Pe. Tomas Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
Revisão do texto: www.maikol.com.br
Padre Tomas Hughes, Missionário da Sociedade
do Verbo Divino, nascido em Dublin na Irlanda, escreve as seguintes REFLEXÕES
HOMILÉTICAS:
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Reflexões sobre a Palavra de Deus para os domingos:
QUARTO DOMINGO COMUM (30.01.11)
Mt 5, 1-12a
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês
a recompensa nos céus”
Esses primeiros versículos doi Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução
e resumo do Sermão da Montanha. Nos apresentam um retrato das qualidades
do(a) verdadeiro(o) discípulo(a), daquele e daquela que, no seguimento
de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial
para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta
da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora com uma
linguagem menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa
claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira
de pensar e viver.
Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que
a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo
no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos
perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois
os que buscam a justiça são “pobres em espírito”.
Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele
esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido
- e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre
em espírito”.
As outras bem-aventuranças traçam as características de
quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças
e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista.
É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é
movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência
dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.
Tem fome da Justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes
não passa de uma legitimação oficial da exploração
e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio
Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem
ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o
mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce
do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino.
Mas, Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida
- a perseguição! Pois um sistema baseado em valores antievangélicos
não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história
dos mártires do nosso Continente testemunha muita bem. Qualquer Igreja
cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico
precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças
do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho) é pedra-de-toque
dessa fidelidade.
Continua válido para todos nós, como indivíduos e como
comunidades, o desafio de estar “na contramão, com Jesus”,
como diz Frei Carlos Mesters. Não somente na contramão da sociedade,
mas com uma proposta de construção de uma sociedade fundamentada
nos princípios do Sermão da Montanha, os de solidariedade, justiça,
fraternidade e paz. No mundo onde estas metas e princípios são
chamados da “ladainha dos perdedores”, cabe aos cristãos
descobrir meios práticos de concretização desta utopia,
a utopia de Deus, que impelia Jesus a doar a sua vida. É o grande desfio
de sermos “no mundo, mas não do mundo” como dizia Jesus (Jo
14) e por isso temos que ser “vigilantes” (outro tema do evangelho
de Mateus), para que não assumamos os princípios anti-evangélicos
do neoliberalismo selvagem, quase por osmose! O mundo é o palco da nossa
missão (Jo 16, 18), mas uma missão transformadora, norteada pelas
Bem-Aventuranças.
TERCEIRO DOMINGO COMUM (23.01.11)
Mt 4, 12-23
“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”
O texto começa situando a pessoa e a missão de Jesus no seu
contexto concreto, histórica e geograficamente. A mudança de Jesus
para a Galileia tem sido interpretada tanto como um assumir corajoso da sua
missão profética, diante da prisão de João, como
uma busca de maior segurança. O verbo usado para “retirou-se”
em v. 12 costuma ser usado por Mateus para indicar o recuo diante de um perigo
(2, 12.13.14.22;12, 15;14, 13;15, 21). Mas, o autor quer não somente
apontar o lugar geográfico da missão de Jesus, mas também
a sua natureza profética. Por isso, cita, com grandes modificações,
o texto de Is 8 23-9,1. Mateus condensa o texto da forma que só sobram
as referências geográficas, que apontam para o Norte da Galileia
e Transjordânia, conquistadas pelos pagãos assírios em 734
a.C. Ao passo que a maioria dos profetas e messias do seu tempo se retiravam
para o deserto (p. ex. os Essênios de Qumrã e João, o Batista),
ou agiram na capital, Jerusalém, Jesus se retira para a periferia, Galileia,
cercada pelos gentios. A esperança da salvação inicia-se
exatamente em uma região da qual nada se espera. No tempo de Mateus,
uma grande parte da população da Galileia era gentia, ou seja,
pagã. Por isso, escolhendo este lugar como palco da sua missão,
o ministério de Jesus vai entrar em contato com “todas as nações”
(Mt 28, 19).
V. 17 inaugura solenemente a missão de Jesus, a de anunciar a presença
do Reino de Deus entre nós. Esta é a mensagem central de Jesus,
e junto com a Ressurreição, formava a base e o objetivo da esperança
cristã. Usando a visão noturna de Daniel (Dn 7, 13-14), o Reino
representa a salvação futura e definitiva de toda a humanidade,
socialmente, politicamente e espiritualmente, através do exercício
da soberania de Deus, estabelecendo o "Shalom”, a paz que vem pela
justiça, na terra como no céu. Como Mateus escreve para uma comunidade
basicamente de judeu-cristãos, ele obedece o costume de não pronunciar
o nome de Deus, e por isso, usa a frase “Reino dos Céus”
no sentido de “Reino de Deus”. Infelizmente, esta convenção
nascida do respeito pela transcendência de Deus, levou muitas pessoas
a identificar, erroneamente, o Reino como algo pertencente somente ao céu,
diluindo a sua força transformadora.
O primeiro passo de Jesus é chamar um grupo de discípulos, começando
com os pescadores do Lago de Genesaré. Jesus rompe com o costume rabínico,
pois ele mesmo chama os seus discípulos. Em Mateus, Jesus muda a prática
rabínica também em outros pontos - os discípulos não
serão meros ouvintes do ensinamento do Mestre, mas colaboradores na sua
missão; as multidões também seguirão Jesus, buscando
n’Ele algo que não encontravam nos mestres oficiais das sinagogas
(Mt 4, 25; 8, 1; 12, 15; 14, 13 etc); em um segundo momento, Jesus vai fazer
uma crítica a este seguimento, mostrando que segui-Lo vai muito além
do que os discípulos e as multidões tinham imaginado - será
tomar sobre si a sua cruz (16, 24).
É interessante observar os detalhes do chamamento dos primeiros discípulos
para serem “pescadores de homens”, (“pescador” é
uma das duas principais imagens para o ministério no Novo Testamento.
A outra, a de pastor tem menor conotação missionária) -
dois estavam lançando as redes e dois estavam consertando-as. Assim o
evangelho mostra a dinâmica da vida cristã - tem hora para lançar
redes (a ação missionária) e hora para consertá-las
(cuidar mais da vida interna das pessoas e da comunidade). A rede pode significar
a comunidade dos discípulos. Com o tempo, as redes dos pescadores se
rompiam, por causa dos detritos apanhados, e precisavam ser consertadas, pois
rede rompida não pega peixe. O mesmo acontece com a vida cristã,
tanto no nível individual como comunitário - com o tempo podemos
romper as redes, enfraquecendo a nossa missão. Consertar as redes simboliza
o refazer dos elos de união entre nós e Deus, e entre os próprios
irmãos e irmãs. Mas, como rede consertada também não
apanha peixe se não for lançada, assim a comunidade cristã
não pode ficar voltada sobre si mesmo, em uma vida somente interna; mas,
esta vida forte de união interna deve levar de volta à missão.
As imagens do chamamento nos advertem contra dois extremos que distorcem o seguimento
de Jesus - um ativismo desenfreado, só voltado para fora, e que descuida
da vida interior das pessoas e das comunidades, de um lado, e uma vida só
voltada para dentro, do outro, fazendo da experiência espiritual algo
intimista e individual, que não leva à missão. Para o cristão,
a missão brota da intimidade com Jesus e leva a aprofundar esta intimidade.
A intimidade com Jesus leva de volta à missão e é alimentada
pela experiência da missão. Todos os cristãos e cristãs
são chamados a serem “pescadores de homens”, colaboradores
na construção do Reino de Deus, que já está no meio
de nós.
SEGUNDO DOMINGO COMUM (16.01.11)
Jo 1, 29-34
“Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”
O texto de hoje é tirado do Quarto Evangelho, o da Comunidade do Discípulo
Amado. Escrito muito depois dos Sinóticos, o quarto evangelho tem como
uma das suas características o uso abundante de símbolos, e uma
cristologia bastante diferente dos outros três evangelhos. O texto de
hoje situa-se no contexto de 1,19 - 2,12, onde, num cenário de sete dias,
o autor descreve os sete dias da nova criação, que se dá
em Jesus, fazendo paralelismo com o relato de Gênesis.
Diante das dificuldades em explicar o sentido do Batismo e Jesus, que comentamos
semana passada, João omite o evento, mas descreve a descida do Espírito
Santo sobre Jesus. Usando um símbolo muito conhecido dos primeiros judeu-cristãos,
João Batista proclama Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira
o pecado do mundo”. O texto evoca ecos de duas imagens do Antigo Testamento
- Jesus é o cordeiro pascal da páscoa cristã, que, pela
sua morte, acontecida no exato momento em que os cordeiros pascais estavam sendo
abatidos no Templo (Jo 19, 14), salvou o mundo do pecado, da mesma maneira que
o sangue do cordeiro pascal original salvou os israelitas do anjo destruidor
(Êx 12, 1-13). Em segundo lugar, Jesus é também o Servo
de Javé, descrito por Isaías, o Servo Sofredor, que “brutalizado,
não abre a boca; como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores; ...carregou
o pecado das multidões e intercede pelos transgressores” (Is 53,
7-12). João Batista também proclama que Jesus existia antes dele
- um tema tipicamente joanino, o da preexistência do Verbo.
Como o Batista batizava com água, Jesus batizará com o Espírito
Santo. Embora talvez o Batista se referisse ao espírito purificador de
Deus, de que falavam os profetas como purificador dos corações
nos últimos dias (Is 4, 4; Ez 36, 25s; Zc 12, 10; 13, 1;), o evangelista
quer que o leitor veja uma referência ao Espírito Santo, dado por
Jesus e pelo batismo cristão.
Diferente dos Sinóticos, em João não se fala de uma voz
celeste no momento do batismo. Substituindo-a, o próprio Batista dá
testemunho: Jesus é o “Eleito” de Deus, sobre quem o Espírito
de Deus desceu e permaneceu! Aqui temos mais uma referência ao Servo Sofredor
de Isaías (Is 42, 1). A ênfase sobre o fato que o Espírito
“permaneceu” sobre Jesus é peculiar ao Quarto Evangelho.
O autor quer ressaltar o relacionamento permanente entre o Pai e o Filho, e
entre o Filho e os que n’Ele acreditam. Aqui, o Espírito de Deus
permanece com Jesus, que o Evangelho vai mostrar ser aquele que o dispensa aos
que crêem (Jo 3, 5. 34; 7, 38-39; 20, 22).
Assim, logo no início do Quarto Evangelho, temos toda uma cristologia,
através do testemunho do Batista referente a Jesus: Ele é aquele
que sempre existia, que morrerá como o Cordeiro Pascal e como o Servo
Sofredor, pelos pecados das pessoas, para depois derramar o Espírito
Santo sobre o Novo Israel, a comunidade dos discípulos.
O Quarto Evangelho, neste texto, faz do seu jeito o que os Sínóticos
fazem com os seus relatos do Batismo de Jesus - proclama Ele como o Eleito do
Pai, o Servo de Javé, que manifesta em sua vida a vontade do Pai e que,
dando a sua vida, dá a vida eterna para todos os que n’Ele acreditam.
FESTA DO BATISMO DO SENHOR (09.01.11)
Mt 3, 13-17
“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”
Hoje, o Domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa do
Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão
é tão importante teologicamente que é tratado por cada
um dos quatro evangelistas, cada qual da sua maneira, dependendo da situação
da sua comunidade e dos seus interesses teológicos. A história
logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava
a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado e, um ritual
de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência
de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, a adiciona vv. 14 e 15. Para João,
o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia,
que omite qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com
que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo
1, 29-34).
O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus
- a justiça do Reino. Em Mateus, a palavra “justiça”
designa a fidelidade nova e radical à vontade de Deus. O significado
disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se
aos pecadores, já está desde o começo rejeitando a visão
de um Messianismo triunfante.
Os sinóticos (Mt, Mc e Lc) ressaltam o fato que “o céu se
abriu”. Marcos é mais contundente ainda quando enfatiza que “os
céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar
que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a terra
(At 7, 56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63,
19; Ez 1, 1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação
da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo dentro
de um ambiente de polêmica com o judaísmo formativo do fim do primeiro
século, muda a tradição original (Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22),
onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes :“Este
é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (v.
17). Estas palavras associam a terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia
de Natã em 2Sm 7, 14 (tu és meu filho...) a Is 42, 1 (meu bem
amado que me aprouve escolher). A passagem de Isaías apresenta o Servo
que não levanta a voz (42, 2), nem vacila, nem é quebrantado (42,
4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que podia
expressar tanto o termo hebraico para “filho” como para “servo”).
Fazendo fusão desses textos do Antigo Testamento, Mateus une em Jesus
duas figuras proféticas - a do Filho da descendência real davídica
e do Servo de Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica
a vocação do Servo Sofredor, e rejeita pretensões messiânicas
triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público
da sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirme
a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde
o início do seu ministério público, como seu Filho (Sl
2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso
compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir
a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um de nós
também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a
quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor
incondicional e gratuito - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante
é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a
nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas
do Pai, no seguimento de Jesus (1Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio
ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências - uma vida de fidelidade,
que o levava até a Cruz - e a Ressurreição! (Fl 2, 6-11).
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo,
comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de criação
do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira
paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente
de criação, fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já
está no meio de nós” (Mc 1, 14).
FESTA DA EPIFANIA DO SENHOR (02.01.11)
Mt 2, 1-12
“Ajoelharam-se diante dele e lhe prestaram homenagem”
Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação
do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que
Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos
os povos, representados pelos Magos do Oriente. Além da sua grande popularidade
folclórica, a festa celebra uma grande verdade da fé - que a salvação
em Jesus é destinada a todos os povos, sem distinção de
raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição
do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal
em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica
da literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura
de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus
quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos
textos do Antigo Testamento. Por exemplo:
Vêm os magos (nem três, nem reis, segundo o texto!) buscando o Rei
dos Judeus. Esses magos nos lembram dos magos que enfrentavam e foram derrotados
por Moisés (Êx 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo
o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.
A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão
(Nm 24, 17).
O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5,
1).
Os presentes lembram as profecias de Isaías sobre os estrangeiros que
viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60,5; também
Sl 72, 10-11).
Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do
povo de Deus (Êx 1, 8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes
diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são
versados nas escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo
através do abuso da religião e da política, Jesus e a sua
mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do oriente, buscando
sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe
presentes, sinais da partilha que será característica do Reino
que Jesus veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e
do seu Evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico
com shows e cantos, mas que de forma alguma deve questionar a nossa sociedade
e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do
novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todos as pessoas de boa vontade
têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação,
gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas sim do nosso esforço na vivência
do seu Reino. Não paremos numa explicação sentimental dos
eventos das narrativas da Infância de Jesus, mas procuremos penetrar no
seu sentido mais profundo. Pois, na prática, temos que optar, ou pela
a vivência religiosa vazia, como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes,
ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca a todos,
representados pelos magos, para a construção do mundo de paz,
fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham
a vida e a tenham plenamente.” (Jo 10, 10).
A festa de hoje é altamente missionária, pois é a manifestação
de Jesus às nações. É uma boa oportunidade para
retomarmos os apelos do Documento de Aparecida, que conclama à uma missão
renovada, onde todos os cristãos saem dos limites das suas comunidades
de fé, para levar o Evangelho especialmente aos mais afastados. Temos
muito a caminhar ainda, mas o início foi feito, para que cheguemos a
um Brasil não somente de batizados, mas de discípulos-missionários.
PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DO NATAL (26.12.10)
Mt 2, 13-15.19-23.
“Do Egito Chamei o Meu Filho”
Na Igreja Católica, no primeiro domingo depois do Natal é celebrada
a Festa da Sagrada Família. Os textos dos evangelhos usados sempre fazem
referência a Maria, José e Jesus; mas, devemos lembrar que o Evangelho
visa ensinar algo sobre Jesus, a sua missão e as consequências
para os seus discípulos - nós.
O relato de Mateus é conhecido como a história da “fuga
ao Egito”. Como com todos os relatos da infância, tanto em Mateus
como em Lucas (Marcos e João não os têm), devemos situá-lo
no contexto da comunidade pela qual foi escrito. Para compreender bem Mateus,
é necessário lembrar que ele estava escrevendo pelo ano 85 para
uma comunidade basicamente judeu-cristã, sofrendo perseguição
nas mãos do judaísmo rabínico formativo, que estava expulsando
os cristãos da sinagoga. Por isso, Mateus sempre faz releitura do Antigo
Testamento, aplicando as suas imagens à vida e à missão
de Jesus. Assim, o sonho de José relembra os sonhos de Abimelec (Gn 20,
3-7) de Laban (Gn 31, 24) e especialmente de Jacó na noite da sua partida
para o Egito (Gn 46, 2-4). A fuga da Sagrada Família recorda outras fugas
de pessoas escolhidas por Deus, como Jacó (Gn 27, 43-45), Ló (Gn
19, 15), Moisés (Êx 2,15) e especialmente Jeroboão (1Rs
11, 40).
Os perseguidores da comunidade mateana apelavam à autoridade de Moisés;
então, Mateus sempre procura mostrar que Jesus é o “Novo
Moisés” e maior do que este. Por isso, enquanto em Lucas os pais
levam Jesus tranquilamente para o Templo, em Mateus eles têm que fugir
para o Egito para escapar da ameaça do Rei maléfico, Herodes.
Assim, Jesus refaz a experiência de Moisés, que foi ameaçado
logo após o nascimento, pelo Faraó, e como jovem teve que fugir
para escapar da sua ira. Voltando do Egito, Jesus refaz o percurso do Êxodo
do seu povo – Mateus, assim, mostra que é em Jesus que acontece
a verdadeira e definitiva caminhada da opressão para a libertação,
a libertação definitiva que nos vem através da salvação
realizada em Jesus.
Este fato, de que Jesus realiza o Êxodo definitivo, é sublinhado
pelo uso do texto de Oséias, 11, 1. Na profecia original, o “Filho”
era o próprio povo de Israel. Aqui Mateus a aplica a Jesus como indivíduo,
pois Ele representa o início da restauração de todo Israel.
A fuga e a volta constituem o Novo Êxodo, com um novo e maior Moisés
– Jesus.
No que se refere à família moderna, podemos ver como a família
de Nazaré pôs-se no seguimento da vontade de Deus. Sendo pessoas
“justas”, José e Maria não hesitam, mas colocam as
suas vidas a serviço da vontade divina, de realizar a salvação
de Jesus. Era uma família tipicamente judaica - com a sua fé alimentada
pela espiritualidade dos “anawim”, ou dos “pobres de Javé”,
tão bem expressada pelos profetas Segundo-Isaías, Sofonias e Segundo-Zacarias,
entre outros. Foi no seio desta família, com esta espiritualidade, que
Jesus descobriu a sua identidade, a sua fé e a sua missão.
Que a celebração desta festa anime a todas as famílias
cristãs, num mundo onde a vida familiar é desprezada e até
atacada, a fortalecer a sua vivência da fé, criando laços
de amor e doação, baseando-se nos valores evangélicos de
solidariedade, justiça e partilha. No nosso mundo da idolatria do consumo,
do “Ter”, e do ‘Poder”, a nossa vivência familiar
é instrumento valioso na realização permanente do processo
do Êxodo em nossa vida, hoje.
QUARTO DOMINGO DO ADVENTO (19.12.10)
Mt 1, 18-24
“Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”
Esse texto nos relata a história da concepção virginal
de Jesus, na versão mateana. Típico desse evangelho, escrito para
uma comunidade predominantemente judeu-cristã em polêmica com o
judaísmo rabínico dos últimos anos do primeiro século,
o texto traz muitas releituras de trechos do Antigo Testamento. Para entendê-lo
bem, devemos examiná-lo passo por passo, sempre lembrando do contexto
em que foi escrito.
A primeira coisa a ser entendida é a situação “matrimonial”
de Maria e José. O casamento judaico da época se dava em duas
etapas - primeiro os noivos assumiam o compromisso publicamente, diante de testemunhas,
mesmo que não coabitassem durante mais ou menos um ano. A situação
era mais séria do que o nosso noivado - na lei judaica, qualquer relação
sexual neste período seria considerada adultério. Em um segundo
momento, a noiva era levada à casa do noivo, que assumia a responsabilidade
pelo bem-estar dela, e os dois começavam a morar juntos. Foi no período
entre as duas etapas que o texto coloca a anunciação a José.
No relato de Mateus, diferente de Lucas, Maria não age diretamente -
é José que desempenha o papel principal.
A atitude de José, de repudiar Maria secretamente, sempre levantava problemas
para os estudiosos. Pois para que um repúdio fosse legal, tinha que ser
feito publicamente com um certificado oficial (Dt 24, 1). Vários autores
antigos debateram sobre a atitude de José. Como podia ser chamado de
“homem justo”, se ele esconde o crime da sua desposada? (São
Jerônimo). São Bernardo pensava que José conhecia, ou por
revelação de Deus, ou por Maria, o fato da concepção
virginal. Então, diante da presença de Deus Infinito, por temor
reverencial e respeito ao mistério, queria se retirar em silêncio.
Escrevendo para uma comunidade de tradição judaica, Mateus quer
mostrar que Jesus, mesmo gerado pelo Espírito Santo, era realmente descendente
de Davi, e herdeiro das promessas messiânicas, pois José o assumiu
e deu-lhe o nome. Para a Bíblia, o nome muitas vezes significa a missão,
ou a identidade, da pessoa. O nome de Jesus significa “Javé salva”!
O nome resume toda a missão e projeto de vida do recém concebido!
Os vv. 22-23 nos dão um belo exemplo de como os primeiros cristãos
faziam releitura do Antigo Testamento, à luz da vida de Jesus. Infelizmente,
muitas vezes este trecho é muito mal explicado, como se o profeta Isaías
tivesse uma visão dos acontecimentos de Nazaré e Belém,
assim reduzindo o profeta a mero vidente! De novo cumpre lembrar que Mateus,
na sua polêmica com o judaísmo rabínico formativo, quer
mostrar que Jesus realiza as promessas do Antigo Testamento, e portanto que
os seus seguidores são os verdadeiramente fiéis à tradição
judaica. Por isso, ele usa a tática de “citações
de cumprimento das Escrituras” para interpretar os acontecimentos mais
marcantes da vida de Jesus (1, 22; 2, 15.23; 4, 14; 8, 17; 13, 35; 21, 4; 27,
9). Assim, o trecho de hoje usa um texto de Isaías, onde, diante da recusa
do Rei Acaz de pedir um sinal de Deus, o profeta aponta para a sua jovem esposa,
já grávida, e diz que antes do filho chegar à idade de
razão, os dois reis que o atacavam seriam derrotados (Is 7, 1-15). O
texto original hebraico não falava de uma “virgem” mas usava
um termo hebraico “almah” que significava tanto uma menina virgem,
como uma jovem recém-casada. L. Stadelmann mostrou que o termo também
designava uma senhora nobre estrangeira, no caso, a esposa estrangeira do Rei
Acaz. Também, o texto hebraico diz que ela “concebeu” e não
que “conceberá” (como foi traduzido pela versão dos
Setenta, no grego). Portanto o oráculo de Is 7, 14 originalmente não
se referia à Maria.
A interpretação mariana vem de Mateus. Usando a tradução
grega da Septuaginta, ele fala que “a virgem conceberá” e
dará à luz o filho. A mudança do tempo do verbo, do passado
para o futuro, na tradução da LXX, testemunha as expectativas
messiânicas do tempo da tradução. Usando o texto de Is 7,
14, Mateus faz uma releitura do texto profético, aplicando-o ao Messias
e à sua mãe. (às vezes sentimos confusão por causa
das nossas traduções da Bíblia. A versão Ave Maria
é traduzida do grego da LXX e não do hebraico original, como Jerusalém,
TEB, Pastoral e outras).
Este texto é muitas vezes explicado de uma maneira fundamentalista, sem
levar em conta nem o contexto da profecia de Isaías, nem do escrito de
Mateus, como se a frase “conforme as escrituras” significasse que
Jesus só tinha que seguir tarefas predestinadas pelo Pai, de uma forma
mecânica. Como diz A. Murad “a frase salienta que o grande sonho
do povo, as suas aspirações, os seus desejos mais íntimos
e utopias, as suas expectativas messiânicas, encontram realização
na pessoa de Jesus... a partir da sua Ressurreição; os cristãos
olham para o passado e se servem de imagens e trechos de profecias, para justificar
essa experiência indescritível. Algumas vezes, como faz Mateus,
chegam até a forçar e alterar parte do texto original. Não
se sentem presos à letra da Escritura, mas, movidos pelo Espírito,
que os faz ver o sentido último dos acontecimentos... Eles conferem sentido
novo aos textos antigos, que muitas vezes extrapola a intenção
original do seu autor. Assim acontece com Is 7, 14, reinterpretado por Mt 1,
22s. O primeiro texto não diz respeito a Maria e Jesus, o segundo sim.
(Quem é esta Mulher? - Paulinas p. 213).
O texto de hoje nos dá o verdadeiro motivo da alegria do Natal - não
porque é festa de presentes e festividades, mas porque recordamos (fazemos
passar de novo pelo coração!) a verdadeira Boa-Nova: que Jesus
era o “Emanuel”, o Deus-Conosco, Aquele que veio salvar-nos dos
nossos pecados! Era a encarnação da bondade e de amor gratuito
de Deus!
TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO (12.12.10)
Mt 11, 2-11
“És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”
O tempo de Jesus era uma época de expectativas - dentro do sofrimento
do povo, duramente reprimido pela ocupação romana e pela elite
de Jerusalém, cresceu muito a esperança na vinda iminente de um
Messias libertador, esperado há séculos. O primeiro século
da nossa era foi marcado pelo aparecimento de muitos líderes populares,
se propondo como Messias. Cada grupo da Palestina tinha as suas expectativas
sobre como seria a pessoa e a atuação desse Messias prometido.
João, o Batista, era figura importante no cenário religioso palestinense
da época. Mt 3, 11-12 (o evangelho do Domingo passado) nos apresenta
a imagem do Messias apresentado pelo Precursor. Mas, a atuação
concreta de Jesus, conforme relatada em Mt 8-9 parecia destoar tanto dessa expectativa,
que causava dúvidas na mente de muita gente. Jesus era realmente o Esperado,
ou seria ele mais uma decepção para o povo?
Jesus não se defende, explicando quem Ele é - pelo contrário,
mostra que era o Messias, pelo que ele fazia! Usando textos do profeta Isaías,
Ele mostra que o Reino de Deus chegou n’Ele, pois acontecem as obras de
libertação que são características do Reino: com
os mortos (Is 26, 19), os surdos (Is 29,18-19), os cegos, surdos, coxos e pobres
(Is 35, 5-6), e o anúncio da Boa-Nova aos pobres (Is 61, 1). O messianismo
de Jesus não se enquadrava dentro das expectativas de muitas pessoas
que esperavam a derrota dos opressores, mas não vislumbravam um mundo
novo baseado em solidariedade e justiça. Jesus veio estabelecer no meio
de nós o Reino de Deus, fundamentado no conceito de “justiça”
- o restabelecimento de relações corretas de cada pessoa com Deus,
consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Veio realmente criar novas relações
- não somente velhas relações com os papéis invertidos,
onde o oprimido vira opressor.
Jesus sempre é questionador, pois Ele e o seu projeto desafiam as nossas
expectativas. Para muitos, a proposta de Jesus era difícil demais, pois
mexia com o seu comodismo. Ele era uma novidade total que não se enquadrava
nos velhos esquemas - por isso diz “E feliz de quem não se escandalizar
(cair) por cause de mim” (v 11). Hoje também a pessoa e o projeto
de Jesus desafiam a todos - especialmente nós cristãos. Pois facilmente
temos a nossa ideia de como deve ser a figura do Messias - triunfal, poderoso,
milagreiro, que não mexe com as estruturas sociais, políticas
e econômicas da sociedade, que não nos desafia para que criemos
novas relações, na contramão da sociedade materialista,
individualista e consumista. Muitos hoje preferem um Jesus “light”
- que funciona como analgésico, que nos apazigua a consciência,
que nos dá emoções fortes, mas que não nos joga
na luta dura da criação de uma nova sociedade baseada nos princípios
do Reino!
E onde existe esse Reino? Existe onde se faz o que Jesus fazia - onde os mais
excluídos estão integrados, os rejeitados estão acolhidos,
a Boa-Nova de libertação total é pregada e vivenciada,
e se faz a vontade de Jesus que veio “para que todos tenham a vida e a
tenham em abundância” (Jo 10, 10). É este Jesus que aguardamos
no Natal. Portanto, que Advento seja também tempo de purificação
das falsas imagens d’Ele que talvez permeiem as nossas mentes. Pois só
renasce Jesus onde as pessoas, sejam elas cristãs ou não, se comprometem
com as mesmas metas dele, conforme o texto nos demonstra. Felizes de nós
se essas exigências não sejam escândalo para nós.
A novidade perene do Evangelho e de Jesus nos desafia a rompermos com os nossos
velhos esquemas para que concretizemos nas nossas vidas a vinda do Reino.
SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (05.12.10)
Mt 3, 1-12
“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”
Advento não é tanto um tempo de penitência, como a Quaresma,
mas de preparação para um encontro com o Senhor, no Natal. Não
um encontro folclórico e sentimental, mas um real reencontro com Jesus,
o Salvador de todos, através de um sério exame da nossa vida,
um reconhecimento das nossas falhas e uma real conversão na nossa maneira
de pensar e agir.
A liturgia nos apresenta hoje a grande figura do Precursor de Jesus, o profeta
João, o Batista, mandado por Deus como arauto do novo tempo de graça
e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade
tenham a palavra final na história da humanidade. Essa será mais
tarde a mensagem básica do Apocalipse - o mal já é um derrotado,
e embora possa parecer diferente, é Deus e não o mal que controla
a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas
do fim do primeiro século. Também muito relevante para as pessoas
e comunidades de hoje, muitas vezes assoladas pelo pessimismo e sentimentos
de negatividade, diante de tantos problemas e dificuldades, que parecem fugir
do nosso controle. Mas esta vitória não se concretiza sem que
haja luta, sacrifício, e cruz!
Mateus põe na boca de João um trecho de Segundo-Isaías:
“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho
do Senhor, endireitem as suas estradas”. No seu contexto original (Is
40, 3), isso soava como proclamação de esperança, no Exílio
de Babilônia - Deus não abandonara o seu povo, mas estava voltando
para levá-lo à libertação. Essa mensagem deu coragem
e alento em Babilônia para o Povo de Deus não desanimar, mas continuar
a caminhada, confiando na presença amorosa, transformadora e libertadora
de Deus. Novamente, uma mensagem necessária para os nossos dias de hoje.
Sem dúvida, podemos entender esse trecho num sentido metafórico,
como descrição de uma mudança radical no estilo de vida
de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento.
As estradas a serem endireitadas (e os vales a serem aterrados, as montanhas
e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, no
texto paralelo de Lucas), simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento
de Jesus, mais radical e coerente. Quem aceita a sua mensagem terá que
mudar radicalmente - isto é, na raiz - a sua vida.
A polêmica que o texto manifesta entre João e os fariseus e saduceus,
membros dos dois maiores partidos do judaísmo da época, mostra
que a conversão tem que ser radical e não somente superficial.
Não adianta ter uma fé teórica, pois é somente pelos
atos concretos que cada um mostra a realidade da sua adesão ao projeto
de Deus. Como não bastava para esses dois grupos proclamar que eram “filhos
de Abraão”, hoje nada adianta a gente bradar que é Católico,
Evangélico, Cristão, membro desse ou daquele movimento ou grupo,
se não produzirmos frutos de uma verdadeira conversão. A palavra
conversão, no grego significa uma radical mudança de mentalidade.
Porém, devemos reconhecer aqui um tema básico do Antigo Testamento,
especialmente de Jeremias, o de uma mudança de orientação,
de uma volta incondicional ao Deus da Aliança. Isso somente acontecerá
com a graça dele.
Advento pode ser este tempo de graça, pode se tornar tempo oportuno para
uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas,
e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos
nossos corações. A conversão é processo permanente
e urgente, que exige reconhecimento dos nossos pecados, uma vontade de mudar
a orientação da nossa vida, e uma abertura para a graça
de Deus, que é capaz de fazer maravilhas em nós. Ressoa muito
alto hoje o convite e desafio de João: “Convertam-se, porque o
Reino do Céu está próximo” (v. 2). A decisão
é nossa, pois o nosso Deus, rico em misericórdia, jamais negará
a sua graça.
PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (28.11.10)
Mt 24,37-44
“Portanto, fiquem vigiando!”
Neste primeiro Domingo do novo Ano Litúrgico, na preparação
para o Natal, o texto se situa dentro do chamado “Discurso Apocalíptico”
de Mateus, que se inicia em 24, 1 e termina em 25, 46. Estes versículos
(começando em v. 32) respondem à pergunta feita a Jesus pelos
discípulos em v. 3: “Dize-nos quando vai ser isso, e qual será
o sinal da tua vinda e do fim do mundo?” Jesus não se detém
em explicitar datas; mas, enfatiza a atitude de vida que deve marcar os seus
seguidores sempre, e não somente quando acham que o fim do mundo se aproxima.
Neste discurso, Ele descarta qualquer marcação da data, afirmando
num versículo anterior “quanto a esse dia e hora, ninguém
sabe nada, nem os anjos do céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem
sabe” (v. 36).
Jesus usa imagens da história de Noé. As pessoas daquela época
se preocuparam com nada, nada perceberam - em nossos termos hoje, poderíamos
dizer que eles não souberam ler “os sinais dos tempos”. Por
isso, foram pegas de surpresa, perderam a hora da graça, e se perderam.
Sem levar a história ao pé-da-letra, podemos muito bem aplicar
a mensagem à nossa situação atual. A Igreja sempre nos
conclama para que leiamos “os sinais dos tempos”. Um sinal aponta
para uma realidade mais profunda! Não basta ficarmos somente com o sinal;
temos que descobrir a realidade subjacente a qual ele aponta.
Hoje não nos faltam sinais dos tempos - a miséria de milhões
dos nossos irmãos e irmãs espalhados pelo mundo inteiro, o terrorismo
individual e estatal, a exclusão social, a violência de todo tipo,
a globalização excludente, a urbanização, a secularização,
o aumento de fundamentalismo religioso. Também tem muitos sinais positivos
- as comunidades de base, os movimentos populares, a consciência ecológica,
a luta contra racismo e por novas relações de gênero. O
problema é estar atento aos sinais e saber interpretá-los! Pois
muitos sinais podem ser ambíguos, e temos que ter clareza sobre os nossos
critérios de interpretação da realidade.
O nosso critério sempre será Jesus - a sua pessoa e o seu projeto
de fidelidade com a vontade do Pai. Os sinais têm que passar pelo crivo
da fidelidade a Jesus, que veio ‘para que todos tenham a vida e a tenham
em plenitude” (Jo 10, 10). Devem ser comparados e contrastados com a nossa
medida, que é a prática de Jesus, em favor da vida e especialmente
dos excluídos e oprimidos.
Assim, somos convidados hoje à vigilância (v. 42). Essa deve ser
uma característica do cristão e da comunidade cristã. Vigiemos
para que a nossa casa - a nossa consciência, a nossa comunidade, a nossa
prática - não seja invadida por quem quer o mal, que traz projeto
da morte. Vivendo como somos, num mudo imerso nos valores e contravalores de
uma sociedade de consumo, cujo Deus é o lucro e cujo evangelho a competitividade,
é fácil acontecer que a gente absorva esses critérios como
por osmose, sem notar. Assim o “ladrão” entra na nossa casa
por falta da vigilância, para subtrair os nosso bens - a fraternidade,
a solidariedade, a partilha, a nossa fidelidade à pratica de Jesus, o
projeto do Reino, a integridade do universo criado. Assim, quando Jesus, o Filho
do Homem, vem nas realidades da nossa vida, nem O reconhecemos, e perdemos a
hora da graça!
O texto não nos remete primeiramente a uma preparação de
um encontro com Jesus depois da morte, nem na sua Segunda Vinda, mas nos convida
à uma vigilância hoje, para que saibamos encontrá-Lo através
de uma leitura correta dos “sinais dos tempos”, vigilantes para
que não percamos a nossa razão de ser como cristãos - a
concretização do Projeto do Pai, na construção de
um mundo solidário, de fraternidade, partilha paz e justiça, o
mundo do “Shalom” de Deus.
O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir
se realmente estamos atentos o tempo todo, para não perdermos as manifestações
da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos
mais à oração, para renovarmos as nossas forças,
para não cairmos na armadilha da “desatenção”
no meio das preocupações e barulho do mundo moderno, para que
os nossos corações continuem “sensíveis” aos
apelos do Senhor, através dos irmãos, no nosso dia-a-dia!
Como é de costume na Igreja Católica, hoje, no último
domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa litúrgica de Nosso
Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época
dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos
antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é
de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências
de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico
inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa -
que Deus é o único Absoluto. No mundo que não é
ateu, mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos
desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas
- para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto
da nossa vida. Em uma sociedade onde frequentemente o nome de Deus é
invocado para justificar regimes repressivos fundamentalistas, ou sistemas imperialistas
que abusam do nome “cristão” para se justificar, a festa
nos lembra o verdadeiro sentido do Reino de Deus.
Foi exatamente por ter semeado este Reino, na contramão da sociedade
de então, que Jesus devia morrer - ou melhor, ser matado, o que é
diferente. Todos os evangelhos mostram, cada um da sua maneira, que quem matou
Jesus não foi o povo, mas um conluio dos chefes religiosos, políticos
e econômicos . É importante entender o que isso significa, pois
se Jesus foi assassinado, houve algum motivo, e houve alguém que o matasse.
Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro
do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e
do comércio, e chefes do Templo. E o Templo funcionava como Banco Central,
centro de arrecadação de impostos, e lugar de câmbio monetário,
uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi
assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes
com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois, o Reino de Deus se
opõe frontalmente com qualquer reino opressor, como era o de Roma.
O texto de hoje usa a ironia para demonstrar a verdadeira identidade de Jesus.
Lucas faz isso através do uso de títulos por Ele - títulos
usados como gozação, mas que de fato que descreviam a sua pessoa
e missão - “o Messias de Deus”, “o Escolhido”
o “Rei dos judeus”. Enquanto o povo fica quieto contemplando a cena
(v. 35), os detentores do poder, chefes e soldados, zombam de Jesus. Mas, não
sabem que a sua zombaria expressa a verdade sobre Ele, que eles, opressores,
são incapazes de entender. Ao contrário, quem entendeu era o condenado
que costumamos chamar “o bom ladrão”. Ele expressa a esperança
básica de todos os sofridos, rejeitados e excluídos desse mundo
quando pede com fé: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres como
rei” (v. 42). É o grito que expressa a esperança última
dos sofredores, a vitória do bem sobre o mal, e a instauração
do reino de Deus, de justiça, fraternidade e paz.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento d’Ele, na construção
de um Reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente vai
entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e
da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar
a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças,
se torne porta-voz dos valores desses reinos. Não faltarão incentivos,
financeiros e outros, para que as Igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como
nos advertiram os textos nos últimos domingos, é mister ficarmos
sempre vigilantes, para que possamos verificar se a nossa vida prática
está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.
Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade, que é
Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa
a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade,
a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto
da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante
d’Ele, não há lugar para meio-termo - todos têm que
optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos
desafia para que façamos um exame de consciência - tanto individual
como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é
realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada, continua sendo
Pilatos!
Chegando ao fim do ano litúrgico, encontramos uma das passagens chamadas
“apocalípticas” de Lucas. É um texto realmente complexo,
que olha em duas direções: lendo o que foi escrito pelo ano 85,
o leitor pode olhar para trás para 19, 47-21,4, e ver a consequência
da rejeição de Jesus e do seu ensinamento pelos líderes
do Templo (a destruição do Templo pelos Romanos sob Tito no ano
70 d.C); também o leitor pode olhar além dos eventos de Lucas
22-23 e ver a vindicação do Filho do Homem por Deus, e o fortalecimento
por Jesus dos seus discípulos, que serão perseguidos por sua fidelidade
a Ele. A passagem (que na realidade continua até v. 38) pode ser dividida
da seguinte maneira:
1) Introdução (vv. 5-7)
2) Exortação inicial (vv. 8-9)
3) Desastres cósmicos (vv. 10-11)
4) Eventos que precederão o fim do mundo - cristãos serão
perseguidos; (vv. 12-19); a destruição de Jerusalém (vv.
20-24).
5) Desastres cósmicos (vv. 25-33)
6) Exortação final (vv. 34-36)
7) Inclusão com 19, 47-48 (vv. 36-38)
Esse esquema mostra como, no texto, os eventos do fim do mundo são relacionados
à destruição de Jerusalém, e assim sublinha a mensagem
cristológica: a crise que Jerusalém enfrentou no ministério
de Jesus é uma previsão da crise que Ele e a Sua mensagem, e especialmente
a Sua vinda como o Filho do Homem, trarão a “todos aqueles que
habitam a face de toda a terra” (v. 35).
Um termo que perpassa o texto a partir do v. 7 é “estas coisas”.
Este termo muda de referências durante a passagem - da destruição
do Templo para a destruição de Jerusalém para a destruição
do mundo todo.
Mas, os discípulos devem cuidar para não serem enganados por falsos
Messias! E não devem impressionar-se com guerras, revoluções
ou outros eventos estrondosos. Uma advertência que vale muito para os
dias de hoje! É só lembrar algumas reações fundamentalistas
diante dos eventos mais chocantes nos dias de hoje! Quantos falsos Messias,
quanto pavor, quantos profetas de destruição! Mas não é
ainda o fim.
A partir de versículo 12, Jesus procura animar os seus discípulos,
para que possam aguentar a perseguição futura (que na verdade
já estava começando no tempo de Lucas). E a perseguição
não viria somente da parte das autoridades do Império (a de Nero
já tinha acontecido quase vinte anos antes, na cidade de Roma). Os próprios
pais, parentes e amigos tornar-se-iam perseguidores. Realmente isso aconteceria
a partir do ano 85, quando o judaísmo se reorganizou na forma rabínica,
com o Sínodo de Jâmnia. A partir de então, crescia o racha
entre cristãos e judeus, com os primeiros sendo expulsos da sinagoga,
e vistos como traidores do seu povo, da sua herança, da sua fé
javista. Com certeza, no tempo de Lucas, muitos já estavam vacilando
diante dessa situação de insegurança e perigo, e por isso
o evangelista destaca tanto a exortação de Jesus à perseverança
e confiança.
A situação nossa de hoje é bem diferente - nós não
formamos uma minoria perseguida! Mas a mensagem permanece válida - ser
cristão implica carregar a cruz! Não é possível
servir Jesus e os valores desta sociedade consumista e excludente! Ser cristão
é muitas vezes andar na contramão da sociedade, e acarreta necessariamente
conflitos com um mundo regido por outros valores. Uma Igreja acomodada, que
não incomoda a sociedade vigente, não seria Igreja do seguimento
fiel de Jesus. Como é tentador buscar uma religião só de
consolo e prática individual - uma religião que a sociedade até
estimula, pois relega o Evangelho à esfera do íntimo, e tira dele
a sua força transformadora. Lucas não nos deixa esquecer que a
fé em Jesus é altamente perigosa, pois não se conforma
com o mal, e por isso mesmo exige o seguimento de Jesus “no caminho”
- até Jerusalém, a cruz - e a Ressurreição.
Mais uma vez, a nossa leitura exige que a gente tenha alguma noção
dos partidos político-religiosos do tempo de Jesus. Depois de termos
encontrado “os Fariseus”, “os Escribas”, e “os
Herodianos”, agora entram em cena “os Saduceus”! Para entender
a controvérsia no texto, é imprescindível conhecer algo
sobre este partido.
Não é absolutamente claro qual é a origem do nome “Saduceu”.
Alguns estudiosos acham que vem do nome do Sumo Sacerdote de Davi, “Sadoc”;
enquanto outros, diante do fato de que muito dos seus membros eram leigos, acham
mais provável que o nome venha de uma palavra hebraica que significa
“justo”. Eles se consideravam “os justos” (uma ilusão
também partilhada por outros partidos da época, como os fariseus
e os essênios!). A primeira menção deles é do tempo
dos Macabeus (cerca 130 AC.), quando fizeram parte de uma delegação
judaica que foi a Roma.
Podemos dizer que eles representavam a “elite conservadora” do judaísmo
do tempo de Jesus. Defendiam os interesses da classe alta de Jerusalém,
os grande comerciantes e donos de terras, e dos “donos” do Templo
- uma fonte de muito lucro. No tempo dos Romanos, praticamente todos os Sumos
Sacerdotes vieram deste grupo. Dominavam o Sinédrio, ou Grande Conselho
(realmente seriam eles os responsáveis pela morte de Jesus), colaboravam
com os Romanos, desprezavam o povo simples - ao contrário dos fariseus
e escribas, não tinham muita influência com eles - e mantinham
uma interpretação conservadora da Escritura, não admitindo
a tradição oral, limitando-se ao Pentateuco, ou “Torá”.
Não aceitavam a doutrina da ressurreição dos mortos, nem
a dos anjos, e eram opositores dos fariseus.
A partir da lei do casamento levirítico do Livro de Deuteronômio,
eles propõem para Jesus um argumento - que nos poderia parecer absurdo
- para contestar a doutrina tardia da ressurreição dos mortos.
Vale a pena lembrar-nos do que diz Dt 25, 5-6: “Quando dois irmãos
moram juntos e um deles morre sem deixar filhos, a viúva não sairá
da casa para casar-se com nenhum estranho; seu cunhado se casará com
ela, cumprindo o dever de cunhado. O primogênito que nascer receberá
o nome do irmão morto, para que o nome deste não se apague em
Israel”. Certamente uma lei que para nós parece no mínimo
estranha! Mas na época antes da fé na ressurreição,
era de suma importância para Israel que o nome de um homem se propagasse
nos seus filhos. Por isso, era dever do irmão sobrevivente suscitar um
filho para o falecido, para que este não morresse na memória do
seu povo. Naquele tempo, a família estendida, ou clã, era mais
importante do que a família nuclear de hoje.
Jesus ataca a premissa básica dos Saduceus - para eles a vida vindoura
é simplesmente uma continuação desta vida, e por isso precisa
da procriação humana. Em lugar de fazer um argumento casuístico,
que não levaria a nada, Jesus apresenta o ponto central da Escritura
- que Deus é o Deus da vida! Não criou ninguém para a morte,
mas para a vida eterna com Ele!
O argumento dos saduceus dificilmente encontraria eco entre nós hoje.
Mas, como eles nesta ocasião, quantas vezes nós nos preocupamos
mais com o que possa acontecer depois a morte, do que com a vida aqui e agora.
Quanta preocupação hoje com o fim do mundo, com as almas e espíritos,
com assombração, com supostas visões e revelações
- e tão pouca com os problemas práticos que trazem tanto sofrimento
aos nossos irmãos e irmãs. Jesus não permite que nós
gastemos tempo e energias com discussões inúteis sobre “como
é” a vida além-morte. Chama a nossa atenção
para a vida real - pois é aqui que devemos concretizar o seguimento d’Ele,
que veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância”
(Jo 10, 10).
Pode parecer que a preocupação dos saduceus era ridícula
– mas, não era mais ridícula do que a dos cristãos
que gastam as suas forças em discussões fúteis sobre a
vida do além, que ninguém, - segundo Paulo - é capaz de
imaginar, enquanto ignoram o Cristo presente nos sofredores ao seu lado. A fé
de Jesus não permite alienação, “Deus não
é Deus de mortos, mas de vivos” (v. 38), e nos desafia para que
vivamos esta fé na luta para que o mundo sonhado por Jesus se torne realidade.
TRIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (31.10.10)
Lucas 19,1-10
“Hoje a salvação entrou nesta casa”
De novo entra em cena a figura dum “publicano”, desta vez de nome
conhecido - Zaqueu! Os governantes arrendavam áreas do país para
publicanos ricos, que embolsavam o que conseguiram extorquir além das
taxas estabelecidas. Estes chefes dos publicanos (p. ex . Zaqueu) empregavam
outros para fazer a cobrança - e enfrentar a celeuma do povo - sentados
nos telônios nas portas das cidades e nas encruzilhadas das rotas das
caravanas (p. ex. Levi).
Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos da cidade de Jericó, e por
isso, por causa da sua extorsão, muito rico - e com certeza muito odiado
e desprezado.
Porém, Lucas nos mostra que ninguém é tão perdido
que não possa ser salvo pela misericórdia de Deus. Ninguém
está além da possibilidade de salvação. Com umas
rápidas pinceladas, ele traça o caminho da conversão e
salvação de Zaqueu.
Com certeza, Zaqueu tinha ouvido falar da atividade e dos ensinamentos de Jesus,
e tinha uma enorme vontade de conhecer mais de perto este homem tão diferente
dos outros rabinos do seu tempo. Nem levava em conta perder a sua dignidade,
subindo numa árvore - o importante mesmo era não perder o momento
de Jesus passar. Jesus acolhe este gesto de busca - olha mais para esta chama
de bondade do que para toda a maldade praticada anteriormente por Zaqueu. E
pronuncia as palavras que iriam mudar para sempre a vida de Zaqueu: “Desça
depressa, Zaqueu, porque hoje preciso ficar em sua casa.” (v. 5)
Por causa dessa iniciativa, o próprio mestre se torna alvo de críticas
por parte dos “justos”: “Ele foi se hospedar na casa dum pecador”
(v. 7). Como sempre, a novidade do Reino, trazida por Jesus rompe todos os esquemas
sociais e religiosos pré-concebidos!
Diante do gesto de amor da parte de Jesus, trazendo para si o opróbrio
normalmente reservado para Zaqueu, o publicano responde com um gesto concreto
de conversão: “A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres;
e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v. 8)
Não é uma conversão teórica, é muito concreta,
e passa pelo econômico - devolver o dinheiro roubado, partilhar os bens!
O amor de Jesus conseguiu o que o ódio e o desprezo jamais conseguiriam
- a conversão de um pecador - “Hoje a salvação entrou
nesta casa”. Mais uma vez, Jesus ilustrou de maneira muito concreta que
Ele veio “procurar e salvar o que estava perdido”.
