Pe. Tomas Hughes, SVD
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Revisão do texto: www.maikol.com.br

Padre Tomas Hughes, Missionário da Sociedade do Verbo Divino, nascido em Dublin na Irlanda, escreve as seguintes REFLEXÕES HOMILÉTICAS:
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Reflexões sobre a Palavra de Deus para os domingos:

Festa da Sagrada Família (27.12.09)

Lc 2, 22-40

“Ele crescia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”.

O Evangelho da Festa da Sagrada Família é tirado do segundo capítulo de Lucas. Mais uma vez encontramos um tema muito importante para esse Evangelho - o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante o Advento, Lucas fazia o paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista de um lado, e Maria, José e Jesus, do outro. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato - o Espírito Santo e a opção pelos pobres.
Lucas enfatiza que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8), para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus para os pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles - como, aliás, era toda a população do Nazaré de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”. É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus, agora Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (Lc 4, 25-28; 4, 31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23, 55-24, 35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste que o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. V. 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia d’Ele” - mais uma vez nos apresentando José, e especialmente Maria, como modelos de fé. Não obstante, qualquer revelação que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradual, como com todos nós, e a família de Jesus tinha um papel importantíssimo no seu crescimento. Se, como adulto, Ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através da experiência do seu pai adotivo, José. Se Ele foi criado na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar. Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça aos seus contra-valores.

Missa do Dia (25.12.09)

Jo 1, 1-18

“O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós”

Embora estejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho da Missa do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.
O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” - “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o batismo d’Ele, Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo: “No princípio já existia a Palavra e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. A Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós” (Jo 1, 1.14)
Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.
O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne”, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!” Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. N’Ele e por Ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.
Mas, essa Encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade. Pois, “Veio aos seus e os seus não a acolheram”. Assim, o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, Senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21).
O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos diz: “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus, os que creram n’Ele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).
Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme na nossa fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 7) e como resultado dessa renovação espiritual nos encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer - de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Como nos diz Hebreus: “Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé... Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus.” (Hb 12, 1-3)

Missa da Aurora (25.12.09)

Lc 2, 15-20

Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda hoje com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o néo-paganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.
As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos de Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que põem a origem de Maria e José em Nazaré e junto-as às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere na história humana e universal, através das suas referências a grandes figuras históricas da época, César Augusto, Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que contem oito dos seus temas preferidos - alimento, graça, alegria, pequenez, paz, salvação, “hoje”, e universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria para todo o povo” (Lc 2, 10).
Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos em Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana - e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois a finalidade de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim o Messias nasce em condições subumanas e indignas - como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria e deita Jesus numa manjedoura.
Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião e sociedade de então - os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem, por isso não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história - o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía - enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje - os Shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!
É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio - dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto e a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexões teológicas, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom - onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10,10)
É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrever a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos - se tornou peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós, hoje.
A festa do Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings - mas retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo de uma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu para nos o Salvador!

NATAL: MISSA DA VIGÍLIA DO NATAL - (24.12.09)

Lucas 2, 1-20

Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através dessas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas! Este trecho pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus – Lc 2, 1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus – Lc 2, 8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos – Lc 2, 15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos Lc 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade, o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar prepotente - a “Pax Americana!”. Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até o boi e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. Mas, é para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não numa data futura distante. Esta idéia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estarás comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em Lc 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A idéia volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivos de alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO (20.12.09)

Lc 1, 26-38

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”

Maria de Nazaré, junto com o Batista e o profeta Segundo-Isaías, é figura importante nas leituras do tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria que as Escrituras nos apresentam.
No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Entre os dois relatos há um paralelismo claro. Naquele relato, quem recebe o anúncio é um sacerdote, idoso, no Templo judaico. No texto de hoje, é uma moça, jovem, no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acreditou, e ficou mudo... simbolizando que os ritos do Templo não tem mais nada a dizer! Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1, 42).
Infelizmente ,muitas vezes esse trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão - é ideologicamente usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, devem ficar passivas e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer!
Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1, 29; 2, 19; 2, 50s), aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas, ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização do plano de Deus o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar - isso seria muito pouco - mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante, Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando na boca de Maria ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat (Lc 1, 46-55). O que é que Maria quer quando ela pede que seja feita a vontade de Deus n’Ela? Ela quer a realização da viravolta no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (Lc 1 ,51-53).
Num mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal, tem que se comprometer de uma maneira concreta na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.

TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO (13.12.09)

Jo 1, 6-8. 19-28

“Aplainai o caminho do Senhor”

Novamente, a figura central do evangelho de um domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Essa vez, em um texto tirado do Evangelho de João, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías 40, 3. No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do tal chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria - a vinda do Messias, Jesus de Nazaré!
Nesse texto, já no primeiro capítulo do Quarto Evangelho, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus - as autoridades dos judeus. Embora às vezes nesse Evangelho o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (Jo 3, 25; 4, 9.22 etc), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende, e eventualmente hostiliza, Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época, ou seja, os sumos sacerdotes, os fariseus e os escribas, ou doutores da Lei.
Atrás do texto também dá para entrever a tensão que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado, nas décadas depois de Jesus, entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por isso, a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus.
No mais, o evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1, 1-8) - um convite para que todos nós preparemos o caminho do Senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando das nossas vidas tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas, também, há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo que possa diminuir a vida humana - tudo que causa sofrimento aos nossos irmãos e irmãs. Pois, o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social - e muito mais do que a soma dos erros individuais.
O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos e filhas de Deus. Basta lembrar das estatísticas publicadas há pouco que demonstram que atualmente mais de um bilhão de pessoas na terra passam fome - num mundo que esbanja! A voz do precursor, como a de Isaías quinhentos anos antes dele, nos desafia para que a nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno - o mundo que Deus sonhava, o Povo de Deus vislumbrava e Jesus veio estabelecer, a concretização do Reinado de Deus entre nós.

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (06.12.09)

Mc 1, 1-8

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”

O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, talvez na Síria. Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “Evangelho”, o que literalmente significa “Boa Nova” ou “Boa Notícia”. Porém, quando no primeiro versículo da sua obra ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não se refere ao gênero literário, mas à própria Boa Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois, o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa Boa Notícia, - tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66), pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1, 11).
Como parte da nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e mensagem de um dos grandes personagens do Advento - João Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias 3, 20, Isaías 40, 3 e Êxodo 23, 20, Marcos enfatiza o papel de João como Precursor - aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré.
O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra que não será possível uma preparação adequada para a vinda do Senhor no Natal, sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados.
A ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade da pessoa que há de vir, como num cortejo, põe toda a importância nela - pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois com a vinda d’Ele inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
A voz de João ressoa de novo hoje, convidando a todos nós, não somente pessoalmente, mas também como comunidade, Igreja e sociedade, a prepararmos os caminhos do Senhor, endireitando as suas veredas! A preparação para o Natal implica o empenho de todos para que os males, individuais e sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido.
A crise econômica e social em que o mundo se encontra atualmente mergulhado, deve nos levar a refletir sobre os valores e destinos da nossa sociedade consumista e excludente. Centenas de bilhões de dólares já foram gastos para escorar um sistema que mostra graves sinais de falência. Mais uma vez, são os menos favorecidos que vão pagar pelos erros dos especuladores financeiros. O Natal, muitas vezes “sequestrado” como festa de compras e gastos, pode ser para nós um novo começo, uma redescoberta dos verdadeiros valores familiares, religiosos e de solidariedade. Mas, isso exige a conversão de uma mentalidade consumista para uma de partilha, em que o que vale é o “ser” e não o “ter”. Mais do que nunca, a mensagem de João, o Batista, torna-se atual e desafiante.

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (29.11.09)

Lucas 21, 25-28.34-36

“A libertação de vocês está próxima”

Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha num dos discursos escatalógicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa imagens e símbolos que não são da nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente - o mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não cada imagem e símbolo, mas a sua mensagem de conjunto.
O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” - o título que nos Evangelhos Jesus mais usava para si mesmo, e que nós pouco usamos. Este título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem... Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído.” ( Dn 7, 13s)
Então, Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C. - que embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, através do seu Ungido - o Filho do Homem - revelará o seu poder, e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em Jesus!
Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima.” (v. 28)
Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica - nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em controle todos as forças, sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar - símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem.
Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida.” ( v. 34)
Pois, é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força.” ( v. 36)
O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que os nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia!

FESTA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (22.11.09)

Jo 18, 33b-37

“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”

Como é de costume na Igreja Católica, hoje, no último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa - que Deus é o único Absoluto. Num mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas - para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto da nossa vida.
O texto é tirado da paixão segundo João - o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típica, João faz com que Pilatos - o representante do poder absoluto da época, o Império Romano - apresente Jesus como Rei, o que Ele é na verdade, mas, não da maneira que Pilatos possa entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano - não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida.
É exatamente por ter semeado este Reino que Jesus deve morrer – aliás, não morrer, mas ser matado, o que é diferente. Pilatos - como também acontece nos outros Evangelhos - demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que isso significa, pois, se Jesus foi matado, houve algum motivo, e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerusalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. E o Templo funcionava como Banco Central, centro de arrecadação de impostos, e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois, o Reino de Deus se opõe frontalmente com qualquer reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção de um Reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. Não faltarão incentivos, monetários e outros, para que as Igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é mister ficarmos sempre vigilantes, para que verifiquemos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.
Para João, Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão; mas, desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto de vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante d’Ele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência - tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!

TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (15.11.09)

Mc 13, 24-32

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”

O texto nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém, a sua mensagem central fica clara - o triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu Reino. A linguagem vetero-testamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas num contexto novo, em que a vinda escatalógica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus - e a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10; Ez 32, 7; Am 8, 9; Jl 2, 10.31; 3, 1-5; Is 34, 4; Ag 2, 6.21. Mas, em nenhum lugar no Antigo Testamento se referem à vinda do Filho do Homem - é uma novidade do evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7, 13; mas, aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2, 10. Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30, 4; Is 11, 11.16; 27, 12, Ez 39, 7 etc, - mas nunca no Antigo Testamento é o Filho do Homem que faz esse trabalho.
A segunda parte do texto consiste numa parábola (vv. 28-29), um ditado sobre a hora do fim (v. 30), sobre a autoridade de Jesus (v. 31) e de novo sobre a hora (v. 32). Nem sempre fica claro a que se refere - o que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas, continua clara a mensagem básica - a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas, a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho.
Pode parecer confuso o nosso texto - e para nós hoje, de uma certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatalógico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida - um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho.
Num mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto nos convida, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas, também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.

TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (08.11.09)

Mc 12, 38-44

“Esta viúva pobre depositou mais do que todos os que depositaram dinheiro”

No Evangelho de Marcos, Jesus, na sua última semana de vida em Jerusalém, só encontra uma coisa positiva - o gesto da viúva pobre que depositou duas das menores moedas da época no cofre do Templo. Ela aparece no texto de hoje em contraste com um certo tipo de liderança religiosa da época. O texto relata dois acontecimentos (vv. 38-40; vv. 41-44). O primeiro condena os escribas hipócritas, que concretizam tudo que Jesus quer que os seus discípulos evitem. Ele adverte contra o seu anseio de ter prestígio e honras (vv. 38b-39) - perigo constante para os líderes religiosos, clericais ou leigos/as, de todos os tempos e de todas as religiões! - e o fato de eles esgotarem os recursos das viúvas, enquanto demonstravam a aparência de piedade (v.40). Embora essa passagem seja muito mais suave do que Mateus 23, também tem sido usado historicamente para atacar os judeus. Mas, Jesus não critica todos os escribas, muito menos todos os judeus, mas somente um certo tipo de escriba (vv. 28-34), os que desviavam o verdadeiro sentido do seu serviço religioso.
Na antiguidade, os escribas podiam servir como administradores dos bens das viúvas. Muitas vezes cobravam uma parte dos bens como pagamento - e um escriba com fama de piedade tinha muitas possibilidades de ganhar clientes! Por causa da sua avareza e hipocrisia, esses escribas receberão uma condenação severa no Dia do Juízo, o tribunal mais alto que existe!
Do outro lado, a viúva pobre, embora contribua com quase nada em termos monetários, representa a verdadeira espiritualidade dos seguidores de Jesus. Pois, ela contribui com tudo o que ela tinha para viver, e não com o supérfluo (v. 44). Ela simboliza o grupo dos “pobres de Javé” - os que depositavam toda a sua confiança em Deus e não nas riquezas nem no poder. Já em outros textos (Mc 10, 17-30) Jesus enfatizou que é difícil para um rico entrar no Reino de Deus - pois facilmente ele confia nas suas riquezas e não no poder e na graça de Deus.
A viúva anônima demonstra o fundamento da espiritualidade dos “pobres de Javé” - gratuidade e doação total, aliadas a uma confiança absoluta em Deus. Contrastando a sua ação com a atitude dos ricos, Jesus implicitamente condena o sistema do Templo, pois ele explorava os mais pobres, exigindo até a oferta dos seus parcos recursos para que pudessem ter acesso a Deus! Assim, Jesus mostra que Deus rejeita qualquer religião que explora e se enriquece às custas dos pobres.
Hoje não é nada raro encontrar grupos religiosos que exploram os mais pobres em nome de Deus, com falsas promessas. O texto de hoje nos convida a examinarmos a nós mesmos, para verificar se as nossas práticas religiosas estão revelando o rosto verdadeiro do Deus dos pobres, e para que evitemos totalmente quaisquer projetos - mesmo em nome de Deus - que tiram dos mais necessitados o pouco que eles ainda têm. Também somos convidados a evitar os critérios humanos em julgar as pessoas, pois pode acontecer que alguém doe muito, sem que lhe custe nada, pois vem do seu supérfluo, enquanto frequentemente a “moeda da viúva”, oferecida pelos pobres, tem muito mais valor diante do Senhor. Somos convidados a olhar e enxergar as coisas com os olhos de Deus e não com os olhos da sociedade materialista e consumista de hoje.

FESTA DE TODOS OS SANTOS (01.11.09)

Mt 5, 1-12a

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”

Esses primeiros versículos do Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades do verdadeiro(a) discípulo(a), daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como a de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.
Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.
As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.
Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”
Mas, Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida - a perseguição! Pois, um sistema baseado em valores anti-evangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico excludente precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (que na sua raiz significa “testemunho”) é a pedra-de-toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas muitas vezes pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, numa vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” (Mt 16,24)
A festa de hoje não é tanto para que recordemos os nomes e façanhas dos grandes Santos/as conhecidos/as; mas, também para que lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias, na luta de viver na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência d’Ele. Se examinarmos a nossa vida, veremos que já conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos, mas que serviram como exemplo dos verdadeiros valores para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja o que for.

TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (25.10.09)

Mc 10, 46-52

“E seguia Jesus pelo caminho”

Estamos no fim da caminhada central de Jesus, desde Cesaréia de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre que ele relata de Jesus - a cura do cego Bartimeu.
O texto começa com um senso de urgência - chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que têm pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho! Enquanto Jesus está “a caminho” com os seus discípulos, o cego está à beira do caminho! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado, mas estão parados, à beira do seguimento de Jesus.
Mas, esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi, tem piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia - o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação dos transeuntes é típica - mandam que Bartimeu se cale! O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído! E isso não mudou até os dias de hoje! Até nas Igrejas há quem não queira ouvir o grito, e que faz tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas, Deus ouve!
Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm que convidá-lo para falar com Jesus. Mas, para isso, Bartimeu tem que lançar fora o manto - a única coisa que ele possuía, a sua única segurança. Como os primeiros discípulos no lago (Mc 1, 18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus.
Mas, Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “o que quer que faça por você?” (v. 51). Pois, Jesus não obriga ninguém a se libertar - há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, na sua comodidade e não opte pela libertação. Mas, Bartimeu quer ver de novo - diferente do cego de Jo 9, ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé, e que precisava o toque de Jesus para que voltasse a ver claramente.
Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas, ele faz uma outra opção: “no mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Mc 12, 35-37, Jesus fez muitas restrições a este título messiânico, mas ele tem a prática certa - segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo “Tu és o Messias” (Mc 8, 29), mas a prática errada! Não quis que Jesus caminhasse para a morte! Assim, em Marcos, o modelo de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu! Pois, mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar a sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus! Um alerta para todos nós, para que a nossa prática seja coerente com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus.

VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (18.10.09)

Mc 10, 35-45

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos”

No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje situa-se quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a sua missão. Pela terceira vez, Ele tem dado aos seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre a sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-Lo e matá-Lo”. De novo, a colocação muito clara sobre o que significa ser o Messias de Deus não surte efeito - os discípulos, cegados pela ideologia dominante, são incapazes de entender o sentido da vida de Jesus, e por conseguinte, o sentido de serem discípulos d’Ele. Como Pedro, depois do primeiro anúncio, e todos os Doze, depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus numa tentativa de impor a sua própria agenda!
Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse na sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido! (Mt 10, 20). A queixa de Deus no Antigo Testamento de que o seu povo era um povo de “cabeça dura” se atualiza nos Doze!
Mas, não podemos pensar que era só os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (v. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder! O vírus de dominação é mais do que contagioso!
Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com os seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade dos seus discípulos: “entre vocês não deve ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servo de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos” (vv. 43-44). E deixa bem claro o motivo - não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (v. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática do que Ele!
O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre os seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, talvez nos últimos anos de forma mais acentuada, uma busca de status e do poder no seio das igrejas, especialmente entre o clero mais jovem. Mas, ninguém pode se achar imune diante dessa tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstra que “entre vocês não deve ser assim”.

FESTA DA NOSSA SENHORA APARECIDA

Jo 2, 1-12

“Façam tudo o que ele lhes disser”

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus e qual é a sua missão (embora algumas bíblias traduzem o termo grego por “milagre”, a tradução mais acertada é: “Sinal”). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o nosso texto de hoje. Como quase todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da superfície das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira um tanto estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho - ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor.
Não devemos reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, o que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção - mais de 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. E as talhas transbordantes simbolizam a graças abundante que Jesus traz.
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a dos serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está no v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulo acreditaram n’Ele”. E a fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31).

VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM (11.10.09)

Mc 10, 17-30

“Como é difícil entrar no Reino de Deus”

O nosso texto inicia-se com a frase “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”. Mais uma vez, estamos na caminhada com Jesus, na caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo desta caminhada Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a viravolta de valores que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos outros domingos, já vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. No nosso texto hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza.
A cena é muito conhecida - um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Num primeiro momento, Jesus coloca diante dele as exigências conhecidas por todo judeu piedoso e ensinadas pelas escolas rabínicas - o cumprir dos mandamentos. Mas o homem - sem dúvida um praticante piedoso da Lei - sente que isso não é o suficiente, antes, é o mínimo. E assim Jesus põe diante ele as exigências do Reino - o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens e a partilha e solidariedade. Aqui, o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos seus bens, pois era muito rico (v. 22). Fez a sua opção - optou por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento, e como conseqência foi embora “muito abatido”- pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior.
Mas o centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas vezes gastamos tanta energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!), e deixamos de lado o aspecto mais importante - a reação dos discípulos! Eles ficam “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “então quem pode ser salvo?” Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão.
O espanto dos discípulos - também todos judeus praticantes e piedosos - era causado pelo fato que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerado sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma idéia presente em certos grupos cristãos hoje e que às vezes infiltra algumas pregações sobre o dízimo, na própria Igreja Católica). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, que não é sinônimo com a salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe à gente se calar. Mas o Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade tanto de repartir como de sentir a sua dependência de Deus.
A proposta de Jesus desafia as ideologias que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição, pois já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (v.29-31).

VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (04.10.09)

Mc 10, 2-16

“O que Deus uniu, o homem não deve separar”

Continuando a sua caminhada rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte no intuito de acabar não somente com a pessoa d’Ele, mas com o seu ensinamento, Jesus, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de grande prestígio diante da população mais simples, se outorgavam o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus. Por isso, entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo” (v. 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Dt 24,1-4, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa acontecer.
O evangelho de Mateus, no Capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (Mt 19, 1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse se divorciar de sua mulher (nem se cogitava na época que a mulher pudesse se divorciar do marido, pois a mulher era considerada “um bem” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar a mulher por qualquer motivo, mesmo sendo dos mais banais - por ter queimado a comida era um exemplo. A escola mais rigorosa - do Shammai - só permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mt 19, 4).
Em ambos os Evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate casuístico que cercava a questão, e se limitava a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Aqui Jesus reafirma com toda firmeza o ideal do casamento cristão - uma união permanente baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar neste trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal! Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados.
O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com eles vivem esta situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que despojar-se de todo o poder dominador, tornando-se como criança.
Negando aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo, numa sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contra-mão dos valores da sociedade do seu tempo - e de hoje. Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação! Realmente, uma proposta no contra-fluxo da sociedade pós-moderna que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador! O texto de hoje nos convida para que entremos “com Jesus, na contramão” e para que criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os hoje em vigor, às vezes até no seio das próprias Igrejas. Continua muito atual o dilema enfrentado pelos autores bíblicos em livros como Eclesiástico e Sabedoria - como ser fiel aos valores da fé num mundo profundamente materialista e egoísta. Não será possível sem que aprofundemos a nossa caminhada no discipulado de Jesus, alimentando-nos com a Palavra de Deus, em diálogo com esta e com a sociedade que nos cerca.

VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (27.09.09)

Mc 9, 38-43.45.47-48

“Quem não está contra nós está a nosso favor”

O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que a partir da “crise galalaica”, Jesus mudou a sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.
A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam, pois... quem não está contra nós, está a nosso favor” (v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não o escondamos ou deturpemos!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo dos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. E é bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então trata-se da situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt 18, 6-14). Usando imagens e linguagem tipicamente semitas, Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por exemplo, Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira de agir, “pé” o modo de caminhar na vida e “olho” o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estamos causando a queda dos pequenos e humildes. E se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu a vida para estabelecer.
A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus.
PS - 27 de setembro, dia de São Vicente de Paulo: dia da caridade, dia do ancião.

VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (20.09.09)

Mc 9, 30-37

“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos”

Na estrutura do Marcos, depois da chamada “Crise Galalaica”, manifestada no episódio da Estada de Cesaréia de Felipe, Jesus muda totalmente de tática e estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres - dos 19 milagres em Marcos, somente dois acontecem depois do acontecimento de Cesaréia. Em lugar disso, ele se dedica quase totalmente à formação dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os que o Caminho d’Ele é o caminho da Cruz, da entrega, da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos faz isso de uma maneira bem planejada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura paixão (8, 81; 9,31; 10, 33-34). Em cada ocasião os discípulos não compreendem (8, 32; 8, 34; 10, 35-37). E, a partir dessas incompreensões, Jesus torna a dar um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento d’Ele (8, 34-38; 9, 35-37; 10, 38-45).
O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento d’Ele é uma vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles era a maior! O poder - tentação permanente em todas as comunidades, não isentando as Igrejas! Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas Igrejas - mais do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século dezenove, o estadista e historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. E não há poder mais perigoso do que o religioso, que fala em nome de Deus!
Quantos sofrimentos e males causados por essa sede do poder, disfarçada como mandato de Deus! Desde o fundamentalismo fanático da Talibã no Afeganistão, até a ufania de certos padres - mormente recém ordenados - que se ostentam com roupas finas e carros do ano, e dominam, de uma maneira opressora, religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que eles... a sede do poder e da dominação - em nome de Deus - continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do Cristianismo.
Diante da recusa dos seus discípulos em entender o seu ensinamento, Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente! Mas porque é sem-poder, dependente dos adultos de tudo. No tempo de Jesus, criança era sem direitos, entre os últimos da sociedade. Os seus discípulos são convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Fl 2,6-8).
O poder em si é um bem - para ser usado a serviço dos outros! Todos nós - clero, religiosos, leigos - somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois só pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos! Evitemos títulos, privilégios, e comportamentos que tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja sempre Ele - e não os critérios da sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1Cor 1, 28).

VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (13.09.09)

Mc 8, 27-35

“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga”

Como evangelho de hoje temos a história do caminho de Cesaréia de Felipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “quem dizem os homens que eu sou?” Assim, chovem respostas, pois esta pergunta não compromete - é o “diz que...” Mas a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vem muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o v. 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer.
Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Deus” - que vem de Daniel 7, 13ss - Jesus confirmou que era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores, até a Cruz. Por isso, Pedro contesta Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. E como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afasta-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.” (v. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência! Pedro tinha os títulos certos, mas a prática errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia mas não ortopraxis!
E assim Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 34). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.
Hoje, dois mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte - a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo, mas para cada de nós pessoalmente? No fundo a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente! (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina e a teoria certas, mas a prática errada!

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (06.09.09)

Mc 7, 31-37

“Jesus faz bem todas as coisas”

O relato do texto de hoje, situa-se no território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar o contexto geográfico - talvez uma referência à missão aos gentios que marcava a sua Igreja. Mais uma vez, estamos diante de um milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus que age n’Ele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território.
Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros - uma pessoa sofrendo (neste caso de surdez e incapacidade de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus que o leva a atender o pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o “Segredo Messiânico) e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo.
A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que ele é muito mais do que um simples curador! As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante d’Ele (7, 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente.
Mais uma vez, o Segredo Messiânico em Marcos nos faz perguntar sobe o seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que a sua verdadeira identidade só se revelará na sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana - o oficial que exclamou aos pés da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Mc 15, 39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos e duvidosos. Para corrigir essa tendência na sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força humana (1Cor 1, 25).
A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir e os mudos falar” alude a Is 35, 5-6, que faz parte da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Is 34-35, relacionado com Is 40-66). O uso aqui deste texto vétero-testamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus.
Podemos ver um sentido mais simbólico, para os nossos dias, na cura relatada - o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois, o sistema hegemônico de hoje, e os Meios de Comunicação frequentemente atrelados e coniventes, procuram tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos. Pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão. Também as forças dominantes cada vez mais deixam os excluídos sem voz - só pode ter voz ativa quem produz e consome, na nossa sociedade materialista e consumista. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura! O evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. O XII Encontro Inter-Eclesial das CEBs em Porto Velho-RO no mês de julho-2009 captou o grito da terra da Amazônia espoliada. Dia 7 de setembro é o dia do Grito dos Excluídos - uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade assinalarem que a nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita à passeata de um dia, mas que é a tônica da nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento de Aparecida.
“Jesus fez bem todas as coisas - fez os surdos ouvir e os mudos falar!” Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais - que ajudamos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante, e que ajudamos os sem-voz a recuperar a voz ativa, nas decisões das igrejas e da sociedade em geral.

VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (30.08.09)

Mc 7, 1-8.14-15.21-23

“Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”

Para que entendamos o alcance do nosso texto de hoje, é necessário entender o contexto religioso do tempo de Jesus. Um dos elementos chaves na prática religiosa do judaísmo daquela época eram os conceitos de “puro” e “impuro”. Na nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente; mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isso é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos Essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos; também os fariseus - cujo nome vem de uma palavra que significa “separados” - davam suma importância à pureza ritual, assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto do Deus da vida.
Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem recusar-se a participar nos ritos tradicionais, ele entendeu que nada que vem de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura! Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e o seguimento da vontade de Deus, em lugar de preocupar-se com rituais externos. Jesus reintegrava as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria, e voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “as más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (v. 21-22).
Assim Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías, que diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam os seus irmãos, e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58, 6-7).
E também nos desafia hoje para que examinemos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de ritos, rituais e devoções, o nosso texto exige dos seguidores de Jesus um sério exame de consciência, para que verifiquemos se a nossa religião não está semelhante à dos fariseus - perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro - ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem - uma religião de prática de solidariedade e justiça, coerente com a nossa fé no Deus da vida, onde os ritos têm o seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (v. 6).

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (23.08.09)

Jo 6, 60-69

“Tu tens palavras de vida eterna”

O texto de hoje forma a conclusão do grande discurso sobre o Pão da Vida. Mais uma vez, a bíblia deixa claro que diante de Jesus e das suas palavras, o ouvinte tem que tomar uma decisão radical. Os versículos do nosso texto não escondem o fato que nem todos conseguem optar por Jesus.
As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus de que Ele dá o seu corpo como pão da vida e o fato que o texto se dirige aos discípulos, indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém, a afirmação de Jesus de que ele “dá a vida” - o que causou já uma divisão em 5, 19-47, e a identificação da sua palavra reveladora com “o pão vindo do céu” na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira é importante notar que a divisão não se dá entre “os judeus”, mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus neste momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da Comunidade do Discípulo Amado, pelo ano 90, quando estava sentindo na pele as dores de divisão, pois muitos dos seus membros estavam abandonando-a (essa divisão é o pano do fundo das três Cartas Joaninas).
É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda o pé; mas, com toda calma, até convida os Doze para saírem, se não podem aceitar a sua palavra. Jesus não se preocupa com números - mas com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação de julgar o êxito pelos números! Igrejas cheias indicam sucesso! Mas nem sempre é assim - é mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a sociedade, às vezes através de uma pregação tão insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências sociais.
Mas ,devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus em v. 63 quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João) para justificar uma religião dualista, onde tudo que é “espírito” é bom e tudo que é material é do mal! Aqui João não distingue duas partes do ser humano; mas, duas maneiras de viver! A carne é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o espírito é a força que ilumina as pessoas e abre os seus olhos para que possam entender a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus.
Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem em Jesus algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Pois só Jesus tem as palavras de vida eterna! Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade - até entre muitos católicos praticantes - de correr atrás de tudo que é novidade: supostas aparições, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras.
O texto de hoje nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando - como as multidão no texto - que o seguimento de Jesus “é duro demais”! No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrarmos a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de vida eterna”.

FESTA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (16.08.09)

Lucas 1, 39-45

“Você é bendita entre as mulheres

Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, mesmo que haja ainda continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada - os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo, e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo, (Lc 2, 25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2, 29). Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado versículo 56, que mostra ela deixando Isabel depois do nascimento de João: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”.
Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no ventre dela, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João - é porque Maria está carregando o Senhor.
As palavras referentes à Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.
Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita em primeiro lugar, não pela sua maternidade, mas pela fé - em contraste com Zacarias, que não acreditou. Aqui Maria é principalmente modelo de fé.
Podemos também acrescentar que neste primeiro capítulo nós encontramos as frases da primeira parte da oração da “Ave Maria”: “Ave Maria” (1, 28); “Cheia de graça” (1, 28); “O Senhor é convosco” (1, 28); “Bendita sois vós entre as mulheres” (1, 42); “Bendito o fruto do vosso ventre” (1, 42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria, mãe do Senhor, modelo de fé para todos nós! Mas, a fé de Maria - como, aliás, sempre é na Bíblia - não foi uma adesão somente intelectual a Deus. Era o assumir do projeto de Deus - justiça, libertação, solidariedade e salvação integral. Por isso, Lucas põe na boca de Maria o grande Cântico do Magnificat, atualizando o Canto de Ana, (1 Sm 2, 1-10), cantando a grandeza do nosso Deus, que se põe ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba os poderosos e prepotentes!
O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora, totalmente comprometida com o projeto de Deus para um mundo fraterno. Se ela estivesse entre nós hoje, sem dúvida ela - como também Jesus - estaria nos movimentos e pastorais sociais, lutando pela vida digna de todos e celebrando com os irmãos e irmãs a fé no Deus de Justiça, Libertação e Salvação.

DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (09.08.09)

Jo 6, 41-51

“Quem come deste pão viverá para sempre”

No texto de hoje, nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar o discurso é o pedido dos judeus em v. 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta, Jesus começa o seu grande discurso. Divide-se em duas partes. Na primeira parte (vv. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vv. 51-58) será a eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia e assim formou a segunda parte do discurso como um paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da eucaristia nos textos da Ceia em João - pois o seu conteúdo básico foi colocado aqui.
Como os seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava - o maná - agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João - a ironia. Os judeus (aqui se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam na sua família de origem; e Jesus mostra que na verdade não a conhecem, pois eles não viram o Pai, a sua verdadeira origem. Aqui também aparece em v. 47 - mais uma característica joanina - a escatologia realizada. Enquanto para os Sinóticos o juízo é algo que acontece no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus.
Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (v. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado a sua carne como alimento da vida eterna.
O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado à multiplicação dos pães - a participação eucarística no corpo e sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado na sua Primeira Carta.

DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM (02.08.09)

Jo 6, 24-35

“Eu Sou o Pão da Vida”

Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto Capítulo de João. Este capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O Pão da Vida”
No Antigo Testamento muitas vezes pão é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, Is 55,10-11; Amós fala não de fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus, em Am 8, 11-12; A Sabedoria convida os simples a comer do seu pão e beber da sua seu vinho em Pr 9, 5; Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclo 15, 4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Tora, ou Lei (Dt 8, 2-3). Podemos ligar essas idéias com Cap. 6 de João.
Divisão do Capítulo:
- 1-15: Multiplicação dos pães
- 16, 21: Jesus anda nas águas
- 22-24: Situa o discurso
- 25-29: Introdução ao discurso
- 30-40: Discurso
- I parte: 30-34
- II parte: 35-40
- 41-51: Segunda Parte
- 52-58: Terceira Parte
- 50: Aparte
- 60-61: Reação e opção dos discípulos

O início do relato deixa claro que a multidão reconheceu de fato o poder de Jesus; mas, era incapaz de entrar mais profundamente no sentido dos seus sinais (lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus, mas “sinais”, embora haja ainda edições que traduzem de maneira errada). Eles buscam as vantagens imediatas que podem esperar de Jesus; mas, Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras d’Ele como sinais - que demonstram uma verdade mais profunda, que Jesus é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu e os sinais que Ele opera garantem a sua origem e a sua missão. Jesus quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece n’Ele.
A turba quer saber de um sinal para que pudesse “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão do João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar só nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus confirme as suas expectativas messiânicas, realizando milagres - e não entendem a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas.
Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo, que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”; e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer n’Ele é participar da verdadeira vida.
Nesse trecho encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou” - o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êx 3, 14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato que a verdadeira vida só se acha n’Ele.
Hoje também esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial, e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com Ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por Ele e pelo seu projeto, o projeto d’Aquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (26.07.09)

Jo 6, 1-15

“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”

A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do capítulo sexto de João - o que comumente chamamos o milagre da “Multiplicação dos Pães”. Logo, vale lembrar que este é o único milagre contado pelos quatro evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da Comunidade do Discípulo Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas tradições, a história hoje relatada possuía um grande valor e uma mensagem muito importante.
Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é do João, mostrando mais uma vez uma das características da comunidade do Discípulo Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida.
Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos usa-se o verbo “multiplicar”! Usa-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “distribuir”, “partilhar”! Não é o caso de discutir aqui o que foi que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então a história não teria grandes consequencias para nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres! Mas, colocando a ênfase sobre a o “partilhar” e o “distribuir”, então os evangelistas nos desafiam hoje! Pois, partilhar e distribuir estão ao nosso alcance!
No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar nada! O Brasil não precisa multiplicar terras - somos um dos maiores países do mundo! Nem precisa multiplicar a renda - somos a oitava ou nona potência econômica do mundo! Não! O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir da nossa fé no Deus da Vida.
Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos - o seu lanche. Mesmo sendo suficiente somente para ele, ele dispõe dos pães e peixes, através do André. Esse gesto de partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem! O relato ressalta que foram pães de cevada - a comido do pobre. Também aqui há uma releitura de um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada (II Rs 4, 42-44.) Sem a colaboração deste rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim o texto nos desafia para descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que eu tenho, e de colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm, sobrará! Quando cada um que tem algo segura para si, falta para muitos!
Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, onde tem o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens materiais - mais do que suficientes - serão distribuídos e partilhados, criando assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da nossa participação na Eucaristia!

DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (19.07.09)

Mc 6, 30-34

“Jesus teve compaixão”

Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito central - o da “compaixão” de Jesus. Aliás, os evangelhos todos - e especialmente Lucas - enfatizam este aspecto da personalidade e da missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão para todos os que sofrem.
Os versículos de hoje demonstram este traço de Jesus no seu relacionamento com os discípulos e com as multidões.
Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios que não correspondem com o grande critério da sociedade nossa - o da eficácia! Para Ele, os apóstolos não eram máquinas; mas, em primeiro lugar pessoas humanas, que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho - mesmo o trabalho missionário - não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para muitos cristãos engajados hoje - embora devamos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos descuidar das nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai.
Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos de então, que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo ia atrás d’ Ele. O que atraía tanta gente? Com certeza não foi em primeiro lugar a doutrina, nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão, de demonstrar de uma maneira concreta o amor compassivo de Deus. Jesus não teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”, literalmente, sofria junto, e tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva. Este traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e os seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do Pai. Infelizmente, muitas vezes as nossas secretarias paroquiais mais parecem repartições públicas do que lugares de encontro com a comunidade que acredita no Deus de Jesus! A frieza humana frequentemente marca as nossas atitudes, pregações e cuidado pastoral. Num mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões, hoje, como dois mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”.

DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (12.07.09)

Mc 6, 7-13

Dava-lhes poder sobre os espíritos maus

Estes versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos, que podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. O nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa.
O primeiro elemento é que a missão de Jesus, o de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e o seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está no nosso batismo. Todos somos Discípulos-Missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente, variar; mas, a missão é fundamentalmente igual.
Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária! Não existe um cristianismo individualista. A nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum no nosso mundo de competitividade e pós-modernidade.
Jesus dava-lhes poder sobre os espíritos imundos! Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo que pudesse se opor ao Reino. Tudo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje muitos interpretam essas palavras ao pé da letra, e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos - mas sempre no nível intimista e individual. Devemos nos perguntar - quais os espíritos imundos em nós, nas nossas comunidades, na nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão que é característica da nossa sociedade neo-liberal, nossa sociedade de morte! O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com as suas estruturas. As nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos na luta pelo mundo novo, pela utopia de Jesus! Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham que se libertar do espírito de acúmulo - não levar coisas, como sinal da chegada do Reino.
Mas, Jesus os adverte que nem todos iriam acolher a sua mensagem - pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para os nossos tempos - uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes desse mundo. Quando somos bem aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos a nossa voz profética! A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados!
O nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” da nossa vida. A minha vida, a da minha comunidade, se resume na vivência interna das estruturas da Igreja, ou me leva a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, continuadores da missão de Jesus! Isso foi muito bem expresso no lema do último Congresso Missionário da Igreja do Brasil: “De um Brasil de batizados a um Brasil de discípulos-missionários”.

Décimo Quarto Domingo Comum (05.07.09)

Mc 6, 1-6

“Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré”

O texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus. O primeiro bloco mostrou a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará a cegueira dos discípulos. Assim, Marcos gradativamente aumenta a tensão entre o que Jesus é e a incompreensão dos que o conhecem: autoridades, familiares e discípulos. Tudo para poder lançar como questão fundamental do seu Evangelho a pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8, 29).
De uma maneira indireta, Marcos aqui toca num dos problemas fundamentais dos cristãos - o escândalo da encarnação. Frequentemente não temos tanta dificuldade em assumir a realidade da divindade de Jesus, mas sim, a sua humanidade! Até hoje, quantas hipóteses esdrúxulas sobre onde Jesus teria passado os primeiros trinta anos da sua vida, quando a realidade é que Ele os passou como qualquer outro rapaz da sua geração - numa família e comunidade do interior, trabalhando com as mãos e partilhando a dura sorte do seu povo, com uma fé profunda na presença de Javé no seu meio - uma fé alimentada pelas Escrituras. Mas, frequentemente relutamos para não enxergar a opção real de Deus pelos marginalizados através da realidade da encarnação!
Os seus próprios parentes também relutaram para não aceitar a pessoa e a missão de Jesus. Marcos não esconde a dureza das críticas: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” (v. 3). Se fosse um fariseu, ou um “doutor”, ele teria sido aceito! Quanta coisa semelhante hoje - quando preferimos acreditar nas palavras retóricas dos “doutores” e desprezamos a sabedoria popular dos que lutam no meio do povo para um mundo mais justo!
Marcos retoma aqui o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho para conhecer Jesus não é através de uma correria atrás de milagres. Pois, os Nazarenos conheciam bem os milagres de Jesus: “E esses milagres que são realizados pelas mãos d’Ele?” (v. 2). Aqui tocamos no cerne da questão: em Marcos, Jesus nunca faz um milagre para despertar a fé em alguém. Pelo contrário, é a fé das pessoas que causa os milagres da parte de Jesus. Por isso, é importante notar o verbo que Marcos usa: “E Jesus não pode fazer milagres em Nazaré”! (v. 5). Não foi que não quisesse, nem que não fizesse milagres, mas que Ele não pudesse fazer! Por que? Por causa da falta da fé deles!
O texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem acreditamos! Conseguimos vê-Lo nos pequenos e humildes e nas pequenas ações em favor do Reino? Ou o buscamos em ditos “milagres” e coisas estrondosas, que muitas vezes podem mascarar uma relutância em assumir o caminho da Cruz? Marcos quer suscitar uma desconfiança na sua comunidade - se nem as autoridades e nem os parentes de Jesus o compreenderam, será que nós O compreendemos? Devagarzinho chegaremos ao Capítulo 8, o pivô de Marcos, onde seremos convidados a responder a pergunta fundamental da nossa fé: quem é Jesus para mim, para nós, hoje?

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (28.06.09)

Mt 16, 13-19

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

Hoje a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo, e encerra a celebração do Ano Paulino. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesaréia de Felipe. O relato mais antigo está no Evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente; mas, o relato tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo d’Ele.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” Assim, vem muita resposta, pois essa pergunta não compromete, - é o “diz que”. Mas, a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vem muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente Pedro acertou, e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura pelo menos até v. 25. Pois o assunto é mais complicado do que possa parecer.
Pois, após afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que era o Messias, mas não o Messias que Pedro esperava e queria. Ele, conforme as expectativas do povo do seu tempo, queria um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores também, até a Cruz! Por isso, Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. Como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afasta-se de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamado a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de satanás - o Tentador por excelência - e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro usava o título certo, mas tinha a prática errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não, ortopraxis!
Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.
Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta de Jesus ressoa forte, - a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o papa ou o bispo, mas para cada de nós, pessoalmente? No fundo, a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente!(Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada!

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (21.06.09)

Mc 4,35-41

“Quem é este homem?”

Retomamos a caminhada pelo evangelho de Marcos. O trecho de hoje está situado na primeira parte do evangelho, onde Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e os discípulos d’Ele não o compreenderam, apesar de verem as suas obras e milagres (1, 19-8, 26). Toda esta primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”
A história do evento no mar de Galiléia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na sua fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso, Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta de Jesus.
O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas, Jesus acalmou o mar e ainda questionava a pouca fé dos Doze: “por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (v. 3). Assim, Marcos quis mostrar aos leitores do seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que a sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando.
Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana, ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição da sua influência, para muitos a Igreja esta se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam numa religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Marcos vem corrigir esta ideologia triunfalista e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem?”, e a segui-Lo no dia a dia. Pois, Jesus não está alheio às nossas dificuldades! Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé n’Ele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar a nossa cruz e segui-Lo, na certeza que Ele não nos abandonará! Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”

Décimo Primeiro Domingo Comum (14.06.09)

Mc 4, 26-34

“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”

O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos - “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos.
Existe um consenso entre estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, que existem dois termos nos textos evangélicos que provém do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades, ou seja, “Reino” e Abbá”. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o Reino dos Céus, para evitar o uso do nome de Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que ele nunca define, pois é uma realidade dinâmica, mas que ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes, e que os leva a tirar as suas próprias conclusões (de fato, várias vezes temos a explicação de uma parábola nos evangelhos, mas, essa nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O Capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino - ou Reinado - de Deus.
No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar a sua chegada - os fariseus através da observância da Lei, os essênios através da pureza ritual, os zelotas, através de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível nem preciso tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele possui uma dinâmica interna de crescimento própria. Como a semente semeada cresce, independente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim, o texto nos ensina o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros/as missionários/as; ele afirma “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (I Cor 3, 6).
Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que a gente relembre que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Esta parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. A nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus - ou seja, criar situações onde realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não através do nosso esforço, mas da graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas, confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita!

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (07.06.09)

Mt 28, 16-20
“Vão e façam que todos os povos se tornem meus discípulos”

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano, tão pouco usado nas celebrações de hoje, onde celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial com o Pai’, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus!
Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que no fundo não é possível definir, é descobrir o que a Doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez, o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a Doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré - a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Na medida em que criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático - como se fosse possível explicar “três em um” - mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus.

DOMINGO DE PENTECOSTES (31.05.09)

At 2, 1-11

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

A liturgia de hoje nos apresenta a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas (Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois em João, a Ressurreição, a Ascensão e a Descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de cinquenta dias. Assim, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At , 2, 4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso – mas, isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv.1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração” (At 1, 14). Ou seja, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas”- glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda, da casa para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica numa comunidade universal, missionária, mas, não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Mas, Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

Jo 20, 19-23

No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Como cantamos na Campanha de Fraternidade, “da justiça nascerá a paz.” Jesus não promete a paz do comodismo; mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, prometendo o Shalom, pois, Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes; mas, aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.
Que a celebração nos anime para que busquemos a criação de um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa da opressão e injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo - agora depende de nós usarmos essa força que temos, na construção do mundo que Deus quer.

