OS PROFETAS
Na caminhada do povo de Israel, ao longo de sua história, Deus chamou,
levantou e, às vezes, quase arrancou homens do meio do povo e os enviou
para que falassem em seu nome e anunciassem a sua mensagem. Esses são
os profetas, os porta-vozes de Deus.
1) Quem eram os profetas?
Eram homens que conheciam a situação do país
e também do plano ou projeto de Deus. Com a luz da razão e da
fé, interpretavam o momento presente com os olhos para o futuro. Com
o testemunho de sua própria vida, pelas palavras e com gestos e sinais
buscavam alertar a consciência do povo, provocar a conversão do
coração e a mudança social para que o povo de Deus permanecesse
fiel no caminho do Senhor. Os profetas são uma ponte entre Deus e a humanidade;
entre o Povo e Deus. Lêem e interpretam os "sinais dos tempos".
Os profetas cuidam e zelam pelos direitos de Deus e dos homens; zelam pela justiça
na terra. Por isso, o profetismo de Israel foi mais intenso e vigoroso e intenso
na época dos Reis quando, a concentração do poder e das
riquezas, ameaçavam o projeto de Deus e manchavam de opressão
e de injustiça a terra por Ele dada e abençoada. Na época
da RESTAURAÇÃO, o profetismo em Israel se enfraqueceu devido o
grande período da dominações estrangeiras.
Os profetas, ao denunciar as injustiças presentes, recordam os acontecimentos
passados e o projeto de Deus. Questionam as falsas seguranças do povo
e anunciam um novo êxodo, uma nova aliança, um novo reino que deve
fixar-se na esperança e na espera do enviado de Deus, alguém muito
superior a Moisés, a Davi e a Elias...
2) Estudando um pouco sobre cada profeta...
No inicio do nosso curso, havíamos listado o elenco de todos os profetas.
Relembrando...os 18 profetas do Antigo Testamento:
1. Isaías (primeiro e segundo)
2. Jeremias
3. Lamentações
4. Baruc
5. Ezequiel
6. Daniel
7. Oséias
8. Joel
9. Amós
10. Abdias
11. Jonas
12. Miquéias
13. Naum
14. Habacuc
15. Sofonias
16. Ageu
17. Zacarias
18. Malaquias
1. ISAIAS
Desde o séc. XIX é costume distinguir no livro de Isaías
três partes, de épocas e autores diferentes: A. O Livro do Julgamento
(Is 1-39) do profeta Isaías (740-700 aC); B. O Livro da Consolação
(Is 40-55), ou Dêutero-Isaías (550-539 aC), chamado também
Segundo Isaías; C. O Retorno dos Primeiros Cativos (Is 56-66) ou Trito-Isaías(537-515
aC), chamado também Terceiro Isaías.
A) O LIVRO DO PROFETA ISAÍAS ( Is 1-39):
O profeta Isaías viveu num dos períodos mais conturbados da história
da Síria-Palestina, região onde as duas grandes potências
da época, o Egito e a Assíria, disputavam a hegemonia. Após
um longo período de prosperidade sob os reis Amasias (796-767) e Azarias
(767-739), marcado pelo luxo da classe dominante e pela exploração
dos pobres, Judá entra numa fase confusa de sua política internacional.
Quando Samaria e Damasco movem guerra contra Judá (734/3: guerra siro-efraimítica),
o rei Acaz (734-727) busca a proteção da Assíria, apesar
dos conselhos contrários de Isaías, que pedia para confiar unicamente
em Deus. Mais tarde, quando Ezequias (727-698) procura aliar-se ao Egito e aos
Estados vizinhos contra a Assíria, Isaías novamente toma posição.
Condena o oportunismo político e insiste na fidelidade ao Senhor.
Durante a espinhosa missão profética Isaías viu por três
vezes o seu país invadido e devastado e Jerusalém ameaçada:
durante a guerra siro-efraimítica e duas vezes (em 712 e 701) pela invasão
assíria (cf. 1,5-9; 6,11-13). Assistiu à destuição
de Damasco (732) e à ruína do reino de Israel (722) por ele profetizadas.
Apesar de sua influência na classe governante, com a qual estava relacionado,
teve pouco sucesso como pregador. Seus oráculos provocavam antes oendurecimento
dos ouvintes (6,9-10), o desprezo e a ridicularização dos sacerdotes
e chefes (28,7-22). Segundo uma antiga tradição, Isaías
teria sido serrado ao meio durante uma perseguição de Manassés
(698-643) filho de Ezequias (2Rs 21,16).
Nos 39 capítulos relacionados com a missão do profeta Isaías
encontramos textos de épocas posteriores, ajuntados pelos discípulos
aos oráculos autênticos do mestre. Os textos autênticos revelam-se
na linguagem clara, nobre, vigorosa e concisa, que inspira autoridade, fé
em Deus e compaixão pelo povo. Eis a divisão básica do
livro:
1-12: O livro se inicia com uma seleção de oráculos de
vários períodos, uma súmula da atividade do profeta (c.1).
Os demais oráculos pertencem à fase mais antiga de sua atividade.
13-23: Oráculos contra as nações estrangeiras, em geral
de Isaías.
24-27: Coleção de oráculos apocalípticos, pós-exílicos.
28-33: Oráculos sobre Israel e Judá, pronunciados por Isaías,
sobretudo durante o reinado de Ezequias.
34-35: Fragmentos apocalípticos pós-exílicos sobre o julgamento
das nações e o retorno de Israel.
36-39: Relato da atividade de Isaías durante a invasão assíria,
acrescentado por algum redator.
A mensagem de Isaías gira em torno de três grandes temas : Deus
e sua obra, Deus e o povo pecador, e o messianismo.
a) Deus e sua obra: Deus é o três vezes "santo"(6,3),
o totalmente outro, o transcendente, o rei majestoso (6,5). Ele executa os planos
que concebe (5,12; 10,12; 28,21) em relação ao seu povo e às
nações. Estas são meros instrumentos em suas mãos
para executar os seus desígnios (5,21; 7,18-20;10,5s.15.26).
b) Deus e o seu povo: Isaías denuncia a infidelidade de Israel, tanto
na vida social como política; denuncia o orgulho, a idolatria e a confiança
nas armas. Mas o povo persiste na rebelião, endurecendo seu coração.
Por isso o castigo se torna inevitável (10,22s). Deus, porém,
castiga para purificar o povo (1,25-28; 4,4) e salvar ao menos o "resto"(37,11).
A este resto, que prosperará, pertencerão somente os que confiarem
no Senhor (7,9; 8,16-18).
c) Messianismo: O Rei celeste tem um representante na terra, um descendente
de Davi. Por isso Isaías confirma as promessas feitas a Davi (2Sm 7,16),
anunciando o nascimento do Emanuel (Is 7,14). O futuro será de glória
e felicidade (8,21-9,6; 29,17-24; 32,1-5.15-20; 33,17; 35,1-10), garantidas
pelo rei que "sairá do trono de Jessé" e que fará
reinar a justiça e a paz (11,1-9).
B) O LIVRO DA CONSOLAÇÃO (Is 40-55):
O livro é de um profeta anônimo, chamado Dêutero-Isaías.
A situação política já não é a do
profeta do séc. VIII, onde a ameaça era representada pela Assíria.
Agora a época se caracteriza pela decadência da Babilônia
e ascensão dos persas. Os oráculos foram pronunciados entre as
primeiras vitórias de Ciro (550) na Lídia (Is 41,2-3) e a conquista
da Babilônia (45-48), em 539.
O sucesso de Ciro era atribuído pelos sacerdotes caldeus ao deus Marduc
(Jr 50,2) ou aos seus comparsas,Bel e Nebo (Is 46,1). O profeta contesta e polemiza
contra os deuses falsos (44,6-20): O único senhor da história
é Javé, o Deus de Israel. Ele porá fim ao jugo da Babilônia
e restaurará Jerusalém (48,16-22; 49,14-26).
A mensagem do Dêutero- Isaías é cheia de esperança
e consolação. Anuncia o fim do exílio e um maravilhoso
retorno, no qual se renovarão os prodígios do êxodo. O Senhor,
o único Deus (43,10; 44,6), criador do universo (44,24) e da história
de Israel (43,1.7.15), é a garantia de um futuro glorioso. Sião
será reconstruída e povoada; os dispersos serão reunidos;
as nações se converterão e servirão ao Senhor, que
fará uma aliança perpétua com Israel.
