Livros Sapienciais

OS SAPIENCIAIS

Vamos agora detalhar um pouco sobre os livros sapienciais. Embora a nossa Bíblia os tenha colocado no inicio, estes livros foram escritos bem mais tarde, na intenção de fazer uma reflexão de toda história de Israel, nos seus diferentes aspectos e situações culturais.
O gênero literário dos livros classificados como de Sabedoria diferem dos outros por tratarem de temas que não tem conotação cultural, histórica ou apologética. Enquanto os livros históricos tratam do "ontem" e os proféticos tratam do "hoje e amanhã", os sapienciais falam daquilo que é "sempre". Os sapienciais tem no seu imaginário as questões mais profundas do ser humano e a sua relação com o universo. Por isso, quer o conteúdo, quer a forma de abordagem transcendem os limites da cultura. O ângulo de visão é cósmico, universal, porque o seu referencial é o ser enquanto presença e enquanto razão de ser. A Sabedoria bíblica encontra na sabedoria universal um ponto de apoio muito forte, porque as questões mais profundas não são apenas bíblicas, são transcendentais.

1) O LIVRO DE JÓ
Jó é um pseudômino de todo o povo pobre, dos trabalhadores da terra, do "homem da terra", da mulher do campo e da prostituta que desde Adão até nossos dias são roubados na sua identidade, na sua forma de ser e no seu direito de viver.
Dentro do gênero sapiencial, Jó é uma comédia desenvolvida por diversos atores, mas que apresentam duas facções: o certo de um lado e o errado do outro. A teoria das retribuições terrestres é apenas um dos elementos desta magnífica obra: "Quem aqui faz, aqui paga"! A proposta desta novela é muito mais profunda e crucial: o autor quer desmascarar a farsa da política e a mentira nas relações de poder.
" O personagem de Jó, como dissemos acima, é o personagem que expressa o homem da terra, que no seu trabalho e na sua honestidade cuida de sua vida e de sua família. Tem uma fé viva no amor de Deus e externa a mesma no convívio com o seu próximo. É o homem justo, mas não omisso. O Demônio (leviatã) entra em cena, mas para entrar em cena ele precisa de um suporte. Quem será esse suporte de satã? O texto afirma que Deus permite que satanás atue na história. Isso acontece porque Deus deu liberdade e inteligência ao homem. Com isso ele pode ser atacado, mas pode se defender. Satã é mau, sádico e perverso.
" Conflitos do livro: A proposta genérica é o projeto de satã que se opõe ao projeto de Deus. É o conflito da serpente com o ser humano, no jardim do Éden (Gn 3, Is). Por outro lado a obra mostra toda a dialética na questão da liberdade. Deus não instiga, mas permite que o mau atue, mesmo que continue constantemente a reforçar o bem. É a filosofia da parábola de Jesus - do trigo e do joio (Mt 13, 24-30,36-43). O autor vai em busca das causas do mal e pergunta: por que Deus não intervém na história? (21,7ss.).
" O Leviatã: A obra se torna atraente, pois consegue mostrar a sutileza do poder satânico e da sua persuasão. Satã precisa de um suporte, este é oferecido por pessoas. Os amigos de Jó são pessoas influentes e inteligentes, capazes de fazer Jó perceber que Deus é bom e Nele não há culpa (4,2-9). Nas palavras desses falsos amigos está toda a expressão do autor em evidenciar a falsidade, a perfídia daqueles que aparentemente governam o povo (Dn 13,5), mas que o despotizam e tiranizam, mesmo fazendo-se passar por benfeitores (Lc 22,24-26).
" Por que o pobre não prospera? Jó não era pobre, estava bem e era feliz com o que tinha. Que tipo de vírus entrou na fazenda dele? ( Foi a visita do ministro da Agricultura.) Os povos da terra não podem prosperar porque satã, que controla o mercado dos preços, exige que muitos trabalhem de graça. Quando esses produzem algo, precisam ir para a cidade vender, mas quem estabelece o valor de seus produtos é a autoridade da cidade. É lá que as balanças são falsificadas ( Mq 6, 9-15), onde esse camponês deixa os suores de meses de trabalho em troca de nada e é devorado na sua dignidade como carne de panela (Mq3,1-3). Em contrapartida, quando o homem do campo precisa comprar um produto beneficiado, ele não pode fazer o preço, pois este já foi determinado pelo homem urbano. Os pobres continuam, não apenas sempre pobres, mas cada vez com menos poder aquisitivo ( falência total). De modo semelhante a periferia, a favela e o trabalhador assalariado. Em épocas de crise extrema, vai a autoridade urbana consolar estes empobrecidos sugerindo-lhes paciência, persistência, que tudo em breve vai mudar. Eles devem fazer um esforço para superar aquele momento, pois a solução está próxima, mas ainda não concretizável.
" Jó não aceita o discurso que diz: Deus é bom, justo e misericordioso porque ele sai de bocas mentirosas. Ele sabe que não tem pecados, que não é responsável pelo quadro em que se vê envolvido. Só não aceita bajulação. A paciência tem limites, e quando ele se percebe desiludido por melhoras, convence-se ser melhor morrer ( 6, 8-14), consegue fazer o discurso semelhante de Jeremias (Jr 20,14-18) quando amaldiçoa o dia em que nasceu ( Jr 3,3-12). O desespero é tanto que ele vê na morte o único caminho da liberdade, onde as diferenças, mesmo as mais extremas, entre opressor e oprimido desaparecem ( Jr 3,13-26).
" A perfídia na política: As ideologias de segurança nacional matam o justo por ser subversivo e libertam o bandido porque este pode ser um trampolim para mais um crime, como advertia Samuel para os perigos da monarquia ( 1 Sam 8,10-18). Na figura dos falsos consoladores está expressa a falácia dos políticos, dos déspotas tiranos (Lc 22,34-37) tão pérfidos quanto a serpente do Gênesis. Em época de campanha são todos do povo, visitam os pobres nos campos, os operários nas fábricas e os estudantes nas universidades, mas depois sãos os primeiros a legislarem contra os direitos do salário, do tempo de serviço, benefícios de saúde, aposentadorias, etc. Esta falácia se cristaliza nas relações de poder no estilo mafioso, de tal forma que se o justo entrar no poder e não der continuidade a esse mar de podridão arranjam uma forma de eliminá-lo com a maior rapidez (veja-se na História das Américas como foram eliminadas as maiores expressões de consciência ética e política, mesmo recentemente).
" A oração do cretino: (36,2-37,24). Esse discurso de Eliú é o testemunho autêntico do cretino que se posta em oração para enganar o seu irmão simples que tem fé e acredita na oração. Quando este tipo de gente vai a um lugar de oração não é porque acredita ou porque sua fé o convida a um encontro mais profundo com Deus, É porque através destes gestos ele consegue usurpar a confiança do povo, particularmente do povo simples ( Veja Lc 18,9-14).

