas.
Finalmente, o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que a sua cura seja
autenticada, segundo as leis levíticas. Pois, para Jesus, não
basta a cura individual - Ele quer que todas sejam integradas numa vivência
comunitária sem marginalização por causa de gênero,
classe social, raça, cor ou saúde! A fé em Jesus leva a
um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é a nossa
atual sociedade neo-liberal e consumista! Diante dessa boa-nova de inclusão,
o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira
face de Deus a eles - o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido
escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema farisaico da época
- “e de toda parte as pessoas iam procurá-lo”.
QUINTO DOMINGO COMUM (08.02.09)
Mc 1, 29-39
“Foi para isso que eu vim”
O nosso texto de hoje pode ser dividido em três partes: vv 29-31 - a
cura da sogra de Pedro; vv 32-34: curas em Cafarnaum; vv 35-39. Jesus reforça
a sua vocação e missão pela oração. O conjunto
forma uma unidade que nos ensina coisas importantes para a nossa vida de cristãos.
A cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no texto no trecho anterior
(1, 23-28). Aquela cura se dava num lugar considerado “sagrado”,
a sinagoga, enquanto a de hoje num lugar “profano” - a casa; aquela
era de um homem, de hoje de uma mulher; a primeira num lugar público,
a da sogra num lugar privado. Assim Marcos enfatiza que a missão libertadora
de Jesus abrange tudo e todos, sem distinção de gênero,
condição social, ou local. A sogra, quando curada, levanta-se
e começa a servir os discípulos - ou seja, quem é libertado/a
por Jesus não se satisfaz com isso, mas em resposta coloca-se a serviço
da comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como
querem tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade
e à missão.
A cura das multidões de doentes nos mostra a situação do
povo no tempo de Jesus - muitos doentes de todos os tipos, por falta de recursos.
Muito semelhante ao Brasil de hoje. Jesus expulsa os demônios - que significa,
na linguagem daquela época, de tudo que oprimisse a pessoa humana, todas
as manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também
nos convida a descobrir quais as manifestações do mal que devem
ser afugentadas da nossa sociedade de hoje - as que deixam tantas pessoas sem
saúde, sem recursos, sem uma vida digna dos filhos/as de Deus. Nos convida
a lutar, não através de exorcismos teatrais e chocantes, mas através
de uma luta permanente e firme em favor dos que sofrem.
A terceira parte do texto nos traz o segredo da missão de Jesus. Mesmo
esgotado com o trabalho em favor do povo, ele se levanta de madrugada para ficar
na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração,
ele reza a sua missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão
do mato, Jesus achou a força para poder fracassar, humanamente falando!
A atitude de Pedro e dos companheiros é outra - “Todos estão
te procurando”. Isso significa, “Você está fazendo
sucesso em Cafarnaum - volte para lá, faça mais sucesso ainda”.
A tentação permanente do poder e da fama - onde no fundo se busca
mais a auto-realização e o prestígio, do que a vontade
de Deus. Tentação muito atual para os tele-evangelizadores - e
para todos nós. Mas Jesus não cai - a resposta d’Ele é
contundente: “Vamos para outros lugares, pois foi para isso que eu vim”.
Jesus não deixa que a fama e o prestígio o tirem do caminho do
Servo de Javé - Ele anda pelas aldeias da Galiléia, no “fim
da picada”, para levar a compaixão de Deus aos mais abandonados
e sofridos, nos becos-sem-saída de Israel.
Esse trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser
a da cada vida cristã. Quanto mais ele trabalha na missão, mais
ele sente a necessidade de rezar. Mas, quanto mais que reza, mais tem força
para voltar à missão. Jesus não está a serviço
d’Ele mesmo, nem de uma estrutura - mas do Pai e do povo, dois aspectos
da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações
comuns na Igreja de hoje - a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima
com Deus e a de só “rezar” de uma maneira individualista
e intimista, sem dedicação à missão. Jesus mostra
que a missão leva à oração e a oração
leva à missão - e não a qualquer missão, mas à
da libertação do povo sofrido e oprimido.