Merecem destaque os "Cânticos do Servo do Senhor"(42,1-4; 49,1-6;
50,4-9a; 52,13-53,12). Neles se descreve a vocação do Servo, sua
missão de pregador, sua função mediadora da salvação
para os homens e, especialmente, o caráter expiatório de seus
sofrimentos e de sua morte. O Servo às vezes parece ser Israel como povo,
ou enquanto elite; outras vezes um indivíduo, talvez o profeta dos poemas,
o rei Ciro, o rei Joaquin ou outro personagem qualquer. Seja como for, o Novo
Testamento viu no Servo sofredor o tipo por excelência dos sofrimentos
e da morte redentora de Cristo.
C) O RETORNO DOS PRIMEIROS CATIVOS (Is 56-66):
A última coleção de oráculos é atribuída
a um profeta anônimo, chamado Trito-Isaías, cuja atividade provavelmente
se coloca em Jerusalém, entre os anos 537 e 515 aC. Neste tempo o primeiro
grupo de exilados há havia voltado e iniciado a reconstrução
do templo. Mas devido às divisões internas da comunidade e da
hostilidade por parte da populaçã o local, dos samaritanos e pagãos,
somente o altar foi reconstruído. A cidade, as muralhas e o próprio
templo continuavam em ruínas. Assim, às grandes esperanças
provocadas pelos oráculos do Dêutero-Isaías e pelo edito
de Ciro (538), seguiu-se uma perigosa desilusão. O povo começava
a descrer de Deus, que parecia incapaz de manter suas promessas de salvação
(59,1.9).
Neste contexto levanta-se a voz de um discípulo de Isaías, provavelmente
diverso do autor dos capítulos 40-55. Este profeta procura reanimar os
desalentados, reafirmando a validade das promessas de salvação.
As dificuldades presentes, de caráter material (58,12; 61,4; 64,9s),
político (56,10-12), social (58,3-7; 59,2-15) e religioso (59,1; 57,1;
58,1-14), são causadas pelo pecado (59,2). O profeta condena os sacrifícios
humanos, a prostituição sagrada, a necromancia, o sincretismo
religioso e a exploração do próximo. São estes os
males que retardam a salvação (Is 58-59).
Deus, porém, continua amando seu povo com fidelidade (65,11). É
um verdadeiro pai (63,8.16); 64,7) e demonstra um afeto materno pelos seus fiéis
(66,13). Perdoa as infidelidades (57,16-18; 64,8), mas julgará com certeza
os que persistem no mal (66,16-24).
Afastar-se do mal, confiar no Senhor e servi-lo fielmente, eis o caminho da
salvação. Então, sim, o futuro de Jerusalém será
glorioso para Israel e para as nações, que se converterão
ao Senhor (60-61), e haverá novos céus e nova terra (66,17-21).
2. JEREMIAS
Jeremias nasceu pelo ano 650 aC em um lugarejo chamado Anatot, cerca de 7 km
a nordeste de Jerusalém. Descendia de uma família sacerdotal (cf.
Jr 1,1). Sua atividade profética começou no décimo terceiro
ano do reinado de Josias (627 aC). Pode-se dividir a missão profética
de Jeremias em quatro etapas. A primeira desenvolveu-se no reinado de Josias
e vai até 622 aC. Dos anos 622-609 aC nã o nos foi conservado
nenhum dito do profeta. Nesta época o profeta parece ter silenciado,
aguardando os frutos da reforma religiosa iniciada por Josias em 622 aC (cf.
2Rs 22,8-23,23). Mas logo após a morte de Josias na batalha de Meguido
(609 aC), Jeremias recomeça sua pregação profética
atacando corajosamente as injustiças e opressões praticadas pelo
novo rei Joaquim (cf. Jr 22,13-19). Em 600 aC Joaquim rebela-se contra Nabucodonosor
II, que cerca Jerusalém. Durante o sítio morreu o rei Joaquim.
Nabucodonosor subjuga Jerusalém em 597 aC e arrasta para a Babilônia
um primeira leva de exilados (cf. 2Rs 24,10-17). Durante o reinado de Sedecias
(597-586 aC) desenvolve-se a terceira etapa de atividade de Jeremias. O profeta
aconselha o rei a submeter-se ao rei da Babilônia. Mas o monarca judeu
temendo o partido favorável ao Egito, rebela-se contra Nabucodonosor,
que novamente ataca Jerusalém. É um período de grande sofrimento
para Jeremias, considerado como traidor. Em julho de 586 aC Jerusalém
é destruída, o rei e a classe dirigente exilados. A Jeremias é
deixada a decisão de ficar na Palestina ou ir para a Babilônia.
Jeremias prefere ficar em Jerusalém para ajudar seu amigo Godolias na
reconstrução da comunidade. Após o assassinato de Godolias
os culpados, temendo as represálias de Nabucodonosor, fogem arrastando
consigo Jeremias. A partir desta data não possuímos notícia
alguma de Jeremias. É provável que tenha morrido no Egito. Pode-se
penetrar um pouco a personalidade profundamente religiosa e sensível
de Jeremias através de suas confissões ou monólogos (cf.
Jr 11,18-22; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18).
Texto: O livro de Jeremias em seu estado atual é composto de textos em
forma poética e de textos em forma de prosa. Os textos em prosa apresentam
em geral melhor estado de conservação do que os textos poéticos.
Além disso a tradução grega do AT, chamada Septuaginta,
apresenta um texto consideravelmente mais curto do que o texto hebraico massorético
(2.700 palavras a menos). Este fato deve ser explicado em alguns lugares por
erros de copistas (por exemplo, repetição em Jr 39,4-13; 51,44b-49a),em
outros lugares por adições secundárias no texto, ainda
não existentes no tempo da tradução dos LXX (cf. Jr 34,14-16).
Composição: O processo de formação do livro tem
uma história longa e complicada. O atual livro de Jeremias é um
aglomerado de unidades e complexos de textos originariamente independentes.
O princípio de composição não é sempre claro;
ordem cronológica e ordem de assunto se misturam. O texto massorético
dispõe em geral nos capítulos 1-39 o material pertencente à
época anterior e nos capítulos 40 -45 à época posterior
à queda de Jerusalém (586 aC); os capítulos 46-51 conservam
os oráculos contra os povos. O texto da Septuaginta transmitiu-nos uma
outra ordem, provavelmente a primitiva (cf. a ordem de Isaías 1-39 e
de Ezequiel): oráculos contra Judá e Jerusalém (Jr 1,4-25,13a),
oráculos contra as nações (Jr 25,13b-38; 46-51), profecias
de ventura (Jr 26-35), sofrimentos de Jeremias (Jr 36-45) terminando com o apêndice
histórico (Jr 52). Os 25 primeiros capítulos são principalmente
agrupados em ordem cronológica (1-6 tempo de Josias, 7-20 tempo de Joaquim,
21-25 de época posterior).As profecias de ventura estão ordenadas
por matéria, as narrações dos sofrimentos de Jeremias cronologicamente.
O c. 52 corresponde a 2Rs 24,18-25,30 e quer mostrar a realização
das ameaças de Jeremias. Repetições, diferenças
de estilo e até concepções teológicas diversas indicam
provavelmente a existência de várias fontes no livro de Jeremias.
S. Mowinckel distinguiu três diferentes fontes:
A fonte A contém oráculos em forma poética, que em substância
remontam a Jeremias. O material desta fonte encontra-se principalmente nos c.
1-25.
A fonte B encerra narrações sobre Jeremias redigidas em terceira
pessoa e relata os sofrimentos do profeta (cf. Jr 36-45). Esta fonte é
em geral atribuída ao secretário de Jeremias, Baruc.
A fonte C é uma coleção de sermões proféticos
em forma de prosa, originariamente de Jeremias, mas posteriormente trabalhados
e adaptados pela escola deuteronomista. Pertencem a esta fonte as perícopes:
Jr 7,1-8,3; 11,1-14; 16,1-13; 17,19-27; 18,1-12; 21,1-10; 22,1-5; 25,1-14; 34,8-22;
35.
Um problema muito discutido na história da exegese jeremiana é
a reconstrução do assim chamado rolo primitivo, escrito a mando
de Jeremias e lido diante do rei Joaquim (cf. Jr 36). Já durante o exílio
deve ter começado o processo de seleção e agrupamento das
fontes, que se prolongou por muito tempo. No tempo da tradução
da Septuaginta (séc. III aC) este processo ainda não estava encerrado.