Conclusão: A teoria das retribuições está também no texto, mas no discurso dos que querem justificar a miséria da "ninguenzada" afirmando que para esta não há solução. Nos dizem que este empobrecido perturba muitas vezes, mas é útil ao sistema, porque nem tem consciência de si. Essa teoria se perpetua na classe dominante da tradição judaica e vem desmascarada por Jesus que reage sem piedade (Jo 9, Iss,;Mt 5, 17ss.). Longe de ser um livro "masoquista" que aceita o sofrimento como vontade e proposta de Deus, como mais gente tentou apresentá-lo e dentro deste quadro fazer a sua crítica, a obra é fruto de um espírito crítico e aberto, altamente revolucionário. A sagacidade do autor fez passar pelo crivo da censura aquilo que de outra forma jamais teríamos conhecido.


2) OS SALMOS
Podemos definir os salmos como poemas ou cânticos para serem acompanhados com instrumentos musicais. Os autores são os mais diversos, de lugares mais diferentes e com as épocas e circunstâncias igualmente muito distantes. O Saltério é como um livro de cantos que nós usamos como liturgia. Nele estão alguns cantos da comunidade, da região ou mesmo de outros lugares, com autores e datas desconhecidos. É uma coletânea de poemas que ora têm caráter universal e por vezes particular, porque o tema da justiça, da liberdade, do sofrimento, do louvor, etc. são temas do ser humano de todos os tempos e lugares. Por isso, os autores bíblicos não hesitaram em recolher poemas de outros lugares: da literatura mesopotâmica, egípcia, assíria, helenística e de outras tradições (recolhiam, traduziam e compilavam) similares à tradição bíblica.
A divisão dos salmos é um pouco diferente nas duas versões bíblicas. Olhando os números no saltério bíblico encontramos uma diferença de numeração, a partir do Sl 10'até o Sl 114. A bíblia Grega (LXX) e Latina (Vulgata) concentram em um só o Sl 9-10 e a partir daí fica com um número atrasado (pois as bíblias, em geral adotam a versão greco-hebraica) até o Sl 114 quando vão ficar dois números atrás (veja o Sl 115 fica na LXX o Sl 113B). O reencontro começa com a subdivisão do Sl 116 e 147. Assim voltamos a ter a mesma numeração de 148 a 150.

Bíblia Hebraica Bíblia Grega (LXX)
1-8 1-8
9 9,1-21
10 9,22-39
11-113 10-112
114 113,1-8 ou 113 A
115 113,9-20 ou 113 B
116,1-9 114
116,10-19 115
117-146 116-145
147,1-11 146
147,12-20 147
148-150 148-150
Em resumo, do Salmo 10 ao 148 a numeração da LXX e Vulgata é um número inferior ao Texto Massorético.
A classificação dos Salmos é um pouco artificial, porque nem todos eles são "puros", ou seja, podem ser colocados como tendo uma temática só. No mesmo Salmo encontramos um súplica pelo perigo, uma queixa pelo abandono do apoio e também uma ação de graças pela solução. No entanto, para efeito de classificação, eles podem ser compreendidos, segundo seu gênero literário, assim: a) Hinos: Sl8; 75; 86;113. Súplicas coletivas: Sl 11;59;122. Súplica individual: Sl 3;21;50. De ação de graças: Sl 17;20;33;39. Régios: Sl 60;71. De culto: Sl 25;26;119;120.
A sabedoria dos Salmos já está expressa no Sl 1: A experiência da vida mostra que duas correntes filosóficas entram em confronto no tempo e no espaço: o bom e o mau. Essa tensão muitas vezes origina uma incompreensão da parte do justo, pois se vê constantemente ameaçado pelo mau, e enquanto ele sofre o ímpio prospera (Jo 21,1ss.). Dentro do gênero sapiencial temos um belo salmo que é o Sl 18: Deus é rei e nele não há falácia, nem ódio, nem injustiça. A experiência de muitos povos era de que seus reis tinham duas caras: a) uma para falar ao povo e pedir-lhes contribuições, aumento de impostos, mais verbas para as campanhas políticas, etc. b) outra para fazer os complôs satânicos na administração dos bens públicos. Um salmo de súplica individual que assume, em parte, importância no processo da Paixão de Jesus é o Sl 21, quando no seu primeiro capítulo exclama: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"(Cf. Mt 27,46). O salmo de penitência clássico é o Sl 50; Salmo de Aliança 88; Salmo que resume a História da Salvação e Libertação 104-105; a história dos exilados Sl 136; a onipresença e onisciência de Deus Sl 138; o retorno dos exilados Sl 125. Além destes, sugerimos continuar o estudo pelos seguintes: Sl 26;30;34;41;43;59;77;82;93;107;109;117.