Festa da Apresentação do Senhor (02.02.09)
Lc 2, 22-40
“Ele crescia, cheio de sabedoria; e o favor de Deus estava com Ele”
O Evangelho de hoje é o mesmo proclamado na Festa da Sagrada Família.
Lucas usou como base para essa narração a história de Elcana
e a sua mulher estéril, Ana, em I Sm 1-2. Deles nasce Samuel, que é
apresentado ao Senhor. O ancião e sacerdote, Eli, aceita a dedicação
do filho deles no santuário de Silo e abençoa os pais do menino.
Lucas expandiu essa fonte com outros temas como os da alegria, do cumprimento
das promessas de Deus, do universalismo da salvação, rejeição
da fé, e do papel das mulheres. Também ilustra a passagem pacífica
do Antigo ao Novo, no encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante o
Advento, Lucas fazia paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista;
e, Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança
são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza.
Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato - o Espírito
Santo e a opção pelos pobres.
Lucas sublinha que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8)
para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício
era permitido aos pobres (Lv 12, 8). Mais uma vez, continuando a lição
da manjedoura e dos pastores, Lucas põe em relevo o amor especial de
Deus para os pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados
entre eles - como aliás, era toda a população do Nazaré
de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel,
os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido
no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”.
É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir
em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança
agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa
Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada
de Maria com Jesus; agora, Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a
novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas
coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (4, 25-28; 4,
31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23,55-24,35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste que
o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade
e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que
os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério
de Jesus. O versículo 33 insiste que “o pai e a mãe do menino
estavam admirados do que se dizia d’Ele” - mais uma vez nos apresentando
José e Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação
que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da
fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo
de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava
com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradativo, como com todos nós;
e, a sua família tinha um papel importantíssimo no seu crescimento.
Se, como adulto, Ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema
tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através
da experiência do seu pai adotivo, José. Se crescia na espiritualidade
dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus
pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia
no ambiente familiar.
Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar e a comunidade, o texto
de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade
e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer
e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância
do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão da nossa sociedade
consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça
aos seus contra-valores. Jesus continua sendo um “sinal da contradição”,
pois o seu projeto da “Justiça do Reino” contrapõe-se
ao projeto de uma sociedade excludente. Diante do sinal de contradição
que é Jesus, todos têm que tomar atitude e ter a coragem de andar
no meio de uma sociedade idolátrica e consumista “na contramão,
com Jesus”.
QUARTO DOMINGO COMUM (01.02.09)
Mc 1, 21-28
“O que significa isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade”
O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do
Evangelho de Marcos - e de todos os Evangelhos - o confronto entre o Reino de
Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado na linguagem
e mentalidade daquele tempo na imagem de um homem doente “possuído
por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus,
sempre com esta luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no
Calvário, que leva, não através de milagres, mas da Cruz,
até a vitória definitiva na Ressurreição.
Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava - mas, como é costume
dele, não nos explicita o que ele ensinava. Mas ilustra o conteúdo
do ensinamento do Mestre relatando uma ação d’Ele - a cura
de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio
do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época
- que tratava toda doença como expressão de um espírito
mau - mas em que o evangelista quer nos mostrar, que na chegada do Evangelho
do Reino, acontece a libertação verdadeira, onde o mal, o pecado,
com todas as suas expressões, está derrotado pelo bem. No relato
de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente
- o bem contra o mal.
No texto, o mal, falando através do homem, reclama contra a chegada do
bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para
nos destruir?” O mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada
de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina, nunca aceita um ensinamento
ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje
- enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais
(sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém
vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar
sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus
agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara:
“quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam “o senhor
é um santo”, mas quando comecei a perguntar por quê existiam
tantos pobres, me falaram “o senhor é um comunista!”- e sabemos
o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil.