A história nos convida a assumir cada vez mais as atitudes tanto de Jesus
como de Zaqueu - de um lado, compreensão, misericórdia e perdão
diante dos erros alheios; do outro, reconhecimento da nossa própria necessidade
de perdão e conversão contínua, para que se dê em
nossas vidas a experiência de Zaqueu, de que “Hoje a salvação
entrou nesta casa!”
TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (24.10.10)
Lucas 18, 9-14
“Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador”
O tema da oração continua no trecho de hoje - Jesus mostra que
não basta somente rezar, pois muito depende das nossas atitudes enquanto
rezamos. Por isso, ele nos conta mais uma parábola que só Lucas
relata - a do “Fariseu e do Publicano”.
Para entender bem esta passagem, é imprescindível que nós
entendamos o significado dos termos “Fariseu” e “Publicano”.
Os fariseus formavam um partido religioso-político, nascido dos “fiéis
observadores da Lei”, ou “Hasidim” dos tempos da revolução
dos Macabeus. Eles romperam com as ambições políticas dos
Hasmoneus (dinastia dos Macabeus) e formaram o seu grupo dos “separados”,
que parece ser o sentido da palavra “Fariseu”. Eles primaram pela
observância rigorosa da Lei, embora entre eles existissem diversas escolas
de interpretação.
Em nossa linguagem, a palavra “fariseu” normalmente significa “hipócrita”
- uma injustiça aos fariseus, que eram, na maioria absoluta, gente sincera
de uma ascese rigorosa em busca da fidelidade à Lei de Deus. Provavelmente
estamos muito influenciados pelo Capítulo 23 de Mateus, uma das páginas
mais virulentas do Novo Testamento, que reflete mais a situação
de perseguição dos cristãos pelos fariseus pelo ano 85,
do que a situação no tempo de Jesus. A grande crítica de
Jesus contra este grupo não era por motivos de moral, mas porque, confiando
na observação externa da Lei como garantia de salvação,
tiraram a gratuidade de Deus, que nos salva “de graça”.
Enquanto os fariseus gozavam de enorme prestígio diante do povo no tempo
de Jesus, do outro lado um dos grupos mais odiados e desprezados era o dos “cobradores
de impostos”, ou “publicanos” (assim chamados porque cobravam
um imposto denominado “publicum”, um tipo de ICMS). Esse ódio
não nasceu simplesmente da resistência natural do povo contra a
cobrança de impostos e taxas, mas do fato que eles trabalhavam pelo poder
opressor - os Romanos, através dos seus lacaios, os Herodianos. Os publicanos
estavam entre os mais “impuros”.
Como aconteceu no início do capítulo 15, aqui também Lucas
destaca o motivo da parábola: “Para alguns que confiavam na sua
própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola”
(v. 9).
É interessante verificar os dois tipos de oração! O Fariseu
elenca todas as suas observâncias, tudo que ele faz, conforme manda o
a Lei! Ele não mente - ele faz isso mesmo. Só que ele confia absolutamente
no poder da sua prática para garantir a salvação. Assim
dispensa a graça de Deus, pois se a Lei é capaz de salvar, não
precisamos da graça! Ainda se dá o luxo de desprezar os que não
viviam como ele - ou porque não queriam, ou porque não conseguiam:
“Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros
homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como
esse cobrador de impostos.” (v. 11)
O publicano também não mente quando reza! Longe do altar, nem
se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito em sinal
de arrependimento de dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”
(v. 13). E era a verdade - ele era vigarista, ladrão opressor do seu
povo, traidor da sua raça - mas ele tem consciência disso, e não
só disso, mas do fato de que por si mesmo ele é incapaz de mudar
a sua situação moral. A sua única esperança é
jogar-se diante da misericórdia de Deus. Para o espanto dos seus ouvintes,
Jesus afirma que o desprezado publicano voltou para a casa “justificado”
(= tornado justo) por Deus, e não o outro; pois, é Deus que nos
torna justos por pura gratuidade, e não em recompensa por termos observado
as minúcias de uma Lei.
Como entrou o farisaísmo de cheio nas nossas tradições
de espiritualidade! Como as nossas pregações reduziam a fé
e o seguimento de Jesus a uma observância externa de uma lista de Leis!
Como reduzimos Deus a um mero “banqueiro” que no fim da vida faz
as contas e nos dá o que nós “merecemos”, de acordo
com uma teologia de retribuição! Quem tem conta em haver com Ele,
ganhará o céu, e quem estiver em dívida, irá para
o inferno! Onde fica a graça de Deus, e a cruz de Cristo? Paulo mudou
de vida quando descobriu que a Lei, por tão importante que fosse como
“pedagogo”, não era capaz de salvar, mas que é Deus
que nos salva, sem mérito algum nosso, através de Jesus Cristo!
Com esta descoberta, se libertou! Defendia este seu “evangelho”,
conforme Gálatas 1) a ferro e fogo!
O texto de hoje nos convida para que examinemos até que ponto deixamos
o farisaísmo entrar em nossa vida; até que ponto confiamos em
nós mesmos como agentes da nossa salvação; até que
ponto nos damos o direito de julgar os outros, conforme os nossos critérios.
Uma advertência saudável e oportuna que alerta contra uma mentalidade
“elitista” e “excludente”, que pode insinuar-se na nossa
espiritualidade, como fez na dos fariseus, sem que tomemos consciência
disso!
VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (17.10.10)
Lucas 18, 1-8
“Será que o Filho do Homem vai encontrar a fé sobre a terra?”
Embora possa parecer que o tema deste trecho seja simplesmente a oração,
na realidade Lucas o liga ao trecho anterior (17, 22-37), que versava sobre
a segunda vinda de Filho do Homem, através da referência em v.
8: “Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar
a fé sobre a terra?” Então devemos entender o sentido original
do texto em referência à situação das comunidades
do fim do primeiro século - Jesus tardava a retornar, as perseguições
estavam no horizonte, as comunidades estavam sofrendo vários tipos de
pressão, e a fé começava a vacilar. Por isso, Lucas quer
dar-lhes um ensinamento claro - Deus não vai abandoná-las; então,
devem ficar firmes, constantes na oração até que Ele venha.
O tema da oração cristã já foi tratado no capítulo
11 de Lucas. Aqui volta à tona. O versículo 8 mostra que não
se refere à simples oração permanente, mas à uma
atitude de oração baseada na fé, até que Jesus volte.
Jesus tira uma mensagem de uma situação que devia ter sido comum
nos tempos idos (sem falar da atualidade!) - a impotência de uma pobre
mulher diante da prepotência de um juiz corrupto. Por ser viúva
em uma sociedade patriarcal e machista, ela encarna a impotência dos pobres
e marginalizados diante dos poderes do mundo.
Jesus dá uma lição clara - se até um juiz injusto
atende os pedidos insistentes da viúva, quanto mais Deus vai atender
os pedidos daqueles que Ele ama! Se a persistência da viúva alcança
o seu objetivo, quanto mais a oração persistente do discípulo,
diante de um Deus gracioso: “E Deus não fará justiça
aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazê-los
esperar? Eu lhes digo que Deus fará justiça para eles, e bem depressa.”
(v 7)
Aqui o texto nos faz lembrar um dos temas centrais de toda a Bíblia -
o grito do oprimido e a resposta de Deus. É um tema constante, passando
pelas páginas bíblicas desde Êxodo 3. Assim, a questão
decisiva não é se Deus fará ou não justiça
às comunidades oprimidas - é óbvio que vai! A pergunta
a ser respondida se formula no versículo 8, que já foi citado:
“O Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé
sobre a terra?” O problema não é Deus, mas os discípulos
- será que os discípulos de Jesus ficarão fiéis
a Ele durante a longa espera até a sua segunda vinda? Para que tenham
forças para vencer, então é necessário que eles
rezem constantemente e com fé. Essa mesma ideia se faz presente no fim
da Oração do Senhor: “Não nos deixes cair em tentação”
(Lc 11, 4). Lá também, Jesus ensinou que a comunidade deve pedir
o dom da fé e da perseverança, para não desanimar diante
dos problemas da vida.
É muito atual esse ensinamento de Jesus. Em uma época de tanto
desânimo, tanta falta de perspectivas, quando se chega a falar no “fim
das utopias”, devemos sempre rezar para que não sucumbamos à
tentação do desânimo e do desespero, de não acreditar
na força do “grão da mostarda”, de desacreditar na
presença do Reino. O evangelho de hoje, aplicado a nós, existe
para mostrar-nos: “a necessidade de rezar sempre, sem nunca desistir”
(v. 1). Cabe a nós praticá-lo!
VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM (10.10.10)
Lucas 17, 11-19
“Levante-se e vá, a sua fé o salvou”
Estamos ainda caminhando com Jesus na sua viagem a Jerusalém, ao encontro
do seu destino na Cruz. Nesta parte do Evangelho (17, 11-19, 27), Jesus conclui
o seu ensinamento sobre o que é necessário para segui-Lo. Aqui
temos mais um exemplo de uma história própria a Lucas, o quarto
milagre na sua narrativa da viagem. Como nos outros casos, (11, 14; 13, 10-17;
14, 1-6), o mais importante não é o milagre em si, mas o ensinamento
que brota dele.
As informações geográficas de Lucas, que não era
natural da Palestina, são muitas vezes imprecisas. Para ele dois fatos
são importantes - a meta de Jesus é Jerusalém, onde se
dará o seu encontro definitivo com a vontade do Pai, e o fato que ele
se encontra com um samaritano, um dos excluídos oficialmente do povo
de Deus.
Para entendermos o contexto da passagem e a situação de quem fosse
considerado leproso (embora muitos na realidade não eram - simplesmente
sofriam de alguma doença da pele!), podemos estudar trechos como Lv 13-14;
Nm 5, 2-3; 2Rs 7, 3-9; 15, 5. Houve barreiras enormes que separavam essas pessoas
sofridas da convivência normal da comunidade. Aqui os excluídos
pelas barreiras religiosas e sociais vão se encontrar com quem rompe
estas mesmas barreiras, em nome do Deus misericordioso.
O grito dos leprosos é significante: “Jesus, Mestre, tem compaixão
de nós” (v. 13.). Mais uma vez encontramos a palavra “compaixão”.
Em todos os Sinóticos, destaca-se a “compaixão” de
Jesus. A sua atitude nunca é de ter “pena” de alguém,
pois, quer queiramos quer não, quando a gente tem pena de alguém,
está se colocando num outro nível do que a outra pessoa. Ter “compaixão”
é sentir a “paixão” do outro “com” ele
ou ela, ou seja, entrar no sofrimento, nos sentimentos do outro, e assim não
tirar dele a sua dignidade.
Mas, foi somente o samaritano que “percebeu” a ação
de Deus nele. Com certeza o termo “percebeu” não quer se
referir somente à cura física - ele percebeu a presença
da salvação de Deus. Então a sua volta a Jesus significa
a sua conversão. A resposta dele é de “dar glória
a Deus”, muitas vezes em Lucas a resposta correta a uma manifestação
da misericórdia de Deus (2, 20; 5, 25; 5, 26; 7, 16; 13, 13; 18, 43;
23, 47 etc). Aqui temos uma conotação cristológica - o
curado louva a Deus pelo que foi feito por Jesus, o agente da misericórdia
de Deus.
O texto sublinha que aquele que voltou para gloriar a Deus, aquele que percebeu
a presença da ação salvífica de Deus, era um samaritano:
“Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não
ser este estrangeiro?” (v. 18). Mais uma vez, o herói da história
é tirado de dentro da categoria dos excluídos, tema caro ao coração
de Lucas. É só pensar nos pastores, no “Bom Samaritano”,
na “mulher pecadora”, nas mulheres no túmulo, e outros exemplos.
A salvação de Deus é universal, e não limitada a
uma etnia ou classe.
Lucas não se contenta em relatar somente a cura de uma doença
- ele nos leva a uma compreensão da missão salvífica de
Jesus. O relato conclui com a frase: “Levante-se e vá. Sua fé
o salvou” (v. 19). Jesus é aquele que cura e restaura à
convivência humana, símbolo da salvação integral
que Deus oferece a todos que aceitam a sua mensagem! Sejamos como o leproso
- percebamos a ação de Deus no meio de nós, e gloriemos
em palavras e ações aquele que nos oferece a salvação
de todos os males, gratuitamente!
VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (03.10.10)
Lucas 17, 5-10
“Aumenta a nossa fé!”
Lucas reúne nos primeiros dez versículos deste capítulo
diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de
quem quer segui-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de
hoje em duas partes: vv. 5-7 e vv. 8-10.
A primeira parte trata da questão da fé inabalável, que
deve ser característica do discípulo. Inicia-se o diálogo
com os apóstolos expressando diante de Jesus a sua insegurança
quanto à sua fé: “Os apóstolos disseram ao Senhor:
“Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Tal pedido tem outros ecos
nos evangelhos. Faz-nos lembrar do pai do moço epiléptico em Marcos:
“Eu tenho fé, mas ajude a minha falta de fé!” (Mc
9, 24)
É a experiência de todo(a) discípulo(a) - acreditamos em
Jesus, queremos seguir a sua pessoa e o seu projeto, mas a vida se encarrega
de nos demonstrar como é fraca a nossa fé - quantas caídas,
traições, incoerências, recaídas! O único
recurso é pedir este dom gratuito de Deus que ninguém pode merecer,
que é a fé inabalável. Do fundo no nosso ser gritamos com
os Doze: “Aumenta a nossa fé!”
Com a hipérbole (exagero) típica do oriental, Jesus enfatiza tanto
a necessidade da fé quanto a sua força, através das imagens
do grão de mostarda (semente bem pequena), e da amoreira - árvore
mais ou menos grande que tem um sistema extensivo de raízes: “Se
vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam
dizer a esta amoreira: “Arranque-se daí, e plante-se no mar. E
ela obedeceria a vocês.” (v. 6)
A segunda parte do trecho fala sobre a atitude correta de quem tem um ofício
ou ministério dentro da comunidade cristã. Em outros trechos -
como 12, 35-37 - Lucas enfatiza a gratuidade de Deus diante da escolha dos seus
discípulos. Aqui temos o outro lado - a responsabilidade de quem foi
chamado sem mérito algum da sua parte.
Mas, o ensinamento não é que os discípulos não valem
nada, nem que o seu trabalho não tem valor. O ponto central é
que o fato de terem desenvolvido bem as suas tarefas e missão não
lhes dá o direito de exigir a graça de Deus, por causa dos seus
méritos. Tal graça é, e sempre será, um dom gratuitamente
oferecido.
Hoje nós estamos na mesma situação dos apóstolos
- fomos chamados à fé sem mérito algum da nossa parte.
Agradecendo a Deus por este dom, assumamos a nossa parte - a de cumprir bem
a missão recebida, sem nos vangloriarmos disso, pois se nós conseguimos
fazer bem as coisas, também é porque podíamos contar com
a graça de Deus. Sem falsa humildade, mas também sem vaidade,
devemos rezar: “Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos
fazer” (v. 19)
VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (26.09.10)
Lucas 16,19-31
“Mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos”
Este último trecho do capítulo dezesseis continua os ensinamentos
de Jesus sobre as riquezas, ou melhor, sobre a questão fundamental da
partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos.
Aqui temos a famosa parábola do “Rico e Lázaro”, e
também a reflexão sobre o destino dos irmãos do rico. Levanta
a questão: “irão seguir o exemplo do irmão rico,
ou atender o ensinamento tanto de Jesus como do Antigo Testamento sobre o cuidado
dos necessitados, como Lázaro, e assim se tornarem “Filhos de Abraão”?
Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades urbanas das
cidades gregas do Império Romano. A imagem da parábola é
típica da sociedade urbana - tanto a de então como a de hoje!
De um lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes e futilidades,
e do outro lado o pobre miserável, faminto e doente. Ambos vivem lado
ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência e dos sofrimentos
do pobre! Quantos exemplos disso existem hoje - lado ao lado com a maior opulência,
a mais desumana miséria, e entre as duas situações uma
barreira de cegueira e indiferença?
É muito interessante - e importante para a nossa compreensão da
parábola - que os vv. 22-26 não dizem que o rico foi para o inferno
por que ele fazia algo moralmente repreensível; e nem que Lázaro
foi para o céu porque ele era “santo”. Por isso, por tão
inconveniente possa soar numa sociedade como a nossa, dá para entender
que esse trecho condena o rico simplesmente por ser insensível, em uma
sociedade de empobrecimento, e abençoa o pobre pelo simples fato de estar
sofrendo a miséria em uma sociedade que esbanja os bens necessários
para a vida. É interessante que no texto o rico não tem nome,
mas o pobre sim – “Lázaro” que dizer em hebraico “auxiliado
por Deus”. A riqueza torna-se pecado diante da situação
desumana dos pobres, pois é a negação da partilha e da
solidariedade! O rico foi condenado porque ele simplesmente se fechou diante
do sofrimento alheio. Esse fechamento é a negação de todo
o ensinamento do Antigo e do Novo Testamentos. O simples fato de existir lado
ao lado o rico opulento e o Lázaro sofrido é a condenação
de uma sociedade pecaminosa que permite esta situação anti-evangélica.
A segunda parte da história, versículos 27-31, continua com o
diálogo entre o rico e Abraão, e mostra claramente que a sua indiferença
diante do sofrimento de Lázaro não estava de acordo com o Antigo
Testamento (vv. 29-31), e nem com Jesus (v 9). Enfatiza que nem manifestações
milagrosas vão mudar o coração duro de quem não
quer ouvir a Palavra de Deus: “E Abraão lhe disse: “Se eles
não escutam a Moisés e os profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite,
eles não ficarão convencidos”. (v. 31)
Palavra tão atual! Pois não é por falta de conhecimento
da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação atual.
Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus sobre a fraternidade
e a solidariedade, que temos uma sociedade excludente hoje no Brasil! Não
é por falta de celebrações litúrgicas e sacramentais
que há tanto sofrimento nas nossas ruas e bairros! É simplesmente
porque a sociedade opta por se organizar conforme critérios anti-evangélicos,
e porque tantos cristão reduzem o cristianismo à uma série
de leis e doutrinas - muitas vezes não ultrapassando muito uma simples
lista de “boas maneiras”. Optamos por diluir as exigências
do Evangelho para que possamos continuar com os “ricos” e os “Lázaros”
de hoje, lado ao lado, sem que estes incomodem aqueles! Sabemos o que a Bíblia
diz, conhecemos muito bem o ensinamento de Jesus - e continuamos na construção
de uma sociedade injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a consequência
automática do sofrimento e exclusão.
O rico e Lázaro continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus hoje
nos desafia para que optemos para uma outra forma de sociedade, onde todos terão
acesso aos bens necessários para uma vida digna. Se não queremos
ouvir o que nos diz a Palavra de Deus, se nós queremos continuar surdos
diante do grito dos excluídos, então o nosso destino será
também aquele do rico da história.
“Tenho medo de não atender, de fingir que não escutei; tenho
medo de ouvir teu chamado, virar doutro lado e fingir que não sei!”
Lucas não deixa que o leitor evite as questões gritantes da ligação
entre fé e vida, entre religião e economia, como a Campanha da
Fraternidade deste ano de 2010 – “Não podeis servir a Deus
e ao dinheiro” - nos conscientizava!
VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (19.09.10)
Lucas 16,1-13
“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é nas grandes”
Este texto faz parte de um capítulo aparentemente fragmentado, mas
que realmente tem como tema unificador o uso dos bens materiais em benefício
dos outros, especialmente dos mais necessitados. Divide-se em quatro segmentos
inter-relacionados: vv. 1-8a; vv. 8b- 13; vv. 14-18; vv. 19-31. Três destes
trechos serão usados hoje e nos próximos dois domingos.
A interpretação popular da primeira parte, a história do
“Administrador Injusto”, traz muitos problemas para os pregadores.
Pois, aparentemente, Jesus está elogiando quem agisse de maneira desonesta.
Tal interpretação é moralmente inaceitável. Por
isso, temos que olhar bem a história - os estudiosos não estão
de acordo se se trata de uma parábola, ou uma “história-exemplo”,
que Lucas também usa muito (10, 29-37; 12, 16-21; 16, 19-31;18, 9-14).
Para que entendamos melhor o contexto da história, é bom saber
que os documentos da época atestam que frequentemente se usava o sistema
aqui relatado. Como a cobrança de juros era proibida pela Lei, o administrador
embutiu o ágio na “nota promissória”. Por exemplo,
uma pessoa talvez tivesse emprestado 200 litros de azeite, mas por causa dos
juros de 100%, a sua conta acusava 400 litros. Então, na história
de Lucas, o administrador, enfrentando a demissão, resolve na mesma hora
vingar-se do seu patrão - reduzindo as contas devidas ao seu valor real,
e assim perdendo para ele os juros - e fazer amigos para ele mesmo, entre os
devedores..
O “patrão” ou “Senhor” a que se refere o v. 8a
não é Jesus, mas o “homem rico” do v.1. Ele “elogiou”
o administrador desonesto, por sua esperteza! A palavra grega aqui traduzida
por “esperteza” significa uma estratégia prática visando
alcançar um fim determinado. Tem nada a ver com a virtude, no sentido
mais geral de agir com justiça. Assim embora possa parecer, à
primeira vista, que Lucas esteja elogiando a desonestidade, a interpretação
mais exegética diz que o que deve ser imitado não é a desonestidade,
mas o bom senso na administração dos bens materiais.
Para os que entendem o trecho como uma verdadeira parábola, há
duas explicações possíveis; uma diz que o que Jesus quer
ensinar é que os seus discípulos, quando confrontados com a decisão
de segui-Lo ou não, devem agir de maneira decisiva, como fez o administrador
quando confrontado com a sua situação de crise, e não vacilar.
Outra interpretação vai na direção do “contraste”:
o sentido normal de justiça não condiz com a atitude condizente
do patrão em v.8. Assim, se faz contraste entre a maneira de agir dos
homens e de Deus. Este ponto de vista corresponde com outros ensinamentos em
Lucas sobre a nova justiça, a justiça do Reino e a dos homens
- os critérios da “justiça do Reino de Deus” não
são os da sociedade, mas exigem o perdão e o relacionamento com
os inimigos.
A segunda parte do trecho - vv. 8b - 13 - são aplicações
práticas de como os discípulos devem usar os bens materiais. Indica
o entusiasmo dos “que pertencem a este mundo” como exemplo para
os discípulos que muitas vezes são insossos no seu seguimento
de Jesus. “O dinheiro injusto”, que pertence a um mundo com princípios
de exploração, pode até servir aos discípulos quando
usado para a partilha com os necessitados, que se converterão em “amigos”
que “vão receber vocês nas moradas eternas” (v.9).
Outro ponto destacado é a necessidade de fidelidade diária. Se
nós partilhamos os nossos bens na convivência quotidiana, ganharemos
os verdadeiros bens imperecíveis como prêmio eterno. Mas isso exige
fidelidade e lealdade total a Deus - a alternativa é sucumbir às
tentações da injustiça que escraviza, - e a gente fica
leal a este Deus através da partilha dos bens, especialmente com os mais
necessitados.
Embora possamos discutir e debater sobre interpretações minuciosas
do trecho, uma coisa é inegável - Jesus quer advertir os seus
seguidores sobre a tentação de escravizar-se com o dinheiro, e
na mesma hora, exigir que a partilha material seja ponto marcante da vivência
dos seus discípulos!
VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (12.09.10)
Lucas 15, 1-32.
“A Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho
Pródigo”
O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase na misericórdia de
Deus. Se fosse para classificar numa só palavra o rosto de Deus em Lucas,
poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”.
Talvez nenhum capítulo saliente esta convicção tanto como
o capítulo 15, que hoje lemos na sua totalidade.
As três parábolas aqui relatadas são entre as mais conhecidas
da Bíblia - geralmente chamadas (com razão ou não) “A
Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho Pródigo”.
Talvez devamos ter um pouco de cuidado com esses títulos - já
consagrados pelo uso - pois já indicam uma possível interpretação
do ponto central de cada parábola - não necessariamente a mais
adequada!
De fato, cada parábola poderia ficar independente, e ter a sua interpretação
fora do contexto da sua colocação em Lucas. Mas, para que sejamos
fiéis à intenção do evangelista, devemos interpretá-las
dentro do seu esquema teológico e literário. A parábola
da Ovelha também existe em Mateus, mas dentro de um outro contexto e
com outros destinatários, tornando-se a parábola da “Ovelha
Desgarrada”. Em Mt 18,12-14, a parábola é dirigida aos discípulos,
enquanto em Lc é contada para os fariseus e escribas. Como os destinatários
são diferentes, também a sua mensagem é diferente nos dois
contextos.
Para entender melhor o que Lucas quer ensinar, devemos dar muita atenção
aos primeiros dois versículos do capítulo 15. Pois, estes versículos
nos fornecem o motivo pelo qual Jesus contou as parábolas, e, por conseguinte,
uma chave valiosa de interpretação. Funcionam como um gancho sobre
o qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de
impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas, os fariseus
e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: “Esse homem acolhe pecadores,
e come com eles!” (vv.1-2). Depois, vem a chave de interpretação:
“Então Jesus contou lhes esta parábola” (v . 3). Ou
seja, Jesus contou estas parábolas porque os fariseus e doutores da Lei
o criticavam por associar-se com gente de má fama! Então a chave
de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada
pelo ensinamento de Jesus.