3) PROVÉRBIOS
É a literatura do povo, é aquilo que o povo vê repetidamente e torna algo presente. Assim como os Salmos, os Provérbios, mais ainda, ultrapassam as fronteiras da cultura ou da tradição de um povo. Eles pertencem ao gênero literário universal e podemos dizer que permanecem no tempo. Nos Provérbios podemos encontrar expressões de sabedoria diversa e de povos diversos. Os contatos do povo de Israel com outros povos permitiram-lhe ir coletando aquilo que poderíamos chamar de máximas da sabedoria popular. Alguns têm um cunho familiar, popular, profano, mas há também provérbios que têm um caráter profético (10,1; 20,23\\\\0. A data dos Provérbios é quase impossível de ser determinada, em virtude da sua variedade e da sua origem. Alguns são de Sabedoria egípcia (1-9); outros antes do exílio babilônico e muitos outros mais recentes. O compêndio foi elaborado em partes, acrescendo-se sempre o "último", mas teria sido fechado (concluído), por volta do V século a . C. Vejamos alguns:
" "Aí vão me chamar, e eu não responderei; vão me procurar e não me encontrarão! Porque odiaram o conhecimento e não escolheram o temor de Iahwet; não aceitaram o meu conselho e recusaram minha exortação". (Pr 1,28-39).
" "Balança falsa é abominação para Iahweh, mas o peso justo tem o seu favor" (11,1).
" "Abominação para Iahweh: dois pesos; a balança falsa não é boa" (20,23;Cf. Os 12,8; Am 8,5; **Dt 25,13-16).
" "Não desloques o marco antigo, e não entres no campo dos órfãos, pois o seu vingador é forte: disputará a causa deles contra ti" (23,10-11).
" "Ouve o teu pai, ele te gerou e não desprezes tua mãe envelhecida" (23,22).
" "A porta gira nos seus gonzos e o preguiçoso no seu leito".
" "Garganta saciada despreza o favo de mel, garganta faminta acha doce todo amargo. Como ave vagando longe no ninho, assim é o homem vagando longe do lar" (27,7-8).
Outros provérbios de sabedoria familiar e de conselhos de comportamento social têm um sabor da experiência da vida (veja 1-9), especialmente os dois modos de ser: um que segue a Dona Sabedoria ( 9,1-12) e outro que segue a Dona Insensatez ( 9,13-18).

4) ECLESIASTES ( Coélet= Orador)
Este título é o que se atribuía ao leitor na Assembléia, e também ao orador. O livro pode ser tomado como um discurso que alguém faz, tem mais ou menos uma direção, mas retoma várias vezes o núcleo central, repete, etc., a fim de reforçar e conservar a idéia. A temática não está estruturada em partes, idéias ou coisa semelhante. São uma espécie de círculos que entram e saem dentro de dois temas:
a) a vaidade das coisas desta vida ( 1,2; 3,1-11; 8,14; 9,1-2; 12,1-7);
b) o sentido da vida diante das incertezas do além ( 3,9-22; 9,4-12). Algumas expressões são muito repetidas na linguagem popular, mesmo entre nós, pois elas parecem retratar a nossa experiência:
" "Vaidade das vaidades - tudo é vaidade!" (1,2).
" "O que foi, será; o que se fez, tornará a se fazer: nada há de novo debaixo do sol!" (1,9).
A realidade parece atormentar a consciência do orador, pois ele se depara com situações e diante delas não vê solução. "Muita sabedoria, muito desgosto; quanto mais conhecimento, mais sofrimento" (1,18). Mais adiante o autor parece entender a História e os seus conflitos, diz: Há um tempo para cada coisa (3,1-8). Isto, no entanto, não o tranqüiliza, tampouco o sacia:
"A infelicidade do homem é grande, pois ele não sabe o que vai acontecer: quem pode anunciar-lhe como há de ser? Homem algum é senhor do vento, para reter o vento; ninguém é senhor do dia da morte, e nessa guerra não há trégua; nem mesmo a maldade deixa impune quem a comete. Vi essas coisas todas ao aplicar o coração a tudo o que se faz debaixo do sol, enquanto um homem domina outro homem, para arruiná-lo. Vi também levarem ímpios à sepultura; quando saem do lugar santo, esquecem-se de como eles tinham agido na cidade. Isso também é vaidade"( 8,7-10).