Mensagem teológica: Para compreender a mensagem de Jeremias é
necessário colocá-la dentro do seu ambiente. Jeremias começou
a sua atividade profética em 627 aC. Os reinados de Manassés (698-643)
e Amon (643-640) trouxeram para Judá um grande sincretismo religioso
(cf. 2Rs 21,1-9; 23,4-14; Jr 7,17;8,2 etc.). A reforma deuteronomista, começada
em 622 pelo piedoso rei Josias, não deu os frutos esperados, terminando
praticamente com a morte deste monarca em 609. Embora depois de Josias a idolatria
não tivesse voltado oficialmente ao templo, contudo ela estava arraigada
no povo (cf. Jr 11,13.17; 12,16; 13,10; 16,18).O culto prestado ao Senhor estava
deformado; a religião oficial e o povo confiavam cegamente nas promessas
de eleição de Sião e da dinastia davídica, tradições
tipicamente judaicas, esquecendo as exigências do Deus da aliança
(cf. Jr 7,4s; 23,16s). Jeremias ao contrário colocava no centro de sua
argumentação as antigas tradições do javismo: suas
palavras eram orientadas pelas tradições tipicamente israelíticas
do êxodo e do Sinai. Como filho da tribo de Benjamim (cf. Jr 1,1), uma
das tribos do grupo de Raquel, tinha Jeremias contato maior com as tradições
israelitas mais radicadas nas tribos do Norte. Jeremias vê o estado atual
do povo em crassa contradição com as exigências de Deus.
O povo trocara o Senhor por Baal (cf. Jr 2,1-37).
Os fracos -protegidos especiais do javismo (cf. Ex 23,9; Lv 19,13; Dt 24,14)
-eram oprimidos e desprezados (cf. Jr 5,26-28; 7,5; 21,12; 22,3). Judá
não procedia conforme o direito divino (mispat): violara a aliança
com o Senhor. Jeremias acusa os pecados do povo e anuncia a vinda de um inimigo
do norte, como castigo de Deus (cf. Jr 4,5-31). O apelo de Jeremias à
conversão (sub) significa uma volta ao amor primeiro, uma volta à
aliança (cf. Jr 2,2.13). Como Oséias, exige Jeremias do povo um
amor semelhante ao amor da esposa para com o esposo,do filho para com o pai
(cf. Jr 2,1-3; 3,1-5). Mas Jeremias sabe por experiência própria
-sua pregação de mais de 40 anos ficou praticamente sem frutos
-que a conversão é obra de Deus. Ele anuncia que Deus selará
no fim dos tempos uma nova aliança (cf. Jr 31,31-34); uma aliança,
em que Deus mesmo imprimirá sua lei no coração dos seus
fiéis: "Porque esta é a aliança que selarei com a
casa de Israel depois desses dias -oráculo do Senhor. Colocarei minha
lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu
serei seu Deus e eles serão meu povo"(Jr 31,33). Esta promessa marca
um ponto culminante na mensagem de Jeremias.
3. LAMENTAÇÕES
Na versão grega dos LXX e na Vulgata latina este livro pode parecer um
simples apêndice da profecia de Jeremias, tanto pelo título "Trenos
(cantos fúnebres) ou Lamentações de Jeremias" como
pelo preâmbulo: "Depois de conquistado Israel e devastada Jerusalém,
sentou-se Jeremias a chorar e, entoando esta lamentação sobre
Jerusalém, disse"...
Não se pode negar certa semelhança entre os dois livros. Entretanto,
eles não têm a mesma autoria. Tal dedução não
se apóia apenas na diversidade de vocabulário e estilo. O canto
fúnebre de Jeremias aplica-se ao rei Josias, enquanto as Lamentações
se referem à tomada de Jerusalém, à destruição
do templo e à deportação do povo para a Babilônia
pelo rei Nabucodonosor, em 586 aC, fim do reinado de Sedecias. A doutrina da
retribuição expressa em 5,7 e a aliança egípcia
de 4,17 contrariam a pregação de Jeremias (31,29s; 37,5-7). E
como poderia o profeta dizer que nã o havia profetas (2,9)? Além
de Jeremias, vivia então o profeta Ezequiel, já deportado para
a Babilônia.
Semelhanças temáticas e lingüísticas e a mesma preocupação
teológico-pastoral das cinco elegias fazem supor um único autor,
excluída a hipótese de uma simples coletânea. A data de
composição não é muito posterior ao ano 586 aC.
A Bíblia Hebraica inclui este livro entre os "Escritos". O
título primitivo "Quinot" (plural de quináh = verso
hebraico especial, cuja primeira parte tem um ou dois acentos mais que a segunda)
foi substituído por "Ekáh" (interjeição:
Como?!), sua palavra inicial. Quatro elegias são alfabéticas (cada
estrofe - na terceira elegia, cada verso - começa com letra diferente,
em ordem alfabética). O poeta cede, às vezes, a palavra à
cidade de Jerusalém, personificada, para que lamente sua devastação
e chore seus filhos. A última elegia - que não é alfabética,
embora seus 22 versos igualem em número o alfabeto hebraico - não
segue o estilo descritivo das lamentações precedentes, mas é
uma pungente súplica, para impetrar a misericórdia divina sobre
o povo e a Cidade Santa.
As cinco elegias exprimem a comoção de Israel ante a ruína
da nação: o assédio de Jerusalém, a fome, a violência,
o escárnio dos exércitos invasores, a inércia do braço
divino. A queda da Cidade Santa e a destruição do templo feriu
o povo em seu ponto nevrálgico: a manifestação visível
da presença do Deus da aliança, cerne da identidade religiosa
de Israel. A extinção da monarquia desestabilizou a tão
celebrada aliança; a supressão do sacerdócio levítico
dissolveu a mediação litúrgica entre Deus e seu povo. A
crise de fé abalou a confiança de Israel na proteção
divina, colocando em xeque a própria credibilidade de Deus e sua aliança
com Israel. A aliança, tendo falhado - e quem podia duvidar que ela falhara?
- ou nunca foi real e autêntica, ou sofreu o desgaste dos séculos
e já não vigora, e o povo vive na ilusão religiosa. Desagregada
a comunidade de fé, dissolveu-se a coesão social, morreu a alma
da nação.
As Lamentações não pretendem consolar o povo, desviando
do sofrimento sua atenção; antes, mediante dramáticas descrições
dos horrores da derrota, desvendar todo o alcance da desgraça nacional
e seu significado religioso, como mensagem do Deus justo ao povo pecador, do
Deus misericordioso ao povo arrependido e penitente. Quem falhou à aliança
não foi Deus; foi o povo, rebelde e infiel. O livro convida à
reflexão e ao exame de consciência, à aceitação
do julgamento divino, à conversão e penitência, à
reconciliação com o Deus da santidade, que não pode pactuar
com o pecado: a degradação moral do povo, os desmandos dos sacerdotes,
os embustes dos falsos profetas, as condenáveis alianças políticas
com as nações pagãs.
A errônea interpretação da doutrina da eleição
de Israel dava ao povo a falsa segurança em suas instituições
e no auxílio incondicional de um Deus sectário, unilateralmente
comprometido com Israel por aliança inviolável. A crise nacional,
longe de abalar a fé em Deus, deve ser ocasião de corrigir os
desvios na fé, para construí-la sobre as bases autênticas
da aliança recíproca.
A experiência pessoal do autor, salvo de iminente perigo de vida, leva-o
a suscitar a confiança do povo na misericórdia de Deus, que conhece
a dolorosa experiência de Israel e sabe que a ausência de Deus lhe
é muito mais intolerável que a perda dos bens materiais, a violência
dos maus tratos e a dor da humilhação. Para que fugir de Deus,
que vem ao encontro do povo, não havendo, fora dele, salvação?
Este é para todas as horas de sofrimento e angústia e para todas
as calamidades, nacionais ou pessoais, o perene ensinamento do livro das Lamentações.
4. BARUC
Com o título geral de "Livro de Baruc"aparecem na Bíblia
dois escritos diferentes: o livro de Baruc propriamente dito (c. 1-5) e a Carta
de Jeremias (c. 6). Esta, aliás, nas edições gregas, é
separada do livro pela inserção das Lamentações
entre ambos.
Mas o próprio livro de Baruc tem uma composição complexa:
além da introdução histórica, que situa a redação
do livro na Babilônia, cinco anos após a destruição
de Jerusalém (1,1-14), distinguem-se duas partes: a primeira, em prosa
(1,15-3,8), é uma confissão dos pecados e uma súplica,
a serem feitas pelos israelitas diante de Deus; a segunda, em verso (3,9-5,9),
encerra umaexortação sapiencial (3,9-4,4) e um oráculo
de restauração (4,5-5,9).
O autor é pós-exílico, talvez do século II aC, mas
atribui seu escrito ao discípulo e secretário de Jeremias, reproduzindo
em 1,1 sua genealogia, apresentada em Jr 32,12. Assim, a situação
do exílio é revivida pelos integrantes da Diáspora, ansiosos
também eles pela restauração de Israel.