Então, o relato nos ensina que com a chegada de Jesus - portanto, também
através da ação das comunidades dos seus discípulos/as
- algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação
do povo: “O que é isso, um ensinamento novo, dado com autoridade?”
A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto no seu conteúdo,
pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento; mas, na sua maneira
de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas;
mas, falava a partir da sua própria experiência de Deus, do Deus
da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões
legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo a sua autonomia de consciência,
libertou-o da dependência dos escribas, e revelou o verdadeiro rosto de
Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é
a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada
pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora
do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores/as, achar meios para praticar
este projeto na nossa situação concreta, não correndo atrás
de milagres, de falsos Messias, de uma Teologia de Retribuição
ou de Prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade,
uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça
e fraternidade - manifestação do projeto de Deus para os seus
filhos/as. Essa ação começa no “micro” - na
nossa família, comunidade, bairro, e Igreja - pois a opção
entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção
e ação nossa.
TERCEIRO DOMINGO COMUM (25.01.09)
Mc 1, 14-20
“Sigam-me e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”
O texto de hoje trata da vocação dos primeiros discípulos
conforme a tradição sinótica, em contraste com o do último
Domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade do Discípulo
Amado.
Marcos logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se
na sua vida pública - “depois que João Batista foi preso”.
Não é uma indicação meramente cronológica,
mas causativa, no sentido de que Jesus começou a pregar porque João
foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de
João Batista, uma vocação que levaria Jesus, como levou
João, ao martírio.
O texto encapsula no versículo 15 todo o conteúdo do Evangelho
na frase lapidar: “o tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está
próximo. Convertam-se e acreditem na Boa-Notícia”. O Reino
de Deus irrompeu no meio da humanidade de uma maneira definitiva, através
da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino exige resposta
da parte das pessoas - a conversão que nasce da fé na Boa-Notícia
da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe.
Deus quis precisar das pessoas para concretizar o seu plano; e, por isso, o
primeiro passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É
importante notar a atividade dos primeiros chamados - dois estavam “lançando
a rede ao mar” e dois estavam “consertando as redes”. Significa
os dois aspectos da vida cristã - a missão (lançar as redes)
e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se rasgam de tanto lançar-se,
assim acontece com a nossa vida, com as nossas comunidades - por sermos frágeis,
facilmente se rompem a nossa comunhão e unidade. Por isso, temos também
de dar tempo para “consertar” - fortalecer a nossa união,
a nossa vida interior, as nossas comunidades. Rede rompida pega nada - e rede
consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada
novamente, também pega nada. É assim com a vida cristã
- se rompermos a nossa unidade e comunhão, não cativaremos as
pessoas para o Reino. Por outro lado, se cairmos numa religião intimista
e individualista, não nos lançando na missão, tampouco
seremos “pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado.
Também é de notar que, tanto os dois que estavam lançando
as redes como os que estavam consertando-as, tiveram que deixar algo para seguir
Jesus - ou as redes, (símbolo da segurança profissional) ou o
pai e os empregados (símbolo da segurança afetiva). Não
é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião de
seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções
às vezes difíceis, tão difundida em programas de televisão
por alguns pregadores “estrelas” das diversas Igrejas, não
é a proposta de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois
gumes” (Hb 4, 12), incomoda e desinstala-nos hoje da mesma maneira do
que os primeiros discípulos. Perguntemo-nos “o que é que
o seguimento de Jesus exige que eu deixe, neste momento concreto da minha caminhada
de discípulo/a?”
SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (18.01.09)
Jo 1, 35-42
“O que é que vocês estão procurando?”
O autor do quarto Evangelho organizou o material dos versículos de
1, 19 - 2, 12 num esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus
- as bodas de Caná - que teve como conseqüência que “os
seus discípulos creram nele” (2, 11). Assim, fez lembrar os sete
dias de criação, pois com Jesus acontece a nova criação.