5) CÂNTICO DOS CÂNTICOS
É o único livro bíblico que não menciona Deus ou questões do povo, diretamente. Para muitos judeus e cristãos permanece a incógnita de como este livro tenha passado pelo crivo do Cânon. Na verdade, é uma composição profana, proibida pelo rabi Aquiba, mas assim mesmo cantada pelos judeus nas festas populares. Na Tosefta Senhadrin, 12,10, havia uma proibição de cantar as estrofes do Ct em ambientes ou momentos profanos.Ele tinha um caráter sagrado. Na tradição cristã ele também não teve maior repercussão, por ser considerado um poema amoroso, muito comum entre dois jovens que estão apaixonados, de cunho excessivamente erótico, mas que as estruturas sociais impedem ou bloqueiam os seus sentimentos. Algumas correntes mais espiritualistas buscaram e continuam buscando nestes Cânticos uma alegoria do amor de Deus com seu povo. Não restam dúvidas que, ao menos a inspiração, parte da realidade, ou seja, de cânticos populares usados em cerimônias de casamento ( cf. Sl 45; Jr 7,24). O que se descreve, de modo muito objetivo, é o amor humano e seus anseios por realização. Contudo, sem ser uma leitura forçada, queremos mostrar como esses poemas têm um caráter profético, revolucionário e denunciatório das instituições sociais e religiosas que manipulam e destroem os sentimentos mais puros do amor.