O principal ensinamento doutrinário é que as tribulações
do povo eleito são consideradas conseqüência de suas infidelidades
a Deus e à Lei. Esta, apresentada como o caminho da Sabedoria, é
o meio de se restaurar a liberdade e a paz.
A "Carta de Jeremias", inspirada na carta do profeta à primeira
leva de exilados (Jr 29,4-23) e reproduzindo, quanto ao conteúdo, as
idéias do seu oráculo contra os ídolos (Jr 10,1-16), desenvolve
exaustivamente o tema já abordado pelo Sl 115 e pelo Segundo Isaías
(Is 44,9-20 e 46,1-8). É um escrito pseudo-epigráfico, redigido
também no século II, visando a preservar da idolatria os judeus
dispersos.
Ambos os escritos não se encontram na Bíblia Hebraica: se redigidos
originalmente em hebraico, como o dá a entender a versão de Teodocião
(que só inclui textos traduzidos do hebreu o do aramaico), esse original
se perdeu, restando apenas o texto grego. Por isso, integram o grupo dos deuterocanônicos.
Ambos são preciosos como testemunho: são os únicos da Bíblia,
além do de Tobias, que se referem à vida dos judeus dispersos,
firmemente unidos, na contrição e na esperança, a seu povo.
5. EZEQUIEL
Entre os exilados que Nabucodonosor conduziu em 597 aC, junto com o rei Joaquin,
para a Babilônia, estava também o sacerdote Ezequiel. Os exilados
de Tel-Abib, bem como os habitantes de Jerusalém, esperavam para logo
o fim do desterro. Neste contexto, Ezequiel é chamado a ser profeta,
em 593 aC. Sua missão toda é exercida no meio dos exilados. Ezequiel
lhes procura tirar toda esperança de um fim próximo do exílio.
Nega seu apoio às tentativas de sacudir o jugo de Nabucodonosor (Ez 14,1-3;
20,1-4). Ao contrário, quer incutir nos ouvintes uma certeza: Jerusalém
será destruída e toda a população de Judá
exterminada e exilada (5-24).
Realizada a sua profecia em 587/6 aC, Ezequiel procura salvar o "resto"que
sobrara do povo eleito. Qual sentinela (33,1-9), põe-se a advertir os
pecadores e idólatras (20,32-44), apontando-lhes o caminho da conversão
(Ez 14; 18; 33). Abre-lhes os olhos e a mente para entenderem a razão
da catástrofe que atingiu a nação: as infidelidades do
povo. A este povo desiludido e desanimado, sem perspectivas de sobrevivência,
aponta o caminho da renovação nacional e religiosa (Ez 36-37).
Como Ezequiel costuma datar os seus oráculos, podemos colocar sua dupla
atividade, de profeta de desgraça e da consolação divina,
entre 593 aC e 571 aC.
No comportamento externo, Ezequiel se parece com os profetas antigos, Elias
e Eliseu. Como eles, age movido pelo espírito de Deus (2,2; 3,14; 8,1;
11,24; 37,1s; 40,1s) e é consultado pelo povo (8,1; 14,1-3; 20,1-3).
Mas na temática da pregação e nos gêneros literários
usados depende de seus predecessores imediatos. Destacam-se em seu livro as
visões (1-3; 8-11; 37,1-14; 40-48). Freqüentes são também
as ações simbólicas (Ez 4-5; 12; 21; 24; 37). Mas não
faltam a alegoria (Ez 16; 17; 19; 23), as elegias (Ez 19; 27-29; 32) e as discussões
com os ouvintes (Ez 14; 18; 33).
O livro de Ezequiel apresenta uma divisão básica bem clara: a
vocação do profeta (1-3), profecias sobre a destruição
de Jerusalém (4-24), oráculos contra as nações (25-32),
a salvação para Israel (33-39) e a visão do novo Israel
(40-48). Notam-se, porém, remanejamentos, freqüentes acréscimos
e reinterpretações no texto, seja da parte do profeta, após
a destruição de Jerusalém, seja por obra dos discípulos,
na época exílica e pós-exílica. Indícios
deste trabalho redacional são as repetições (33,7-9 = 3,17-21;
33,17-20 = 18,25-29; 36,16-28 = 11,6-21) e deslocamentos (assim 3,22-27; 4,4-8;
24,15-27 e 33,21s devem ser lidos juntos) e interrupções de textos
(assim 2,1-3,11 interrompe 1,4-28 + 3,12-15). Tudo isto mostra a popularidade
e influência exercidas por Ezequiel, considerado por alguns como o "pai
do judaísmo", isto é, o mentor principal da piedade e mentalidade
pós-exílicas.
A mensagem de Ezequiel está centrada na idéia de Deus, na sua
relação com o povo eleito e no futuro desta relação.
Deus é absolutamente transcendente, aquele que se manifesta santo no
seu modo de agir (20,41; 28,22; 36,23) e revela sua glória (1,28; 3,12;
9,3; 11,22s; 43,2-5).Zela pelo seu santo nome e por causa dele intervém
na história de Israel (20,9.14.22.44; 36,20-22). Ao se revelar, punindo
ou salvando, Deus quer que todos o reconheçam como o Senhor (6,7; 7,4;
20,28; 23,49, etc.). Este Deus glorioso e transcendente elegeu Israel como seu
povo (Ez 20,5), Jerusalém e Samaria como esposas (16,6-13; 23). Mas Israel
se mostrou continuamente rebelde (Ez 20). Por isso Deus abandonou o seu santuário
(11,23), Jerusalém e seus habitantes ao extermínio. Mas Deus não
abandonou os exilados: Apareceu a Ezequiel (1-3) e reside no meio do povo, arrancado
de sua pátria (11,16).
A desgraça caída sobre Israel não significa o fim de sua
história. Deus agirá novamente por causa de seu nome, salvando
Israel. Eis as etapas previstas para a restauração de Israel:
1º) Deus trará os cativos de volta à sua terra (11,17; 20,32-38;
36,24);
2º) Israel e Judá serão reunificados (37,15-22);
3º) Será restituída a felicidade temporal (34,25-29), sem
calamidades naturais, com grande fertilidade agrícola (36,20) e populacional
(37,26s), produzidas pelas águas regeneradoras que brotarão do
templo (47,1-12);
4º) A nova aliança, que será eterna (16,60; 37,26);
5º) A doação de um novo coração e um novo espírito
(11,19; 18,31; 36,26s; 37,14);
6º) A retribuição individual (18,1-32; 33,10-20): Deus vai
julgar e punir cada um pelos próprios pecados e não pelos dos
pais. O acesso à salvação se dará pela conversão
individual;
7º) O esmagamento do último inimigo, Gog (38-39);
8º) O novo Davi apascentará o povo em nome de Deus (17,22s; 34,23;
37,24s);
9º) A presença de Deus no meio do povo: Restabelecida a aliança,
Deus habitará para sempre no santuário, no meio de seu povo (37,26-28;
43,7-9): "Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo"(37,27).
Por isso o novo nome de Jerusalém recordará para sempre esta presença:
"O Senhor está lá"(48,35).
6. DANIEL
Daniel no cânon hebraico e nas versões: No cânon hebraico
Dn não figura entre os livros proféticos, mas nos assim chamados
"Escritos", contando apenas 12 capítulos. Na versão
dos Setenta, Vetus Latina e Vulgata Latina se encontra entre os profetas, depois
de Ezequiel e como quarto dos "grandes profetas". Ao todo conta 14
capítulos, sendo que o terceiro foi enriquecido pelos cânticos
de Azarias e dos três jovens na fornalha. Estes cânticos e Dn 13-14
não constam no texto hebraico-aramaico.
Divisão e conteúdo: O livro se divide claramente em duas partes
que se correspondem (Dn 1-6 e 7-12), mais os suplementos gregos deuterocanônicos.
A Primeira Parte (Dn 1-6) tem cunho narrativo, e por cenário a cidade
de Babilônia. Daniel e seus companheiros saem vitoriosos das provas e
os pagãos reconhecem e glorificam a Deus que os salvou. A Segunda Parte
(Dn 7-12) contém quatro visões apocalípticas de Daniel
na Babilônia e em Susa, referentes aos grandes impérios da época
e especialmente ao ímpio Antíoco, perseguidor dos judeus. As visões
são interpretadas por um anjo, especialmente o anjo Gabriel.Seguem-se
os apêndices (Dn 13-14), contendo as histórias da casta Susana,
de Bel e da Serpente, vencidos por Daniel, e de Daniel na cova dos leões.