Jesus não quis agir sozinho - e desde o início chamou para si
um grupo de seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos,
que descreve o chamado dos primeiros discípulos à beira do mar
de Galiléia, talvez o relato do quarto Evangelho guarde uma tradição
mais histórica - que os primeiros discípulos de Jesus eram seguidores
de João, o Batista.
O texto de hoje relata a vocação dos primeiros três discípulos
- André, um discípulo anônimo (o Discípulo Amado?)
e Simão Pedro. O chamado dos primeiros discípulos nos apresenta
um retrato de vocação válido para todos os tempos e todas
as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental - “o
que é que vocês procuram?” São as primeiras palavras
de Jesus no Evangelho de João. Uma pergunta muito importante para todos
nós hoje - o que é que nós procuramos na vida? O que é
o mais importante para nós? Onde procuramos a nossa felicidade e realização?
Não é uma pergunta meramente teórica - é a base
da nossa vivência. Essa pergunta nos interroga - como interrogou os primeiros
discípulos - sobre a busca que dá sentido à nossa vida.
A resposta dos dois “Mestre, onde moras?” mostra que eles queriam
criar comunhão com Jesus - e Ele lhes lança um desafio com o convite
“venham e vejam”! Em João, “ver” tem o sentido
de “crer” (Jo 6, 40). Não se trata simplesmente de conhecer
o endereço d’Ele, mas algo muito mais profundo - descobrir quem
é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai através
de uma vivência de comunhão com Ele, em comunidade de discipulado.
Ambos escolhem unir as suas vidas e os seus destinos a Jesus, pois “ficaram
com Ele”. Não é possível ser discípulo de
Jesus sem que demos tempo para ficarmos com Ele - na oração, na
reflexão, na leitura da sua Palavra.
Mas, não basta conhecer Jesus de uma maneira intimista e individualista
para ser discípulo. Logo, André procura partilhar a sua descoberta,
fazendo com que o seu próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje
também é fundamental que os cristãos testemunhem Jesus,
para que outros possam crer n’Ele - e esse testemunho é dado muito
mais pela nossa maneira de viver e agir do que com as nossas palavras.
O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo
nome de “Pedro” - mudar o nome de uma pessoa, na Bíblia,
muitas vezes, significa uma nova identidade, uma nova vocação
(e.g. Abrão/Abraão, Jacó/Israel, Sarai/Sara etc). Pedro
vai dar muitas cabeçadas antes de descobrir a sua verdadeira identidade.
Aliás, só a encontra no fim do evangelho em Capítulo 21,
quando confessa o seu amor incondicional para com Jesus e a comunidade, e ouve
o convite definitivo do Mestre “Siga-me”. Pedro simboliza a experiência
de todo discípulo - o seguimento de Jesus é uma caminhada de uma
vida toda, com muitos erros e desvios. Mas, o amor incondicional de Deus é
capaz de vencer todas as fraquezas e pecados. Ser discípulo é
um aprendizado permanente - e para que façamos essa caminhada, é
necessário que sigamos os passos dos primeiros discípulos - que
saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos criar comunhão
com Jesus e com a sua comunidade, e, que gastemos tempo com Ele. Assim, teremos
a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida - e como os discípulos,
chegarmos a realmente “crer n’Ele” - não de uma maneira
teórica e difusa, mas através de uma experiência real do
Deus da vida.
