Livros Proféticos

OS PROFETAS
Na caminhada do povo de Israel, ao longo de sua história, Deus chamou, levantou e, às vezes, quase arrancou homens do meio do povo e os enviou para que falassem em seu nome e anunciassem a sua mensagem. Esses são os profetas, os porta-vozes de Deus.

1) Quem eram os profetas?

Eram homens que conheciam a situação do país e também do plano ou projeto de Deus. Com a luz da razão e da fé, interpretavam o momento presente com os olhos para o futuro. Com o testemunho de sua própria vida, pelas palavras e com gestos e sinais buscavam alertar a consciência do povo, provocar a conversão do coração e a mudança social para que o povo de Deus permanecesse fiel no caminho do Senhor. Os profetas são uma ponte entre Deus e a humanidade; entre o Povo e Deus. Lêem e interpretam os "sinais dos tempos".
Os profetas cuidam e zelam pelos direitos de Deus e dos homens; zelam pela justiça na terra. Por isso, o profetismo de Israel foi mais intenso e vigoroso e intenso na época dos Reis quando, a concentração do poder e das riquezas, ameaçavam o projeto de Deus e manchavam de opressão e de injustiça a terra por Ele dada e abençoada. Na época da RESTAURAÇÃO, o profetismo em Israel se enfraqueceu devido o grande período da dominações estrangeiras.
Os profetas, ao denunciar as injustiças presentes, recordam os acontecimentos passados e o projeto de Deus. Questionam as falsas seguranças do povo e anunciam um novo êxodo, uma nova aliança, um novo reino que deve fixar-se na esperança e na espera do enviado de Deus, alguém muito superior a Moisés, a Davi e a Elias...

2) Estudando um pouco sobre cada profeta...
No inicio do nosso curso, havíamos listado o elenco de todos os profetas. Relembrando...os 18 profetas do Antigo Testamento:

1. Isaías (primeiro e segundo)
2. Jeremias
3. Lamentações
4. Baruc
5. Ezequiel
6. Daniel
7. Oséias
8. Joel
9. Amós
10. Abdias
11. Jonas
12. Miquéias
13. Naum
14. Habacuc
15. Sofonias
16. Ageu
17. Zacarias
18. Malaquias

1. ISAIAS
Desde o séc. XIX é costume distinguir no livro de Isaías três partes, de épocas e autores diferentes: A. O Livro do Julgamento (Is 1-39) do profeta Isaías (740-700 aC); B. O Livro da Consolação (Is 40-55), ou Dêutero-Isaías (550-539 aC), chamado também Segundo Isaías; C. O Retorno dos Primeiros Cativos (Is 56-66) ou Trito-Isaías(537-515 aC), chamado também Terceiro Isaías.
A) O LIVRO DO PROFETA ISAÍAS ( Is 1-39):
O profeta Isaías viveu num dos períodos mais conturbados da história da Síria-Palestina, região onde as duas grandes potências da época, o Egito e a Assíria, disputavam a hegemonia. Após um longo período de prosperidade sob os reis Amasias (796-767) e Azarias (767-739), marcado pelo luxo da classe dominante e pela exploração dos pobres, Judá entra numa fase confusa de sua política internacional. Quando Samaria e Damasco movem guerra contra Judá (734/3: guerra siro-efraimítica), o rei Acaz (734-727) busca a proteção da Assíria, apesar dos conselhos contrários de Isaías, que pedia para confiar unicamente em Deus. Mais tarde, quando Ezequias (727-698) procura aliar-se ao Egito e aos Estados vizinhos contra a Assíria, Isaías novamente toma posição. Condena o oportunismo político e insiste na fidelidade ao Senhor.