O Ct precisa ser lido depois de ler Esd 9-10. Ele salienta o amor erótico que deveria acontecer entre os jovens que casam por amor, mas que estava totalmente bloqueado pelas leis da raça pura e da exclusão das mulheres estrangeiras. Por outro lado, dentro da mesma época, os costumes sociais se antecipavam aos desejos individuais. As famílias escolhiam os parceiros para seus filhos, quando estes ainda eram muito crianças (8,8). Particularmente para a mulher, era deprimente demais ter que conviver com alguém que a explorava e não lhe dava amor. (8,11-12).
A composição dos poemas revela dois ambientes: a) um ambiente palaciano, todo ele envolvido com perfumes e requintes, mas sem amor (3,1-4); b) um ambiente de campo e natureza, onde está o pastor, seu verdadeiro amado, mas que a jovem não pode freqüentar (1,15-2,5) Dessa forma o Ct nos seus versos, alternados, às vezes desconexos, denuncia uma sociedade que manipula o amor e o direito de amar. É um protesto que começa de maneira muito provocadora e ousada:
Beija-me com os beijos de tua boca!
Teus amores são melhores do que o vinho,
O odor dos seus perfumes é suave,
Teu nome é como um óleo escorrendo...(ct 1,2-3).
Esta abertura, alternada por diversos poemas, sem uma temática rígida de continuidade, leva-nos ao final da obra para buscarmos a chave de leitura:
"Nossa irmã é pequenina e ainda não tem seios; que faremos à nossa irmã quando vierem pedi-la?" (8,8).
" Primeira denúncia: Beijar na rua era a atitude da prostituta, mas este não é só um desejo da mulher de má reputação. Qualquer mulher sentir-se-ia bem, podendo expressar seus afetos sem ser reprimida ou condenada por aquilo que não faz. Se fosse irmão poderia abraçá-lo; e por que não poder abraçar quem ama, talvez mais que um irmão? A sociedade condena e reprime a mulher pelas suas atitudes e sentimentos, enquanto não condena o homem que a leva para lugares desconhecidos, num submundo da vida e a fazer aquilo que ela não quer por opção.
" Segunda denúncia: Retornando ao começo do livro, encontramos a descrição que ela mesma faz de si:
" Sou morena, mas formosa, ó filhas de Jerusalém,
" como as tendas de Cedar e os pavilhões de Salma.
" não olheis eu ser morena: foi o sol que me queimou;
" os filhos da minha mãe se voltaram contra mim,
" fazendo-me guardar as vinhas, e minha vinha, a minha...
" eu não a pude guardar (ct1,5-6).
" Ela está queimada pelo sol porque foi obrigada a trabalhar na roça. Ela denuncia a repressão familiar dos trabalhos da moça do campo, que vai junto com o homem, ou às vezes sozinha, e depois precisa cuidar de todas as tarefas domésticas. Na sociedade machista o homem não trabalha. Ele compra e vende, perde ou ganha, mas quem sempre sofre e precisa arranjar condições para os filhos é ela. As agruras do sistema de vida e trabalho submetem-na a situações humilhantes.
" Terceira denúncia: A exploração da mulher, nos esquemas da cidade. A prostituição é um fenômeno urbano. São hotéis, motéis, bordéis os outros lugares que manipulam e exploram a dignidade da vida. Nos campos, onde a vida, a fidelidade e a ética são valores, o amor pode ser cultivado... Na corte do rei (a concubina) a moça recebe bom tratamento, mas lá não recebe amor. Só existem soldados, cavalos, guardas e exploradores da sua dignidade para aumentar sua difamação e batem nela (5,6).