As línguas de Daniel: Parte do livro está escrita em hebraico
(1,1-2,4a; 8-12), mas a parte maior vem em aramaico (2,4b-7,28). Além
disso temos as partes deuterocanônicas em grego (Dn 3,24-90 e Dn 13-14).
Até hoje ninguém conseguiu explicar satisfatoriamente esta mistura
de línguas. Além disso o texto grego subsiste em duas formas:
a versão dos Setenta, representada por apenas 2 manuscritos e alguns
fragmentos, e a assim chamada versão de Teodocião, representada
por numerosos manuscritos. É sobre este último texto que S. Jerônimo
traduziu Dn 3,24-90 e Dn 13-14.
Autor e tempo de origem: Dn 1-6 nos coloca no tempo do exílio babilônico
(séc. VI aC). Dn 7-12, onde Daniel fala de si na primeira pessoa, é
atribuído a Daniel, judeu deportado em 606 aC. De fato, até o
séc. XIX o livro foi atribuído a este profeta exílico;
mas desde então tornou-se opinião generalizada entre autores não-católicos
e católicos que na realidade o livro foi escrito no séc. II aC,
no tempo da perseguição de Antíoco IV, entre os anos 167
e 163 aC, no início do período macabeu. De fato, o Eclesiástico
composto pelo ano 190 aC não menciona Daniel (Eclo 48,22; 49,7-10), mas
o livro já é conhecido por 1Mc, escrito pelo ano 100 aC (1Mc 1,54;
Dn 9,27; 11,31). Portanto, o autor é um desconhecido, talvez pertencente
ao grupo assideu (cf. 1Mc 2,27), o que não exclui que o livro contenha
elementos mais antigos.
O livro atual de Dn forma uma unidade literária, a favor da qual falam
não poucos indícios, tanto da primeira como da segunda parte:
Dn 7 é esclarecido por Dn 8 e é paralelo a Dn 2; além disto
Dn 7 está escrito no mesmo aramaico de Dn 2-4.
Fim visado e mensagem religiosa: O autor desconhecido quis oferecer aos seus
contemporâneos, cruelmente perseguidos pelo rei Antíoco, um livro
de conforto e consolação. Segundo Dn 1-6 os que, a exemplo de
Daniel e seus companheiros, ficam fiéis à Lei e à religião
dos pais, são recompensados por esta fidelidade e salvos por Deus. Dn
7-12 mostra que está próximo o fim da perseguição
e de seu promotor, dando assim ânimo e coragem para perseverar; a vitória
final será de Deus e não do rei. Deus salva os seus fiéis,
mesmo que seja no último instante (3,24s; 6,20s; 13,42s; 14,31).
Os que não viram a realização deste futuro salutar ou que
sofreram o martírio pela verdadeira religião, podem contar com
a gloriosa ressurreição dos justos (12,2; 2Mc 7,9). O próprio
autor do livro, talvez já adiantado em anos, pode repousar em paz e esperar
a ressurreição, como lhe assegura um anjo (12,13).
Também os apêndices de Dn 13-14 visam de modo geral o mesmo fim:
Deus salva os inocentes (Susana) e especialmente os campeões da fé
(Daniel na cova dos leões), enquanto o culto dos ídolos é
ridículo.
O livro mostra também que só Deus tem todo o poder. Se tolera
até certo ponto os poderes terrestres, acaba por triunfar sobre eles,
obrigando-os a reconhecê-lo como o único todo-poderoso (Dn 3-6).
As visões de Dn 7-12 também mostram que os sofrimentos dos justos
perseguidos não são obra do acaso, mas há muito estavam
previstos por Deus; está próximo o dia em que Deus quebrará
o poder do tirano, inaugurando ele mesmo o seu reinado universal e eterno (7,14;
2,44; 3,33; 6,28).
Com este reinado de Deus temos um último elo na corrente dos oráculos
messiânicos: a irrupção do reinado de Deus representa o
tema central dos evangelhos sinóticos e Jesus é chamado muitas
vezes de "Filho do homem", título que aparece em Dn 7,13; além
disto ele se identifica com o "Filho do homem" que vem com as nuvens
do céu (Mc 13,26).
Digna de menção é também a insistência do
livro no tema da oração e na angelologia, especialmente nas figuras
dos grandes anjos Gabriel e Miguele nos anjos protetores dos persas e gregos.
Daniel, livro profético e apocalíptico: O livro de Daniel vai
na linha dos antigos profetas, enquanto acredita firmemente que Deus é
o senhor da história e em breve revelará o seu domínio,
prostrando todos os poderes pagãos e glorificando os judeus fiéis
à Lei. A intervenção corajosa do jovem Daniel a favor de
Susana inocente (13,45-61) lembra o empenho dos profetas a favor dos fracos
e indefesos (cf. Am 5,7-12.24s; 6,12; Is 1,17; 10,2; Jr 22,15s; Mq 6,8).
As diferenças entre Dn e os profetas, porém, prevalecem sobre
as semelhanças. Os profetas anteriores primariamente se ocupam do presente,
visando à conversão e penitência e com isto à renovação
moral e religiosa dos contemporâneos. Esta preocupação pastoral
falta quase por completo em Dn; o que preocupa é o futuro, isto sobretudo
nas visões (7-12). Elas descerram o futuro, fazendo esquecer a tribulação
presente e procurando dar conforto. Em suma, podemos dizer que, depois da apocalíptica
incipiente em Ez 38-39 (cf. Is 24-27; Zc 9-14 e Joel), este livro representa
o primeiro exemplo do gênero apocalíptico plenamente desenvolvido,
gênero que teve ampla aceitação no judaísmo contemporâneo
e posterior, por exemplo nos livros apócrifos de Henoc e também
no Apocalipse do NT, que tantas vezes cita Dn.
7. OSÉIAS
O livro de Oséias em sua forma atual é claramente dividido em
duas grandes partes: c. 1-3 e 4-14. Os três primeiros capítulos
giram em torno do tema do casamento de Oséias, que recebe em seu atual
contexto um significado simbólico profundo. A segunda parte (c. 4-14)
reúne uma grande coleção de oráculos, que tratam
de temas bastante variados e se originaram em diferentes épocas da vida
do profeta. Esses oráculos em sua maioria podem ser considerados autênticos.
Mas a redação atual do livro de Oséias sofreu a inclusão
de diversas glosas e acréscimos posteriores (cf. 2,1-3.6-8.12-14; 4,15;
5,5; 7,13b-14; 11,11; 12,1; 14,10).
O título introdutório (cf. 1,1) do livro de Oséias no-lo
apresenta como um contemporâneo do rei Jeroboão II (782-753 aC).
É o único profeta escritor originário do reino do Norte.
Sua atividade profética se estendeu por quase trinta anos (755-725 aC).
Ele assistiu a uma época de apogeu econômico e político
durante o reinado de Jeroboão II, mas presenciou, também, confusões
internas e assassinatos de reis após a morte do grande Jeroboão
(cf. 7,7; 8,4). Viveu, outrossim, os tempos atribulados da guerra siro-efraimítica
(cf. 5,8-6,6). Sua atividade profética parece ter terminado antes da
queda de Samaria (722 aC).
Os três primeiros capítulos do atual livro de Oséias são,
sem dúvida, objeto de muita controvérsia entre os exegetas modernos.
Hoje, porém, são poucos os exegetas que atribuem um valor meramente
alegórico ao relato do casamento de Oséias. Trata-se, sem dúvida,
de uma experiência real na vida do profeta. Oséias vê nessa
sua experiência negativa um simbolismo profundo do relacionamento entre
Deus e o seu povo, como se deduz dos nomes simbólicos atribuídos
a seus filhos (Jezrael, Não-Amada, Não-meu-povo).
A mensagem de Oséias gira em torno das exigências fundamentais
da teologia profética expressa nos quatro termos: direito (michpat),
justiça (sedaqah), fidelidade ('emet) e amor (hesed). Ele não
conhece uma teologia da aliança. Oséias descreve a relação
profunda entre Deus e seu povo com categorias do matrimônio (1-3) ou da
paternidade (11,1). Nos oráculos de Oséias aparece claramente
a profunda corrupção moral, social e religiosa de Israel (4,1-3.4-19;
5,15-6,6; 8,4-7 etc.). Mas a mensagem de Oséias apresenta, também,
acentos de profundo carinho (11,1-4) e de esperança. O caminho da conversão
continua aberto a Israel (5,15-6,6). O profeta exige do povo um verdadeiro "conhecimento
de Deus" (da'at 'elohîm) como único caminho para uma conversão
sincera.