FESTA DA ASCENSÃO DO SENHOR (24.05.09)

Mc 16, 15-20

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia para toda a humanidade”

Este texto, desde v. 9, que contém o fim de Marcos, interrompe o fio da narração precedente, é muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice” provavelmente escrito no segundo século, e baseado basicamente no Capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados em Atos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje.
Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus - o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (Mt 28, 18-20). A Igreja é por sua natureza missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandato estaria traindo a sua identidade. Porém, faz-se necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar fiéis de outras Igrejas para a sua. Giram ao redor de si mesmas, identificando a sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino - e do anti-Reino - nas suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandato nos fará lembrar que nós não somos donos da missão - a missão é do próprio Deus, cujo Filho Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou a comunidade de discípulos/as para continuar a sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se na sua própria comunidade, movimento, ou Igreja - pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão a longo prazo é de reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Fazemo-lo através da proclamação explícita da Boa Nova, e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral.
O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do anti-Reino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, através de estruturas econômicas, sociais e até religiosas, de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma nova língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”- superando tanto veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado através do racismo, machismo, clericalismo, e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando na prática para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (Jo 10, 10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral, das pessoas e da criação, através da vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, a falação de supostas “línguas dos anjos”, e a satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica.
Durante séculos, muitas vezes os cristãos do Brasil - e de muitas outras regiões - têm se acomodado com a vivência de uma religião individual, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandato de semearmos a Boa Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus - não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade.

SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (17.05.09)

Jo 15, 9-17

“Amem-se uns aos outros”

Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, pelo menos pelas diversas frases lapidares tecidas dentro dele. Sobressai o tema básico do “amor” - como a característica que deve distinguir os/as discípulos/as de Jesus.
O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os nossos cantos, poemas e novelas - mesmo que seja mais na fala do que na prática. Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos Evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e burguesa lhe atribui. Na sociedade atual, o amor não passa de um sentimento agradável, uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel, sem consistência. Passado o sentimento, termina o amor! Uma das consequências dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios, de separações, de desistências de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça, não sustenta o peso do dia-a-dia durante anos.
O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido - é o amor “como eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando a sua vida por nós. O amor torna-se uma atitude de vida, e não um sentimento. A comunidade dos discípulos/as - a Igreja - deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida plenamente” (Jo, 10, 10). A comunidade cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá que fosse isso também, pois frequentemente nem isso é!) - deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus, que é a encarnação do Deus da vida, animada pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer.
A pedra-de-toque de uma comunidade cristã então não será o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos que devem permanecer (v. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar os limites da mera simpatia e atração, para assumir a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai.
É interessante que, embora o trecho situe-se no contexto da véspera da paixão, Jesus fala da alegra e da alegria completa. É impressionante como, num mundo que propõe a satisfação imediata pessoal e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Quantos jovens, mesmo - ou talvez especialmente - nas classes mais abastadas, irrequietos e perdidos na vida. Pois a alegria não vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente elevar à frustração. Mas também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha - uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca duma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para a felicidade - sempre ter mais, numa busca individualista de felicidade, que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria - uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade, que tem a alegria não como meta, mas que a traz como consequência.
Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”, mas há o mandamento do amor! Para isso precisamos de uma vida fortemente fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois se não temos, será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos” e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem o seu projeto. Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o comprimento duma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de vida, continuador da sua missão, no mundo atual. Um projeto além das nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto “o Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome” (v.16). É um projeto que nos coloca na contramão da sociedade atual, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando é isso - amem-se uns aos outros”. (v. 17)

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (10.05.09)

Jo 15, 1-8

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”

Esse texto inicia a seção do quarto evangelho que tem os trechos que mais se aproximam aos discursos da vida pública de Jesus nos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João - a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e os seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15, 18-16, 4) vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores.
No Antigo Testamento frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor; mas, que deu frutas amargas. Na primeira parte de João vimos como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se ficarem unidos a Ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do Novo Israel não falhará, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados.
A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas, os cristãos somente poderão dar este fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez volta-se à idéia que é pelos frutos que se conhece a árvore.
Assim nos leva a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de Missa Dominical, mas de semanas injustas, não agrada o Deus da vida.
Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados, não é a verdadeira Igreja do nosso Divino Redentor” (Discurso 04.12.1977). Sem dúvida, há muita coisa realmente boa acontecendo nas comunidades cristãs do Brasil, bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade e não no lucro, competitividade e na lei da selva.
Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neo-liberalismo, da globalização, das forças do mercado. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta para melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem Ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade - com Ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas sem dúvida como colaboradores d’Ele na construção do Reino de Deus.
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas, os sofrimentos dos mártires da caminhada e das suas famílias, são podas - mas podas que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós - uma vez que fiquemos unidos a Ele, e entre nós, pois “sem mim, nada poderão fazer”!

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (03.05.09)

Jo 10, 11-18

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”

Conforme a Tradição, hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a Comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus.
A imagem escolhida é a do “pastor” - uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Sl 40, 11; Ez 34, 15; 37, 24; Eclo 18, 13; Zc 11, 17; etc.). Às vezes é aplicada ao próprio Deus (Sl 23, 1; Is 40, 11; Jr 31, 9), às vezes ao futuro rei messiânico (Sl 78, 70-72; Ez 37, 24), às vezes aos líderes político-religiosos de Israel (Jr 2, 8; 10, 21; 23, 1-8; Ez 34). Também os Evangelistas Sinóticos a usaram bastante (Mc 6, 34; 14, 27; Mt 9, 36; 18, 12-13; 25, 32; 26, 31; Lc 15, 3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre” e não somente eficiência na sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se da sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho.
O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos seus próprios interesses. Aqui o texto está bem na tradição profética de Ezequiel (Ez 34) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus - os líderes religiosos e políticos do seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém em 587 aC) , que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o na horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus podem ser aplicadas quase que diretamente a muitos líderes políticos (e às vezes religiosos) dos nosso tempos!
O trecho destaca o verbo “conhecer” - Jesus conhece as suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem dos seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz - assumida livremente por Jesus - é a expressão suprema desse amor.
Mas o amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus” - todos os povos do mundo. Aqui talvez haja uma referência às outras comunidades não-joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja - a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela; mas, muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso - “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, onde se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus.
Como seguidores do Bom Pastor também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo, e a todos os “ismos” que nos dividem e separam, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor, Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” ( Jo 10, 10)

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (26 de abril de 2009)

Lc 24, 35-48

“E vocês são testemunhas disso.”

O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas, que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não estamos mais com a primeira geração de discípulos - já se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade já está vacilando na sua fé - as perseguições estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.
Neste cenário, Lucas escreve este capítulo. Traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época - e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” E afirmam: “Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos tempos - diante da péssima situação da maioria do nosso povo que enfrenta a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação, é muito fácil perder esperança e coragem. Mas, Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, e está no meio de nós!
Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva da comunidade lucana - e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças - pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois, a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário, a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho” (v. 32), mas não lhes abriu os olhos - para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram... como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35).
Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar - pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados, desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (v. 47).
Hoje em dia, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Mas, essa experiência não serve somente para o nosso consolo pessoal - somos comandados a imitar os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa experiência religiosa não é algo intimista e individualista, mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade da criação, sem excluídos e marginalizados!

UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS

Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús. Aqui temos o retrato das suas comunidades - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado entre elas. Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário, estão caminhando junto com a presença do Senhor que venceu a morte.
Essa história também nos pode ajudar bastante hoje, pois nos indica como devemos usar a Bíblia para animar a nossa caminhada. Jesus é o mestre da Bíblia; e aqui Ele ensina como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e nos dar coragem na nossa missão de evangelizadores.
O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:

Primeiro ato: vv 13 -19a: “Introdução”

O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”.
Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade de sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando para sua casa. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem esperança.
Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas. E o outro? O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19, 25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos fossem um casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é uma hipótese agradável e possível.
De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver - mas, Ele tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar como Jesus se comporta, através dos verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas. Ele criou um ambiente de fraternidade onde seria possível explicar tanto a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância! Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e irmãs! Por isso mesmo, muitas vezes não tem efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.
O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois.

Segundo Ato: vv 19b -24: “Os discípulos falam”

Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos que Ele fosse o libertador de Israel” (v. 21). Eles “esperavam”, portanto não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus, pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos vão muito além de uma simples tristeza!
É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi quem matou Jesus - não foi o povo, foram grupos de interesse bem definidos: “Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram” (v. 20)
Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer, ou a algo desejado pelo Pai, é bom examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas: Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes saduceus, que dominavam o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e pelo profetismo de Jesus.
Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do Sinédrio, que governava os judeus nos assuntos internos, onde a maioria pertencia ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), colaboradores com o poder Romano, lucrando bastante com isso. Então Jesus foi morto não por acaso, mas porque ameaçava os privilégios da elite dominante! A cruz era a consequência lógica da vida de Jesus!
Outro elemento importante é o fato de que eles sabiam do túmulo vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história das mulheres. Mas isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que a nossa fé não se baseia no túmulo vazio! É a nossa fé na Ressurreição que explica por que o túmulo estava vazio, e não o túmulo que dá consistência à nossa fé!

Terceiro Ato: VV 25-27: a Bíblia

Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam de cor os salmos e as profecias. O seu problema era que embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isto é, Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus.

Quarto Ato: vv 28-32: a partilha

Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não numa hospedaria, como normalmente a gente supõe. Aqui temos o ponto central da história - pois até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas agora sim. Jesus se põe à mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles” (v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31).
Neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles! Por que? Porque, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física. Agora eles caem dentro de si e reconhecem que “estava o nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” ( v. 32)
A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas para “abrir os olhos” é necessária também a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!

Quinto Ato: vv 33-36: a missão

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de missão. Os mesmos dois que de manha fugiam de Jerusalém, lugar da morte, da perseguição, do fracasso, de tardezinha se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas, mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. A história que começou com a comunidade se desintegrando, termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34).
E os dois de Emaús puderam contar: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 36).
Essa história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais - a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade. É na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna “Lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7).

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (19 de abril de 2009)

Jo 20, 19-31

“A paz esteja com vocês!”