" Quarta denúncia: A mulher como propriedade era outro grande problema para a libertação feminina. Assim que nascesse uma menina, a família não pensava muito em amá-la, instrui-la e conferir-lhe uma identidade própria. Como ela seria vendida, mesmo quando dada em casamento, bastava cuidar de sua beleza e fazer o preço (8,8). Se não bastasse isso, em caso de dívidas ou penhoras dos bens familiares, a mulher era o primeiro caminho para resgatar as penhoras, sendo vendida como concubina (Ne 5,2). Em tudo estavam os interesses materiais e por isso o texto mostra a rejeição radical a esta estrutura satânica, antes contra a família e depois contra o poder:
" Eu sou muralha, e meus seios são torres,
" aos seus olhos, porém, sou a mensageira da paz.
" Minha vida é só minha; para ti, Salomão, os
" mil siclos e duzentos aos que guardam seu fruto. ( Ct 8, 10.12).
" Quinta Denúncia: O amor como amor continua uma proposta indecente. Toda a graça e beleza do amor residem numa conquista que seja uma proposta maior. O amado coloca a noiva como vinda do Líbano, mas para chegar lá terá que passar por um esconderijo de leões (4,8). Quem ela ama e quem lhe daria correspondência não pode chegar lá, pois estão panteras ao seu redor (as garotas de programa). Enquanto o seu amado valoriza a virtude, a castidade e de lá parte para um amor fecundo ( 4, 12-14), vem o explorador sugar o que há de mais digno nela (5,1).
" Sexta denúncia: O amor que é traído. Na cidade, entre confortos, dinheiro, jóias e outras iguarias ( 5,10-16), revolvendo-se na cama ela sonha com aquele que ama verdadeiramente. Ela o vê batendo a porta, com a cabeça orvalhada, pois veio de longe para buscá-la. O desespero é quando esse sonho é meramente sonho. Ela levanta, veste-se e vai à porta, mas não há ninguém na rua a não ser os rondas que proíbem e impedem tudo ( 5,2-6; cf.4,8).
" Uma solução que não soluciona: Em circunstâncias difíceis, diante de uma série de impedimentos legais, Rute aconselha sua nora, Noemi, ir para a feira a fim de estar mais próxima de algum homem que lá se encontrasse. Ela sabe que Booz estaria lá e pede a Noemi ir até lá. Noemi vai e Booz assume a proposta do resgate (rt 1-4). Se quiser ser amada, deve ir para o deserto, fora de casa e fora do vínculo legal (casamento), a quem ela foi vendida ou penhorada, a amada, no texto de Rt também é fruto de uma relação extraconjugal (8,5). Ela pede para o amado fugir com rapidez de gazela, para não ser identificado e quem sabe preso. Assim que ela fugir, ela dará um jeito para ir pelos montes, perfumados pela fragrância da natureza, e lá poderem desfrutar o amor ( 8,14). O amor é só ele:
" Grava-me, como um selo em teu coração, como um selo em teu braço, pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão; suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Iahweh! As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisesse alguém dar tudo para comprar o amor... Seria tratado com desprezo ( Ct 8,6-7).


Conclusões
O amor não acontece por decretos. Ele passa e perpassa todo o ser e seus sentimentos mais profundos.
Israel restaura a cidade, mas não restaura a sociedade.A vida tem suas leis que estão acima do dinheiro, conforto e bens.
Os avanços da tecnologia e das sociedades não fazem caminhar em paralelo a formação para o amor e a afetividade.
A felicidade não é algo que se compra ou se vende. Ela é um direito universal e gratuito.
Não se pode matar os sonhos, as utopias e os anseios. É preciso orientá-los (8,4).
Na passagem de século, é bom olhar antropologicamente o amor dentro das mais diferentes esferas da vida do ser social, religioso e político.