Durante a espinhosa missão profética Isaías viu por três vezes o seu país invadido e devastado e Jerusalém ameaçada: durante a guerra siro-efraimítica e duas vezes (em 712 e 701) pela invasão assíria (cf. 1,5-9; 6,11-13). Assistiu à destuição de Damasco (732) e à ruína do reino de Israel (722) por ele profetizadas. Apesar de sua influência na classe governante, com a qual estava relacionado, teve pouco sucesso como pregador. Seus oráculos provocavam antes oendurecimento dos ouvintes (6,9-10), o desprezo e a ridicularização dos sacerdotes e chefes (28,7-22). Segundo uma antiga tradição, Isaías teria sido serrado ao meio durante uma perseguição de Manassés (698-643) filho de Ezequias (2Rs 21,16).
Nos 39 capítulos relacionados com a missão do profeta Isaías encontramos textos de épocas posteriores, ajuntados pelos discípulos aos oráculos autênticos do mestre. Os textos autênticos revelam-se na linguagem clara, nobre, vigorosa e concisa, que inspira autoridade, fé em Deus e compaixão pelo povo. Eis a divisão básica do livro:
1-12: O livro se inicia com uma seleção de oráculos de vários períodos, uma súmula da atividade do profeta (c.1). Os demais oráculos pertencem à fase mais antiga de sua atividade.
13-23: Oráculos contra as nações estrangeiras, em geral de Isaías.
24-27: Coleção de oráculos apocalípticos, pós-exílicos.
28-33: Oráculos sobre Israel e Judá, pronunciados por Isaías, sobretudo durante o reinado de Ezequias.
34-35: Fragmentos apocalípticos pós-exílicos sobre o julgamento das nações e o retorno de Israel.
36-39: Relato da atividade de Isaías durante a invasão assíria, acrescentado por algum redator.
A mensagem de Isaías gira em torno de três grandes temas : Deus e sua obra, Deus e o povo pecador, e o messianismo.
a) Deus e sua obra: Deus é o três vezes "santo"(6,3), o totalmente outro, o transcendente, o rei majestoso (6,5). Ele executa os planos que concebe (5,12; 10,12; 28,21) em relação ao seu povo e às nações. Estas são meros instrumentos em suas mãos para executar os seus desígnios (5,21; 7,18-20;10,5s.15.26).
b) Deus e o seu povo: Isaías denuncia a infidelidade de Israel, tanto na vida social como política; denuncia o orgulho, a idolatria e a confiança nas armas. Mas o povo persiste na rebelião, endurecendo seu coração. Por isso o castigo se torna inevitável (10,22s). Deus, porém, castiga para purificar o povo (1,25-28; 4,4) e salvar ao menos o "resto"(37,11). A este resto, que prosperará, pertencerão somente os que confiarem no Senhor (7,9; 8,16-18).
c) Messianismo: O Rei celeste tem um representante na terra, um descendente de Davi. Por isso Isaías confirma as promessas feitas a Davi (2Sm 7,16), anunciando o nascimento do Emanuel (Is 7,14). O futuro será de glória e felicidade (8,21-9,6; 29,17-24; 32,1-5.15-20; 33,17; 35,1-10), garantidas pelo rei que "sairá do trono de Jessé" e que fará reinar a justiça e a paz (11,1-9).
B) O LIVRO DA CONSOLAÇÃO (Is 40-55):
O livro é de um profeta anônimo, chamado Dêutero-Isaías. A situação política já não é a do profeta do séc. VIII, onde a ameaça era representada pela Assíria. Agora a época se caracteriza pela decadência da Babilônia e ascensão dos persas. Os oráculos foram pronunciados entre as primeiras vitórias de Ciro (550) na Lídia (Is 41,2-3) e a conquista da Babilônia (45-48), em 539.
O sucesso de Ciro era atribuído pelos sacerdotes caldeus ao deus Marduc (Jr 50,2) ou aos seus comparsas,Bel e Nebo (Is 46,1). O profeta contesta e polemiza contra os deuses falsos (44,6-20): O único senhor da história é Javé, o Deus de Israel. Ele porá fim ao jugo da Babilônia e restaurará Jerusalém (48,16-22; 49,14-26).
A mensagem do Dêutero- Isaías é cheia de esperança e consolação. Anuncia o fim do exílio e um maravilhoso retorno, no qual se renovarão os prodígios do êxodo. O Senhor, o único Deus (43,10; 44,6), criador do universo (44,24) e da história de Israel (43,1.7.15), é a garantia de um futuro glorioso. Sião será reconstruída e povoada; os dispersos serão reunidos; as nações se converterão e servirão ao Senhor, que fará uma aliança perpétua com Israel.