8. JOEL
O livro de Joel se divide em duas grandes partes claramente distintas, unidas
entre si pelo tema comum do "dia do Senhor". Na primeira parteé
descrita uma invasão de gafanhotos (1,2-4), considerada pelo autor como
presságio do "dia do Senhor"(cf. 1,15; 2,1.11). A região
fica tão desolada pela praga de gafanhotos e provavelmente, também,
por uma seca, que o profeta convoca uma liturgia penitencial (1,5-2,17). No
fim é descrita a intervenção salvífica de Deus (2,18),
que anuncia ao povo atribulado um oráculo salvífico (2,19-27).
Na segunda parte o elemento escatológico predomina. É anunciada
a efusão do espírito de Deus sobre toda carne (c. 3) e o julgamento
das nações no vale de Josafá (4,1-17). O livro termina
descrevendo a paz paradisíaca que haverá no fim dos tempos para
Judá (4,18-21).
Em geral, os exegetas admitem, hoje, que o livro tenha sido escrito por um único
autor. Mas a brevidade do título introdutório, que fala de um
Joel filho de Fatuel (1,1), torna impossível maiores determinações
sobre o autor e dificulta enormemente a datação do livro. A referência
ao exílio (cf. 4,1-3) e a falta de alusões à pessoa do
rei, bem como a menção à existência do templo (cf.
1,9.14.16; 2,14; 4,18) e das muralhas da cidade (cf. 2,7.9), colocam como limite
superior de datação o tempo de Neemias (445 aC). É provável
que o livro tenha sido composto pelo ano 400 aC.
Joel foi, provavelmente, um profeta cúltico e exerceu sua atividade profética
no templo de Jerusalém. Sua mensagem alimenta-se das antigas tradições
do "dia do Senhor"e de oráculos contra os povos, comuns aos
profetas pré-exílicos. Mas é completamente diferente da
mensagem dos grandes profetas individuais pré-exílicos. Seu horizonte
é escatológico. Parte de uma calamidade concreta para anunciar
a transformação escatológica de Judá e de Jerusalém.
9. AMÓS
A estrutura literária do livro de Amós parece bastante clara.
Os dois primeiros capítulos contêm uma série de oráculos
contra os povos vizinhos (1,3-5.6-8.9-10.11-12.13-15; 2,1-3.4-5) e culmina com
um oráculo contra Israel (2,6-16). A segunda parte do livro compõe-se
de diversas coleções de oráculos isolados contra Israel
(3-6). Os c. 7-9 formam a terceira parte do livro que reúne o relato
de cinco visões do profeta (7,1-3.4-6.7-9; 8,1-3; 9,1-4). Entre a terceira
e quarta visão, o redator introduziu um relato em terceira pessoa, o
episódio de Betel, que narra o encontro de Amós com o sacerdote
Amasias e a expulsão do profeta. Em 8,4- 9,10 encontra-se uma outra coleção
de oráculos isolados. O livro termina com um oráculo salvífico
(9,11-15). No processo de formação do livro de Amós foram
acrescentados palavras e oráculos de época posterior. Assim são
certamente acréscimos posteriores as doxologias (4,13; 5,8-9; 8,8; 9,5-6).
De origem secundária são provavelmente também 1,2.9.11-12;
2,4-5 bem como 9,8-15.
Amós é apresentado como um vaqueiro e cultivador de sicômoros
(7,14) originário de Técua, ao sul de Belém (1,1). Como
é dito claramente em 7,14, ele não era nabi, isto é: membro
de uma corporação profética a serviço do culto.
Foi Deus que o chamou e tirou de sua atividade civil e o enviou ao reino do
Norte para denunciar os abusos aí existentes. Sua atividade profética
deve ter começado nos últimos anos do reinado de Jeroboão
II entre os anos 760-750 aC. Sua missão não durou muito. Acusado
pelo sacerdote Amasias junto ao rei como subversivo, ele é expulso do
reino do Norte e volta à sua pátria (7,10-17).
Amós revive em seus oráculos as antigas tradições
de Israel. O tipo de sociedade que ele encontra em Betel e Samaria está
em contradição gritante com a vontade do Senhor. Toda sua mensagem
representa um"não"claro e decidido a esse tipo de sociedade.
Ele denuncia a falsa confiança do povo baseada numa compreensão
mecânica do dogma da eleição (9,7; 3,2). Acusa, sem compromissos,
as injustiças sociais (2,6; 3,15; 5,7.11-13; 6,12; 8,5-6 etc.). O culto
de sua época é vazio de sentido, sua finalidade não é
louvar a Deus, mas ostentar o luxo e o poderio econômico dos que oferecem
os sacrifícios (4,5; 5,21-23). A violação do direito divino
na vida comunitária, especialmente em relação aos socialmente
mais fracos, provocará o castigo divino (5,2s.16-17; 6,9-10 etc.). O
povo será banido da Terra Prometida (4,1-3; 6,7; 7,16).
10. ABDIAS
Este é o menor dos escritos proféticos, contendo apenas vinte
e um versículos. Os exegetas o dividem, em geral, em duas parte: v. 1-14
+ 15b e 15a + 16-18. A primeira parte é formada por vários pequenos
oráculos contra Edom por seus ataques e invasões ao sul de Judá
durante e imediatamente após a catástrofe de 586 aC, quando Jerusalém
foi destruída por Nabucodonosor II. Na segunda parte o tema do "dia
do Senhor" é aplicado contra Edom. Os v. 19-21 formam um oráculo
salvífico de origem secundária acrescentado posteriormente conforme
o esquema escatológico do Deuteronomista (anúncio de condenação
dos povos estrangeiros - anúncio de salvação para o próprio
povo).
O autor deste opúsculo é apresentado no título introdutório
como alguémchamado Abdias, sem maiores indicações. Pela
temática de seus oráculos pode-se, provavelmente, concluir tratar-se
de um profeta cúltico que permaneceu em Jerusalém após
a destruição de 586 aC. Seus oráculos são, portanto,
de época exílica (séc. VI aC). Os v. 2-9 de Abdias encontram-se
também em ordem diferente em Jr 49,7-22. Mas os exegetas negam a autenticidade
jeremiana desses versículos. Eles foram, certamente, acrescentados por
um redator posterior à obra de Jeremias.
A mensagem de Abdias não se baseia, apenas, em elementos de caráter
nacionalista, mas principalmente em sua fé na justiça eqüitativa
de Deus (cf. v. 15b). O tema vétero-testamentário do "dia
do Senhor" como um dia de castigo contra os povos opressores é aplicado
por Abdias a Edom. Nesse dia de justiça divina Edom receberá a
sorte que mereceu por seus atos.
11. JONAS
O livro de Jonas não contém oráculos proféticos,
mas uma narração envolvendo a pessoa de um tal de Jonas filho
de Amati. O livro refere-se provavelmente ao mesmo Jonas mencionado em 2Rs 14,25.
Não se trata, porém, de um relato histórico. O livro de
Jonas pertence ao gênero literário midráxico e é
um ensinamento didático de caráter sapiencial.
O livro narra a fuga de Jonas diante da ordem de Deus de pregar em Nínive.
Para fugir a essa ordem, Jonas entra em um navio e dirige-se a Társis.
Durante a viagem, porém, desencadeia-se uma grande tempestade e o navio
está prestes a afundar. Jonas se faz atirar ao mar (c. 1). Então
Jonas é engolido por um grande peixe que o vomita após três
dias, na praia (c.2). A seguir ele obedece a ordem divina e Nínive realmente
se converte (c. 3). Jonas se aborrece por causa do efeito de sua pregação
e Deus lhe mostra à luz do exemplo da mamoneira que sua ira é
infundada (c. 4).
O autor deste livro é desconhecido. Mas o estilo e o linguajar do livro,
bem como a tese aqui defendida, nos levam a situá-lo no séc. IV
aC. No contexto atual o canto de ação de graças de Jn 2,3-10
é, sem dúvida, um acréscimo posterior.
Jonas, o hebreu (1,9), encarna aqui o povo de Israel. O livro fustiga a atitude
particularista do povo de Israel. Como exemplo é escolhida a cidade de
Nínive, destruída em 612 aC, que continuava, contudo, como protótipo
da inimiga de Israel. O autor do livro de Jonas mostra uma grande abertura sapiencial.
Ele reage violentamente contra a tendência de seus contemporâneos
- especialmente a partir da reforma de Esdras-Neemias - de restringir a salvação
a Israel. A misericórdia divina não tem limites.