Neste sentido podemos interpretar a parábola conhecida como a parábola
da “Ovelha Perdida”. Jesus, diante da intransigência dos fariseus,
pergunta: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será
que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha
que se perdeu, até encontrá-la?” (v. 4). A resposta razoável
é “não” - nenhum pastor, com a cabeça no lugar,
deixaria noventa e nove ovelhas à deriva para tentar encontrar uma ovelha
perdida. Seria loucura! Mas, exatamente aqui está o sentido da parábola
- Deus faz loucuras por amor a nós! Ele é capaz de fazer o que
nenhuma pessoa humana faria - ir atrás da ovelha perdida, custe o que
custar, até achar e trazer de volta! Aqui a parábola funciona
não por comparação, mas por contraste - Deus é o
oposto dos homens, que só agem através de decisões calculistas.
Faz loucura - e a loucura do amor consegue o que a razão jamais conseguiria,
a volta da ovelha perdida! Assim, se faz contraste entre a atitude de Deus e
a atitude dos fariseus e doutores da Lei! Nos questiona sobre as nossas atitudes
diante das “ovelhas perdidas” das nossas comunidades e famílias!
Agimos como os fariseus, com censuras e moralismos? Ou, como Deus, com a loucura
do amor?
Retoma-se a mensagem na segunda parábola - a parábola da “moeda
perdida”. Não que ela fosse de tão grande valor. Mas para
a pobre, até uma moeda pequena faz falta! Então, a mulher faz
questão de virar a casa (as casas não tinham janelas, por isso
precisava acender uma lâmpada) até achá-la. É assim
com Deus - talvez a gente ache que uma pessoa não tenha grande valor,
mas para Deus faz falta, e Ele é capaz de “exagerar” para
recuperar a pessoa perdida, por tão insignificante que possa parecer.
Mais uma vez, um contraste com a atitude elitista dos fariseus - e quem sabe,
de muitos cristãos hoje!
Por fim, chegamos à parábola do “Filho Pródigo”,
ou do “Pai que perdoa”, ou dos “Dois Irmãos”,
conforme a interpretação e o gosto de cada um! Ficamos somente
com o texto sagrado e não com os subtítulos! Podemos ler este
texto a partir do filho perdido, ou do pai, ou do irmão mais velho. O
título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo”
(= esbanjador). Assim, ressaltaria o processo de conversão - sentir a
situação perdida, decidir a pedir reconciliação,
ser aceito pelo pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem
dúvida, uma leitura válida do texto como tal - mas diante dos
primeiros dois versículos do capítulo, não a interpretação
primária que Lucas quisesse dar.
Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida,
também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus,
que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não
impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois não
espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa
atitude não “digna” de um patriarca oriental idoso, preocupado
mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e que se
alegra com a volta de quem estava morto! Mais uma vez, uma leitura mais do que
aceitável!
Mas, o contexto do capítulo quinze, à luz dos primeiros versículos,
sugere uma leitura diferente - a partir do irmão mais velho. Pois, Jesus
conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da
Lei, que o reprovam porque Ele acolhe os pecadores! Então, o filho mais
velho é imagem dos fariseus - “gente boa”, fiel na observância
da Lei, mas cujos corações estão fechados, a ponto de serem
incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora
observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a sua atitude
contradiz claramente a atitude de Deus!
Aqui, Jesus questiona todos nós que somos “praticantes”.
Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria
espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr
ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão
mais velho - “gente boa”, gente de “observância”,
mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de
alegrar-nos com a volta ao estado original do irmão ou irmã perdido/a?
Podemos até dizer que o capítulo quinze de Lucas é o coração
do seu Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o Deus de Lucas, é o Deus
que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta
do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para
salvar quem estivesse perdido. É o Deus de misericórdia e do perdão.
Como traduzimos esta visão de Deus em nossas vidas?
VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (05.09.10)
Lucas 14, 25-33
“Quem não carrega a sua cruz... não pode ser meu discípulo”
Aprofundando o ensinamento sobre o discipulado, Jesus aqui expõe as
condições para um verdadeiro seguimento. À primeira vista,
a leitura pode nos chocar! Pode até parecer que Jesus esteja ensinando
algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos. Isso especialmente
se a tradução da nossa bíblia fala que nós devemos
“odiar” os nossos pais e família (uma tradução
literalmente correta). Mas aqui - de novo - estamos diante do problema das culturas
e das línguas. Pois, esse texto nos traz um “semitismo”,
ou seja, uma expressão de uma língua semita (no caso de Jesus,
o aramaico) que tem que ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua
expressa. O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que
não tinham a mesma força que têm em português. Realmente
o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”.
Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses: “Se
alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim
do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos
irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria
vida, esse não pode ser meu discípulo” (v. 26).
Jesus quer deixar bem claro - como ele faz muitas vezes “na caminhada”
- que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias.
Não só renuncia do mal e do pecado, mas renúncia de coisas
altamente positivas em si; não renúncia por renunciar, mas em
vista de um bem maior - o Reino de Deus, o único bem que pode satisfazer
plenamente os anseios mais profundos do coração humano. Por isso,
a vinda de Jesus pode ser vista como a crise escatalógica última
- pois põe todos nós diante da opção mais fundamental
- quais são os valores reais da nossa vida?
No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes, onde
tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados,
e a subjetividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa como contra-cultural.
Pois, Jesus nos convida a definir os valores mais profundos da nossa vida -
e insiste que nada, por mais valioso que seja, possa ser mais importante do
que a dedicação total ao Reino. Claro, ele não obriga -
estamos livres para recusar esta exigência - mas então não
seremos discípulos d’Ele! Aqui põe em cheque a vivência
do cristão que “não é frio nem quente, mas morno”,
e por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca” (Ap
3 16).
O tema da cruz reaparece aqui - e de novo lembramos que “carregar a cruz”
não é de maneira alguma simplesmente “sofrer”. É
a consequência de uma coerência com o projeto e a proposta de vida
de Jesus. É condição imprescindível para quem quer
ser discípulo d’Ele: “Quem não carrega sua cruz e
não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”
(v 27). Podemos dizer que, se o trecho que precede este texto (vv 15-24, “Um
rei fez um grande banquete”) enfatiza a gratuidade do chamamento da parte
de Deus; esses versículos salientam o outro lado da medalha - a resposta
incondicional dos discípulos. Todo o Evangelho de Lucas - como também
os outros - deixa bem claro que esta resposta é a meta da nossa vida.
Ninguém começa a caminhada com total dedicação ao
Reino - mesmo que pense que faz! É na caminhada de anos, com as nossas
incoerências, tropeços, erros, e traições, que a
gente aprende a ser discípulo/a. A experiência de Pedro e dos Doze
que nos diga!
As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do rei que vai à
guerra - nos ensinam a necessidade de reflexão antes da ação.
Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem refletir sobre o preço
a pagar. A situação triste do construtor falido e do rei derrotado
são símbolos da situação do discípulo que
desistiu “pelo caminho”.
A reflexão sobre as exigências do discipulado pode nos desanimar
diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser que reflitamos também
sobre a gratuidade de Deus que não nos abandona, mas nos ama como somos,
e nos dará forças para a caminhada. Assim foi a experiência
do grande discípulo Paulo, que após longos anos de experiência,
incluindo as maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos,
pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo entender
nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que eu quero,
mas aquilo que mais detesto... Não faço o bem que quero, e sim
o mal que não quero” (Rm 7, 15s). Mas, mesmo assim, reconhecendo
os fracassos e falhas na sua caminhada de discípulo, exclama com alegria:
“Portanto com muito gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para
que a força de Cristo habite em mim. É por isso que eu me alegro
nas fraquezas, humilhações, necessidades perseguições
e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então
é que sou forte (2Cor 12, 9s).
Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes ao seguimento
de Jesus, ele também fez a experiência da graça de Deus:
“Para você, basta a minha graça, pois é na fraqueza
que a força manifesta o seu poder” (2 Cor 12,9).
Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança,
pois ele nos dará a graça necessária para a caminhada.
Basta querer e pedir!
VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (29.08.10)
Lucas 14, 1.7-14
“Quem se eleva será humilhado e quem, se humilha será elevado”
O relato de hoje se situa no contexto de uma refeição na casa
de um chefe dos fariseus, que permanece no anonimato. Lucas tem o cuidado de
sublinhar que o evento aconteceu em dia de sábado, e que os fariseus
estavam observando Jesus para tentar pegá-lo em algum erro. Então,
embora se trate de uma refeição, não era uma confraternização,
mas muito antes um confronto.
Jesus aproveitou a oportunidade para nos deixar o seu ensinamento sobre dois
assuntos importantes para a vida dos discípulos: a opção
entre a humildade e o orgulho, e a gratuidade.
Como bom pedagogo, Jesus observa a vida ao seu redor, e a usa para ensinar algo
sobre Deus. Os fariseus eram muito bem vistos no meio do povo simples. É
um erro nosso pensar que a palavra “fariseu” seja sinônima
cm “hipócrita”. Talvez essa ideia venha do Capítulo
23 de Mateus, que reflete a situação de antagonismo entre eles
e os discípulos de Jesus no tempo do escrito - pelo ano 85 d.C. - mais
do que do Jesus. Os fariseus eram exímios observadores da Lei, mas muitas
vezes caíam no perigo de sentir-se superiores às massas que não
podiam ou não conseguiam viver a Lei em seus pormenores. Confiando na
sua observância como garantia de salvação, na prática
dispensaram a gratuidade de Deus.
Vendo como os convidados buscaram os primeiros lugares na refeição,
Jesus nos dá a lição sobre buscar os últimos lugares
na festa de casamento.À primeira vista, parece que Jesus está
nos ensinando a ser falsos, hipócritas; mas, a verdade é outra.
O banquete desta história simboliza a nossa vida. Diante da vida, podemos
optar - buscar uma vida de prestígio, aos olhos do mundo, com todos os
privilégios que isso acarreta, ou buscar o serviço aos irmãos,
- nos “humilhando”, pois quem servia era considerado menor do que
quem era servido (como geralmente ainda hoje é!). De novo Jesus nos coloca
diante do seu próprio exemplo - ele que veio “não para ser
servido, mas para servir, e dar a sua vida em favor de muitos” (Mc 10,
46).
E como é atual este ensinamento! O nosso mundo é um mundo classista,
onde “quem pode mais, chora menos”, até nas Igrejas - como
gostamos de títulos, honras, prestígio! Em vão buscaremos
nos Evangelhos títulos de honra como “Eminência, Santidade,
Reverendo, “Reverendíssimo”! Sem que notássemos, o
mundo entrou nas nossas comunidades com as suas falsas categorias!!
O centro da questão está em versículo 11: “de fato,
quem se eleva será humilhado, e quem se humilha, será elevado”.
Não é uma recomendação sádica para que procuremos
ser humilhados, como muitas vezes se pregava na formação da Vida
Religiosa e na espiritualidade, antigamente. Pelo contrário, é
uma orientação para que não ponhamos o nosso valor nos
títulos e honrarias vãs que a sociedade tanto aprecia, mas no
serviço humilde aos irmãos, unindo-nos à luta pelos oprimidos,
que são humilhados pela sociedade de consumismo e opulência.
Ato contínuo, Jesus nos orienta sobre a gratuidade. Recomendando ao fariseu
que ele não convide os que possam retribuir com outros convites, ele
nos põe diante do exemplo do próprio Deus, que é gratuidade
absoluta. Novamente os marginalizados servem como exemplo para o exercício
de gratuidade. Temos muitas indicações na literatura daquele tempo
que tanto a sociedade judaica como a greco-romana rejeitava este pessoal sofrido.
Um documento dos Essênios de Qumrã elenca as categorias que serão
proibidas de entrar no banquete escatológico: “os que têm
problema na pele, com as mãos ou os pés esmagados, os aleijados,
os cegos, os surdos, os mudos; os que têm defeito na vista ou que sofrem
de senilidade”. A lista lucana adiciona a categoria “os pobres”.
Sabemos que na literatura judaica “os pobres” era muitas vezes a
designação usada para Israel e especialmente para os eleitos dentro
de Israel. Então Lucas está usando de ironia - mostrando que os
verdadeiros eleitos não são os que a sociedade assim considera,
mas os realmente pobres, marginalizados e sofredores!
O discípulo, “convidando-os”, ou seja, relacionando-se com
eles como igual para igual, não receberá deles a retribuição.
Eles não terão com o que retribuir, e assim seremos como Deus,
que nos ama sem esperar algo em retorno. Assim estaremos colocando a nossa confiança
na gratuidade de Deus, e não agindo de um modo calculista, como tanto
se prega hoje: “é dando que se recebe”, como dizem os politiqueiros
cínicos, como também alguns pregadores cristãos, interessados
no acúmulo de dinheiro.
A imagem do banquete é simplesmente um símbolo. A história
nos desafia para que examinemos as nossas motivações mais profundas,
para que busquemos o serviço aos irmãos, e para que aprendamos
de Deus, que é o Amor Gratuito por excelência.
VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (22.08.10)
Lucas 13, 22-31
“É verdade que são poucos os que se salvam?”
Jesus continua a sua caminhada em direção à Jerusalém,
e no caminho, prossegue ensinando os seus discípulos. O debate agora
é sobre uma questão que sempre intrigava os cristãos -
e também os de outras crenças: “É verdade que são
poucos aqueles que se salvam?” (v. 23).
Durante muito tempo, o assunto de muitas pregações nas igrejas
era a condenação. Falava-se muito mais em pecado do que na graça,
no diabo do que em Jesus, do inferno do que no céu ou no projeto de Jesus
para este mundo. Infelizmente, especialmente nos ambientes fundamentalistas,
tanto católicos como protestantes, essa tendência volta a vigorar.
Neste trecho Jesus nos ensina como enfrentar esta questão!
Chama a atenção que Jesus não responde à pergunta.
Ele não indica se são muitos os que se salvam, ou não.
A preocupação d’Ele é que as pessoas vivam de acordo
com o projeto de Deus. Nisso encontrarão a salvação. Por
isso, ele desvia a atenção do ouvinte da questão do “além
morte” para que volte à vivência prática da fé.
O conselho d’Ele é claro: “Façam todo o esforço
possível para entrar pela porta estreita” (v. 24). Resta perguntar
- em que consiste esta “porta estreita”? O texto nos dá a
resposta: “Ele responderá: “Não sei de onde são
vocês. Afastem-se de mim todos vocês que praticam a injustiça”
(v. 27)
Interessante que Deus afastará os que praticam a injustiça - não
fala daqueles que têm fraquezas humanas, que têm uma fé diferente,
que ignoram as verdades da teologia - ou seja, se preocupa com a prática
da injustiça. Pois o seguimento de Jesus é basicamente isso -
o amor prático, que se manifesta na justiça. Sem esta prática,
simplesmente a fé é vã! A “porta estreita”
é a prática da justiça!
Jesus adverte que talvez não sejam os que conhecem a sua mensagem que
irão herdar o Reino. Pois o critério do julgamento não
será o conhecimento teórico do evangelho, mas muito antes a sua
vivência concreta na justiça, conforme ele diz: “Muita gente
virá do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar
à mesa no Reino de Deus” (v. 29)
Diante do fechamento do judaísmo farisaico, com a sua religião
nacionalista, Jesus abre perspectivas ecumênicas - a salvação
não se restringe aos que faziam parte oficialmente do Povo de Deus! Virão
pessoas do mundo todo - as pessoas que, mesmo sem conhecer a Bíblia -
viviam a luta pela justiça!
É impossível, no nosso mundo de exclusão, fugir da questão
da justiça. A Conferência de Santo Domingo, seguindo as de Medellin
e Puebla, já perguntou como era possível que as piores injustiças
do mundo se dão exatamente no continente nosso, que se diz cristão!
A Conferência de Aparecida continua com essa preocupação.
Como é possível que nos países oficialmente católicos
há tantos rostos do Cristo crucificado? Não é possível
ser cristão sem lutar em favor das pessoas com “rostos desfigurados
pela fome, rostos desiludidos pelas promessas políticas, rostos humilhados
de quem vê desprezada a própria cultura, rostos assustados pela
violência cotidiana e indiscriminada, rostos angustiados de menores, rostos
de mulheres ofendidas e humilhadas, rostos cansados de migrantes sem um digno
acolhimento, rostos de idosos sem as mínimas condições
para uma vida digna” (João Paulo II, Vita Consecrata nº 76).
Não devemos medir o nosso cristianismo e a pujança da nossa fé
pelos belos edifícios e imponentes matrizes, nem pelas belas celebrações
e concentrações nas grandes ocasiões, por tão válidas
e até importantes que possam ser. Meçamos a nossa fé, a
nossa adesão ao Reino pelo nosso empenho em prol dos empobrecidos, pelos
injustiçados, não nos limitando a uma ação meramente
assistencialista (por tão imprescindível que tais ações
sejam), mas também nos engajando na luta pela mudança estrutural
de uma sociedade cujo projeto de vida - o neo-liberalismo selvagem - nada mais
é do que um projeto de morte, e portanto anti-evangélico e pecaminoso.
É mister unirmos as nossas forças às das pessoas de boa
vontade de todas as crenças e de nenhuma, para que em parceria defendamos
a vida ameaçada na sociedade moderna. Aprendamos de Jesus neste trecho
- ele não permite que os seus interlocutores fiquem olhando só
para o que acontecerá depois da morte, lá no além, mas
insiste que olhem para a vida cotidiana, com as suas exigências em favor
dos oprimidos. Ressoa uma advertência para nós que somos frequentadores
das Igrejas, que conhecemos os ensinamentos do Evangelho, e que talvez caiamos
na tentação de um certo elitismo religioso: “Vejam: há
últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”
(v. 30). Ser primeiro ou último, acolhido ou afastado, depende em primeiro
lugar do nosso empenho pela justiça!
FESTA DA ASSUNÇÃO (15.08.10)
Lc 1, 39-56
“Você é bendita entre as mulheres”
O evangelho da festa de hoje tem duas partes bem distintas, o encontro entre
Maria (grávida de Jesus) e Isabel (grávida de João); e,
o Canto do Magnificat.
Para entender o objetivo de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção
e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão
teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste,
e ao mesmo tempo a continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira
está retratada nos eventos ligados ao nascimento de João, e tem
os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está
nos relatos do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus.
Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada - os seus símbolos
são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não
acredita no anúncio do anjo, e o nenê que será um profeta,
figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança
tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo
filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza
este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo, (Lc 2, 25-38),
especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua
promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a
tua salvação” (2, 29)
Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato que
pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parenta idosa e grávida.
Se a finalidade de Lucas fosse somente mostrar Maria como modelo de caridade,
não teria colocado versículo 56, que mostra ela deixando Isabel
antes do nascimento de João: “Maria ficou três meses com
Isabel; e depois voltou para casa”. Também não é
verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse
uma viagem tão perigosa como a da Galiléia à Judéia!
A intenção de Lucas é literária e teológica.
Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela
sua ação nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de
Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de
cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente
as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João;
do outro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz
recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e
Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução da
Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta
que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Iluminada pelo Espírito
Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João
no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor.
As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as
mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar
mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo, no
Antigo Testamento: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jdt 13,18). Aqui Isabel louva a
Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.
Vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada”
(v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita
em primeiro lugar, não por sua maternidade, mas pela fé - em contraste
com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente
como modelo de fé. Já no relato da Anunciação, Maria
expressou essa fé quando disse “Faça-se em mim segundo a
tua palavra” (v. 38). Assim, ela aceita, não somente ser a mãe
do Senhor, mas a protagonista da construção de uma sociedade de
solidariedade e justiça, tão almejada por Deus. Por isso, Lucas
faz uma releitura do Canto de Ana (1Sm 2, 1-10) e coloca nos lábios de
Maria o canto do Magnificat, em sintonia com a espiritualidade secular dos Pobres
de Javé, que, desprovidos de qualquer poder, põem a sua esperança
em Deus, que “dispersa os soberbos de coração, derruba do
trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede
os ricos de mãos vazias” (vv. 51-53). Longe de ser uma figura passiva,
a Maria deste capítulo é modelo para todos que assumem a luta
em favor de uma sociedade alternativa, de partilha, solidariedade e fraternidade.
Podemos também acrescentar que, neste capítulo, primeiro nós
encontramos - na Bíblia - as frases da primeira parte da oração
da “Ave Maria”: “Ave Maria” (Lc 1, 28),“Cheia
de graça” (Lc 1, 28),“O Senhor é convosco”(Lc
1, 28),“Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc 1, 42), “Bendito
o fruto do vosso ventre” (Lc 1, 42), que demonstra que, quando tratada
com fundamento bíblico, a figura de Maria não é empecilho
para uma caminhada ecumênica, pois a Escritura a aponta como modelo de
fé para todos nós!
DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (08.08.10)
Lucas 12, 32-48
“Onde está o seu tesouro, aí estará também
o seu coração”
Esse trecho do capítulo doze retoma em grande parte o tema do domingo
anterior - a questão do relacionamento do cristão e da comunidade
com os bens materiais. A comunidade cristã é caracterizada como
“pequeno rebanho” - certamente pequena diante da força e
enormidade do sistema do Império Romano. Aqui não é tão
importante a sua pequenez em termos numéricos, mas em termos da sua importância
e força dentro da sociedade - a fraqueza dela é gritante, e devia
ter provocado insegurança e medo em muitos dos seus membros. Por isso,
as palavras de encorajamento: “Não tenha medo, pequeno rebanho,
porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (v. 32).
O rebanho não tem muitos bens materiais, mas terá os bens mais
importantes - os do Reino. Esta ideia nasce do versículo anterior a este
trecho: “Busquem o Reino d’Ele e Deus dará a vocês
essas coisas em acréscimo” (v. 31). Estes bens virão na
medida em que a comunidade vive a partilha, ou seja, se coloca na contramão
de uma sociedade de ganância e exploração, repartindo o
que tem. Retomando o tema do último domingo, Jesus adverte: “De
fato, onde está o seu tesouro, aí estará também
o seu coração” (v. 34).
Esse último versículo nos desafia a fazermos uma meditação
mais profunda sobre os valores da nossa vida. Onde - realmente, e não
teoricamente - está o meu tesouro? Em que eu de fato ponho a minha confiança?
Sobre o que estou baseando a minha vida? Qual é a minha experiência
prática de partilha? Quais são os verdadeiros tesouros da minha
vida?
Em seguida, Lucas nos coloca diante das exigências de vigilância
e responsabilidade. Embora muitas vezes se interprete este trecho sobre a vinda
do Senhor em termos do “fim do mundo”, ou referindo-se ao momento
da nossa morte, realmente esses versículos têm uma abrangência
muito maior. A ênfase não está no fim, mas na atitude que
nós devemos ter sempre em nossa caminhada. Sempre devemos estar alertas,
para não perdermos o momento de Jesus passar em nossa vida. Ele chega
para nós, não somente na hora da nossa morte, muito menos no fim
do mundo, mas todos os dias, nas pessoas, nos acontecimentos da nossa realidade,
na comunidade em que vivemos. Jesus aqui exige uma atitude de busca permanente
do Reino, através de uma vida de serviço fraterno.
Os versículos 41-46, e o fato que a pergunta é feita por Pedro,
porta-voz dos líderes da comunidade em Lucas, indicam que a mensagem
aqui é dirigida em primeiro lugar aos que têm uma função
de dirigente na comunidade. Os dirigentes cristãos não têm
estes ofícios para exercer um poder, para dominar; mas, muito pelo contrário,
para melhor servir. Somos alertados para que não deixemos a corrupção
do poder tomar conta da nossa vida. Como os dirigentes das comunidades têm
consciência dos seus deveres, muito mais ainda é a sua responsabilidade:
“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado,
muito mais será exigido” (v. 48).
Aqui o trecho alarga a sua visão para incluir não somente uma
possível corrupção do projeto cristão através
do apego aos bens materiais, mas também através do apego ao poder,
quando este é usado não como serviço, mas como dominação
e projeção pessoal por parte dos dirigentes cristãos. Talvez,
não haja corrupção mais sutil do que a do poder, manifestada
em carreirismo, autoritarismo e auto-projeção dentro das Igrejas.
Vale a advertência já feita no século XIX pelo historiador
católico inglês, Lord Acton: “Todo o poder tende a corromper,
e o poder absoluto corrompe absolutamente!”
Lucas convida a todos, especialmente os dirigentes, à vigilância,
para que o nosso verdadeiro tesouro seja o serviço fraterno, como concretização
do projeto de Jesus, e não a ganância, o poder, a dominação.
DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM (01.08.10)
Lucas 12,13-21
“Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância”
Mais uma vez deparamo-nos com um dos temas favoritos de Lucas - o combate
à ganância, em todas as suas formas, especialmente dentro da comunidade
dos discípulos de Jesus. A parábola de hoje só se encontra
neste Evangelho, sublinhando assim o interesse de Lucas pelo assunto.
Ressoa com todas as letras a advertência de Jesus para os seus discípulos:
“Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância”
(v. 15b). Com certeza, a caminhada de mais ou menos cinquenta anos das comunidades
cristãs tinha mostrado que os cristãos não eram isentos
da tentação da acumulação de bens, e do individualismo.