Merecem destaque os "Cânticos do Servo do Senhor"(42,1-4; 49,1-6; 50,4-9a; 52,13-53,12). Neles se descreve a vocação do Servo, sua missão de pregador, sua função mediadora da salvação para os homens e, especialmente, o caráter expiatório de seus sofrimentos e de sua morte. O Servo às vezes parece ser Israel como povo, ou enquanto elite; outras vezes um indivíduo, talvez o profeta dos poemas, o rei Ciro, o rei Joaquin ou outro personagem qualquer. Seja como for, o Novo Testamento viu no Servo sofredor o tipo por excelência dos sofrimentos e da morte redentora de Cristo.
C) O RETORNO DOS PRIMEIROS CATIVOS (Is 56-66):
A última coleção de oráculos é atribuída a um profeta anônimo, chamado Trito-Isaías, cuja atividade provavelmente se coloca em Jerusalém, entre os anos 537 e 515 aC. Neste tempo o primeiro grupo de exilados há havia voltado e iniciado a reconstrução do templo. Mas devido às divisões internas da comunidade e da hostilidade por parte da populaçã o local, dos samaritanos e pagãos, somente o altar foi reconstruído. A cidade, as muralhas e o próprio templo continuavam em ruínas. Assim, às grandes esperanças provocadas pelos oráculos do Dêutero-Isaías e pelo edito de Ciro (538), seguiu-se uma perigosa desilusão. O povo começava a descrer de Deus, que parecia incapaz de manter suas promessas de salvação (59,1.9).
Neste contexto levanta-se a voz de um discípulo de Isaías, provavelmente diverso do autor dos capítulos 40-55. Este profeta procura reanimar os desalentados, reafirmando a validade das promessas de salvação. As dificuldades presentes, de caráter material (58,12; 61,4; 64,9s), político (56,10-12), social (58,3-7; 59,2-15) e religioso (59,1; 57,1; 58,1-14), são causadas pelo pecado (59,2). O profeta condena os sacrifícios humanos, a prostituição sagrada, a necromancia, o sincretismo religioso e a exploração do próximo. São estes os males que retardam a salvação (Is 58-59).
Deus, porém, continua amando seu povo com fidelidade (65,11). É um verdadeiro pai (63,8.16); 64,7) e demonstra um afeto materno pelos seus fiéis (66,13). Perdoa as infidelidades (57,16-18; 64,8), mas julgará com certeza os que persistem no mal (66,16-24).
Afastar-se do mal, confiar no Senhor e servi-lo fielmente, eis o caminho da salvação. Então, sim, o futuro de Jerusalém será glorioso para Israel e para as nações, que se converterão ao Senhor (60-61), e haverá novos céus e nova terra (66,17-21).