No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus..
No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o seu grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27). Ele usou a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Frequentemente a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido - como tantos países experimentaram, e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras de direita e da esquerda. Assim, a Campanha da Fraternidade deste ano quis nos conscientizar que a segurança e a paz não se alcançam simplesmente com maior repressão policial, mas com a construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna, como Deus quer. Lembremo-nos que o tema da Campanha não foi “Segurança Pública”, mas “Fraternidade e Segurança Pública”. O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o seu povo. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e das suas consequências. Como dizia o saudoso Papa Paulo VI, “Justiça é o novo nome da paz!”. O “shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é através da volta do Filho para o Pai que o Shalom vai se instalar.
O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus - mas também um desafio para nós, os seus discípulos/as. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, este shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas, quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase de Jesus, “não fiquem perturbados, nem tenham medo” (Jo 14, 27), pois disse ele, “eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso” na visão positivista das elites dominantes. Mas, o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras em Mt 10, 34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”.
Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética d’Ele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois, a sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima com não-ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se numa vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o Shalom tinha lugar premente; e por isso, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por esta pregação do verdadeiro shalom - uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus” - da sua pessoa e do seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença - ou ausência - do “shalom” na nossa sociedade, e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer.
O Reino de Deus não é algo escrito numa tábua rasa. Já existe a força contrária, a do anti-Reino. Assim também, o shalom não nasce num vácuo - cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso - pois necessariamente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda! Uma vida dedicada à construção do Shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última da nossa luta pelo shalom tem que ser enraizada na nossa fé - por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (Êx 3, 7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós, (Jo 1, 1.14) vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (Jo 10, 10). Por isso, devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus que conclama a todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14).
As raízes da violência, do anti-Reino, estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus tratos contra quem quer que seja, quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja e ao ciúme, ao ódio e raiva, ao racismo, machismo, classismo, ou a qualquer outro "ismo" que nos divide - estamos nos opondo ao shalom de Deus. Quando colocamos a propriedade particular como um valor em cima da vida humana, quando defendemos a pena da morte, quando apoiamos politicamente estruturas que acumulam bens nas mãos de poucos, quando aceitamos a ideologia do neoliberalismo, com o seu Deus do lucro, o seu evangelho de competitividade que faz do irmão e irmã os meus rivais, estamos contribuindo para que o shalom não aconteça. A batalha - e é batalha - contra a violência em favor da paz se travará em muitas frentes - dentro de cada um de nós, nas instâncias de poder político, religioso, eclesial, social e cultural. Os cristãos de todas as igrejas terão uma responsabilidade muito grande de ser tornarem arautos do shalom, protagonistas de uma nova ordem social, seguindo as pegadas do Mestre que desmascarava a violência sofrida pelo seu povo - muitas vezes em nome de Deus - e trouxe a proposta de um mundo diferente, baseado nos valores do Reino.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.
Normalmente, imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, como Lucas descreve em Atos, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.
Mais uma vez, num domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase sobre o Domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os que acreditaram sem ter visto!”. Essa muitas vezes será a realidade da nossa fé - acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte, o Shalom do que a prepotência! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vai nos dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo - Jesus é Senhor e Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o evangelho terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora ele repete essa afirmação e abençoa todos os que O aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada - mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

DOMINGO DE PÁSCOA (12 de abril de 2009)

Jo 20, 1-9

“Ele viu e acreditou”

Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Mas, certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até hoje as conseqüências.
Lendo os relatos, um fato salta aos olhos - ninguém esperava a Ressurreição! Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somamos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio chega a Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem pensar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurreicionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!
Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Nós todos somos discípulos/as amados/as, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos a Jesus e ao próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto pelo evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).
Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, nesses dias da aparente (mas somente aparente!) vitória da arrogância e prepotência dos países hegemônicos, e especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas.

DOMINGO DE RAMOS (5 de abril de 2009)

Mc 11, 1-11

“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”

Quase não existe comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria e entusiasmo, a entrada de Jesus em Jerusalém. Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente pisam numa igreja num domingo comum, hoje fazem questão de não perder a celebração. Mas acredito que, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore ou teatro, seja importante estudar mais de perto o que significava esta entrada em Jerusalém para Jesus, e para o evangelista.
Uma das coisas que dificultam o nosso entendimento da passagem - como de outros textos - é a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar hoje um trecho do profeta Zacarias: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9-10). Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os “Anawim”, ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Entre este grupo seguramente estavam Maria e José, e os discípulos de Jesus. Jesus foi educado dentro dessa espiritualidade. Zacarias traçava as características do verdadeiro messias - seria um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra, mas de paz! Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde poderosos e ricos oprimiam os pobres e pacíficos! Um rei jamais entraria numa cidade montado num jumento - o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco de raça! Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias, e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!
Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Presidente ou Governador dos nossos tempos, - de pompa, imponência e demonstração de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus! O contrário do que significava o que Jesus fez! Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém” - e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor, o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus! Nada mais longe do sentido original deste evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus! O texto de hoje convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus - mas, será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende estes termos? É valiosa a advertência contida num canto muito usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o salvador!”
Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força do direito (Jesus e o seu projeto de vida) ou no direito da força (George Bush, Osama-bin-Laden e os tantos aliados deles com o seu projeto de morte?)

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA - 29 Março 2009

Jo 12, 20-33

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”

O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças dos seus textos sobre o seguimento de Jesus, p. ex. Lc 9, 22-25: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme a sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a Ele, ou seja, na luta em favor do seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar ao serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois, o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida – ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (v. 24). Não que Jesus queria a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai – e apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de muitos.
Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum - em geral as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso, guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança; mas, na verdade, nós muitas vezes criamos Deus em nossa imagem, e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “S e alguém quer servir a mim, que me siga” (v. 26).
O seguimento de Jesus leva à cruz; pois, a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas, é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é agüentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia na sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios da nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”, (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus – sejam eles sócio-políticos, econômicos ou religiosos – normalmente tudo vem misturado! Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato Sinótico, quando rejeitava o seguimento de um Messias Sofredor (Mc 8, 32).
Mas, que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz conseqüências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Fiquei triste há pouco tempo ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da Teologia de Prosperidade, na verdade uma empresa multi-nacional, exclamar “agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna” (v. 25). É claro que aqui se usa um semitismo – o contraste com o “apegar-se” é expressado pelo verbo “desprezar”- o que significa “amar menos”. Essa opção é difícil – embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “estou perturbado” (v. 27). Mas, o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade.

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA - 22 Março 2009

Jo 3, 14-21

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por Ele”

Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (vv. 16-21) que podem ser entendidos como resumo de todo o evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época.
Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Nm 21, 1-9. O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai.
A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões vêem o mundo como algo negativo e pecaminoso – freqüentemente justificando-se com uma interpretação errônea de João e assim criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Tal visão deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho.
A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar. Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história; mas, para João se dá quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente recusa a sua mensagem. O termo que a teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos Essênios.
O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas, é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir nas suas pegadas. É fazer as suas opções concretas, ou melhor, de agir como ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam o nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual, criada por gananciosos que não sofrem as conseqüências da sua sede sem limites de lucro. “Crer” n’Ele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática esse Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos.
É bom notar que Jesus, enfatizando nessa seção a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos) nega a importância de nascer fisicamente no Povo Eleito – mais uma vez, como em Caná e no Templo (2, 1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo da sua época!
Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo sem violências, – lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (v. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusa,o realmente “crê” em Jesus, seja qual for a sua confissão religiosa, e “não é condenado” (v. 18). Quem não faz essa opção, opta então pelas trevas, mesmo que professe de uma maneira ortodoxa as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (v. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos as nossas opções de uma maneira sincera.

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA - 15 Março 2009

João 2, 13-25

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”

Na cena do texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João (nos Sinóticos - Mt, Mc, Lc - a vida pública de Jesus só durou um ano e eles só mencionam uma Páscoa). No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos judeus no sinal das bodas de Caná, aqui ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu o seu sentido. Pois, a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante reside em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem templo nacionalista, explorador econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).
João entende que o templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias – ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mt 26, 61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias.
Mais uma vez Jesus, através de uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, a sua religião era vazia, pois escondia o rosto verdadeiro de Deus. As igrejas correm este mesmo risco nos dias de hoje. Além da descarada exploração financeira dos seus fiéis por parte de algumas seitas (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça na nossa Igreja!), aos poucos muitas comunidades cristãs perderam a sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neo-liberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu uma vez o Frei Beto, a religião assim “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (Estadão 03.11.99).
Assim, o texto de hoje nos traz um alerta – Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração; ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Uma religião que abandona a sua função profética é tão traidora como a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, diante da arrogância despótica de George W. Bush e seus aliados, verdadeiros criminosos de guerra, diante do massacre em Gaza, diante da tragédia de Darfur e do Congo, as vozes de Bento XVI, do Arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos que a religião não se confina à sacristia, mas tem que levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. A Campanha da Fraternidade 2009 convoca todos os cristãos para que recuperem essa dimensão profética na luta em favor da verdadeira segurança com o lema “A Paz é Fruto da Justiça” (Is 32, 17), e não das armas, dos bombardeios ou da repressão policial. Aproveitemos do “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo – de ser bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido.

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA - 8 Março 2009

Mc 9, 2-10

“Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!

O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (8, 34). Começando essa passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz.
O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante - o fato que ele era um homem de oração. Durante a oração aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim, Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo - Marcos aqui vislumbra mais uma vez o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus.
Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Claro, seria bom ficar ali, num momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não iria querer? Mas, é uma sugestão que Jesus não pode aceitar. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e em seguida “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é precisa descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz!! Talvez, foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário!
Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Mas, essas experiências não são “intimistas” - nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento para que possamos seguir o exemplo d’Ele que lavou os pés dos discípulos:“Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Também, esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência - por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação - mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos! Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA - 1 Março 2009

Mc 1, 12-15

“Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por satanás

Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto - Marcos de uma forma muita resumida, Mateus e Lucas mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista!
Uma coisa logo chama a atenção – nos três Evangelhos as tentações vêm logo após o batismo de Jesus! O batismo significava o assumir público da sua missão, como Servo de Javé. Logo após esse compromisso, ele tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência de Jesus é como a nossa própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus; mas, entre o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações!!
Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora d’Ele, durante as suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência da sua fé!
O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4, 1-14) pode nos ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se tornasse pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer” - logo que enfrenta um sacrifício por causa da sua opção, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, num mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos, criando necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Pois vivemos numa sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores! É só olhar o número de casamentos que fracassam diante da primeira crise, ou a quantia de seminaristas, religiosos/as e padres que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar os seus votos ou de se ordenar, diante de uma sentida falta de “auto-realização imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver dignamente. Mas salienta muito bem que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais – ambos são necessários para que se tenha a vida plena! Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos!
A segunda tentação pode ser vista como a de “ter”. De novo algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”! Como sempre, a tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Isso sem falar nas pregações midiáticas que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua bênção! Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve que enfrentar esta tentação - Ele que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos pobres, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando a justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! Ainda hoje todos nós enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus” (v. 12).
Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as tentações do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. O relato nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).

SÉTIMO DOMINGO COMUM (22.02.09)

Mc 2, 1-12

“Nunca vimos uma coisa assim”.

O texto de hoje inicia uma série de cinco controvérsias entre Jesus e diferentes grupos dentro do judaísmo da sua época (fariseus, escribas, seguidores de João Batista, saduceus, herodianos), mostrando como o sistema religioso e político vigente era incapaz de reconhecer a novidade da chegada do Reino de Deus, e se opunha a Jesus. Essa série vai de 2, 1 até 3, 6 e vai terminar com a frase “faziam um plano para matar Jesus”. É como se Marcos quisesse mostrar-nos para onde levaria a fidelidade de Jesus no seguimento da vontade do Pai. Já a Cruz começa a mostrar a sua sombra desde o início.
A primeira das controvérsias é gerada pela cura de um paralítico. Para imaginar a cena, devemos lembrar que se trata de uma casa da Palestina antiga - uma casa de um andar só, cujo teto em forma de terraço era feito de taipa - por isso a facilidade em descer a maca pelo teto. Mas, aqui também se esconde uma verdade sobre a vivência que Jesus quer - o paralítico dependia da solidariedade dos outros para que chegasse ao lugar da cura. Não é possível o verdadeiro seguimento de Jesus sem a solidariedade efetiva, especialmente com os mais sofridos e frágeis da sociedade. Mais uma vez, Marcos enfatiza que a fé precede o milagre, pois Jesus logo faz a cura “vendo a fé que eles tinham”.
Jesus não se contenta com um milagre que somente sana o sintoma do mal. Ele diz: “os seus pecados são curados” - pois atrás de todos os males do mundo há o pecado como raiz - seja pecado individual ou, muitas vezes, social e comunitário. Como diz Paulo “a criação inteira geme como em dores do parto” (Rm 8, 22). Quantos sofrimentos hoje são causados pela ganância e corrupção enraizadas nas estruturas da nossa sociedade. Jesus ensina que não podemos nos contentar somente com ações isoladas que dirimem alguns casos individuais - por tão importantes que possam ser esses gestos de solidariedade. Também temos que extirpar do nosso meio as raízes dos males - não com ritos esdrúxulos, mas com ações organizadas, motivadas pela fé, para que construamos o mundo que Deus quer, onde “todos tenham a vida e a tenha em abundância” (Jo 10, 10).
Mais uma vez é interessante comparar no texto as reações das pessoas diante da ação libertadora de Jesus. Os donos do poder, aqui representados pelos doutores da Lei, ficam escandalizados e enraivecidos com Jesus, pois a pregação e a ação dele ameaçam o seu poder sobre o povo. Mas, do outro lado, o povo simples, sofrendo a opressão da classe dominante político-religiosa, fica cheio de admiração e de alegria e louva a Deus, pois “nunca vimos coisa assim”. Sempre há quem se escandalize com a pregação ou ação libertadora, pois quer a continuidade de um sistema opressor, seja ele político, econômico, ou religioso, - ou muitas vezes uma combinação dos três, pois frequentemente a religião é usada para justificar, em nome de Deus, a exploração sócio-econômica da maioria.
A ação de Jesus é integral. Ele cura por fora e por dentro. Não podemos nos contentar com uma ação que não tem essa integração - não há cura “interior” a não ser que leve a um mundo material onde todos têm vida digna; mas uma ação que ataca os sintomas dos males também não surtirá efeito duradouro se não atingir a raiz dos males - o pecado, a opção pelo mal, nos seus aspectos individuais, sociais e comunitários.