Cumpre assinalar que o Evangelho não nega o valor nem a necessidade de
bens materiais. Afinal, sem eles, não seria possível ter uma vida
digna e humana - o que Deus quer para todos os seus filhos e filhas. A luta
não é contra os bens, mas contra a ganância, o egoísmo,
a acumulação, a confiança no aumento dos bens como valor
supremo das nossas vidas.
Se foi importante fazer esta advertência há quase dois mil anos,
quanto mais hoje, quando nós vivemos mergulhados em um mundo de consumismo
e materialismo; quando se prega o “evangelho” da competitividade
e acumulação; onde os profetas do projeto neo-liberal da exclusão
entram todos os dias em nossos lares, através da televisão e da
internet; onde a meta do sistema é concentrar cada vez mais bens nas
mãos de uma elite privilegiada, excluindo, cada vez mais, pessoas que
não podem competir. Como nós cristãos vivemos mergulhados
neste ambiente, acontece muitas vezes que, sem dar conta do fato, nós
o assimilamos, como por osmose, diluindo o evangelho da fraternidade e solidariedade,
e reduzindo a prática religiosa ao âmbito individual e intimista,
tirando dela a sua força transformadora.
O rico da parábola muito bem poderia representar a ideologia do sistema
vigente dos nossos dias. Chama a atenção o número de vezes
que ele usa as palavras “eu”, “meu” “minha”
- é um homem totalmente fechado no seu mundinho, fechado sobre si, sem
sensibilidade diante dos sofrimentos e necessidades dos irmãos e irmãs.
Jesus o chama de “louco” - não por ter o suficiente para
viver bem, nem por alegrar-se com este fato, mas por colocar o sentido da sua
vida na acumulação de riquezas, achando que isso lhe traria a
felicidade por si. A pergunta que Jesus faz: “E as coisas que você
preparou, para quem vão ficar?” (v. 20), levanta a pergunta fundamental
que todos nós temos que responder: qual é o sentido da nossa vida?
O que é realmente importante? Sobre o que baseamos a nossa felicidade?
Pois, tudo passará - e então seria tolice fundamentar a nossa
felicidade sobre algo que necessariamente vai acabar. É um convite para
que achemos o alicerce firme para a nossa caminhada, para a nossa felicidade.
Podemos construir as nossas vidas sobre areia - movediça, sem firmeza;
ou sobre a rocha - firme e imutável. Sobre coisas efêmeras, ou
sobre Deus e o seu projeto de solidariedade, fraternidade e partilha.
O homem da parábola terminou a sua vida na frustração,
perdeu tudo, e a sua vida acabou sem sentido. E Jesus nos adverte: “Assim
acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico
para Deus!” (v. 21). A escolha é nossa!
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (25.07.10)
Lucas 11,1-13
“Ensina-nos a rezar!”
O nosso texto de hoje nos traz o ensinamento da Oração do Senhor,
na versão Lucana. O Novo Testamento nos traz duas versões desta
oração - por sinal a única oração que o Senhor
nos ensinou: Lucas 11, 2-4 e Mateus 6, 9-13. Normalmente, os cristãos
rezam na forma mateana, com sete petições e sem doxologia (oração
de louvor). A versão lucana só tem cinco petições.
A forma usada na Missa acrescenta a doxologia “porque Vosso é o
Reino, o Poder e a Glória para sempre”, baseada no texto trazido
pela Didaché - um documento cristão do início do segundo
século. Alguns estudiosos explicam as duas formas pelo fato que Lucas
e Mateus estavam se dirigindo a comunidades diferentes, com tradições
diferentes. Mateus se dirigia a pessoas que tinham o costume de rezar, mas que
estavam correndo o risco de orar duma maneira muita formal e rotineira (judeu-cristãos),
enquanto Lucas estava escrevendo para pessoas recém-convertidas (gentios-cristãos)
e que precisavam aprender, talvez pela primeira vez, a rezar continuamente.
Embora não haja unanimidade entre exegetas sobre qual é a forma
mais original, parece que o consenso tende em favor da versão Lucana.
A versão mateana apresenta a forma mais litúrgica do seu uso (p.
ex.“Pai Nosso” em lugar do simples “Pai”); mas, na verdade
não há diferença essencial entre as duas versões.
Baseando-nos no trabalho de um exegeta alemão, Joaquim Jeremias, propomos
a seguinte versão como a mais aproximada às palavras aramaicas
de Jesus (devemos sempre lembrar que Jesus falava em aramaico, os evangelhos
foram escritos em grego, e nós os lemos em português!):
“Querido Pai, santificado seja o Teu nome; venha o Teu Reino; o pão
nosso de amanhã nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dívidas,
como queremos perdoar os nossos devedores, e não nos deixes sucumbir
à tentação”.
Seguindo este autor, tratamos a oração como uma “oração
escatalógica”, ou seja a oração da comunidade cristã
que experimenta o Reino como uma realidade já presente, mas que espera
e pede a sua consumação final.
Uma chave para a compreensão lucana da Oração do Senhor,
nós a encontramos no primeiro versículo do texto: “Um dia,
Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos
pediu: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou
os discípulos dele” (Lc 11, 1). Essa frase nos faz lembrar que
muitos grupos religiosos do tempo de Jesus tinham uma oração que
identificasse os seus discípulos, como por exemplo, os Essênios,
os Fariseus e os Batistas. Então o discípulo de Jesus pede uma
oração que pudesse identificar o seu programa de vida, como discípulos
de Jesus. Então podemos ver a Oração do Senhor como mais
do que uma oração - como um “manifesto” da nossa proposta
de vivência da nossa fé. Vejamos mais de perto o texto:
1. “Querido Pai” (ABBÁ):
É possível que muita gente tenha dificuldade em rezar o “Pai
Nosso” por causa da sua experiência com o seu próprio pai.
Se nós tivemos um pai carinhoso, com quem desde criança nós
nos sentíssemos bem, então teremos facilidade de rezar a Deus
como “Pai”. Mas, se o nosso pai era pessoa dura, ameaçadora,
sem expressão de carinho, então podemos ter mais dificuldade em
poder nos relacionar com Deus como “Pai Nosso”. Outras pessoas -
especialmente feministas - talvez achem que o título “Pai”
para Deus traz conotações demasiadamente masculinizantes, quando
não machistas. Por isso, é importante aprofundar o sentido bíblico
do termo, e o que significava na boca de Jesus.
Quando o Antigo Testamento descreve Deus como Pai, implica muito de que a nossa
cultura atribui à mãe. O Antigo Testamento se refere a Deus como
Pai quinze vezes e enfatiza a ternura, a misericórdia, o carinho e o
amor de Deus para o seu povo. Isso fica especialmente claro nos Profetas. Vejamos
alguns textos: “Serei um pai para Israel, e Efraim será o meu primogênito”
(Jr 31, 9); “Será que Efraim não é o meu filho predileto?
Será que não é um filho querido? Quanto mais o repreendo,
mais me lembro dele. Por isso minhas entranhas se comovem, e eu cedo à
compaixão - oráculo de Javé” (Jr 31, 20); “Eu
tinha pensado contar você entre os meus filhos, dar-lhe uma terra invejável...
esperando que você me chamasse de “Meu Pai”, e não
se afastasse de mim (Jr 3, 19); “Quando Israel era menino, eu o amei,
do Egito chamei o meu filho... fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o
pela mão.... Eu os atraí com laços de bondade, com cordas
de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança;
para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles (Os 11, 1ss).
Nesses textos podemos sentir muitas das características que a nossa cultura
ocidental atribui à mãe – portanto, o termo “Pai”
no Antigo Testamento não traz qualquer conotação machista.
Embora o Antigo Testamento fale de Deus como “Pai” quinze vezes,
jamais alguém invoca Deus como “meu Pai”, ou “nosso
Pai”. O respeito do judeu diante da transcendência de Deus não
permitia. Mas, nos Evangelhos nós achamos o termo “Pai” para
Deus na boca de Jesus 170 vezes. Isso era coisa tão inédita que
podemos ter certeza que se trata de uma palavra autêntica de Jesus e não
somente proveniente da Igreja primitiva. Marcos a usa 4 vezes, Lucas 15 vezes,
Mateus 42 vezes e João 109 vezes! Na comunidade do Discípulo Amado,
pelo fim do primeiro século, “Pai” é o termo para
Deus.
A expressão que Jesus mesmo usava era “Abbá”, uma
palavra aramaica sem sinônimo em português. Fazia parte da linguagem
da intimidade do lar, um termo carinhoso usado tanto por crianças como
por adultos, para o seu pai. Então, ultrapassa o sentido da nossa palavra
“papai”. Devemos dar muito peso a este ensinamento de Jesus, pois
embora não existe na literatura rabínica um exemplo sequer do
uso do termo “Abbá” para Deus, Jesus sempre se dirigia a
Deus deste jeito, exceto em Mc 15, 34 (quando na cruz, citando um salmo, ele
chama deus de “Eloí”, meu Deus). Jesus então conversava
com Deus com a segurança, intimidade e carinho com quem se conversa na
ternura do seio familiar. E mais, ele autorizou os seus discípulos a
usar o mesmo termo. Isso indica o novo relacionamento com Deus, que Jesus nos
trouxe. É algo além do normal, poder reivindicar tal relacionamento
com Deus. São Paulo mantinha o termo aramaico, mesmo escrevendo em grego
em Gálatas 4, 6 e Romanos 8, 15, quando ele diz: “A prova de que
vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos
corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá
Pai!” (Gl 4, 6); “...receberam um Espírito de filhos adotivos,
por meio do qual clamamos: Abbá, Pai!” (Rm 8,15)
O “endereço” da oração determina não
somente o nosso relacionamento com Deus, mas, com os nossos irmãos e
irmãs. Pois, se Deus é o “Abbá” de todos nós,
então somos todos iguais; e rezar esta oração exige que
nós não nos compactuemos com qualquer coisa que nos discrimine
- racismo, machismo, clericalismo, exploração etc.
Todas as petições seguintes da oração dependem desse
endereço. Pois, não estamos nos dirigindo a um Espírito
perfeitíssimo, criador do céu e da terra, onipresente, onipotente
e onisciente! Estamos nos dirigindo ao nosso “Querido Pai”; e é
este novo relacionamento, um dom incrível do próprio Deus, que
faz possíveis as petições. Por isso, na liturgia, a Igreja
pede que se faça uma introdução à oração,
como “Orientados pela Palavra de Jesus, ousamos rezar”, para que
nós tomemos consciência da enormidade do dom de filiação
que recebemos por Jesus.
2. “Santificado seja o Teu nome”
Na forma atual, esta petição pode expressar tanto um louvor, (“Santificado
seja o teu nome”) como petição (“Que o Teu Nome se
torne santificado”). No contexto, devemos entendê-la como pedido.
Podemos entender melhor a frase se voltamos de novo para um profeta do Antigo
Testamento, Ezequiel: “Vou santificar o meu nome grandioso, que foi profanado
entre as nações, porque vocês o profanaram entre elas. Então,
as nações ficarão sabendo que eu sou Javé, quando
eu mostrar a minha santidade em vocês diante deles” (Ez 36, 23).
Então, com este pedido rezamos que o mundo chegue a conhecer o nome (isto
é, a realidade íntima) de Deus (que Ele é o nosso “querido
pai”) através da nossa vivência. Se torna uma oração
missionária, com três elementos:
- primeiro, que nós cheguemos a conhecer cada vez mais quem é
Deus;
- segundo, que o mundo chegue a este conhecimento através do nosso testemunho;
- terceiro, que a plenitude da revelação da realidade de Deus
venha logo; este é o aspecto escatalógico.
3. “Venha o Teu Reino”
O tema central da pregação de Jesus era a iminência do Reino
de Deus. Se o “nome” de Deus se refere à sua natureza íntima,
o “Reino” se refere à sua atividade. Pedimos aqui a consumação
final do Reino. É a oração da comunidade que reconhece
a presença do Reino, mas, sente que ainda não é estabelecido
definitivamente entre nós. Temos outros trechos do Novo Testamento que
expressam esse desejo com a palavra aramaica “Maranathá”,
(Vem, Senhor Jesus!), por exemplo 1Cor 16, 22 e Ap 22, 20.
A versão mateana que nós costumamos rezar, acrescenta “Seja
feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Isso é
outra maneira de expressar a mesma idéia, pois quando a vontade de Deus
é feita na terra como já se faz no céu, então o
Reino estará plenamente realizado entre nós.
4. “O pão nosso de amanhã nos dá hoje”
Os primeiros dois pedidos almejam a chegada do Reino na sua plenitude, mas as
duas petições seguintes põem a ênfase sobe o “agora”,
o “hoje”!
A primeira dificuldade que enfrentamos é com a tradução,
pois aqui se usa uma palavra grega “epiousios” que não é
usada em outro lugar no Novo Testamento. Há quatro sentidos básicos
possíveis para este termo:
- necessário para a nossa existência;
- para hoje;
- para o dia que virá;
- para o futuro.
As várias traduções usadas nas nossas bíblias (e
seria bom verificar) refletem a dificuldade em ter certeza sobre o que significa
o termo no contexto desta oração. Muitos exegetas concluem, com
São Jerônimo, que a palavra quer dizer “dá nos hoje
o nosso pão de amanhã”.
Aqui, “amanhã” significaria o “grande amanhã”
da parusia, da consumação final do Reino de Deus. Assim estamos
pedindo que nós possamos experimentar hoje o que pertence à plenitude
do Reino.
E isso tem implicações muito concretas para a nossa vivência.
Pois jamais será possível experimentar a plenitude do Reino enquanto
falta o pão material na mesa dos nossos irmãos e irmãs.
Quem faz este pedido se compromete com a luta por uma sociedade mais justa,
mais fraterna, onde todos possam ter uma vida digna.
Quando Jesus e os seus discípulos faziam a refeição, era
muito mais do que simplesmente tirar a fome. Significava o banquete messiânico,
desejado pelos profetas, onde todos teriam vida plena. Quem reza esta petição,
se compromete com a concretização de uma sociedade onde “todos
tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10), coisa impossível
sem o pão material nas mesas.
Não é possível participar do banquete eucarístico,
sem este compromisso concreto com a construção de um mundo sem
empobrecidos, onde todos terão “o pão nosso de cada dia”.
5. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós queremos
perdoar os nossos devedores”.
Um dos grandes dons da era escatalógica é o perdão. Já
vimos em outros trechos como Jesus manifestava este dom gratuito do Pai. Aqui
pedimos que nós possamos experimentar este grande dom, aqui e agora.
Mas, o trecho levanta a questão da relação entre o perdão
de Deus e o nosso perdão.
A maneira que nós rezamos o “Pai Nosso” - “perdoai-nos
as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”-
pode dar a impressão que estamos pedindo que Deus nos perdoe na medida
em que perdoamos os outros! Se Deus vai nos perdoar conforme os critérios
humanos, estamos em maus lençóis! Aqui é necessário
que olhemos melhor o que significa “assim como”.
Quase todos os estudiosos estão de acordo que essa frase não deve
ser entendida como uma comparação entre o perdão de Deus
e o nosso. Diversas parábolas sugerem que o perdão de Deus precede
o perdão humano (Mt 18, 23-25; Lc 7, 41-47). O nosso perdão é
consequência e resposta ao perdão de Deus. Sendo perdoados, não
temos desculpa para não perdoar! Mas, qual é então o papel
do perdão humano? (Mt 6, 14s). É que o perdão de Deus só
se torna real para mim quando eu o assumo na minha vida ao ponto que procuro
perdoar quem me ofendeu. O nosso perdão mútuo então é
a prova de até onde temos aceito o perdão de Deus. Devemos então
lembrar três pontos:
- O perdão de Deus sempre precede o perdão humano;
- O perdão humano é reação ao perdão divino;
- O perdão divino só se torna eficaz para nós quando nós
temos vontade de perdoar o outro.
Joaquim Jeremias explica a frase assim: “Nós estamos prontos a
repassar a outros o perdão que nós recebemos. Dá-nos, querido
Pai, o dom da era da salvação, o teu perdão, para que,
na força do perdão recebido, possamos perdoar os que têm
nos ofendido”. (J. Jeremias, A Oração do Senhor).
E o grande exemplo desta realidade continua sendo a mulher “pecadora”
de Lc 7, 36-50), cujo grande amor foi consequência do grande perdão
recebido de Deus.
6. “E não nos deixes sucumbir à tentação”
Este é o único pedido formulado em termos negativos. Aqui não
somente pedimos para não cair nas pequenas ou grandes tentações
que nós enfrentamos no dia-a-dia, mas que não caiamos na Grande
Tentação, de não acreditar na realidade da presença
do Reino, de perder a fé na ação transformadora de Deus,
de não acreditar mais na concretização da vontade de Deus.
E este “sucumbir” não vem normalmente “de vez”
- é um processo lento, que pode acontecer sem que nós nos demos
conta. É o perder do elã, da vibração com a causa
do Reino, que reduz a religião a um mero “cumprir tabela”,
sem alegria, sem esperança, - enfim uma frustração. Este
pedido ecoa uma mensagem e advertência clara dos evangelhos - a necessidade
de vigilância! Estamos na luta escatalógica entre o bem e o mal,
onde até Jesus foi tentado. Aqui reconhecemos a nossa fraqueza, a nossa
tendência para o desânimo, e pedimos a força de Deus para
que não sucumbamos à Grande Tentação.
Assim a Oração do Senhor resume o projeto de vida dos seus seguidores
e discípulos. É uma oração que traz consequências
bem concretas para o nosso relacionamento com os irmãos e com a sociedade.
É uma oração que desinstala e desacomoda. Pois, nós
estamos nos comprometendo com a construção diária do Reino,
através do seguimento de Jesus.
A segunda parte do trecho de hoje insiste na necessidade de perseverança
na oração. Faz contraste (e não comparação!)
entre Deus e o amigo humano. Pois se o “amigo” só atende
o pedido para não ser amolado, Deus é bem diferente. Ele dará
o mais importante - o Espírito Santo, com todos os seus dons, àqueles
que o pedirem! Peçamos as coisas pequenas - mas importantes - necessárias
para a nossa vivência diária, mas saibamos também pedir
os grandes dons do Reino, o perdão, o pão da vida, a misericórdia
sem limites, que Deus jamais negará!
DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (18.07.10)
Lucas 10, 38-42
“Uma só coisa é necessária”
Mais uma vez, o Evangelho de Lucas destaca o fato que Jesus e os seus discípulos
caminhavam. É caminhando que se faz caminho, e é no caminho que
se aprende o que é ser discípulo de Jesus. Todos nós estamos
no caminho, como Jesus e os outros, só que a nossa caminhada não
se mede em quilômetros, mas em anos!
O Evangelho de hoje frisa muito o lado afetivo de Jesus e dos seus discípulos
e discípulas. Jesus se dirige à casa de uma família em
Betânia, perto de Jerusalém. Era o lugar predileto onde Jesus procurava
- e recebia - aconchego humano, carinho, afeto, amizade, acolhimento; onde podia
refazer as suas forças nas suas caminhadas evangelizadoras. Do Evangelho
do Discípulo Amado aprendemos que: “Jesus amava Marta, a irmã
dela e Lázaro” (Jo 11, 5). Este tipo de relacionamento humano é
necessário para que formemos verdadeiras comunidades cristãs -
e quantas vezes dispensamos este elemento fundamental.
É gritante a diferença de gênio das duas irmãs! Marta,
provavelmente a mais velha, preocupada com os seus afazeres - afinal tinha chegado
treze hóspedes para uma refeição, e tinham que ser bem
tratados; Maria, calma, senta-se aos pés do Senhor, para escutar a Palavra.
De repente, ressoa o desabafo de Marta: “Senhor, não te importas
que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que
ela venha ajudar-me!” (v. 40). Instintivamente, a nossa simpatia fica
com a Marta. Qual é a mãe da família, a dona de casa ou
o anfitrião de visita que não sentiria o que Marta sentia? Por
isso mesmo, chama a atenção a resposta do Senhor: “Marta,
Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém
uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte,
e esta não lhe será tirada.”(v. 41s).
Uma coisa é óbvia - Jesus não está defendendo a
preguiça, a omissão, a exploração do trabalho dos
outros! Num mundo agitado como é o nosso, que não nos deixa tempo
para cultivar o relacionamento humano, a amizade, a oração, o
nosso próprio ser, esta resposta nos faz lembrar a importância
de viver de uma maneira que prioriza as coisas. É óbvio que nós
temos que nos preocupar com os afazeres, os trabalhos, - mas, na verdade, quantas
vezes nós enchemos os nossos dias com ativismo, atividades fúteis,
agitação, - e assim não conseguimos escutar nem nós
mesmos, nem os irmãos, nem o próprio Deus!
Jesus aqui questiona a agitação e o ativismo - que não
se mede pelo número de atividades. O ativismo é uma fuga, uma
fuga de um encontro com os anseios mais profundos do nosso ser, dos apelos de
Deus, refugiando-nos em um número sem fim de atividades sem objetivos
claros, sem organização, sem rumo. A atitude de Maria é
a de uma discípula, que aprende viver de maneira nova, ouvindo e ruminando
a Palavra de Deus, uma palavra que pode levar à muita atividade, mas
nunca ao ativismo.
Jesus de forma alguma quer menosprezar a Marta. Aliás, diversas vezes
os evangelhos põem Marta em mais relevo do que Maria. O próprio
Lucas diz que foi Marta que recebeu Jesus na sua casa (v. 38). Em João,
é Marta que faz a profissão de fé em Jesus, que nos Sinóticos
é feita por Pedro: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o
Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” ( Jo 11, 27).
Na realidade, todos nós temos que ser “Marta e Maria”. Temos
necessidade de nos dedicarmos aos nossos afazeres, mas também é
preciso achar tempo para ficarmos aos pés do Senhor. O desafio é
de conseguir o equilíbrio entre os dois aspectos de vida, entre “lançar
as redes” e “consertar as redes” (Mc 1, 16-20), entre “atividade”
e “oração”, entre “missão” e “interiorização”.
Pois, os dois lados são tão intimamente ligados que o desequilíbrio,
do lado que for, trará consequências negativas para a nossa vida
de discípulos e discípulas.
DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (11.07.10)
Lucas 10, 25-37
“Vá, e faça a mesma coisa”
A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto com a
do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas as parábolas
de Jesus. Por isso mesmo, corre o risco de ser banalizada, de não ser
levada muito a sério, de ser relegada quase ao nível de folclore
religioso. Merece uma atenção mais minuciosa.
A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai por ter
“escondido essas coisas aos sábios e inteligentes e revelado aos
pequeninos” (Lc 10 , 21). Realmente, o primeiro a tentar atrapalhar Jesus
é um “sábio e inteligente” - um especialista em leis.
Lucas salienta que ele fez a pergunta “o que devo fazer para receber em
herança a vida eterna” (v. 25), não porque ele se interessava
pela verdade, mas “para tentar Jesus”. Devolvendo a pergunta a ele,
Jesus deixa claro que o legista já sabia a resposta: “Ame o Senhor,
seu Deus, como todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda
a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si
mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu certo. Faça
isso e viverá” (v. 28)
Mas, com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele insiste,
“para se justificar”, com uma segunda pergunta: “E quem é
o meu próximo?” (v. 29). Mas, Jesus não cai na cilada de
fazer uma discussão teórica e estéril sobre quem seja o
próximo - ele logo traz o debate para o nível prático da
vivência. Ele conta a parábola do “Bom Samaritano”.
Vejamos:
Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu o homem
e passou adiante pelo outro lado” (v. 31). A mesma coisa aconteceu com
um levita. Por que será que esses homens - ligados ao culto judaico -
agiram assim? A resposta está nas leis de pureza daquela época.
O contato com um defunto, ou com sangue, deixava a pessoa ritualmente impura,
isso é, inapta para participar do culto. Como o homem estava coberto
de sangue, e talvez morto, estes dois não se arriscavam a tocar nele,
pois para eles o culto religioso era mais importante do que a misericórdia
para com uma pessoa sofrida.
Entra em cena um samaritano. A religião dele era considerada como cheia
de deformações e ignorância pelo judaísmo oficial,
pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a sua prática
religiosa tinha sido contaminada por religiões pagãs (2Rs 17,
24-31). Mas, quando ele vê o sofrimento alheio, ele não pensa em
discussões teológicas sobre pureza; mas, parte para uma ajuda
prática, com misericórdia.
Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista em leis
- mas, faz uma mudança fundamental! Não faz a pergunta teórica
“quem é o meu próximo”, mas uma pergunta prática
“quem se fez próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”
A primeira pergunta só levaria a uma discussão vazia; a de Jesus,
leva a uma mudança de prática vivencial.
Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor era o
samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão: “Vá
e faça a mesma coisa” (v. 37).
Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto, tem prioridade
sobre a ajuda a uma pessoa necessitada. A religião de Jesus não
é teoria, é prática de misericórdia, pois Deus é
misericordioso. O legista já sabia a orientação da Escritura,
mas tentava escapar das suas consequências, criando discussões
inúteis. Nós também sabemos o que diz a Bíblia,
- não tentemos esvaziá-la com debates estéreis sobre quem
é “o pobre”, “o aflito”, “o próximo”,
“o bom”. Façamos o que Jesus ensina nesta parábola
“e viveremos”.