7) O ECLESIÁSTICO ( 190 -170)
O Autor, que também é tradutor, se apresenta como sendo Jesus, filho de Sirac, Eleazar, de Jerusalém (Eclo 50,27; 51,30). Pertence ao gênero da sabedoria bíblica, compondo sua obra em pequenos quadros de máximas. A temática subjacente é a Sabedoria que procede de Deus e nele está desde sempre (1,1) fortalecida por uma teologia da ética e da justiça em favor dos pobres da terra (3, 17-24.30-4,11) e pela teologia da Aliança ( 45,7-17).
Assim como nos provérbios, as máximas do Filho de Sirac podem ser vistas como uma coletânea diversificada e sem muita seqüência, dado que algumas parecem desfazer as outras. O que se pode dizer é que nelas há sabor de correntes diversas, como nestas da sabedoria familiar:
" Filhos - "Tens animais? Cuida deles; se te servem, conserva-os. Tens filhos? Educa-os e desde a infância não mostres face indulgente. Casa a tua filha e terás concluído uma grande tarefa, mas entrega-a a um homem sensato"( 7,22-26).
" Pais - "Honra o teu pai de todo o coração e não esqueças as dores de tua mãe. Lembra-te de que foste gerado por eles. O que lhes darás pelo que te deram?" (7,27-28)
" Sacerdotes - "De todo o coração teme ao teu Senhor e venera os seus sacerdotes. Com todas as tuas forças ama o que te criou e não abandones os seus ministros" ( 7,29-30).
" Pobres - "Estende tua mão ao pobre para que tua bênção seja perfeita...não temas ocupar-te dos doentes, porque serás amado por isso"( 7,32,35).
" A Felicidade - "" Feliz o homem que não pecou com a sua boca e que não foi ferido pelo remorso dos pecados. Feliz aquele cuja consciência não o acusa e aquele que não perdeu sua esperança... Feliz o homem que se ocupa da sabedoria e que raciocina com inteligência" ( 14,1-2.20).
" A mulher - "Uma mulher perfeita alegra o seu marido, ele passará em paz os anos de sua vida. Uma mulher excelente é uma boa sorte, será dada aos que temem ao Senhor: rico ou pobre, tem o coração satisfeito, tem sempre um semblante alegre" ( 26, 2-4).
O que se pode observar ainda é que suas orientações estão bastante próximos às de Esdras, de modo particular com relação à mulher, aos filhos e à família (cf. 9,1-9; 26,7; 30,1-13). A obra é de um judeu muito conservador, representante digno da estrita corrente rabínica.

8) A SABEDORIA (60-50)
A sabedoria é o último livro do AT, escrito diretamente em grego, provavelmente na Alexandria do Egito. O perfil da obra é de estilo helenístico, mas personifica a Sabedoria como uma mulher, como uma amada que se deixa encontrar e amar: a Dama Sabedoria (cf.8,1-16). De modo semelhante a Ben Sirac, o autor exalta a sabedoria que procede de Deus. Algo em comum com outros livros sapienciais, a Sabedoria se inquieta com a situação do homem e o problema de retribuição. No seu juízo, o mau não ficará impune ante o julgamento de Deus (2,21-312). A sabedoria é como um fio condutor de uma vida. Ela é o espírito da ação, mas é igualmente Dom de Deus para a felicidade dos seus filhos:
"Amai a justiça, vós que julgais a terra, pensai no Senhor com retidão, procurai-o com simplicidade de coração porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam, ele se revela aos que não lhe recusam a fé... A Sabedoria é um espírito amigo dos homens, não deixa impune o blasfemo por seus propósitos; porque Deus é a testemunha de seus rins, prescruta seu coração segundo a verdade e ouve o que diz a sua língua"(J,1-22.6).

E assim, chegamos ao fim do nosso Antigo Testamento, nos preparando para entrar no Novo Testamento. Com todos estes períodos de dominação e opressão pelos quais passou o povo de Israel, se criou uma mentalidade e uma expectativa de algo novo iria acontecer: a chegada de um REI PODEROSO, um MESSIAS, ALGUÉM que fosse capaz de devolver definitivamente a LIBERDADE e o CONTROLE da situação para o POVO JUDEU.