2. JEREMIAS
Jeremias nasceu pelo ano 650 aC em um lugarejo chamado Anatot, cerca de 7 km a nordeste de Jerusalém. Descendia de uma família sacerdotal (cf. Jr 1,1). Sua atividade profética começou no décimo terceiro ano do reinado de Josias (627 aC). Pode-se dividir a missão profética de Jeremias em quatro etapas. A primeira desenvolveu-se no reinado de Josias e vai até 622 aC. Dos anos 622-609 aC nã o nos foi conservado nenhum dito do profeta. Nesta época o profeta parece ter silenciado, aguardando os frutos da reforma religiosa iniciada por Josias em 622 aC (cf. 2Rs 22,8-23,23). Mas logo após a morte de Josias na batalha de Meguido (609 aC), Jeremias recomeça sua pregação profética atacando corajosamente as injustiças e opressões praticadas pelo novo rei Joaquim (cf. Jr 22,13-19). Em 600 aC Joaquim rebela-se contra Nabucodonosor II, que cerca Jerusalém. Durante o sítio morreu o rei Joaquim. Nabucodonosor subjuga Jerusalém em 597 aC e arrasta para a Babilônia um primeira leva de exilados (cf. 2Rs 24,10-17). Durante o reinado de Sedecias (597-586 aC) desenvolve-se a terceira etapa de atividade de Jeremias. O profeta aconselha o rei a submeter-se ao rei da Babilônia. Mas o monarca judeu temendo o partido favorável ao Egito, rebela-se contra Nabucodonosor, que novamente ataca Jerusalém. É um período de grande sofrimento para Jeremias, considerado como traidor. Em julho de 586 aC Jerusalém é destruída, o rei e a classe dirigente exilados. A Jeremias é deixada a decisão de ficar na Palestina ou ir para a Babilônia. Jeremias prefere ficar em Jerusalém para ajudar seu amigo Godolias na reconstrução da comunidade. Após o assassinato de Godolias os culpados, temendo as represálias de Nabucodonosor, fogem arrastando consigo Jeremias. A partir desta data não possuímos notícia alguma de Jeremias. É provável que tenha morrido no Egito. Pode-se penetrar um pouco a personalidade profundamente religiosa e sensível de Jeremias através de suas confissões ou monólogos (cf. Jr 11,18-22; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18).
Texto: O livro de Jeremias em seu estado atual é composto de textos em forma poética e de textos em forma de prosa. Os textos em prosa apresentam em geral melhor estado de conservação do que os textos poéticos. Além disso a tradução grega do AT, chamada Septuaginta, apresenta um texto consideravelmente mais curto do que o texto hebraico massorético (2.700 palavras a menos). Este fato deve ser explicado em alguns lugares por erros de copistas (por exemplo, repetição em Jr 39,4-13; 51,44b-49a),em outros lugares por adições secundárias no texto, ainda não existentes no tempo da tradução dos LXX (cf. Jr 34,14-16).
Composição: O processo de formação do livro tem uma história longa e complicada. O atual livro de Jeremias é um aglomerado de unidades e complexos de textos originariamente independentes. O princípio de composição não é sempre claro; ordem cronológica e ordem de assunto se misturam. O texto massorético dispõe em geral nos capítulos 1-39 o material pertencente à época anterior e nos capítulos 40 -45 à época posterior à queda de Jerusalém (586 aC); os capítulos 46-51 conservam os oráculos contra os povos. O texto da Septuaginta transmitiu-nos uma outra ordem, provavelmente a primitiva (cf. a ordem de Isaías 1-39 e de Ezequiel): oráculos contra Judá e Jerusalém (Jr 1,4-25,13a), oráculos contra as nações (Jr 25,13b-38; 46-51), profecias de ventura (Jr 26-35), sofrimentos de Jeremias (Jr 36-45) terminando com o apêndice histórico (Jr 52). Os 25 primeiros capítulos são principalmente agrupados em ordem cronológica (1-6 tempo de Josias, 7-20 tempo de Joaquim, 21-25 de época posterior).As profecias de ventura estão ordenadas por matéria, as narrações dos sofrimentos de Jeremias cronologicamente. O c. 52 corresponde a 2Rs 24,18-25,30 e quer mostrar a realização das ameaças de Jeremias. Repetições, diferenças de estilo e até concepções teológicas diversas indicam provavelmente a existência de várias fontes no livro de Jeremias. S. Mowinckel distinguiu três diferentes fontes:
A fonte A contém oráculos em forma poética, que em substância remontam a Jeremias. O material desta fonte encontra-se principalmente nos c. 1-25.
A fonte B encerra narrações sobre Jeremias redigidas em terceira pessoa e relata os sofrimentos do profeta (cf. Jr 36-45). Esta fonte é em geral atribuída ao secretário de Jeremias, Baruc.
A fonte C é uma coleção de sermões proféticos em forma de prosa, originariamente de Jeremias, mas posteriormente trabalhados e adaptados pela escola deuteronomista. Pertencem a esta fonte as perícopes: Jr 7,1-8,3; 11,1-14; 16,1-13; 17,19-27; 18,1-12; 21,1-10; 22,1-5; 25,1-14; 34,8-22; 35.