FESTA de SÃO PEDRO e SÃO PAULO (04.07.10)
Mt 16, 13-20
“E vocês, quem dizem que eu sou?”
Aqui temos a versão mateana da profissão de fé de Pedro,
que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Esse
trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é
Jesus? O que é ser discípulo d’Ele? São duas perguntas
interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão
de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem
dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua,
pois não compromete - o “diz que” não compromete ninguém,
pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte
dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos
profetas!” Mas, Jesus não quer parar aqui - essa pergunta foi só
uma introdução. Depois vem a facada: “E vocês, quem
dizem que eu sou?”
Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer - não
será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal! E esta
opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente,
Pedro se arrisca: “O Messias, o Filho de Deus vivo”.
Aqui Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por
conseguinte dos líderes da sua própria comunidade), na função
de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap.
18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino”
não se referem ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar
pessoas da comunidade dos discípulos.
O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo da profissão
de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Mas, continuam
no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é
Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?” Pois, os termos que
Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme
a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha:
“Ele ordenou os discípulos que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias!”
Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como
é que Ele espera angariar discípulos deste jeito? O assunto merece
mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”,
conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus.
Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “o Messias de Deus”.
Pois, cada um pode entender esse termo conforme os seus desejos. Jesus quer
deixar bem claro que ser “messias” para Ele é ser o “Servo
de Javé”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente
vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas,
e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não
o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então. Pedro
teve que aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta
e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite
da sua prisão. Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como
mártir, também morrendo, conforme a tradição, numa
cruz, no Circo de Nero, onde atualmente se localiza a Basílica que traz
o seu nome. Paulo, que durante os seus primeiros anos da vida adulta, perseguia
os discípulos, também teve a graça da conversão,
chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo
e Jesus Cristo Crucificado! Ele também pagou com a sua vida essa decisão
pelo discipulado.
No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”,
sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação
social, o texto nos desafia a clarificar em que Jesus acreditamos!O Jesus “ôba!
ôba!”, tão propagado por setores da mídia; ou, o Jesus
bíblico, o Servo de Javé, que veio para dar a vida em favor de
todos?
Décimo Terceiro Domingo Comum (27.06.10)
Lc 9, 51 –62
“Quem põe a mão no arado e olha para trás não
serve para o Reino de Deus”
No esquema do Evangelho de Lucas, o segundo grande bloco vai de 9, 51 até
19, 28, e consiste em seguir o caminho de Jesus e os seus discípulos,
rumo a Jerusalém. Nestes capítulos, Jesus educa os seus discípulos
sobre o que significa segui-Lo, acreditar n’Ele. Logo antes da viagem,
tem a frase “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome
cada dia a sua cruz, e me siga” (9, 23). No trecho de hoje, Jesus vai
explicitar de novo as exigências para quem quer assumir os desafios do
Reino no seu seguimento.
No início, Lucas enfatiza que Jesus “tomou a firme decisão
de partir para Jerusalém”. Aqui não se trata somente de
decidir de fazer uma viagem, de participar de uma peregrinação.
Muito mais é a decisão de seguir a sua missão até
às últimas consequências, pois Jerusalém será
o local do conflito final entre as forças do Reino, e do anti-Reino,
o local da sua morte e ressurreição. Daqui para frente Jesus assume
mais ainda o papel de pedagogo divino, mostrando pela sua palavra e ações,
pela sua paixão, morte, ressurreição e ascensão,
o caminho que leva ao Pai.
Esta tarefa de educação dos discípulos implica todo um
trabalho de mudar a sua mentalidade, formada pela religião e ideologia
reinantes. Inicia-se com o incidente da aldeia samaritana que não quis
recebê-los. Havia séculos existia uma rixa entre judeus e samaritanos.
Por causa da mistura de raças desde a ocupação assíria
da Samaria depois de 721 aC, (II Rs 17, 24-41), os samaritanos eram desprezados
pelos judeus. Da sua parte, os samaritanos tinham uma grande raiva dos judeus
desde que o rei Asmoneu João Hircano destruiu duas vezes o seu Templo
no Monte Garazim, no fim do segundo século aC. Os discípulos,
representados por João e Tiago, querem demonstrar o seu poder, pedindo
que Deus destruísse a aldeia - mostrando que a sua concepção
do messianismo de Jesus era de poder político e de dominação.
Jesus os repreendeu, pois o Reino de Deus não se constrói como
os reinos terrestres, com força de armas e dominação; mas,
com doação e solidariedade.
Os versículos 57-62 continuam com a lição sobre a natureza
do discipulado. Diante de três possíveis seguidores, Jesus desmancha
as suas ilusões, mostrando que o seguimento d’Ele exige disponibilidade
total, tanto dos bens materiais, como de outras seguranças humanas, como
a família e os laços afetivos, coisas boas em si. Nos faz lembrar
do chamado dos primeiros discípulos no início do Evangelho, que
tiveram de deixar a segurança do emprego, “deixando tudo”
em Lc 6, 11. Também nos recorda o cego Bartimeu, que em Mc 10, 50, antes
de ser curado da cegueira, tem que lançar fora o seu manto - símbolo
da sua única segurança. Para seguir Jesus temos sempre que deixar
alguma segurança. A nossa tendência humana é de querer seguir
Jesus, sem que nos custe nada, colocando a nossa fé e confiança
nas seguranças humanas e não nos valores do Reino. Ou seja, um
seguimento dentro de uma prática religiosa acomodada, confortável,
que pouco ou nada tem a ver com o desafio de Jesus para que “peguemos
a cruz todos os dias e o sigamos” (Lc 9, 23). A radicalidade do discipulado
- que não é privilégio de uma elite religiosa, mas que
provém do batismo - é sublinhada no último versículo
do texto de hoje: “quem põe a mão no arado e olha para trás
não serve para o Reino de Deus”(v. 62). Faz eco a outras frases
evangélicas: “ Não se pode servir a dois mestres”
(Mt 6, 24), “Não é possível servir a Deus e ao dinheiro”
(Mt 6, 24), “vende tudo o que tens, dá os pobres e segue-me”
(Lc 18, 22) . Ser discípulo/a de Jesus envolve toda a nossa vida, não
é uma adesão intelectual somente, mas uma mudança radical
em nossa maneira de ver e julgar a realidade ao nosso redor, e de agir diante
dela. Ser cristão não é ter uma religião de consolações,
mas o consolo de uma religião que nos compromete com o projeto do Pai
e de alguma maneira nos levará até a Cruz - e a Ressurreição.
É deste tipo de seguimento que o nosso mundo de hoje tanto precisa. Cabe
a cada um/a descobrir o que este desafio significa na prática, na realidade
da sua vida.
DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (20.06.10)
Lucas 9, 18-24
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a
sua cruz e me siga”
Aqui temos a versão lucana da profissão de fé de Pedro,
que Marcos põe no caminho de Cesaréia de Filipe (Mc 8, 27-35)
e coloca como pivô de todo o seu evangelho. Este trecho levanta as duas
perguntas fundamentais de todos os evangelhos:
- quem é Jesus?
- o que é ser discípulo d’Ele?
São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito
da primeira. A minha visão de Jesus, determinará a maneira do
meu seguimento dele.
O trecho inicia-se com Jesus em oração. Uma atitude típica
de Jesus em Lucas. Muitas vezes no Terceiro Evangelho, especialmente antes de
momentos importantes na sua vida, Jesus se acha em oração. Pois
ele faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua:
“Quem dizem as multidões que eu sou?”
É inócua, pois não compromete - o “diz que”
não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros.
Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João
Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”. Mas Jesus não
quer parar aqui, - esta pergunta foi só uma introdução.
Depois vem a facada!:
“E vocês, quem dizem que eu sou?”
Agora não chove respostas, pois quem responde vai se comprometer - não
será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal! Esta
opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente,
Pedro se arrisca: “O Messias de Deus”.
Mas a reação de Jesus é no mínimo estranha!:
“Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”.
Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como
é que ele espera angariar discípulos deste jeito? O assunto merece
mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”,
conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus.
Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”.
Pois cada um pode entender este termo conforme a sua cabeça, conforme
os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “Messias” para
Ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar
o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as
autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe
dominante do seu tempo:
“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos,
pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar
no terceiro dia”. (v 22)
Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum - em geral
o pessoal esperava um Messias triunfante, glorioso, guerreiro. Marcos nos mostra
que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus,
e de ganhar de Jesus uma correção dura: “Fique atrás
de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as
coisas dos homens”. (Mc 8,33)
Não basta ter os termos e títulos certos - temos que ter o conteúdo
certo. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem
e semelhança, mas na verdade, nós criamos Deus em nossa imagem,
e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência
é de seguir um Messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas,
para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar
nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie
a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga”. (Lc 9,23)
O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes
e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes
contrários ao Evangelho. Carregar a cruz, não é aguentar
qualquer sofrimento, não. Assim, a religião seria masoquismo!
Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com
o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer
o que Jesus fazia, mas o que Ele faria, se estivesse aqui hoje. Como Ele foi
morto, não pelo povo mas por grupos de interesse bem claros “os
anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”, (a elite
dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seus
seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os
mesmos interesses. Por isso, sempre haverá a tentação de
criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado
à uma religião intimista e individualista, sem consequências
políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação
de Pedro, conforme o relato de Marcos.
O texto faz ressoar para cada um de nós as duas perguntas de Jesus. É
fácil responder o que os homens dizem d’Ele - o que dizem o Papa,
o Bispo, o catequista, os teólogos, a TV. Mas esta pergunta não
é tão importante. É a segunda que cada um tem que responder:
“Quem é Jesus para mim?” E a resposta se dará não
tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos
quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas
opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos
da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não
seja exigente, que não traz consequências sociais, que não
nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Pois o Jesus real, o Jesus
de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro:
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a
sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la;
mas quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc
9,24)
DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (13.06.10)
Lucas 7, 36 - 8, 3
“A quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor”
O trecho de Lucas de hoje - por sinal riquíssimo - trata de três
temas característicos deste Evangelho:
- a misericórdia de Deus
- o relacionamento de Jesus com as mulheres
- o perigo que todos nós corremos de nos considerarmos “justos”,
desprezando os outros.
Lucas é um verdadeiro artista de palavras. Seria quase impossível
ler ou ouvir esse trecho sem imaginar a cena. Jesus e os convidados, não
sentados à mesa, mas deitados sobre almofadas; a chegada da mulher, desprezada
na vila por todos, com certeza sentindo-se humilhada, mas movida por uma força
maior, que a faz enfrentar corajosamente o desprezo dos outros e penetrar por
dentro da casa de um fariseu - coisa inédita! Mas quem é impulsionado
pelo amor e pela experiência de Deus não mede esforços.
Depois, as lágrimas - não de tristeza, mas de gratidão,
de alívio, de uma profunda alegria do ser - o enxugar dos pés,
o perfume.
E a reação de Simão, o fariseu! Ele, que se julga “justo”
e não “pecador”, - e com razão, segundo os critérios
da sociedade e da religião oficial do tempo - se dá o direito
de julgar tanto a mulher, como a Jesus. Para ele - como para muitos de nós
- ser justo é cumprir as leis, e assim deixar de ser pecador. Cumprir
as leis, Simão faz com afinco! Assim, ele se justifica (se torna justo),
dispensando, na realidade, a graça e o perdão de Deus. Quem considera
que não esteja necessitado de perdão, jamais será capaz
de entender a sua força transformadora, que nos capacita para o amor.
Jesus, porém, reage de uma maneira bem diferente. Através da parábola
dos dois devedores, ensina que é a experiência de ser perdoado
que leva ao amor. Não o contrário! A mulher na história
não foi perdoada porque ela antes muito amou, mas muito amou porque ela
foi antes perdoada! O amor é a consequência da ação
do perdão de Deus. Quem nunca foi perdoado, dificilmente vai perdoar;
quem nunca foi amado, terá dificuldade em amar. O perdão de Deus
não é a reação d’Ele à nossa iniciativa
de amar - pelo contrário, é Deus quem toma a iniciativa de perdoar,
e essa experiência de sermos perdoados nos capacitará para que
possamos amar. O nosso amor é a nossa resposta à iniciativa gratuita
e amorosa do Pai - não temos que conquistar este amor e este perdão,
nem merecê-los, mas aceitá-los, assumi-los e responder a eles.
Todos nós corremos o risco de agirmos como Simão! Muitas vezes
temos recebido uma formação espiritual que na verdade era em grande
parte “farisaica”, baseada no cumprimento de leis e práticas
externas de piedade, que são importantes, como se nós pudéssemos
nos justificar diante de Deus. Temos de refazer a experiência de Paulo,
fariseu ferrenho, que descobriu que nenhuma prática religiosa - por tão
importante que seja - pode nos justificar. A vida de Paulo mudou quando ele
fez a experiência da gratuidade do amor de Deus, e o resto da sua vida
foi uma resposta a este amor gratuito. Mas a consequência de uma formação
errada pode ser de nos darmos o luxo de julgar, classificar e desprezar os outros,
que são “pecadores”, conforme os nossos critérios.
Cuidemos com o fermento dos fariseus!
Este trecho dá grande destaque às mulheres. Jesus rompeu com as
tradições patriarcais e machistas do seu tempo. Não só
se deixou tocar por mulheres “pecadoras” - assim, se tornando impuro
conforme as leis do tempo - como se fez acompanhar nas suas andanças
pela Galiléia por várias mulheres, que faziam parte do seu grupo
de seguidores/as. Não é claro se Lucas salienta este ponto para
refletir a grande liderança de mulheres nas suas comunidades, ou, pelo
contrário, para contestar uma tendência machista de cortar esta
liderança, lembrando aos seus leitores que Jesus não aceitava
nenhuma discriminação baseada em gênero. Durante séculos,
a Igreja, em grande parte, perdeu esta novidade de Jesus, assumindo os padrões
patriarcais e machistas da sociedade dominante. Devemos voltar a esta visão
de fraternidade e igualdade entre homens e mulheres, como pede o Papa João
Paulo II na sua Exortação Apostólica “Vita Consacrata”,
quando ele conclama as mulheres a serem protagonistas de um “novo feminismo”(VC
58):
“Por certo, não se pode deixar de reconhecer o fundamento de muitas
reivindicações relativas à posição da mulher
nos diversos âmbitos sociais e eclesiais. Do mesmo modo, é forçoso
assinalar que a nova consciência feminina ajuda também os homens
a reverem os seus esquemas mentais, o modo de se autocompreenderem, de se colocarem
na história e de a interpretarem, de organizarem a vida social, política,
econômica, religiosa, eclesial.” (VC 57)
Que o Evangelho de Lucas nos ajude a recuperarmos as atitudes de Jesus, para
que as nossas comunidades sejam realmente comunidades de fraternidade, igualdade,
perdão, misericórdia e amor!
DÉCIMO DOMINGO COMUM (06.06.10)
“Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela”
Lucas 7,11-18
De novo, nos deparamos com um dos temas centrais de Lucas - a compaixão
de Jesus, ou melhor, a compaixão de Deus manifestada em Jesus. Em qualquer
sociedade, em qualquer época, a morte do filho único de uma viúva
seria trágica. Mas na sociedade patriarcal do tempo de Jesus, mais ainda.
Pois uma mulher, sem marido e sem filho, seria totalmente desamparada, sem segurança
qualquer.
“Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela” (v.13).
Ele nem a conhecia, não sabia se era “gente boa”, “gente
de fé”, ou não. Bastava ver o seu sofrimento para que Jesus
sentisse compaixão dela. Lucas aqui desafia a todos nós para que
superemos o moralismo e a mania de julgar, para simplesmente ver as pessoas
com os seus sofrimentos como Jesus as vê; para termos “coração
de carne e não coração de pedra” (Ez 36, 26). Peçamos
este dom - pois realmente é uma graça de Deus!
Jesus disse-lhe “Não chore!” Quantas vezes ouvimos estas
palavras de “pano quente” dirigidas às pessoas sofridas,
para que escondam o seu pranto e parem de nos incomodar. Mas, na boca de Jesus,
não são meras palavras paliativas - mas garantia de esperança!
Ele não conforta com palavras vazias, mas faz o que pode. Tais palavras
só têm sentido quando pronunciadas por pessoas solidárias,
que tomam passos concretos para aliviar as dores alheias.
“E Jesus o entregou à sua mãe”(v 15b).
Com essa frase, Lucas evoca a figura do Profeta Elias, que devolveu o filho
único morto à viúva de Sarepta (1Rs 17, 23). Nesse gesto
de Jesus, feito em solidariedade e com compaixão, a multidão vê
a presença do Deus misericordioso e amoroso:
“Glorificavam a Deus dizendo: “Um grande profeta apareceu entre
nós, e Deus veio visitar o seu povo.” (v.16)
É certo que nós não temos poder de ressuscitar fisicamente
os defuntos - mas podemos lutar pela vida, pela saúde, contra a morte
prematura, em favor de um sistema social adequado de saúde! Podemos ressuscitar
pessoas desanimadas, com palavras de coragem e ânimo: “O Senhor
Javé me deu a capacidade de falar como discípulo, para que eu
saiba ajudar os desanimados com uma palavra de coragem.” (Is 50,4)
Podemos sentir e manifestar compaixão, ser solidários, ser sinal
da presença do Deus de vida. Lucas nos desafia mais uma vez, para que
a nossa vivência cristã leve os sofridos a dizer:
“Realmente Deus visitou o seu povo!”
FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (30.05.10)
Jo 16, 12-15
“O Espírito não falará em seu próprio nome”
Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima
Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja
tinha dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza
do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima
do Credo Niceno-Constantinopolitano, tão pouco usado nas celebrações
de hoje, onde celebra o Pai “criador de todas as coisas”, do Filho,
“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado,
não criado’, e o Espírito que “dá a vida, e
procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão
profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível
à mente humana, não seria Deus.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes
à Trindade, especialmente no último Discurso de Jesus. Nesses
capítulos (13-17) ele é representado como o Paráclito,
uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado da Defesa. Em
diversos textos, João expressa a função do Espírito
dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16, de onde
se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário; vv. 13-15 se referem
ao Espírito; vv. 16-22 a Jesus; vv. 23-27 ao Pai.
No texto de hoje a função do Espírito de ensinar é
enfatizada. Como em Cap. 14, num texto paralelo, esse ensinamento não
trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do Pai e o Paráclito
recebe tudo de Jesus. Mas, o ensinamento d’Ele vai fazer com que os discípulos
compreendam melhor o que significava o ensinamento que receberam de Jesus. Vai
fazer com que eles “recordem” as suas palavras, e assim consigam
colocá-las em prática. O termo “verdade” que se usa
neste tem o mesmo sentido que tem em outros textos do Quarto Evangelho, isso
é, a fé em Jesus como a revelação de Deus e quem
fala as palavras de Deus (Jo 3, 20.33; 8, 40.47).
Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar
o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única
natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas
para expressar o que no fundo é inexprimível, é descobrir
o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã.
Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus
“criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou;
e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança
de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade
perfeita, na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na
medida em que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é
destinado à frustração e infelicidade, pois está
negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação
de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados
na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois
é Trindade. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social,
econômico e religioso é tido como critério fundamental da
vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação
comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça,
no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança
deste Deus que e amor e comunhão. A festa de hoje não é
de um mistério “matemático” - como pode ter três
em um? - mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos
comunitariamente na sua imagem e semelhança.
DOMINGO DE PENTECOSTES (23.05.10)
At 2, 1-11
“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”
A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a
comunidade dos discípulos, em duas tradições - as de Lucas
(Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos
olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda
muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois
no Evangelho de João, a Ressurreição, a Ascensão
e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto
Lucas separa os três eventos, dentro de um período de cinqüenta
dias. Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos
dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição
e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de
Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto
do Espírito Santo” (Lc 4,1) e se lançou na sua missão
“com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade
cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica
de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos
do Espírito Santo” (At 2,4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um
relato uniforme e coeso - mas isso se deve à habilidade literária
do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de
duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições:
a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e
apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética
e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos
se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos,
os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos
do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas
diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos
estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram, assíduos na
oração” (At 1,14). Quer dizer, a descida do Espírito
não é algo mágico, mas consequência da unidade na
fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos
da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o
som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da
descida do Espírito é o “falar em outras línguas”
(não o “falar em línguas” - glossolalia - tão
valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para
um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível
da presença do Espírito não é mais o falar em outras
línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na
sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1,
6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”.
Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir”
na sua própria língua (vv. 6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar
que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético
- de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem,
que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade,
do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças,
áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as
maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do Evangelho
não exige o abandono da identidade cultural. Contesta a dominação
cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura
específica. Durante séculos, este fato foi esquecido nas Igrejas,
e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia.
Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”,
de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais
das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre
de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto
de dominação (uma torre até o céu!) que foi destruído
por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar
o Evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação
da Igreja de uma seita judaica em uma comunidade universal, missionária,
mas, não proselitista, comprometida com a construção do
Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que
a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é
uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito
Santo: em uma comunidade em oração dentro de uma casa (At 4, 31),
sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos
ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois
o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino
de Deus. Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação
missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a
língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a
mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.
FESTA DA ASCENSÃO DO SENHOR (16.05.10)
Lc 24, 46-53
Afastou-se deles e foi levado ao céu.
Aqui temos o último trecho do Evangelho de Lucas. Quase todo o conteúdo
deste capítulo é encontrado somente em Lucas, e revela bem o seu
pensamento. Podemos dizer que o Evangelho todo culmina na postura dos discípulos,
descrita em versículo 52: “Eles o adoraram”. Esta é
a primeira e única vez que Lucas diz que os discípulos adoraram
Jesus. Aqui há uma aproximação entre a cristologia de Lucas
e a de João em Jo 20, 28.
O trecho abre com uma frase que faz lembrar os dois discípulos na estrada
de Emaús: “Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras”
(v. 45). Vale a pena salientar que ele fez que eles “entendessem”
as Escrituras - não que as “conhecessem”, pois estavam bem
a par de tudo que as Escrituras falavam! O problema deles - como dos dois de
Emaús - era de entender como as Escrituras podiam iluminar a sua caminhada,
na sua situação concreta.
Lucas frisa que o anúncio do Evangelho incluirá a grande Boa Nova
do perdão dos pecados. Essa Boa Notícia “será anunciada
a todas as nações, começando por Jerusalém”
(v. 47). Aqui explica como a salvação chegará aos outros
povos - através da pregação e testemunho das comunidades
cristãs. Por isso devemos entender a frase “E vocês são
testemunhas disso” (v. 48) como referente não só aos Onze,
mas a todos os discípulos e discípulas de Jesus! Podemos lembrar-nos
de Lc 24, 9.33 - onde enfatiza que além dos Onze, estavam também
presentes “os outros”. Isso é importante para que não
caiamos na cilada de achar que a missão de testemunhar os valores do
Reino seja algo reservado aos ministros ordenados. O Documento de Aparecida
insiste muito que não é possível ser discípulo/a
de Jesus sem ser missionário/a. Essa incumbência, e privilégio,
vem do nosso batismo! As comunidades poderão contar com um poderoso ajudante
nesta missão gostosa, mas árdua - o Espírito Santo, prometido
pelo Pai: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu” (v.
49). O comprimento dessa promessa será graficamente descrito na continuação
da obra de Lucas, nos primeiros dois capítulos dos Atos dos Apóstolos.
O último parágrafo contém numerosas referências a
Lc 1, 5 - 2, 25. O texto grego usa o verbo que no Antigo Testamento é
usado para descrever o Êxodo, quando diz: “Jesus levou os discípulos
para fora da cidade” (v. 50). Para Lucas, Jesus está prestes a
completar o seu Êxodo ao Pai. Mas antes, “Ergueu as mãos
e os abençoava” ( v. 50b). É a única vez que no Evangelho
de Lucas se diz que Jesus abençoou alguém. No fim da liturgia
da sua vida, Jesus dá a sua bênção final aos que
vão continuar a sua missão! Os discípulos sentem grande
alegria - um tema destacado no início da vida de Jesus, no seu nascimento
em Belém, quando os anjos trouxeram notícias de grande alegria!
A alegria prometida no início está presente no fim! Por isso,
os discípulos se encontram no Templo, onde Jesus foi apresentado e onde
Simeão louvou a Deus. O Evangelho de Lucas conclui afirmando que eles
também “Estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.” (v.
53). O autor termina enfatizando a resposta que os seus leitores devem dar,
na medida em que eles aceitam que em Jesus chegou a nossa salvação,
através da ação gratuita do Deus misericordioso! Esta resposta
de bendizer a Deus não é somente com os lábios, mas com
uma vida dedicada e missionária, no seguimento de Jesus de Nazaré
e comprometida com a construção de comunidades e sociedades alternativas,
baseadas na partilha e na solidariedade. Esse é um dos grandes temas
da segunda parte do Evangelho de Lucas, que nós conhecemos como “Atos
dos Apóstolos”, um dos livros bíblicos preferidos no estudo
bíblico nas comunidades de hoje.
SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (09.05.10)
Jo 14, 23-29
Eu lhes dou a minha paz
A porta de entrada do texto é o versículo anterior, onde Judas,
não o Iscariotes, pergunta a Jesus durante a Última Ceia, “porque
vais manifestar-se a nós e não ao mundo?” (v. 22). Jesus
dá a resposta - o Pai vem morar no cristão que guarda a sua Palavra,
pois as suas palavras são as do Pai. O mundo (aqui entendido como o anti-reino,
não o mundo físico) não ama a Deus. A presença de
Deus só pode ser experimentada por quem que o ama. Não é
possível amar a Deus sem guardar a sua Palavra.
Versículo 26 traz a segunda predição no Último Discurso
da vinda do Paráclito (Jo 14,15). Aqui se focaliza mais o seu papel de
ensinamento, um ensinamento que clarifica o que Jesus ensinou. Ele vai fazer
com que os discípulos “lembrem” tudo o que Jesus disse. Aqui
“lembrar” significa a capacidade de entender o verdadeiro sentido
das palavras e ações de Jesus, depois da Ressurreição
(2, 22; 12,16). O Espírito Santo, aqui descrito como Paráclito
(no sistema judicial grego, o Paráclito era o advogado da defesa), não
trará ensinamento que seja independente da revelação de
Jesus. Ele vai preservar os discípulos de erro e guardá-los perto
de Jesus.
Com este dom, Jesus deixa com a sua comunidade a sua paz. Ele usa a palavra
tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada
na vinda do Espírito, que será atualizada na noite de Páscoa
quando dirá: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito
Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo
a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Frequentemente
a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força
das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo
sofrido - como tantos países experimentaram durante as ditaduras de direita
e da esquerda. O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o
seu povo. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a
satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana,
da libertação da humanidade do pecado e das suas consequências.
Como dizia o saudoso Papa Paulo VI, “Justiça é o novo nome
da paz!”. O “shalom” dos discípulos não pode
ser perturbado pelo fato da sua partida, pois é através da volta
do Filho para o Pai que o Shalom vai se instalar.
O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus. Mas precisa
da colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de
tanta violência no campo e na cidade, da exploração do latifúndio,
da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos
no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que
tiram da maioria (ou de uma minoria) os direitos básicos que pertencem
a todos os filhos/as de Deus. Às vezes, este shalom convive ao lado do
sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta
na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade
da frase do texto de hoje, “não fiquem perturbados, nem tenham
medo” (v 27), pois disse Jesus, “eu venci o mundo”. Por isso
devemos sempre “fazer a memória de Jesus” (aqui destaca-se
o momento privilegiado da celebração eucarística) - da
sua pessoa e do seu projeto, para que tenhamos critérios certos para
verificar a presença - ou ausência - do “shalom” na
nossa sociedade e nos comprometemos com a criação do mundo mais
justo que Deus quer.
QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA (02.05.10)
Jo 13, 31-33ª 34-35
Amem-se uns aos outros
Este texto situa-se no contexto do último discurso de Jesus, na Ceia
Pascal. Começa logo após a saída de Judas para trair Jesus,
depois que Jesus lhe disse “o que você pretende fazer, faça-o
logo” (Jo 13, 27). Com a licença oficial dada ao agente de Satanás
para iniciar o processo que iria matá-lo, Jesus começa o processo
da sua glorificação. A sua fidelidade ao projeto do Pai vai levá-lo
à Cruz, que, no Quarto Evangelho, não é um sinal de derrota,
mas da vitória última e permanente de Deus. Por isso, a morte
de Jesus, aparente vitória do mal, será a glorificação
de Jesus, e n’Ele, do Pai.
O anúncio da sua partida, para os judeus uma ameaça (v. 33), é
para a comunidade dos seus discípulos um momento de emoção
e carinho. A sua última dádiva a eles é um novo mandamento:
“eu dou a vocês um novo mandamento: amem-se uns aos outros. Assim
como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros.” (v.
34).
O que há de novo neste mandamento? O que diferencia a proposta de amor
de Jesus e dos seus seguidores de outras propostas já conhecidas? O mundo
do tempo de Jesus, tanto na sociedade pagã como judaica, conhecia propostas
de amor mútuo. O mandamento de Jesus é novo em primeiro lugar
porque ele se impõe como exigência essencial para entrar na comunidade
“escatalógica”. Essa é a comunidade que já
experimenta a presença do Reino de Deus, mesmo que ainda espere a sua
plena realização, ou seja, uma comunidade que experimenta a salvação
já realizada em Jesus, enquanto ainda experimenta a sua situação
permanente de fraqueza. Também é novo, porque não se fundamenta
nas leis sobre o amor, da tradição judaica (p. ex. Lv 19, 18,
ou os documentos do Qumrã), mas na entrega de si, de Jesus. O modelo
deste amor é o exemplo do próprio Jesus “assim como eu vos
amei!”. E como Ele nos amou? Entregando-se até a morte, para que
todos pudessem “ter a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10). Este
amor não é sinônimo de simpatia ou sentimento de atração.
Exige humildade e a disposição para o serviço que leva
a morrer pelos outros. Este “morrer” normalmente não se expressa
através de uma morte física, mas morrendo diariamente ao egoísmo
e à busca do poder dominador, para que sejamos servidores, especialmente
dos mais humildes, ao exemplo do Mestre que “não veio para ser
servido, mas para servir”. (Mc 10, 45)
Este amor e tão fundamental para a comunidade dos discípulos de
Jesus que deve se tornar o seu sinal característico: “assim todos
reconhecerão que vocês são meus discípulos”
(v. 35). Mais do que uma lista de doutrinas, mais do que práticas litúrgicas
ou rituais, embora essas tenham o seu lugar, é o amor mútuo e
concreto que deve distinguir os discípulos de Jesus. Os Atos dos Apóstolos
nos lembram que “foi em Antioquia que os discípulos receberam,
pela primeira vez, o nome de “cristãos” (At 11, 26). Receberam
uma nova designação, da parte dos outros, porque a sua maneira
de viver era marcadamente diferente das outras comunidades religiosas da cidade
- era marcada pelo amor mútuo. O evangelho de hoje nos convida para que
honestamente nos examinemos a nós mesmos, para verificar se este amor-serviço
ainda é a marca característica de nós, discípulos/as
de Jesus, na nossa vida individual e comunitária!
QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA (25.04.10)
Jo 10, 27-30
“O Pai e eu somos um”
O texto de hoje situa-se no contexto de uma polêmica nos arredores do
Templo, entre Jesus a as autoridades judaicas, na ocasião da Festa da
Dedicação do Templo. Nos versículos anteriores, as autoridades
desafiaram Jesus para que se declarasse abertamente o Messias. Ele respondeu
que já tinha mostrado isso muitas vezes, através das suas obras,
mas que eles não queriam acreditar, pois não eram as suas ovelhas.
Assim, fica claro que as ovelhas são os discípulos, pois o verdadeiro
discípulo ouve a palavra do Senhor e o segue. São conhecidos por
Ele - e aqui cumpre lembrar que na linguagem bíblica, a palavra “conhecer”
tem conotações mais profundas do que no nosso uso comum. Significa
não tanto um saber intelectual, mas uma intimidade profunda do amor.
Assim, a bíblia muitas vezes até usa o verbo “conhecer”
para significar relação sexual. Assim, Maria questiona o anjo,
pois Ela “não conhece” homem (Lc 1, 34). O verdadeiro discípulo
é aquele ou aquela que realmente tem um relacionamento de intimidade
com Deus e que põe em prática a sua palavra. E quem conhece Jesus,
conhece o Pai, pois “o Pai e eu somos um”, como diz Jesus no nosso
texto.
O versículo 28 afirma que Jesus dá a vida eterna aos seus seguidores.
Esse é um tema típico de João; e, outros textos do evangelho
podem nos ajudar a aprofundá-lo. No Último Discurso, Jesus explica
em quê consiste a vida eterna: “A vida eterna é esta: que
eles conhecem a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste,
Jesus Cristo” (Jo 17, 3). Mais uma vez, liga o conceito da vida eterna
com O de “conhecer”. Mas em que consiste “conhecer”
a Deus?
O profeta Jeremias pode esclarecer. Em um trecho contundente, onde ele enfrenta
o Rei Joaquim e o condena por não pagar os salários dos seus operários
na construção do seu palácio, Jeremias diz o seguinte,
referindo-se ao falecido rei justo Josias: “Ele julgava com justiça
a causa do pobre e do indigente; e tudo corria bem para ele! Isso não
é conhecer-me? - oráculo de Javé” (Jr 22, 16). Conhecer
Deus não é em primeiro lugar um exercício intelectual,
mas uma atitude de vida - a prática da justiça, especialmente
em favor do oprimido e fraco. Segundo João, então, a vida eterna
é o prêmio de quem pratica a justiça de Deus - proposta
dos discípulos de Jesus - e não dos que “sabem” muita
coisa sobre Deus, mas que não praticam a justiça - representados
no texto de hoje pelas autoridades do templo.
O nosso texto nos traz motivo de muita coragem, pois, afirma que ninguém
vai arrancar o verdadeiro discípulo da mão de Jesus (v. 28). Mas,
também nos desafia para que verifiquemos se somos realmente discípulos
verdadeiros, se conhecemos Jesus e o Pai, isto é, se praticamos a justiça
do seu projeto. Pois, a prova de ser verdadeiro discípulo está
na prática das obras do Pai, e não no conhecimento teórico
de religião.
Terceiro Domingo da Páscoa (18.04.10)
Jo 21, 1-19
“É o Senhor!”
Quase todas as traduções da Bíblia intitulam o capítulo
21 de João como “Apêndice” ou “Epílogo”.
Realmente, em uma primeira edição, o evangelho terminava no capítulo
20. Mas, devido a uma situação nova nas comunidades, se tornou
necessária a adição do último capítulo. Essa
situação era a fusão de dois tipos de comunidades cristãs
- as da tradição sinótica ou apostólica, e as da
tradição da comunidade do Discípulo Amado. Essa fusão
aconteceu pelo fim do primeiro século e é simbolizada nos versículos
15-18, onde Pedro recebe a primazia e a missão de pastor dos discípulos.
Mas, somente depois de ter afirmado três vezes que amava Jesus (lembrando
que ele tinha negado o Senhor três vezes na paixão). A comunidade
do Discípulo Amado aceita a função apostólica de
Pedro; mas, insiste que antes de ser apóstolo é mais fundamental
ser discípulo - ou seja, amar Jesus.
A primeira parte do texto (vv. 1-14) tem grandes semelhanças com a história
da “pesca milagrosa” de Lucas (Lc 5,1-11). Mas, o contexto pós-ressurrecional
é diferente. Como sempre, no Quarto Evangelho, devemos prestar atenção
aos símbolos - sejam eles pessoas, eventos, ou números. Chama
a atenção que - embora seja a terceira aparição
de Jesus - os discípulos não o reconhecem. Isso demonstra que
a presença de Jesus depois da Ressurreição, embora real,
não é igual à sua presença durante a sua vida terrestre.
Quem O reconhece primeiro é o Discípulo Amado - pois só
quem vê com olhos de amor reconhece e vê além das aparências.
Como foi o amor que o levou a correr mais depressa ao túmulo do que Pedro
em Cap. 20, é o amor que faz com que ele seja o primeiro a reconhecer
a presença de Jesus ressuscitado. Ele é o Discípulo Amado
e que ama. Pedro o será somente depois da sua profissão de amor
(vv. 15-17).
A pesca simboliza a missão dos discípulos. Segundo muitos estudiosos,
o número de 153 peixes se baseia no fato de que os zoólogos gregos
da antiguidade achavam que existiam no mundo 153 espécies de peixe. Então,
o Evangelho está dizendo que a Igreja (simbolizada pela rede) pode abraçar
o universo inteiro - todos os povos e culturas. É interessante que -
diferente da história em Lucas - a rede não se rompe! A diversidade
de culturas, tradições e povos constitui uma riqueza para a Igreja
e não deve levar a rompimento da unidade, sem que se imponha a uniformidade
(a palavra grega que João usa para “romper” é “schisma”).
Certamente essa visão deve desafiar e questionar tantas tendências
de centralização e rigidez que existem na Igreja hoje!
O nó da questão está na entrega da missão a Pedro.
Ele deve ser o Bom Pastor das ovelhas e dos cordeiros - dos membros das comunidades.
Mas, as ovelhas não são dele - ele é apenas o Pastor -
as ovelhas pertencem ao Senhor! Aqui Pedro recebe esta grande missão,
que nos sinóticos ele recebe na estrada de Cesaréia de Felipe.
Mas, mais importante do que a sua função é a sua vocação
de discípulo - aquele que ama e segue o Senhor. Só quem ama Jesus
profundamente poderá pastorear os seus seguidores. Se, no primeiro capítulo
do Evangelho, Pedro veio a Jesus por mediação do seu irmão
André (Jo 1, 40-42), agora recebe o convite do próprio Mestre:
“Siga-me", pois no amor Ele fez a opção pelo discipulado.
Todos nós recebemos o mesmo convite: “Siga-me”. Seja qual
for a nossa função e missão na Igreja, elas só terão
sentido na medida em que realmente amarmos Jesus - um amor que só é
autêntico se amarmos os outros, na luta comum em favor da construção
de um mundo onde todos/as possam “ter vida e vida em abundância”
(Jo 10,10), pois “se Deus nos amou a tal ponto, também nós
devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,11).
SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (11.04.10)
Jo 20, 19-31
“A Paz Esteja Com Vocês”
No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição
aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus
que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa
nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles; mas, somente a alegria
e a paz que Ele já tinha prometido no último discurso. Duas vezes
Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos: “A
paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir
- embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”,
que é muito mais do que “paz”, conforme o nosso mundo a compreende.
“Shalom”, e palavras derivadas, ocorrem mais de 350 vezes no Antigo
Testamento. O “Shalom” é a paz que vem da presença
de Deus, da justiça do Reino. É tudo que Deus deseja para todos
os seus filhos e filhas. Como disse o saudoso Papa Paulo VI: “A justiça
é o novo nome da paz”. O Shalom inclui tudo o que Deus quer para
o seu povo! Jesus não promete a paz do comodismo; mas, pelo contrário,
envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino.
Promete o Shalom, pois Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade
ao projeto de Deus. Podemos dizer que o Shalom tem dois aspectos inseparáveis
- é dom e desafio para os cristãos. É dom, porque somente
Deus pode dá-la; é desafio, pois tem que ser construído
dia após dia na vida pessoal, familiar, comunitária e social de
cada pessoa.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (o mesmo termo é
usado) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida (Gn
2, 7); Jesus os recria com o Espírito Santo. Normalmente imaginamos o
Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes; mas,
aquilo (relatado por Lucas em Atos) era como a descida oficial e pública
do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo, no plano
teológico do autor. Para João, o dom do Espírito, que por
sua natureza é invisível, flui da glorificação de
Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com
o perdão dos pecados.
Mais uma vez, no primeiro dia da semana, Jesus aparece aos discípulos
(notemos a ênfase sobre o Domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé
está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina
do fim do século, que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado,
diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim nos representa,
quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras:
“Felizes os que acreditaram sem ter visto!”. Essa, muitas vezes,
será a realidade da nossa fé: acreditar contra todas as aparências
que o bem é mais forte do que o mal e a vida do mais forte que a morte!
Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do
Ressuscitado vão nos dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé
(Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos
deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento
crescente de quem Ele era; aqui, Tomé lhe dá o título final
e definitivo: Jesus é Senhor e Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho
terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais
tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”.
Agora, ele repete essa afirmação e abençoa todos os que
a aceitam baseados na fé! A meta do evangelho foi alcançada: mostrar
a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.
DOMINGO DE PÁSCOA (04.04.10)
Jo 20, 1-9
“Ele viu e acreditou”
Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição,
cada um de acordo com as suas tradições e visão teológica.
Mas certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio,
que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu
número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir
o corpo, ou para vigiar e lamentar), e que uma delas era Maria Madalena. Podemos
tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante
entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis
do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente,
outras gerações fizeram questão de diminuir a importância
das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até
hoje as consequências.
Fica claro que ninguém esperava a Ressurreição. Para os
Doze, especialmente, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão
possível. Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus
(por revolta, por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado
entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio chegou Maria Madalena com
a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente,
pensava que o corpo tivesse sido roubado. Ressurreição - nem pensar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais)
e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um
dos Doze, conforme os maiores exegetas) correm até o túmulo. O
texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade
do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por
Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia),
mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita.
No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo
21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13.
Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra
além das aparências!
Como na história dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-36),
o texto demonstra que a nossa fé não pode estar baseada num túmulo
vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé
na Ressurreição, mas o contrário - e a experiência
da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo
está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa
fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil
não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto
sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção
endêmica, pobreza exagerada, terremotos etc! Só uma experiência
profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá
nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final
do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado!
Nós todos somos “discípulos amados”, pois “nada
nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8), mas será que
somos “discípulos amantes”? Será que amamos a Jesus
e ao próximo? Lembramos que o amor proposto pelo evangelho, não
é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha,
de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós
que amamos a Deus; mas, foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como
vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto,
também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).
Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre
a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar
muito em nossas vidas!
DOMINGO DE RAMOS (28.03.10)
“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”
Lucas 19, 29-40
* Como seria impossível fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma
reflexão tão curta, refletiremos sobre o Evangelho da procissão.
Quase não há comunidade católica no Brasil que não
comemore hoje, com muita alegria , a entrada de Jesus em Jerusalém. São
organizadas procissões, o povo abana ramos, se celebram encenações
do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns,
hoje fazem questão de não perder a procissão. Porém,
para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é
importante estudar o que significava este evento para Jesus, e para o evangelista.
Dificulta o nosso entendimento da passagem a nossa pouca familiaridade com o
Antigo Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias: “Dance
de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém,
pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre,
vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará
a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de
mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9-10).
Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como
“os pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias libertador.
Nesse grupo encontravam-se Maria e José, e os discípulos de Jesus.
Foi dentro desta espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava
as características do messias - seria um rei, “justo e pobre”,
não de guerra, mas de paz! Viria estabelecer uma sociedade diferente
da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) -
onde os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos! Seria uma
sociedade onde, entre outros elementos, a economia estaria a serviço
da vida! Um rei jamais entraria numa cidade montado em um jumento - o animal
do pobre camponês, mas num cavalo branco de raça! Jesus, fazendo
a sua entrada assim, faz uma releitura de Zacarias, e se identificou com o rei
pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!
Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em
Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Governante
dos nossos tempos - com pompa, imponência, e demonstração
de poder e força. O contrário do que Jesus fez! Chamamos o evento
da “entrada triunfal de Jesus” - e realmente foi, mas como triunfo
de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor! Nada mais longe
do sentido original desse evento do que manifestações de poderio
e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho
de Jesus!
O texto convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus
- mas, será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus
rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos
um outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder
e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? Essa semana foi o
ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus - das suas opções
concretas em favor dos oprimidos, do seu desafio à religião oficial
que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas
e econômicas da sua proposta de uma sociedade justa e igualitária,
manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou
os poderosos, romanos e judeus, a tramarem a sua morte. É importante
lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequência da sua
vida - é impossível entender o que significa a Semana Santa sem
ligá-la com o resto da vida de Jesus e com a sua proposta para a sociedade
e para os seus seguidores. Jesus não morreu - foi morto porque incomodava,
como continua a incomodar ainda hoje os que continuam com o sistema opressor
que é a expressão do anti-Reino, mesmo quando disfarçado
com discurso religioso, como se fazia no Templo.
Nos adverte um canto usado nas celebrações de hoje: “Eles
queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram
n’Ele e mataram o salvador!” Realmente acreditamos no rei dos pobres
e oprimidos, ou só fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente
desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do
evangelho de hoje?
QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (21.03.10)
“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”
Jo 8, 1-11
Essa história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de
Lucas do que do o Evangelho do Discípulo Amado. De fato, não aparece
nos manuscritos mais antigos de Lucas, e só aparece pela primeira vez
em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos
acha que originalmente esta história circulava nas comunidades como uma
tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse
por achar que ilustrasse duas frases do Quarto Evangelho: “Eu julgo a
ninguém” (Jo 8, 15) e “Quem de vocês pode me acusar
de pecado?” (Jo 8, 46). O tema do perdão de uma mulher pecadora
é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho
de Lucas durante as controvérsias da Semana Santa - o que parece ser
um contexto mais adequado.
O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele
do imposto em Lc 21, 27-38. A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma
mulher casada, pega em adultério (Dt 22, 23-24). Mas, segundo João
18, 31, os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém
a morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria
a lei civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa
mosaica. É uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César,
ou a questão sobre o divórcio em Mt 19, 3-9. Que os seus interlocutores
não se interessam pela Lei se manifesta pelo fato de só acusarem
a mulher e não o seu parceiro! Uma atitude machista tão comum
ainda na nossa sociedade.
Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns
autores vêem uma referência à uma frase em Jeremias: “Aqueles
que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram
Javé, a fonte de água viva” (Jr 17,13). Assim, seria uma
indicação que os verdadeiros culpados são aqueles que se
davam o direito de condenar a mulher.
Perguntando da mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus
deixa claro que ele não se identifica com eles. Ele não veio para
condenar, mas para salvar! Por isso a mulher está livre para ir - mas
não para pecar de novo!
O texto ilustra mais uma vez o recado central que vimos no evangelho do último
Domingo - Deus é um Deus de misericórdia, e não de condenação.
Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15, 1-2
também no texto de hoje as pessoas que mais deviam se preocupar em manifestar
o rosto misericordioso do Pai, se preocupavam mais em condenar, a partir de
um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valoriza
a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas tem compaixão
diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos,
Jesus nunca é duro ou rígido com as pessoas que manifestam nas
suas vidas sinais da fraqueza humana, mas é contundente com os que não
têm compaixão nem misericórdia, e que escondem o verdadeiro
rosto de Deus através do seu legalismo e auto-suficiência.
Quantas vezes nas Igrejas - até hoje - se manifesta muito mais a dureza
de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é
“rico em misericórdia?”. Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos
em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo,
a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem
eu te condeno, vá e não peca mais!”
QUARTO DOMINGO DA QUARESMA (14.03.10)
“Seu irmão estava morto e tornou a viver”
Lucas 15, 1-3; 11-32
O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase sobre a misericórdia
de Deus. Se fosse para classificar em uma só palavra o rosto de Deus
em Lucas, poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”.
Talvez nenhum capítulo salienta esta convicção tanto como
o capítulo 15. A parábola aqui relatada está entre as mais
conhecidas da Bíblia - geralmente chamada “O Filho Pródigo”.
Devemos ter um pouco de cuidado com esse título - pois já sugere
que a figura central da parábola é o Filho Pródigo - não
necessariamente a interpretação mais adequada!
Para sermos fiéis ao evangelho, devemos interpretá-lo dentro do
seu esquema teológico e literário. Para isso temos que dar muita
atenção aos primeiros três versículos. Pois, nos
dão o motivo pelo qual Jesus contou as três parábolas do
capítulo, uma chave valiosa de interpretação. São
como um gancho sobre qual se pendura o resto do capítulo: “Todos
os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar.
Mas, os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: “Esse
homem acolhe pecadores, e come com eles!” (vv. 1-2). E depois vem a chave
de interpretação: “Então Jesus contou lhes esta parábola”
( v. 3). Ou seja, Jesus contou as parábolas deste capítulo porque
os chefes religiosos o criticavam por associar-se com gente de má fama!
Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus
e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus.
Podemos ler este texto a partir do filho perdido, ou do Pai, ou do irmão
mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo”
(Pródigo significa “esbanjador”). Assim, ressaltaria o processo
de conversão - sentir a situação perdida, decidir a pedir
reconciliação, ser aceito pelo Pai, reativar os relacionamentos
perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto
como tal - mas diante dos primeiros dois versículos do capítulo,
talvez não a interpretação primária que Lucas quisesse
dar.
Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida,
também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus,
que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não
impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois não
espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa
atitude não “digna” de um fidalgo oriental idoso, pois o
pai está preocupado mais com a reconciliação do que com
o prejuízo, e se alegra com a volta de quem estava morto! Mais uma vez,
uma leitura mais do que aceitável!
Mas, o contexto do capítulo, à luz dos primeiros versículos,
sugere uma leitura diferente - a partir do irmão mais velho. Pois Jesus
conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da
Lei, que o reprovam, porque ele acolhe os pecadores! Então, o filho mais
velho é a imagem dos fariseus - “gente boa”, fiel na observância
da Lei, mas, cujos corações estão fechados, ao ponto de
serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim,
embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a
atitude deles contradiz claramente a atitude de Deus, demonstrada pela ação
do pai misericordioso! Essa diferença de atitude se resume claramente
nos termos que ambos usam, referindo-se ao filho mais moço. Enquanto
o filho mais velho o chama de “este teu filho” (v. 30), o pai fala
“este teu irmão” (v. 32).
Aqui Jesus quer questionar todos nós que somos “praticantes”.
Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria
espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr
ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão
mais velho - “gente boa”, gente de “observância”;
mas, gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de
alegrar-nos com a volta ao estado original de um irmão ou uma irmã
perdidos?