FESTA DO BATISMO DO SENHOR (11.01.09)
Mc 1, 7-11
“Tu és o meu Filho bem-amado; em ti encontro o meu agrado”
Nesse Domingo, que comemora o batismo de Jesus, mais uma vez encontramos a
figura do Precursor, João Batista, que foi um dos principais personagens
das liturgias do Advento. Mas, na leitura de hoje, a ênfase cai na aceitação
não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele:
literalmente, “atrás de mim”. A expressão, que denota
a dignidade de quem vem depois do arauto, como num cortejo, põe toda
a importância na pessoa que vem - pois tirar as sandálias era serviço
de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda d’Ele,
inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquele tempo por muitas
pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
Nesse texto de Marcos, o interesse volta-se menos para o batismo de Jesus como
tal, e mais para a revelação divina que se lhe seguiu. Sendo batizado
por João, Jesus coloca-se dentro da humanidade caída, e publicamente
assume o compromisso com a vontade do Pai. A frase “viu os céus
rasgarem-se e o Espírito como uma pomba descer sobre si” enfatiza
que Deus intervém para realizar as suas promessas (Is 63, 19) através
do envio do Espírito Santo. Descendo sobre Jesus, o Espírito o
designa como sendo o Salvador prometido e esperado. A voz do Pai confirma que
Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério público
como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso
compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir
a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um(a) de nós
também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a
quem aprouve escolher-nos. Nada pode nos separar desse amor divino - nem a nossa
fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Nós podemos nos separar de Deus, mas
Ele nunca se separa de nós. O que é importante é reconhecer
que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder
a este amor gratuito por uma vida digna dos filhos e filhas do Pai, no seguimento
de Jesus (1 Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado
do Pai, mas assumiu as conseqüências - uma vida de fidelidade, que
o levava até a Cruz - e à Ressurreição (Fl 2, 6-11).
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo,
comprometendo-nos com o seguimento do Mestre como discípulos-missionários,
na intuição da Conferência de Aparecida, no esforço
da construção do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor,
a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros
de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino
d’Ele, que “já está no meio de nós” (Mc
1,14).
EPIFANIA DO SENHOR (04.01.09)
Mt 2, 1-12
“Ajoelharam-se diante d’Ele, e Lhe prestaram homenagem”
Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação
do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que
Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos,
representados pelo Magos do Oriente. Embora a festa tenha muita popularidade
folclórica, ela esconde uma grande verdade da fé - que a salvação
em Jesus é para todos os povos, sem distinção de raça,
cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta
Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica
da literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura
de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus
quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos
textos do Antigo Testamento. Por exemplo:
Vêm os magos (nem três, nem reis!) buscando o Rei dos Judeus. Esses
magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés
(Ex 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas
maravilhas feitas por Ele.
A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão
(Nm 24, 17)
O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5,
1)
Os presentes lembram as profecias de Isaías sobre os estrangeiros que
viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60, 5; Sl
72, 10-11).
Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do
povo de Deus (Ex 1, 8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes
diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são
versados nas Escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo
através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem
constituem uma ameaça. Outros, pagãos do Oriente, buscando sem
ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe
presentes, sinal da partilha, que será característica do Reino
que Jesus veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e
do seu evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico
com shows e cantos, como se vê claramente nas festas natalinas, quando
até bancos, que desfrutam de lucros astronômicos e imorais, esteios
que são do sistema neo-liberal que cria pobreza em toda parte, promovem
apresentações sentimentais de Natal, usando os mesmos pobres que
eles ajudam a criar! Curitiba que o diga! De forma alguma esse tipo de celebração
questiona a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria
é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas
de boa vontade vão se unir, seja qual for a sua raça, nação,
gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas sim do nosso esforço na vivência
do seu Reino. Não caiamos na celebração oca das histórias
do Ciclo Natalino, reduzindo o seu sentido a algo somente sentimental e folclórico.
Na prática, temos que optar - para a vivência religiosa vazia como
a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino
de Belém, que convoca a todos, representados pelos magos, para a construção
do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos
tenham a vida e a tenham plenamente” ( Jo 10, 10).
Festa da Santa Maria, Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz (01.01.09)
Shalom!
Quando eu estava em Roma escrevendo a minha tese, devia fazer uma análise
do termo hebraico “Shalom”. Não estava contente com as explicações
dadas pelos dicionários, que em geral traduziam o termo por “Paz”.
Por isso, fui procurar um rabino hebreu, que muito carinhosamente me recebeu.
- Falar de Shalom é algo muito importante... - disse-me ele. Talvez seja
um dos termos hebraicos mais carregados de sentido e força que temos
em nossa língua. É certo que traduzir simplesmente por “Paz”
empobrece muito o sentido da palavra original.