SEXTO DOMINGO COMUM (15.02.09)

Mc 1, 40-45

“E de toda parte as pessoas iam procurá-lo”

O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa-Nova” (Mc 1, 38s). Marcos, diferente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus. Mas ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino e da sua Boa Notícia.
O texto de hoje descreve a cura de um leproso. Os leprosos estavam entre os mais marginalizados da época. Eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia, longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13, 45-46). A única esperança do leproso de ser reintegrado na comunidade estava numa cura da parte de Jesus. Ele diz algo significativo: “Se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé - pelo contrário só faz onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé que causa o milagre. Isso se torna importante: recordar no nosso mundo tão afoito em correr atrás de supostos milagres e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento d’Ele até a cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos das Igrejas cristãs, incluindo a Católica.
A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio de ira” - certamente não com o leproso, mas com o sistema social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar as nossas leis e práticas para verificar se nós também não criamos classes de excluídos e cristãos da segunda categoria, em nome de Deus!!
Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do Evangelho de Marcos - o chamado “segredo messiânico”. Jesus proíbe que ele conte para os outros a história da cura! Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa-notícia da sua cura. Essa proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos - e no relato da confissão de Pedro na estrada de Cesaréia de Filipe vamos ver o motivo atrás dele. Pois Jesus não quer que o povo siga-O buscando prodígios e milagres, mas quer que todos se tornem os seus discípulos como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, pela concretização do Reino de Deus no meio de nós. Por isso é de desconfiar de pregações e celebrações religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, sem um engajamento na transformação do mundo e das suas estruturas.
Finalmente, o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que a sua cura seja autenticada, segundo as leis levíticas. Pois, para Jesus, não basta a cura individual - Ele quer que todas sejam integradas numa vivência comunitária sem marginalização por causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde! A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é a nossa atual sociedade neo-liberal e consumista! Diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira face de Deus a eles - o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema farisaico da época - “e de toda parte as pessoas iam procurá-lo”.

QUINTO DOMINGO COMUM (08.02.09)

Mc 1, 29-39

“Foi para isso que eu vim”

O nosso texto de hoje pode ser dividido em três partes: vv 29-31 - a cura da sogra de Pedro; vv 32-34: curas em Cafarnaum; vv 35-39. Jesus reforça a sua vocação e missão pela oração. O conjunto forma uma unidade que nos ensina coisas importantes para a nossa vida de cristãos.
A cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no texto no trecho anterior (1, 23-28). Aquela cura se dava num lugar considerado “sagrado”, a sinagoga, enquanto a de hoje num lugar “profano” - a casa; aquela era de um homem, de hoje de uma mulher; a primeira num lugar público, a da sogra num lugar privado. Assim Marcos enfatiza que a missão libertadora de Jesus abrange tudo e todos, sem distinção de gênero, condição social, ou local. A sogra, quando curada, levanta-se e começa a servir os discípulos - ou seja, quem é libertado/a por Jesus não se satisfaz com isso, mas em resposta coloca-se a serviço da comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como querem tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade e à missão.
A cura das multidões de doentes nos mostra a situação do povo no tempo de Jesus - muitos doentes de todos os tipos, por falta de recursos. Muito semelhante ao Brasil de hoje. Jesus expulsa os demônios - que significa, na linguagem daquela época, de tudo que oprimisse a pessoa humana, todas as manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também nos convida a descobrir quais as manifestações do mal que devem ser afugentadas da nossa sociedade de hoje - as que deixam tantas pessoas sem saúde, sem recursos, sem uma vida digna dos filhos/as de Deus. Nos convida a lutar, não através de exorcismos teatrais e chocantes, mas através de uma luta permanente e firme em favor dos que sofrem.
A terceira parte do texto nos traz o segredo da missão de Jesus. Mesmo esgotado com o trabalho em favor do povo, ele se levanta de madrugada para ficar na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração, ele reza a sua missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão do mato, Jesus achou a força para poder fracassar, humanamente falando! A atitude de Pedro e dos companheiros é outra - “Todos estão te procurando”. Isso significa, “Você está fazendo sucesso em Cafarnaum - volte para lá, faça mais sucesso ainda”. A tentação permanente do poder e da fama - onde no fundo se busca mais a auto-realização e o prestígio, do que a vontade de Deus. Tentação muito atual para os tele-evangelizadores - e para todos nós. Mas Jesus não cai - a resposta d’Ele é contundente: “Vamos para outros lugares, pois foi para isso que eu vim”. Jesus não deixa que a fama e o prestígio o tirem do caminho do Servo de Javé - Ele anda pelas aldeias da Galiléia, no “fim da picada”, para levar a compaixão de Deus aos mais abandonados e sofridos, nos becos-sem-saída de Israel.
Esse trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser a da cada vida cristã. Quanto mais ele trabalha na missão, mais ele sente a necessidade de rezar. Mas, quanto mais que reza, mais tem força para voltar à missão. Jesus não está a serviço d’Ele mesmo, nem de uma estrutura - mas do Pai e do povo, dois aspectos da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações comuns na Igreja de hoje - a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima com Deus e a de só “rezar” de uma maneira individualista e intimista, sem dedicação à missão. Jesus mostra que a missão leva à oração e a oração leva à missão - e não a qualquer missão, mas à da libertação do povo sofrido e oprimido.

Festa da Apresentação do Senhor (02.02.09)

Lc 2, 22-40

“Ele crescia, cheio de sabedoria; e o favor de Deus estava com Ele”

O Evangelho de hoje é o mesmo proclamado na Festa da Sagrada Família. Lucas usou como base para essa narração a história de Elcana e a sua mulher estéril, Ana, em I Sm 1-2. Deles nasce Samuel, que é apresentado ao Senhor. O ancião e sacerdote, Eli, aceita a dedicação do filho deles no santuário de Silo e abençoa os pais do menino. Lucas expandiu essa fonte com outros temas como os da alegria, do cumprimento das promessas de Deus, do universalismo da salvação, rejeição da fé, e do papel das mulheres. Também ilustra a passagem pacífica do Antigo ao Novo, no encontro entre o Antigo e o Novo Testamento. Durante o Advento, Lucas fazia paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista; e, Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato - o Espírito Santo e a opção pelos pobres.
Lucas sublinha que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (Lv 12, 8) para oferecer o seu sacrifício - de dois pombinhos. Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres (Lv 12, 8). Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas põe em relevo o amor especial de Deus para os pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles - como aliás, era toda a população do Nazaré de então!
Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus - o grupo conhecido no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”. É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus; agora, Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (4, 25-28; 4, 31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23,55-24,35; At 16, 13-34). Assim, Lucas insiste que o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.
Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. O versículo 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia d’Ele” - mais uma vez nos apresentando José e Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo de Jesus.
Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com Ele”. Mas, esse crescimento foi gradativo, como com todos nós; e, a sua família tinha um papel importantíssimo no seu crescimento. Se, como adulto, Ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai - tema tão caro a Lucas - era porque também aprendeu isso através da experiência do seu pai adotivo, José. Se crescia na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus pais. Se era fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar.
Num mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar e a comunidade, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido numa fé viva em Deus, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça aos seus contra-valores. Jesus continua sendo um “sinal da contradição”, pois o seu projeto da “Justiça do Reino” contrapõe-se ao projeto de uma sociedade excludente. Diante do sinal de contradição que é Jesus, todos têm que tomar atitude e ter a coragem de andar no meio de uma sociedade idolátrica e consumista “na contramão, com Jesus”.

QUARTO DOMINGO COMUM (01.02.09)

Mc 1, 21-28

“O que significa isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade”

O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos - e de todos os Evangelhos - o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado na linguagem e mentalidade daquele tempo na imagem de um homem doente “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com esta luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não através de milagres, mas da Cruz, até a vitória definitiva na Ressurreição.
Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava - mas, como é costume dele, não nos explicita o que ele ensinava. Mas ilustra o conteúdo do ensinamento do Mestre relatando uma ação d’Ele - a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época - que tratava toda doença como expressão de um espírito mau - mas em que o evangelista quer nos mostrar, que na chegada do Evangelho do Reino, acontece a libertação verdadeira, onde o mal, o pecado, com todas as suas expressões, está derrotado pelo bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente - o bem contra o mal.
No texto, o mal, falando através do homem, reclama contra a chegada do bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” O mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina, nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje - enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam “o senhor é um santo”, mas quando comecei a perguntar por quê existiam tantos pobres, me falaram “o senhor é um comunista!”- e sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil.
Então, o relato nos ensina que com a chegada de Jesus - portanto, também através da ação das comunidades dos seus discípulos/as - algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso, um ensinamento novo, dado com autoridade?” A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto no seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento; mas, na sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas; mas, falava a partir da sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo a sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência dos escribas, e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores/as, achar meios para praticar este projeto na nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos Messias, de uma Teologia de Retribuição ou de Prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade - manifestação do projeto de Deus para os seus filhos/as. Essa ação começa no “micro” - na nossa família, comunidade, bairro, e Igreja - pois a opção entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção e ação nossa.

TERCEIRO DOMINGO COMUM (25.01.09)

Mc 1, 14-20

“Sigam-me e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”

O texto de hoje trata da vocação dos primeiros discípulos conforme a tradição sinótica, em contraste com o do último Domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade do Discípulo Amado.
Marcos logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se na sua vida pública - “depois que João Batista foi preso”. Não é uma indicação meramente cronológica, mas causativa, no sentido de que Jesus começou a pregar porque João foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de João Batista, uma vocação que levaria Jesus, como levou João, ao martírio.
O texto encapsula no versículo 15 todo o conteúdo do Evangelho na frase lapidar: “o tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa-Notícia”. O Reino de Deus irrompeu no meio da humanidade de uma maneira definitiva, através da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino exige resposta da parte das pessoas - a conversão que nasce da fé na Boa-Notícia da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe.
Deus quis precisar das pessoas para concretizar o seu plano; e, por isso, o primeiro passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É importante notar a atividade dos primeiros chamados - dois estavam “lançando a rede ao mar” e dois estavam “consertando as redes”. Significa os dois aspectos da vida cristã - a missão (lançar as redes) e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se rasgam de tanto lançar-se, assim acontece com a nossa vida, com as nossas comunidades - por sermos frágeis, facilmente se rompem a nossa comunhão e unidade. Por isso, temos também de dar tempo para “consertar” - fortalecer a nossa união, a nossa vida interior, as nossas comunidades. Rede rompida pega nada - e rede consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada novamente, também pega nada. É assim com a vida cristã - se rompermos a nossa unidade e comunhão, não cativaremos as pessoas para o Reino. Por outro lado, se cairmos numa religião intimista e individualista, não nos lançando na missão, tampouco seremos “pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado.
Também é de notar que, tanto os dois que estavam lançando as redes como os que estavam consertando-as, tiveram que deixar algo para seguir Jesus - ou as redes, (símbolo da segurança profissional) ou o pai e os empregados (símbolo da segurança afetiva). Não é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião de seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções às vezes difíceis, tão difundida em programas de televisão por alguns pregadores “estrelas” das diversas Igrejas, não é a proposta de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois gumes” (Hb 4, 12), incomoda e desinstala-nos hoje da mesma maneira do que os primeiros discípulos. Perguntemo-nos “o que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe, neste momento concreto da minha caminhada de discípulo/a?”