Um problema muito discutido na história da exegese jeremiana é a reconstrução do assim chamado rolo primitivo, escrito a mando de Jeremias e lido diante do rei Joaquim (cf. Jr 36). Já durante o exílio deve ter começado o processo de seleção e agrupamento das fontes, que se prolongou por muito tempo. No tempo da tradução da Septuaginta (séc. III aC) este processo ainda não estava encerrado.
Mensagem teológica: Para compreender a mensagem de Jeremias é necessário colocá-la dentro do seu ambiente. Jeremias começou a sua atividade profética em 627 aC. Os reinados de Manassés (698-643) e Amon (643-640) trouxeram para Judá um grande sincretismo religioso (cf. 2Rs 21,1-9; 23,4-14; Jr 7,17;8,2 etc.). A reforma deuteronomista, começada em 622 pelo piedoso rei Josias, não deu os frutos esperados, terminando praticamente com a morte deste monarca em 609. Embora depois de Josias a idolatria não tivesse voltado oficialmente ao templo, contudo ela estava arraigada no povo (cf. Jr 11,13.17; 12,16; 13,10; 16,18).O culto prestado ao Senhor estava deformado; a religião oficial e o povo confiavam cegamente nas promessas de eleição de Sião e da dinastia davídica, tradições tipicamente judaicas, esquecendo as exigências do Deus da aliança (cf. Jr 7,4s; 23,16s). Jeremias ao contrário colocava no centro de sua argumentação as antigas tradições do javismo: suas palavras eram orientadas pelas tradições tipicamente israelíticas do êxodo e do Sinai. Como filho da tribo de Benjamim (cf. Jr 1,1), uma das tribos do grupo de Raquel, tinha Jeremias contato maior com as tradições israelitas mais radicadas nas tribos do Norte. Jeremias vê o estado atual do povo em crassa contradição com as exigências de Deus. O povo trocara o Senhor por Baal (cf. Jr 2,1-37).
Os fracos -protegidos especiais do javismo (cf. Ex 23,9; Lv 19,13; Dt 24,14) -eram oprimidos e desprezados (cf. Jr 5,26-28; 7,5; 21,12; 22,3). Judá não procedia conforme o direito divino (mispat): violara a aliança com o Senhor. Jeremias acusa os pecados do povo e anuncia a vinda de um inimigo do norte, como castigo de Deus (cf. Jr 4,5-31). O apelo de Jeremias à conversão (sub) significa uma volta ao amor primeiro, uma volta à aliança (cf. Jr 2,2.13). Como Oséias, exige Jeremias do povo um amor semelhante ao amor da esposa para com o esposo,do filho para com o pai (cf. Jr 2,1-3; 3,1-5). Mas Jeremias sabe por experiência própria -sua pregação de mais de 40 anos ficou praticamente sem frutos -que a conversão é obra de Deus. Ele anuncia que Deus selará no fim dos tempos uma nova aliança (cf. Jr 31,31-34); uma aliança, em que Deus mesmo imprimirá sua lei no coração dos seus fiéis: "Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias -oráculo do Senhor. Colocarei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo"(Jr 31,33). Esta promessa marca um ponto culminante na mensagem de Jeremias.

3. LAMENTAÇÕES
Na versão grega dos LXX e na Vulgata latina este livro pode parecer um simples apêndice da profecia de Jeremias, tanto pelo título "Trenos (cantos fúnebres) ou Lamentações de Jeremias" como pelo preâmbulo: "Depois de conquistado Israel e devastada Jerusalém, sentou-se Jeremias a chorar e, entoando esta lamentação sobre Jerusalém, disse"...
Não se pode negar certa semelhança entre os dois livros. Entretanto, eles não têm a mesma autoria. Tal dedução não se apóia apenas na diversidade de vocabulário e estilo. O canto fúnebre de Jeremias aplica-se ao rei Josias, enquanto as Lamentações se referem à tomada de Jerusalém, à destruição do templo e à deportação do povo para a Babilônia pelo rei Nabucodonosor, em 586 aC, fim do reinado de Sedecias. A doutrina da retribuição expressa em 5,7 e a aliança egípcia de 4,17 contrariam a pregação de Jeremias (31,29s; 37,5-7). E como poderia o profeta dizer que nã o havia profetas (2,9)? Além de Jeremias, vivia então o profeta Ezequiel, já deportado para a Babilônia.