Enquanto ele falava, calmamente, pegou um copo e tomando uma jarra de água,
foi colocando no copo muito devagar, deixando soar o borbulhar da água.
O copo foi enchendo, e quanto mais chegava perto da borda, ele ia mais cuidadosamente
derramando ainda água...
- Veja bem, não cabe mais nada. Nem uma gota de água neste copo.
Se eu colocar mais, vai derramar, vai transbordar. É quando tudo está
completo, é a plenitude. Está me entendendo?
Balancei a cabeça em sentido negativo, olhando para o copo cheio de tal
modo que não coubesse mais nada.
- O Shalom é isso, meu irmão. É o máximo que pode
caber. Quando eu desejo um Shalom a alguém, eu desejo todo o bem, tudo
de bom, tanto bem que mais do que isso é impossível desejar. Sinal
da quitação, quando não existe nada mais a pagar. Estás
entendendo?
- Sim, agora entendi o que é o Shalom!
- Não ainda, meu irmão. Para entender bem o sentido do Shalom
é preciso receber o Shalom; é preciso ter o Shalom... Posso ver
em você perturbações, conflitos internos... Para você
ter o Shalom é preciso que você tenha a harmonia interna, que você
equilibre dentro de você as forças, que se sinta bem, que você
esteja em harmonia consigo mesmo, que esteja em paz...
- Agora entendi...
- Ainda não... Você não está sozinho neste mundo.
Você convive com pessoas. As pessoas são importantes na nossa vida.
E devemos estar em relação de harmonia com elas. Harmonizar-se
com as pessoas que estão perto de nós; harmonizar-se com as pessoas
que amamos e queremos bem; harmonizar-se com as pessoas que não gostamos
e que às vezes nos fazem mesmo o mal; harmonizar-se com as pessoas que
estão longe; harmonizar-se com as pessoas que necessitam de paz, de ajuda,
que vivem em dificuldades, que são excluídas, que passam fome,
dor, solidão... Quando nos harmonizamos com as pessoas, então,
sim, temos o Shalom.
- Entendi...
- Mais um pouco... Não estamos sozinhos no mundo. Vivemos rodeados pelas
criaturas de Deus. Você está sentindo a cadeira onde está
sentado? Sente o chão onde firma os seus pés? Sente o ar que está
respirando? Escute! Aposto que não está ouvindo a beleza do canto
do passarinho, o cachorro que late, o grito da vida e da natureza, a suavidade
do vento... Estar em harmonia com a criação, com as criaturas,
com a vida... Isso é também ter o Shalom.
- Agora estou entendendo...
- Tenha ainda um pouco de paciência. Meu irmão, você é
uma criatura, não o Criador. Como um ser criado, você deve estar
em harmonia constante com Deus. O Deus que te amou, e que pensou em ti no momento
da Criação. Para ter o verdadeiro Shalom, você deve estar
em sintonia e em plena harmonia com Deus, nosso Criador... Harmonize a tua vida
com Ele, deixe que Ele guie os teus passos. E então, terás o Shalom.
- Acho que nunca vou entender o que é o Shalom...
- Não, agora você começou a entender o verdadeiro sentido
desta expressão hebraica. Nenhuma palavra das línguas modernas
pode traduzir toda a força e o conteúdo do Shalom da nossa língua
mãe. Mas só quando conseguirmos harmonizar dentro de nós
estas quatro dimensões é que poderemos dizer que temos o Shalom;
só então é que poderemos desejar verdadeiramente um Shalom.
Estar como um copo cheio onde não cabe mais nada; deixar o outro como
um copo repleto.
E me abraçando, olhando-me nos olhos, e então desejou-me um Shalom...
Frei Ildo Perondi, OFM Cap
Londrina-PR
- - -
Esse texto pode e deve ser reproduzido pela mídia impressa e
no rádio, sempre citando a fonte: www.maikol.com.br