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (18.01.09)

Jo 1, 35-42

“O que é que vocês estão procurando?”

O autor do quarto Evangelho organizou o material dos versículos de 1, 19 - 2, 12 num esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus - as bodas de Caná - que teve como conseqüência que “os seus discípulos creram nele” (2, 11). Assim, fez lembrar os sete dias de criação, pois com Jesus acontece a nova criação.
Jesus não quis agir sozinho - e desde o início chamou para si um grupo de seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos, que descreve o chamado dos primeiros discípulos à beira do mar de Galiléia, talvez o relato do quarto Evangelho guarde uma tradição mais histórica - que os primeiros discípulos de Jesus eram seguidores de João, o Batista.
O texto de hoje relata a vocação dos primeiros três discípulos - André, um discípulo anônimo (o Discípulo Amado?) e Simão Pedro. O chamado dos primeiros discípulos nos apresenta um retrato de vocação válido para todos os tempos e todas as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental - “o que é que vocês procuram?” São as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João. Uma pergunta muito importante para todos nós hoje - o que é que nós procuramos na vida? O que é o mais importante para nós? Onde procuramos a nossa felicidade e realização? Não é uma pergunta meramente teórica - é a base da nossa vivência. Essa pergunta nos interroga - como interrogou os primeiros discípulos - sobre a busca que dá sentido à nossa vida.
A resposta dos dois “Mestre, onde moras?” mostra que eles queriam criar comunhão com Jesus - e Ele lhes lança um desafio com o convite “venham e vejam”! Em João, “ver” tem o sentido de “crer” (Jo 6, 40). Não se trata simplesmente de conhecer o endereço d’Ele, mas algo muito mais profundo - descobrir quem é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai através de uma vivência de comunhão com Ele, em comunidade de discipulado. Ambos escolhem unir as suas vidas e os seus destinos a Jesus, pois “ficaram com Ele”. Não é possível ser discípulo de Jesus sem que demos tempo para ficarmos com Ele - na oração, na reflexão, na leitura da sua Palavra.
Mas, não basta conhecer Jesus de uma maneira intimista e individualista para ser discípulo. Logo, André procura partilhar a sua descoberta, fazendo com que o seu próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje também é fundamental que os cristãos testemunhem Jesus, para que outros possam crer n’Ele - e esse testemunho é dado muito mais pela nossa maneira de viver e agir do que com as nossas palavras.
O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo nome de “Pedro” - mudar o nome de uma pessoa, na Bíblia, muitas vezes, significa uma nova identidade, uma nova vocação (e.g. Abrão/Abraão, Jacó/Israel, Sarai/Sara etc). Pedro vai dar muitas cabeçadas antes de descobrir a sua verdadeira identidade. Aliás, só a encontra no fim do evangelho em Capítulo 21, quando confessa o seu amor incondicional para com Jesus e a comunidade, e ouve o convite definitivo do Mestre “Siga-me”. Pedro simboliza a experiência de todo discípulo - o seguimento de Jesus é uma caminhada de uma vida toda, com muitos erros e desvios. Mas, o amor incondicional de Deus é capaz de vencer todas as fraquezas e pecados. Ser discípulo é um aprendizado permanente - e para que façamos essa caminhada, é necessário que sigamos os passos dos primeiros discípulos - que saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos criar comunhão com Jesus e com a sua comunidade, e, que gastemos tempo com Ele. Assim, teremos a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida - e como os discípulos, chegarmos a realmente “crer n’Ele” - não de uma maneira teórica e difusa, mas através de uma experiência real do Deus da vida.

FESTA DO BATISMO DO SENHOR (11.01.09)

Mc 1, 7-11

“Tu és o meu Filho bem-amado; em ti encontro o meu agrado”

Nesse Domingo, que comemora o batismo de Jesus, mais uma vez encontramos a figura do Precursor, João Batista, que foi um dos principais personagens das liturgias do Advento. Mas, na leitura de hoje, a ênfase cai na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele: literalmente, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade de quem vem depois do arauto, como num cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem - pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda d’Ele, inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos somente para o fim dos tempos.
Nesse texto de Marcos, o interesse volta-se menos para o batismo de Jesus como tal, e mais para a revelação divina que se lhe seguiu. Sendo batizado por João, Jesus coloca-se dentro da humanidade caída, e publicamente assume o compromisso com a vontade do Pai. A frase “viu os céus rasgarem-se e o Espírito como uma pomba descer sobre si” enfatiza que Deus intervém para realizar as suas promessas (Is 63, 19) através do envio do Espírito Santo. Descendo sobre Jesus, o Espírito o designa como sendo o Salvador prometido e esperado. A voz do Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério público como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um(a) de nós também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode nos separar desse amor divino - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Nós podemos nos separar de Deus, mas Ele nunca se separa de nós. O que é importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna dos filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (1 Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as conseqüências - uma vida de fidelidade, que o levava até a Cruz - e à Ressurreição (Fl 2, 6-11).
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre como discípulos-missionários, na intuição da Conferência de Aparecida, no esforço da construção do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já está no meio de nós” (Mc 1,14).

EPIFANIA DO SENHOR (04.01.09)

Mt 2, 1-12

“Ajoelharam-se diante d’Ele, e Lhe prestaram homenagem”

Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos, representados pelo Magos do Oriente. Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, ela esconde uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é para todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica da literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo:
Vêm os magos (nem três, nem reis!) buscando o Rei dos Judeus. Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Ex 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.
A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão (Nm 24, 17)
O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5, 1)
Os presentes lembram as profecias de Isaías sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60, 5; Sl 72, 10-11).
Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do povo de Deus (Ex 1, 8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são versados nas Escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do Oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinal da partilha, que será característica do Reino que Jesus veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, como se vê claramente nas festas natalinas, quando até bancos, que desfrutam de lucros astronômicos e imorais, esteios que são do sistema neo-liberal que cria pobreza em toda parte, promovem apresentações sentimentais de Natal, usando os mesmos pobres que eles ajudam a criar! Curitiba que o diga! De forma alguma esse tipo de celebração questiona a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas de boa vontade vão se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas sim do nosso esforço na vivência do seu Reino. Não caiamos na celebração oca das histórias do Ciclo Natalino, reduzindo o seu sentido a algo somente sentimental e folclórico. Na prática, temos que optar - para a vivência religiosa vazia como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca a todos, representados pelos magos, para a construção do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” ( Jo 10, 10).

Festa da Santa Maria, Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz (01.01.09)

Shalom!
Quando eu estava em Roma escrevendo a minha tese, devia fazer uma análise do termo hebraico “Shalom”. Não estava contente com as explicações dadas pelos dicionários, que em geral traduziam o termo por “Paz”. Por isso, fui procurar um rabino hebreu, que muito carinhosamente me recebeu.
- Falar de Shalom é algo muito importante... - disse-me ele. Talvez seja um dos termos hebraicos mais carregados de sentido e força que temos em nossa língua. É certo que traduzir simplesmente por “Paz” empobrece muito o sentido da palavra original.
Enquanto ele falava, calmamente, pegou um copo e tomando uma jarra de água, foi colocando no copo muito devagar, deixando soar o borbulhar da água. O copo foi enchendo, e quanto mais chegava perto da borda, ele ia mais cuidadosamente derramando ainda água...
- Veja bem, não cabe mais nada. Nem uma gota de água neste copo. Se eu colocar mais, vai derramar, vai transbordar. É quando tudo está completo, é a plenitude. Está me entendendo?
Balancei a cabeça em sentido negativo, olhando para o copo cheio de tal modo que não coubesse mais nada.
- O Shalom é isso, meu irmão. É o máximo que pode caber. Quando eu desejo um Shalom a alguém, eu desejo todo o bem, tudo de bom, tanto bem que mais do que isso é impossível desejar. Sinal da quitação, quando não existe nada mais a pagar. Estás entendendo?
- Sim, agora entendi o que é o Shalom!
- Não ainda, meu irmão. Para entender bem o sentido do Shalom é preciso receber o Shalom; é preciso ter o Shalom... Posso ver em você perturbações, conflitos internos... Para você ter o Shalom é preciso que você tenha a harmonia interna, que você equilibre dentro de você as forças, que se sinta bem, que você esteja em harmonia consigo mesmo, que esteja em paz...
- Agora entendi...
- Ainda não... Você não está sozinho neste mundo. Você convive com pessoas. As pessoas são importantes na nossa vida. E devemos estar em relação de harmonia com elas. Harmonizar-se com as pessoas que estão perto de nós; harmonizar-se com as pessoas que amamos e queremos bem; harmonizar-se com as pessoas que não gostamos e que às vezes nos fazem mesmo o mal; harmonizar-se com as pessoas que estão longe; harmonizar-se com as pessoas que necessitam de paz, de ajuda, que vivem em dificuldades, que são excluídas, que passam fome, dor, solidão... Quando nos harmonizamos com as pessoas, então, sim, temos o Shalom.
- Entendi...
- Mais um pouco... Não estamos sozinhos no mundo. Vivemos rodeados pelas criaturas de Deus. Você está sentindo a cadeira onde está sentado? Sente o chão onde firma os seus pés? Sente o ar que está respirando? Escute! Aposto que não está ouvindo a beleza do canto do passarinho, o cachorro que late, o grito da vida e da natureza, a suavidade do vento... Estar em harmonia com a criação, com as criaturas, com a vida... Isso é também ter o Shalom.
- Agora estou entendendo...
- Tenha ainda um pouco de paciência. Meu irmão, você é uma criatura, não o Criador. Como um ser criado, você deve estar em harmonia constante com Deus. O Deus que te amou, e que pensou em ti no momento da Criação. Para ter o verdadeiro Shalom, você deve estar em sintonia e em plena harmonia com Deus, nosso Criador... Harmonize a tua vida com Ele, deixe que Ele guie os teus passos. E então, terás o Shalom.
- Acho que nunca vou entender o que é o Shalom...
- Não, agora você começou a entender o verdadeiro sentido desta expressão hebraica. Nenhuma palavra das línguas modernas pode traduzir toda a força e o conteúdo do Shalom da nossa língua mãe. Mas só quando conseguirmos harmonizar dentro de nós estas quatro dimensões é que poderemos dizer que temos o Shalom; só então é que poderemos desejar verdadeiramente um Shalom. Estar como um copo cheio onde não cabe mais nada; deixar o outro como um copo repleto.
E me abraçando, olhando-me nos olhos, e então desejou-me um Shalom...
Frei Ildo Perondi, OFM Cap
Londrina-PR
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