Semelhanças temáticas e lingüísticas e a mesma preocupação teológico-pastoral das cinco elegias fazem supor um único autor, excluída a hipótese de uma simples coletânea. A data de composição não é muito posterior ao ano 586 aC.
A Bíblia Hebraica inclui este livro entre os "Escritos". O título primitivo "Quinot" (plural de quináh = verso hebraico especial, cuja primeira parte tem um ou dois acentos mais que a segunda) foi substituído por "Ekáh" (interjeição: Como?!), sua palavra inicial. Quatro elegias são alfabéticas (cada estrofe - na terceira elegia, cada verso - começa com letra diferente, em ordem alfabética). O poeta cede, às vezes, a palavra à cidade de Jerusalém, personificada, para que lamente sua devastação e chore seus filhos. A última elegia - que não é alfabética, embora seus 22 versos igualem em número o alfabeto hebraico - não segue o estilo descritivo das lamentações precedentes, mas é uma pungente súplica, para impetrar a misericórdia divina sobre o povo e a Cidade Santa.
As cinco elegias exprimem a comoção de Israel ante a ruína da nação: o assédio de Jerusalém, a fome, a violência, o escárnio dos exércitos invasores, a inércia do braço divino. A queda da Cidade Santa e a destruição do templo feriu o povo em seu ponto nevrálgico: a manifestação visível da presença do Deus da aliança, cerne da identidade religiosa de Israel. A extinção da monarquia desestabilizou a tão celebrada aliança; a supressão do sacerdócio levítico dissolveu a mediação litúrgica entre Deus e seu povo. A crise de fé abalou a confiança de Israel na proteção divina, colocando em xeque a própria credibilidade de Deus e sua aliança com Israel. A aliança, tendo falhado - e quem podia duvidar que ela falhara? - ou nunca foi real e autêntica, ou sofreu o desgaste dos séculos e já não vigora, e o povo vive na ilusão religiosa. Desagregada a comunidade de fé, dissolveu-se a coesão social, morreu a alma da nação.
As Lamentações não pretendem consolar o povo, desviando do sofrimento sua atenção; antes, mediante dramáticas descrições dos horrores da derrota, desvendar todo o alcance da desgraça nacional e seu significado religioso, como mensagem do Deus justo ao povo pecador, do Deus misericordioso ao povo arrependido e penitente. Quem falhou à aliança não foi Deus; foi o povo, rebelde e infiel. O livro convida à reflexão e ao exame de consciência, à aceitação do julgamento divino, à conversão e penitência, à reconciliação com o Deus da santidade, que não pode pactuar com o pecado: a degradação moral do povo, os desmandos dos sacerdotes, os embustes dos falsos profetas, as condenáveis alianças políticas com as nações pagãs.
A errônea interpretação da doutrina da eleição de Israel dava ao povo a falsa segurança em suas instituições e no auxílio incondicional de um Deus sectário, unilateralmente comprometido com Israel por aliança inviolável. A crise nacional, longe de abalar a fé em Deus, deve ser ocasião de corrigir os desvios na fé, para construí-la sobre as bases autênticas da aliança recíproca.
A experiência pessoal do autor, salvo de iminente perigo de vida, leva-o a suscitar a confiança do povo na misericórdia de Deus, que conhece a dolorosa experiência de Israel e sabe que a ausência de Deus lhe é muito mais intolerável que a perda dos bens materiais, a violência dos maus tratos e a dor da humilhação. Para que fugir de Deus, que vem ao encontro do povo, não havendo, fora dele, salvação? Este é para todas as horas de sofrimento e angústia e para todas as calamidades, nacionais ou pessoais, o perene ensinamento do livro das Lamentações.