Podemos até dizer que este capítulo de Lucas é o coração
do Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não
se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador. É
o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estava perdido.
É o Deus da misericórdia e do perdão. Como traduzimos esta
visão de Deus em nossas vidas?
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (07.03.10)
“Se vocês não se converterem, vão morrer todos do
mesmo modo”
Lucas 13,1-9
Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas; e, ensina os discípulos
que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações
humanas; mas, que também tem exigências para quem quer segui-Lo.
Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais!
O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas, referente ao
fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus
durante o sacrifício no Templo (não temos informações
sobre esse acontecimento de outras fontes). Na época, sofrer desgraças
como doença, pobreza ou morte prematura, era visto como castigo de Deus
por ser pecador. Podemos lembrar da pergunta feita a Jesus, sobre ao homem cego
de nascença, no Evangelho de João: “Os discípulos
perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele
ou os pais dele?” (Jo 9, 2). É a “Teologia da Retribuição”,
onde Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor,
segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim, se anula a
gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e, os excluídos da sociedade
são vistos como culpados do seu próprio sofrimento. Infelizmente
essa teologia, tão anti-evangélica, está muito presente
hoje, quando a prática religiosa, ou o dízimo, se entendem como
“investimento” para receber retornos de Deus. É claro que
também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante,
pois a sua riqueza é explicada como proveniente da bênção
de Deus, e não como, frequentemente, resultado da exploração
e/ou de um sistema econômico injusto, como nos demonstra a Campanha da
Fraternidade Ecumênica deste ano. Jesus não autoriza tal interpretação,
e falando também de um outro acidente em Jerusalém que matou dezoito
(v. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos
podem servir para que todos pensem na insegurança da vida, e na urgência
de conversão, enquanto ainda há tempo! Todos nós precisamos
estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, através de uma
vida digna de discípulos.
Os versículos 6-9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes,
as parábolas podem ter mais do que uma explicação. A parábola
de hoje tem dois lados - como parábola de compaixão e como parábola
de crise! Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao
pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais
uma chance. Assim toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia
e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com
os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam
a terra” (v.7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem
contribuir nada a ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de
uma vida do discipulado, ou correr o risco de serem cortados da vinha do Senhor!
Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre a nossa vida
cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade,
cujas estruturas muitas vezes também não estão de acordo
com a vontade de Deus. É claro que todos nós somos pecadores,
e então, em permanente necessidade de conversão. A parábola
nos anima diante das nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada,
pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho.
Do outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos
na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras
sem frutos”, buscando o “adubo” (v. 8) da oração,
da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos
a produzir os frutos devidos a verdadeiros/as discípulos/as de Jesus.
SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA (28.02.2010)
“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!”
Lucas 9, 28-36
O nosso texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos,
na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria
ser o seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si
mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (9,23). Começando a
passagem com as palavras: “oito dias após dizer essas palavras”,
Lucas quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre o seguimento
de Jesus até a cruz.
O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito caro a Lucas - o fato
que Ele era um homem de oração. Neste momento Ele “subiu
à montanha para rezar” (v. 28). Durante a oração,
aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas, duas
das figuras mais importantes do Antigo Testamento. Assim, Lucas mostra que Jesus
está em continuidade com as Escrituras, isso é, o caminho que
Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens,
tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu
tempo - Lucas aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também
de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão
descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três
tendas: uma para ti, uma outra para Moisés e outra para Elias”
(v. 33). Claro, era bom ficar ali, num momento místico, longe do dia-a-dia,
da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não
iria querer? Mas, não era uma sugestão que Jesus pudesse aceitar.
Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho”
e no dia seguinte “desceram da montanha” (v. 37). Por tão
gostoso que seja ficar no Monte Tabor, é precisa descer para enfrentar
o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração
está intimamente ligada com a experiência da Cruz! Quem sabe, talvez
a experiência do Tabor desse a Jesus a coragem necessária para
aguentar a experiência bem dolorida do Calvário!
Aplicando o texto e a sua mensagem a todos os cristãos, podemos deduzir
que todos precisam subir o Monte Tabor para serem transfigurados, para depois
descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs!
Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos
de momentos de oração profunda, de união especial com Deus.
Isso torna-se cada vez mais importante no mundo atual de ritmo quase frenético,
de estresse e correria. Temos que descobrir como criar espaços de tempo
para respirarmos mais profundamente a presença de Deus, para renovarmos
as nossas forças e o nosso ânimo. Estas experiências não
devem ser “intimistas”; pelo contrário, devem aprofundar
a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo d’Aquele
que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e
o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés
uns dos outros” (Jo 13,14).
Esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”,
os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos
coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência
de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência,
contando somente com as nossas próprias forças e recursos humanos
- por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus,
na meditação – mas, sempre para que possamos retomar o caminho,
como fizerem Jesus e os três discípulos! Para os momentos de dúvida
e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através
da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem
o que ele diz!” (v. 35). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA (21.02.09)
Lucas 4,1-13.
“Você adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá”
O texto expressa a luta interna de Jesus em discernir o caminho a seguir depois
de assumir a sua missão no batismo. A experiência de Jesus é
como a nossa - entre o nosso compromisso com o projeto de Deus e a prática
d’Ele, existem muitas tentações!
Jesus estava “repleto do Espírito Santo”, e era “conduzido
pelo Espírito através do deserto”. O Espírito Santo
não o conduz à tentação, mas é a força
sustentadora d’Ele, durante as suas tentações. Como o Espírito
dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas
também poderão contar com este apoio nos momentos difíceis
da vivência da sua fé!
As tentações são as mesmas que enfrentamos na nossa caminhada
da fé hoje! Primeiro, Jesus é tentado para mandar que uma pedra
se torne pão. Aqui é a tentação do “prazer”
- logo que enfrenta sofrimento por causa da sua missão, Jesus é
tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, num
mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos, numa
sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas
de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é “se
quiser, faça!”, onde o sacrifício, a doação
e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores! Jesus
é contundente: “Não só de pão vive o homem”.
(v. 4). Vivemos de pão; mas, não só! Jesus não é
contra o necessário para viver dignamente. Mas, salienta que não
é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores
mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a
solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais
e espirituais - precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena! Jesus desautoriza
tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como os que dispensam
a luta pelo pão de cada dia para todos!
A segunda tentação pode ser visto como a do “ter”.
Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização
do mercado, do neo-liberalismo, do evangelho do mercado livre. Diariamente a
televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é
necessário “ter mais”, e que não importa “ser
mais”! A tentação vem em forma atraente - até a Igreja
pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que
podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação
mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força
dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré.
Jesus também enfrentou esta tentação - Ele que veio para
ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos
marginalizados, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para
o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas
da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o
Senhor seu Deus, e somente a ele servirá”(v. 8).
A terceira tentação podemos entender como a do “poder”.
Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos.
Quantas vezes as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade
da cruz, para “evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz
e a espada - a América Latina que diga! Ainda hoje enfrentamos esta tentação
- não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste
mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo
afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”
(1Cor 1, 25), e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para
confundir o que é forte” (1Cor 1, 27). Jesus, que veio para servir
e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não
como dominador, teve que clarear a sua vocação e despachar o diabo
com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus”. Realmente,
podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as do
mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Todas coisas boas em si, mas, altamente
destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar
o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro
de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação
de discípulos. O texto nos coloca diante da orientação
básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor
seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8)
Sexto Domingo Comum (14.02.2010)
Lucas 6,17.20-26
“O Reino de Deus lhes pertence”
As pessoas que buscavam Jesus eram o retrato de um povo que sofre as consequências
de uma sociedade injusta - pobre, abandonado, sem saúde. Mas, além
de buscar a cura, Lucas salienta que eles foram “ouvir Jesus”. Foram
porque a mensagem d’Ele falava aos seus corações, os animava,
dava-lhes coragem, fazia que eles se sentissem valorizados e sentissem de perto
a presença do Deus que ama os pobres. Acostumadas com o desprezo, o abandono,
o legalismo religioso, achavam em Jesus um aconchego, uma aceitação,
a dignidade, o ânimo. Hoje, será que se acha esses elementos em
nossas celebrações e pregações?
Jesus olhou para os seus discípulos e falou: “Felizes de vocês,
pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence. Felizes de vocês que agora
têm fome, porque serão saciados. Felizes de vocês que agora
choram, porque hão de rir. Felizes de vocês se os homens os odeiam,
se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês, por causa
do Filho do homem. Alegrem-se nesse dia, pulem de alegria, pois será
grande a recompensa de vocês no céu, porque era assim que os antepassados
deles tratavam os profetas” (Lc 6, 20-23). Enfatizando o termo “vocês”,
Lucas salienta que as qualidades dos que são considerados “bem-aventurados”
devem existir nos/as discípulos/as.
Diante de um grupo de pobres, famintos, tristes, sem-terras, sem-teto, teríamos
coragem, a partir do nosso bem-estar, de pronunciar estas palavras: “Felizes
de vocês, os pobres, os famintos, os aflitos, os odiados”? Não
seria uma ofensa aos sofredores? Sim, seria - a não ser que proclamadas
por alguém que, como Jesus, esteja realmente empenhado na luta por um
mundo mais justo, onde os injustiçados sejam libertados das correntes
de opressão. Seria ofensiva, a não ser que pronunciadas por alguém
que realmente sentisse compaixão diante do seu sofrimento - e não
somente “pena”. Jesus podia pronunciar essas palavras, pois tinha
assumido a condição de um pobre, estava solidário com eles,
e se dedicava a eles. Devolvia-lhes o seu valor e a sua dignidade, e revelava-lhes
o verdadeiro rosto do Deus da libertação, ofuscado pela religião
legalista oficial do tempo. Ele não romantizava a pobreza - os pobres
não são felizes por serem pobres (a miséria, a falta do
necessário para uma vida digna nunca é coisa boa), mas porque
o Reino de Deus é deles! O verbo aqui está no tempo presente -
nas outras bem-aventuranças está no futuro. O Reino já
é deles, pois a sua única esperança, na sua pobreza na
sua impotência, é Deus, e diante do seu sofrimento, Ele opta por
eles.
Mas, a palavra de Jesus não é somente para confortar os aflitos
- é também para afligir os confortáveis! Ai de nós,
os discípulos, se nós somos acomodados, fechados no egoísmo
e na fartura, elogiados e aceitos por uma sociedade injusta, porque não
a questionamos nem a incomodamos: “Mas ai de vocês, os ricos, porque
já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora
têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês que agora
riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar! Ai de vocês,
se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os
falsos profetas.” (Lc 6, 24-26). Não é negativo ter o suficiente,
ter alegria, mas se torna pecado quando nos fechamos em nosso mundo de auto-suficiência
e ficamos insensíveis diante do sofrimento alheio.
Nas Bem-aventuranças, Lucas é mais contundente do que Mateus.
Não dá trégua - quer que fique claro que o seguimento de
Jesus exige opção pelos pobres e marginalizados, independentemente
da sua condição moral, religiosa ou legal, e também desligamento
da sociedade materialista e consumista, que procura esconder a realidade da
opressão e exclusão, anestesiando a consciência. Ai de nós,
os discípulos, se isso acontecer! Teria eu coragem para proclamar este
trecho diante de pobres - e diante de ricos? Como diz a Bíblia Pastoral:
“Não é possível abençoar o pobre sem libertá-lo
da pobreza. Não é possível libertar o pobre da pobreza
sem denunciar o rico para libertá-lo da riqueza.”
QUINTO DOMINGO COMUM (07.02.10)
Lucas 5, 1-11
“Senhor, afaste-te de mim, porque sou um pecador”
A porta de entrada desse texto, que nos traz a versão Lucana da “pesca
milagrosa” ( Jo 22) é o primeiro versículo: “Certo
dia, Jesus estava na margem do Lago de Genesaré. A multidão se
apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.” Lucas deixa bem claro
que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir a Palavra de
Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola, nem
cura, mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só
se busca o que é agradável, o que faz bem!
A Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se
sentissem amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa
Notícia” para os humildes e sofridos. Nada deve - ou pode - substituir
esta Palavra. A Igreja ainda corre atrás do prejuízo de ter privado
o povo durante séculos do alimento da Palavra. O último Sínodo
dos Bispos tratou do tema significante “O Lugar da Palavra de Deus na
Vida e na Missão da Igreja”, e aguardamos ansiosamente a publicação
do Documento Pós-Sinodal. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente
ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus. Oxalá
não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação
do Espírito Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades,
especialmente entre os mais pobres. Devemos levar a sério o que proclamou
o Concílio Vaticano II no seu documento dogmático Dei Verbum:
“A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o
próprio Corpo do Senhor” (DV 21). Infelizmente, nem sempre se verifica
a prática dessa declaração!
Terminada a pregação, Jesus pede que Simão “avance
para águas mais profundas” (v. 4), para lançar as redes.
Pois, barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador para nós
- a Igreja, as comunidades, os indivíduos - ficarmos seguros nas águas
rasas que não apresentam perigo, e tampouco frutos! Se quisermos ser
realmente “pescadores de homens” (v. 10) teremos que enfrentar as
águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças
que isso acarreta. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas
e tranquilas, sem risco – mas, fazer assim seria trair a nossa vocação
batismal. Poderemos nos perguntar - o que quer dizer para mim, na prática
da minha vida, “avançar para as águas mais profundas”?
Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor,
mas lança a barca “em atenção à Sua palavra”
(v. 5). Aqui está o nó da questão - a atenção
à Palavra de Deus. O Salmo 95 (94), 7 reza: “Oxalá vocês
escutem hoje o que Ele diz” - pois Deus nos fala todos os dias. Mas, uma
fala exige atenção para que seja captada. Deus nos fala sempre
- mas, se não tivermos as antenas ligadas, não ouviremos. E continuaremos
acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão exige
que nos lancemos para águas profundas.
Pedro reage já: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!”
(v. 8). Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo
o pecado humano. O que parece normal, segundo critérios humanos, fica
claramente negativo diante dos critérios do amor divino! Mas, Jesus não
atende o pedido de Pedro - foi porque somos pecadores que Ele veio! Pelo contrário,
fala para Pedro não ter medo - nem da sua fraqueza, nem da sua natureza
pecaminosa, nem das suas falhas. Jesus o chama tal como Ele é. E Ele
nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como somos de fato.
Não devemos ter medo da nossa realidade humana e pecadora, pois todos
nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4, 7),
mas podemos caminhar com confiança porque “se Deus está
a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm 8, 1). Somos
chamados a segui-Lo como somos. Porém, isso não pode nos acomodar,
pois o Evangelho deixa claro que quando os apóstolos foram chamados,
deixaram tudo para segui-Lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos
algo. Resta perguntar a nós mesmos: “O que é que o seguimento
de Jesus exige que eu deixe, neste momento na minha caminhada de discípulo/a”?
QUARTO DOMINGO COMUM (31.01.10)
Lucas 4,21-30
“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria
Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a
Nazaré, logo após o seu batismo. É muito violenta a mudança
de atitude dos Nazarenos - da admiração à fúria.
Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos numa só história.
Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.
Em primeiro lugar “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias
de encanto que saíam da sua boca” (v. 22). Com certeza, essa reação
não foi causada pela oratória de Jesus, nem porque soubesse usar
“artifícios para seduzir os ouvintes” (1Cor 1, 4), como fazem
tantos pregadores e políticos hoje. Não, foram palavras cheias
de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade
profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a
sua fala e a sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós
- de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa
palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito
que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações
surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa
ser a nossa fala, seremos “sinos ruidosos, ou címbalos estridentes”
(1 Cor 13, 2) - chamam a atenção, mas não deixam frutos!
A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco, muitas vezes,
nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre!
Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples
carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece que, em lugar de
incentivar as nossas lideranças das bases, os próprios companheiros
de comunidade os rejeitam por não serem “doutores”, por não
saberem “falar bonito” como sabem muito bem os nossos exploradores!
Parece às vezes que há gente que sente prazer em destruir as lideranças.
Mas, as coisas vão mudar só quando o pobre começar a acreditar
no pobre!
Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas. Ele “continuou
o seu caminho” (Lc 4, 20). É isso mesmo - apesar das críticas,
da não-aceitação, das gozações, o cristão
tem que “continuar o seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não
se abalou, pois a sua convicção não se baseava na opinião,
aprovação e aceitação dos outros, mas na oração,
na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos
neste sentido, seguindo o exemplo do Mestre!!
TERCEIRO DOMINGO COMUM (24.01.10)
“O Espírito do Senhor está sobre mim”
Lc 1, 1-4; 4,14-21
O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de Jesus.
Deu-se na sua terra de criação - Nazaré. Na linguagem de
hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da
equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura. Naquela época,
o culto da sinagoga tinha duas leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda
dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem
que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele
me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar
a libertação aos presos e aos cegos a recuperação
da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça
do Senhor” (4, 18-19). Não que Ele encontrasse esta passagem por
acaso! Pelo contrário - Jesus procurou até achar, pois Ele identificava
a sua missão com aquela descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia,
começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da
escritura, que vocês acabam de ouvir” (4, 21). Jesus identificou
a sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías. Nós,
como discípulos d’Ele temos a mesma missão. Olhemos os elementos:
a) “Anunciar a Boa-Notícia aos pobres”: O evangelho é
“Boa-Notícia” - não uma série de leis, nem
uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos estes
elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade,
- para os pobres! Portanto, Ele toma posição - o que é
boa notícia para uns, é má-notícia para outros!
O que é boa notícia para o oprimido, é má notícia
para o opressor! Não existe uma Boa-Notícia neutra, igualmente
boa para todos! E não devemos diluir o a termo “pobre” -
aqui não é o pobre de espírito, nem de coração,
nem de fé... é o pobre mesmo, aquele/a que não tem o necessário
para uma vida digna! (Lucas usa o termo grego “ptochois”, que significa
mais ou menos “indigente”). Com certeza, na nossa sociedade inclui
todos os excluídos.
b) “Proclamar a libertação aos presos”: Não
só aos na cadeia, mas que estão sem a liberdade dos filhos de
Deus - presos hoje pelas consequências do neo-liberalismo, do desemprego,
do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo,
e tudo que oprime! Também aos presos no seu próprio egoísmo,
pois o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém,
esta libertação passa pela mudança radical na sua maneira
de viver.
c) “Aos cegos a recuperação da vista”: Quanta gente
cega hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia
dominante que não deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas
falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação
pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem
a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança
através da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar
que o texto enfatiza a “recuperação” da vista - não
a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os/as que uma vez viram
a realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante
ao ponto de não enxergarem mais a verdade.
d) “libertar os oprimidos”: Aqui há o eixo fundamental de
toda a Bíblia - o Êxodo, como processo permanente. No livro de
Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êx
3, 76-10). Jesus se coloca - e coloca todos os seus seguidores - neste mesmo
compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua,
e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nesta luta para
concretizar a libertação dos oprimidos.
e) “proclamar o ano de graça do Senhor”: O Ano da Graça
- o Ano Jubilar! Memória da proposta do Lv 25, o ano do perdão
das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução
das terras aos seus donos originais!
Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, esta visão? Que significa
hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos
e a devolução das terras? Questões evangélicas da
fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas
(como veremos logo na Campanha de Fraternidade) e desafiam a tendência
à uma religião intimista, individualista e desencarnada da realidade.
Pois júbilo, alegria, não pode ser decretado - tem que brotar
de algum motivo profundo.
Aqui o próprio Jesus fala da sua missão, que é também
a nossa. Pois, fomos todos “consagrados com a unção, para
anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a libertação
aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os
oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4, 18-21).
SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (17.01.10)
Jo 2,1-12
“Façam tudo o que ele lhes disser”
A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro
dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais
que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão.
Embora algumas bíblias traduzem o termo grego que João usa por
“milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”.
O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o evangelho
de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado
de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente,
para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de
descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de
Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a
hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição.
Em resposta ao pedido feito por Maria (João nunca se refere a ela pelo
nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira até
estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus
rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar
para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos.
Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho - a pé da cruz,
onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe.
Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos
do Senhor, ou seja, nós hoje.
Apesar da nossa tradição piedosa mariana, é importante
não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável
intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção
popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É
melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta
de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão
d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar
n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante.
Não era qualquer água - era a água da purificação
dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante
os ritos judaicos de purificação estão superados, pois
a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos
entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada
no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma
nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim,
em Cana, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo
do Templo, que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância
era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição
rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante
de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se
realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante
que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica,
bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não
sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo
que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos
que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João
quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os
ritos e práticas judaicos, ligados à purificação
e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era
de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná
que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram
n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica,
mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos
de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais
para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é
o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu
nome” (Jo 20, 31).
FESTA DO BATISMO DO SENHOR (10.01.10)
Lc 3, 15-16. 21-22
“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”
Hoje, no Domingo seguinte à Epifania, celebra-se a Festa do Batismo do
Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão é
tão importante teologicamente que é tratado por cada um dos quatro
evangelistas, cada qual da sua maneira, dependendo da situação
da sua comunidade e dos seus interesses teológicos. A história
logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava
a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual
de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência
de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, a adiciona os vv. 14 e 15. Para João,
o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia,
que omite qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com
que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo
1, 29-34).
O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus.
Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como membro do seu povo
- identificando-se com aquela camada do povo marginalizada e menosprezada como
“impuro” pela teologia oficial, atrelada ao poder político
das elites. Como disse o saudoso Padre Alfredinho, fundador da Fraternidade
do Servo Sofredor: “No dia do seu batismo, Jesus entrou na fileira dos
excluídos para nunca mais sair dela!” Com o seu batismo, Jesus
assume a fidelidade radical à vontade de Deus. O significado disso será
mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores,
já está, desde o começo, rejeitando a visão de um
Messianismo triunfalista.
Os sinóticos ressaltam o fato que “o céu se abriu”.
Marcos é o mais contundente quando enfatiza que “os céus
se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar que em
Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a terra (At 7,
56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63, 19; Ez
1,1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação
da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente
de polêmica contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século,
muda a tradição original (Mc 1, 9-11), mantida por Lucas, onde
as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes: “Este
é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (v 17).
Em ambas as tradições, essas palavras associam a terminologia
de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2 Sm 7, 14 (tu és
meu filho...) a Is 42, 1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A passagem
de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42, 2), nem
vacila, nem é quebrantado (42, 4). (A tradução grega da
Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto os termos hebraicos para
“filho” e para “servo”). Fazendo fusão desses
textos do Antigo Testamento, o texto une em Jesus duas figuras proféticas
- a do Filho da descendência real davídica e do Servo de Javé.
Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação
do Servo Sofredor, e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas.
Podemos dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da
sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirma a
sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde
o início do seu ministério público, como seu Filho (Sl
2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso
compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir
a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um de nós
também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3,1), a
quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor
incondicional e gratuito - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante
é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a
nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas
do Pai, no seguimento de Jesus (cf. I Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio
ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências - uma vida de fidelidade,
que o levava até a Cruz - e a Ressurreição (Fl 2, 6-11).
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo,
comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de contribuir
à criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam
o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos
parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer
o Reino dele, que “já está no meio de nós”
(Mc 1,14).
Festa da Epifania do Senhor (03.01.10)
Mt 2, 1-12
“Viemos prestar-lhe homenagem”
Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação
do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que
Jesus foi manifestado, não somente ao seu próprio povo, mas a
todos os povos e nações, representados pelos Magos do Oriente.
Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, também esconde
uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é
para todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião.
Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos
hoje a salvação universal em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica
da literatura judaica chamada “midraxe”, ou seja, uma releitura
de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus
quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos
textos do Antigo Testamento. Por exemplo:
- Vêm os magos (nem três, nem reis!) buscando o Rei dos Judeus.
Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés
(Êx 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus
nas maravilhas feitas por Ele.
- A estrela é sinal da vinda do Messias, relendo a profecia de Balaão
em Nm 24, 17.
- O menino nasce em Belém, conforme a profecia de Miquéias (Mq
5, 1)
- Os presentes lembram as profecias de Segundo e Terceiro-Isaías, e dos
Salmos, sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes
para Deus (Is 49, 23; 60,5; Sl 72, 10-11).
- Herodes, como o Faraó, massacra os filhos do povo de Deus (Êx
1, 8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes
diante do nascimento de Jesus. Os que deveriam reconhecer o messias - pois são
versados nas Escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo
através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem
constituem uma ameaça. Outros, pagãos do oriente, buscando sem
ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe
presentes, sinal da partilha, grande característica do Reino que Jesus
veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e
do seu evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico
com shows e cantos, mas que de forma alguma possa questionar a nossa sociedade
e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do
novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todos as pessoas de boa vontade
têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação,
gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas, sim do nosso esforço na vivência
do seu Reino. Na prática, temos que optar - para a vivência religiosa
vazia como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora
do Menino de Belém, que convoca todas as pessoas de boa vontade, sem
distinção de raça, cultura ou tradição religiosa,
representados hoje pelos magos, para a construção do mundo de
paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham
a vida e a tenham plenamente.” (Jo 10, 10)
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Esse texto pode e deve ser reproduzido pela mídia impressa e
no rádio, sempre citando a fonte: www.maikol.com.br