12. MIQUÉIAS
Miquéias é apresentado no título introdutório do
livro como um judeu originário de Morasti, uma pequena localidade situada
a sudoeste de Jerusalém. Embora Mq 1,1 situe a atividade profética
de Miquéias nos reinados de Joatão (750-734 aC), Acaz (734-727
aC) e Ezequias (727-698 aC), é mais provável que tenha atuado
apenas durante o reinado de Ezequias e mais precisamente entre os anos de 725
e 711 aC (cf. Jr 26,18). Foram anos terríveis para os dois reinos irmãos,
Judá e Israel. A hegemonia assíria tornava-se cada vez mais forte
e ameaçadora. Miquéias assistiu, sem dúvida, à queda
de Samaria e do reino do Norte em 722 aC. Não parece, contudo, ter presenciado
a invasão de Senaquerib em Jerusalém no ano 701 aC.
O atual livro de Miquéias pode ser dividido em quatro partes. Os c. 1-3
contêm ameaças contra Israel e Judá. Em Mq 4-5 foram reunidas
várias promessas salvíficas. O mesmo esquema se repete com Mq
6,1-7,7 contendo ameaças e Mq 7,8-20 promessas. A primeira parte - com
exceção de Mq 2,12s - é, em geral, atribuída a Miquéias.
Mas é muito controvertida a autenticidade das outras partes do livro.
Os oráculos reunidos na segunda parte do livro (c. 4-5) são, com
toda probabilidade, da época pós-exílica, pressupondo a
queda de Jerusalém (4,8), o exílio (4,6s) e a falta de um descendente
davídico (5,1-3). O oráculo 4,1-5 foi, também, incorporado
pelo Redator de Isaías em Is 2,2-5. A influência da teologia sapiencial
na terceira parte nos leva a datá-lo no séc. V aC. Mq 7,8-20 é
uma liturgia profética e foi composta na época pós-exílica.
É verdade que apenas uma pequena parte do atual livro pode ser atribuída
a Miquéias. Mas os poucos oráculos de Miquéias conservados
mostram uma personalidade marcante. Seu linguajar é duro e sem compromissos.
Assemelha-se muito ao de Amós. A Samaria e a Jerusalém ele anuncia
o julgamento divino. Ataca violentamente a idolatria e a injustiça social
reinante (cf. 1,2-7; 2,2-11). Acusa os dirigentes de Judá, que desprezam
o direito divino e oprimem o povo, que edificam "Sião com sangue
e Jerusalém com injustiça" (3,10). Denuncia a venalidade
de juízes, sacerdotes, e profetas cultuais (cf. 3,10-11). A perspectiva
é sombria: "Por isso, por culpa vossa, Sião será um
campo de lavoura, Jerusalém se tornará um monte de ruínas
e a montanha do templo uma colina coberta de mato" (3,12).
13. NAUM
O pequeno livro de Naum começa com um hino alfabético incompleto
-vai apenas até a letra hebraica "mem"-que desenvolve um tema
bem conhecido no AT. Ele descreve a manifestação da ira do Senhor
(1,2-8). Este hino serve em seu contexto atual de introdução aos
oráculos do profeta. Ao hino seguem dois oráculos salvíficos
para Judá (1,12-13; 2,1-3) e um oráculo de condenação
contra Nínive (1,9-11.14). Em Na 2,4-3,19 é introduzido, então,
o grande oráculo contra Nínive, tema principal do livro, que é
apresentado no título como "oráculo sobre Nínive"
(cf. Na 1,1). Este grande poema descreve a ruína de Nínive com
tanta força de expressão e tanta riqueza literária, que
fazem de Naum um dos grandes poetas do Antigo Testamento.
Do autor deste livro é conhecido apenas o nome Naum e a tradição
de que nasceu em uma localidade chamada Elcós. Contudo, a situação
geográfica exata desta localidade escapa, hoje, ao nosso conhecimento.
Naum exerceu sua atividade profética certamente depois da queda de Tebas,
destruída pelos assírios em 663 aC (cf. 3,8-17, onde a queda de
Tebas aparece como um fato conhecido). A vivacidade com que ameaça Nínive
e o ressentimento profundo que demonstra contra a cidade, parecem situar o profeta
em uma época antes da queda de Nínive, mas ao mesmo tempo em um
período em que os inimigos dos assírios já se articulavam
contra o reino assírio. Naum deve ter proferido seus oráculos
pouco antes da queda de Nínive em 612 aC.
A mensagem de Naum coloca-se em uma linha de oráculos de ventura com
acentos marcadamente nacionalistas. Abundam, também, elementos litúrgicos.
Por isso um bom número de exegetas consideram Naum como um representante
da profecia cúltica.
14 HABACUC
O livro de Habacuc apresenta uma estrutura bastante artificial. Começa
com uma lamentação em 1,2-4, onde o autor deplora a opressão
e a violência. Segue em 1,5-11 a resposta divina, que anuncia o aparecimento
dos caldeus na história como instrumentos de Deus. Em 1,12-17 o autor
coloca uma segunda lamentação, que recebe a resposta divina em
2,1-4. Em 2,5-20 são introduzidas cinco imprecações contra
o Opressor. No c. 3 o autor coloca a descrição de uma teofania,
que recebe do redator um novo título: "uma oração
do profeta Habacuc no tom das lamentações" (3,1). Por causa
deste esquema "lamentação + oráculo" o livro
de Habacuc é considerado por alguns estudiosos como uma liturgia profética.
Em geral, consideram-se os c. 1-2 como uma unidade literária. Apenas
2,6a.8b.13a.14.18.20 podem ser interpolações e adaptações
posteriores. Hab 3 com seu título próprio e com o uso do termo
musical selah (pausa: cf. 3,3.9.13) demonstra um caráter tipicamente
litúrgico. Este hino foi, provavelmente, só em época mais
recente acrescentado ao núcleo inicial do livro de Habacuc.
Do autor sabe-se, pelo título introdutório, que era um nabi chamado
Habacuc. O título nabi indica, certamente, que Habacuc era membro de
um grupo de profetas cúlticos. Para determinar o tempo de composição
das palavras do profeta é necessário conhecer a interpretação
dos termos "ímpio" (1,4) e "caldeus" (1,6). Não
há argumentos textuais suficientes para considerar a menção
aos caldeus como uma interpolação posterior. O ímpio, que
será destruído pelos caldeus, pode simbolizar o reino assírio,
cuja capital Nínive foi destruída em 612 aC por Nabucodonosor
e seus aliados. Nesta perspectiva de interpretação pode-se situar
a composição do livro de Habacuc pelo ano 600 aC.
A mensagem de Habacuc tem um caráter bem nacionalista. Faltam completamente
exortações ou ameaças contra Israel. Habacuc lamenta o
fato da opressão do justo, questionando assim a justiça divina.
Os dois oráculos querem ser uma resposta a este questionamento. O núcleo
da mensagem encontra-se na célebre frase: "O justo viverá
por sua fidelidade" (2,4), usada por Paulo nas cartas aos Romanos e Gálatas.
15. SOFONIAS
O livro de Sofonias apresenta, na redação que chegou até
nós, uma estrutura tripartida. Começa com um grupo de oráculos
contra o próprio povo (1,2-2,3). Na segunda parte do livro são
reunidos os oráculos contra os outros povos (2,4-3,8). O livro termina
com um conjunto de promessas salvíficas (3,9-20). Mas esta construção
não é, certamente, original e sim obra de um redator deuteronomista.
Como autor dos oráculos, o título introdutório do livro
menciona um certo Sofonias, cuja lista de antepassados é citada até
a quarta geração. O título indica, também, como
tempo de atividade profética de Sofonias, o reinado de Josias (640-609
aC). Os oráculos autênticos de Sofonias mostram alguns indícios
que permitem situar a atividade profética de Sofonias entre os anos 640-630
aC.
Da primeira parte do livro pode-se atribuir, com certeza, a Sofonias os cinco
oráculos sobre Judá e Jerusalém (1,4-5.7-9.12-13.14-16;
2,1-3). Dos oráculos contra os povos são certamente autênticos
os oráculos contra as cidades filistéias (2,4), contra a Assíria
(2,13-14) e a ameaça final em 3,6-8. Da última parte do livro,
provavelmente só o oráculo 3,11-13 é da autoria de Sofonias.
Os outros oráculos foram introduzidos mais tarde durante o processo de
formação do atual livro de Sofonias.
A mensagem de Sofonias é, sem dúvida, influenciada por Isaías,
Amós e Miquéias. O tema do "dia do Senhor"é explanado
e desenvolvido na perspectiva de Isaías e de Amós. O terrível
julgamento divino atingirá principalmente as camadas dirigentes da sociedade
judaica, os verdadeiros culpados da idolatria existente e da injustiça
social reinante. A esperança está na conversão! Mas apenas
o povo pobre e humilde, um pequeno Resto, compreenderá e procurará
refúgio em Deus (cf. 3,12-13).
16. AGEU
O livro de Ageu contém em seus dois capítulos cinco discursos
proféticos (1,1-15; 2,1-9.10-14.15-19.20-23), cuja formulação
literária difere completamente da dos profetas pré-exílicos.
O redator do livro atribui esses discursos a Ageu, um homem que pertencia ao
grupo dos que tinham regressado do exílio babilônico após
o edito de Ciro (cf. Esd 5,1; 6,14). Ageu é chamado em 1,1 de nabi, o
que parece indicar ter pertencido a um grupo de profetas ligados ao culto. Seu
papel na formação da nova comunidade judaica é importantíssimo.
O tempo da atividade profética de Ageu é bem delimitado pela datação
que é atribuída a cada um de seus discursos. Esse tempo vai desde
o primeiro dia do sexto mês (29 de agosto) até o dia vinte e quatro
do nono mês (18 de dezembro) do ano 520 aC.
No plano internacional, a época de Ageu é marcada por uma crise
política no reino persa. Após a morte de Cambises em 522 aC a
estabilidade político-social do reino persa foi abalada. Conflitos internos,
revoltas e intrigas dificultaram enormemente a ascensão ao trono do jovem
Dario. Ageu entreviu nessa situação conturbada e abalada o momento
exato da intervenção salvífica do Senhor. Era o momento
da libertação plena e total do povo de Deus. E essas esperanças
foram imediatamente relacionadas com a figura do descendente davídico,
Zorobabel. Nele o profeta coloca as esperanças messiânicas da comunidade.
A mensagem de Ageu é -como aliás a de todos os profetas pós-exílicos
-uma mensagem de renovação. Ele procura interpretar os sinais
do tempo, em favor da nova comunidade. O Senhor está prestes a salvar
o seu povo, mas é necessário que este colabore na reconstrução
do templo. Ageu atribui a pobreza do povo, a fome, a falta de boas colheitas
ao desinteresse do povo pela casa do Senhor. Os repatriados pensavam apenas
na reconstrução de suas próprias casas. Mas era necessário
que eles vencessem os obstáculos e recomeçassem a construção
do templo. O lançamento da pedra fundamental do novo templo significa
para Ageu o início da mudança, o começo da era escatológica.
A mensagem de Ageu é, contudo, marcada por um particularismo judaico,
vetando aos samaritanos e a outros habitantes do país a participação
na construção do templo (cf. Ag 2,10-14; Esd 4,1-5).
17. ZACARIAS
O atual livro de Zacarias se compõe de duas partes temática e
cronologicamente bem distintas. A exegese moderna introduziu neste contexto
os termos "Proto-Zacarias"(c. 1-8) e "Dêutero-Zacarias"(c.
9-14). Alguns exegetas dividem ainda c. 9-14 em Dêutero (c. 9-11) e Trito-Zacarias
(c. 12-14).
A primeira parte do livro é de autoria de um profeta chamado Zacarias,
que conforme Esd 5,1 e 6,14 era filho de Ado (a menção a Baraquias
em Zc 1,1.7b é uma glosa influenciada por Is 8,2). No livro de Neemias,
Zacarias é apresentado como um sacerdote, chefe da família de
Ado. Como Jeremias e Ezequiel, era, portanto, um profeta de linhagem sacerdotal.
As informações cronológicas apresentadas em Zc 1,1 e 7,1
nos levam a datar a atividade profética de Zacarias entre o oitavo mês
do segundo ano do reinado de Dario (520 aC) e o nono mês do quarto ano
do mesmo rei (518 aC). Mas é provável que essa atividade se tenha
estendido até à consagração do novo templo pelo
ano 515 aC. Zacarias foi, pois, um contemporâneo de Ageu.
A parte central do livro do Proto-Zacarias é constituída pelo
relato de oito visões noturnas (1,7-15; 2,1-4.5-9; 3,1-7; 4,1-6a.10b-14;
5,1-4.5-11; 6,1-8). Esses relatos -com exceção do relato da quarta
visão -seguem um mesmo esquema literário. Estão, também,
unidos entre si pela semelhança temática, tendo como tema o anúncio
da proximidade da era escatológica. Em Zc 3,8-10; 4,6b-10a e 6,9-14 são
intercalados três oráculos isolados. Aproveitando o relato da questão
levantada sobre a validade do jejum do quinto mês, que lembrava a destruição
de Jerusalém em 586 aC (7,1-3), e a resposta do profeta (8,18-19) como
moldura, o redator introduz em 7,4-6 um oráculo sobre a inutilidade da
prática do jejum, em 7,7-14 uma reflexão histórica sobre
o passado de Jerusalém, em 8,1-15 um oráculo sobre a iminência
da salvação escatológica e em 8,16-17 uma exortação
final do profeta. O trecho 8,20-23 é, certamente, um acréscimo
posterior. A perícope 1,1-6, que serve de introdução ao
livro de Zacarias, é também o resultado do trabalho de um redator
que tentou resumir aqui a mensagem moral do profeta.
A mensagem do profeta Zacarias apresenta uma dimensão profundamente escatológica.
A salvação escatológica está próxima. Embora
contemporâneo de Ageu, as exigências de Zacarias não se limitam,
apenas, à reconstrução do templo. Ele exige do povo uma
renovação interior. Antes do começo da nova era escatológica
é necessário que a comunidade viva conforme as exigências
de Deus. O messianismo de Zacarias conhece a figura de dois ungidos (4,14).
Ao lado do Messias real tradicional, Zacarias introduz a figura do messias sacerdotal.
A segunda parte do livro é em sua estrutura e temática totalmente
diferente. Os diversos oráculos aqui reunidos são anônimos
e não são datados. O tema da reconstrução do templo
e da comunidade desaparece completamente. Esta parte pode ser subdividida em
dois blocos introduzidos por títulos próprios (cf. 9,1 e 12,1).
O primeiro (c. 9-11) é quase exclusivamente em forma poética e
o segundo é em prosa (c. 12-14). O Dêutero-Zacarias foi composto
por volta do ano 300 aC e o Trito-Zacarias na primeira metade do séc.
III aC.
A doutrina messiânica é um elemento muito importante desta parte.
O messianismo é novamente centralizado na casa de Davi (c. 12). Mas é
apresentada em 9,9-10 a figura de um Messias humilde e pacífico. Em 12,10
é introduzida a figura misteriosa do Traspassado.
18. MALAQUIAS
O atual livro de Malaquias começa, como Zc 9,1 e Zc 12,1 com o título
'proclamação'(massa). No início o livro foi transmitido,
provavelmente, sem menção ao nome do autor. Mais tarde, por influência
de Ml 3,1, foi introduzida no título de Ml 1,1 a notícia "por
intermédio de mal'aki"= "meu anjo", que se transformou,
aos poucos, no nome próprio Maleaqi = Malaquias.
O opúsculo de Malaquias é formado por seis unidades literárias
facilmente delineáveis (1,2-5; 1,6-2,9.10-16; 2,17-3,5.6-12.13-21), compostas
por um mesmo autor. A conclusão 3,22-24 pode ser facilmente identificada
como dois acréscimos posteriores. O primeiro (3,22) exorta o povo a lembrar-se
da Lei de Moisés. O segundo (3,23-24) corrige e adapta às circunstâncias
da época o anúncio do mensageiro proclamado em 3,1. O trecho 2,11b-13a
é também considerado por muitos como uma adição
posterior.
O livro supõe a existência do templo e de um culto organizado,
o que nos situa em uma época posterior a Ageu e Zacarias. Mas a menção
a abusos por parte dos sacerdotes e a desleixos no culto bem como à leviandade
dos maridos que sem motivo abandonam suas esposas parece indicar uma época
anterior à reforma de Neemias (445 aC). Nota-se, também, influência
do Deuteronômio; enquanto que o escrito sacerdotal parece ainda não
existir. Todos esses indícios nos levam a datar o livro na primeira metade
do séc. V aC, pelo ano 465 aC aproximadamente.
A mensagem de Malaquias dirige-se a uma comunidade profundamente decepcionada.
As promessas de Zacarias e de Ageu não se tinham realizado. A era escatológica,
tão esperada pela comunidade, não chegara. A desilusão
levara o povo à indiferença religiosa. A fé em Deus vacilava.
Mas o profeta apresenta a essa comunidade a certeza da realização
do julgamento divino. Esse julgamento é inevitável, ele pode realizar-se
a qualquer momento. A comunidade deve estar preparada para a vinda do "dia
do Senhor". E a melhor preparação é uma vida conforme
as exigências cúlticas e éticas de Deus.