4. BARUC
Com o título geral de "Livro de Baruc"aparecem na Bíblia dois escritos diferentes: o livro de Baruc propriamente dito (c. 1-5) e a Carta de Jeremias (c. 6). Esta, aliás, nas edições gregas, é separada do livro pela inserção das Lamentações entre ambos.
Mas o próprio livro de Baruc tem uma composição complexa: além da introdução histórica, que situa a redação do livro na Babilônia, cinco anos após a destruição de Jerusalém (1,1-14), distinguem-se duas partes: a primeira, em prosa (1,15-3,8), é uma confissão dos pecados e uma súplica, a serem feitas pelos israelitas diante de Deus; a segunda, em verso (3,9-5,9), encerra umaexortação sapiencial (3,9-4,4) e um oráculo de restauração (4,5-5,9).
O autor é pós-exílico, talvez do século II aC, mas atribui seu escrito ao discípulo e secretário de Jeremias, reproduzindo em 1,1 sua genealogia, apresentada em Jr 32,12. Assim, a situação do exílio é revivida pelos integrantes da Diáspora, ansiosos também eles pela restauração de Israel.
O principal ensinamento doutrinário é que as tribulações do povo eleito são consideradas conseqüência de suas infidelidades a Deus e à Lei. Esta, apresentada como o caminho da Sabedoria, é o meio de se restaurar a liberdade e a paz.
A "Carta de Jeremias", inspirada na carta do profeta à primeira leva de exilados (Jr 29,4-23) e reproduzindo, quanto ao conteúdo, as idéias do seu oráculo contra os ídolos (Jr 10,1-16), desenvolve exaustivamente o tema já abordado pelo Sl 115 e pelo Segundo Isaías (Is 44,9-20 e 46,1-8). É um escrito pseudo-epigráfico, redigido também no século II, visando a preservar da idolatria os judeus dispersos.
Ambos os escritos não se encontram na Bíblia Hebraica: se redigidos originalmente em hebraico, como o dá a entender a versão de Teodocião (que só inclui textos traduzidos do hebreu o do aramaico), esse original se perdeu, restando apenas o texto grego. Por isso, integram o grupo dos deuterocanônicos. Ambos são preciosos como testemunho: são os únicos da Bíblia, além do de Tobias, que se referem à vida dos judeus dispersos, firmemente unidos, na contrição e na esperança, a seu povo.

5. EZEQUIEL
Entre os exilados que Nabucodonosor conduziu em 597 aC, junto com o rei Joaquin, para a Babilônia, estava também o sacerdote Ezequiel. Os exilados de Tel-Abib, bem como os habitantes de Jerusalém, esperavam para logo o fim do desterro. Neste contexto, Ezequiel é chamado a ser profeta, em 593 aC. Sua missão toda é exercida no meio dos exilados. Ezequiel lhes procura tirar toda esperança de um fim próximo do exílio. Nega seu apoio às tentativas de sacudir o jugo de Nabucodonosor (Ez 14,1-3; 20,1-4). Ao contrário, quer incutir nos ouvintes uma certeza: Jerusalém será destruída e toda a população de Judá exterminada e exilada (5-24).
Realizada a sua profecia em 587/6 aC, Ezequiel procura salvar o "resto"que sobrara do povo eleito. Qual sentinela (33,1-9), põe-se a advertir os pecadores e idólatras (20,32-44), apontando-lhes o caminho da conversão (Ez 14; 18; 33). Abre-lhes os olhos e a mente para entenderem a razão da catástrofe que atingiu a nação: as infidelidades do povo. A este povo desiludido e desanimado, sem perspectivas de sobrevivência, aponta o caminho da renovação nacional e religiosa (Ez 36-37). Como Ezequiel costuma datar os seus oráculos, podemos colocar sua dupla atividade, de profeta de desgraça e da consolação divina, entre 593 aC e 571 aC.
No comportamento externo, Ezequiel se parece com os profetas antigos, Elias e Eliseu. Como eles, age movido pelo espírito de Deus (2,2; 3,14; 8,1; 11,24; 37,1s; 40,1s) e é consultado pelo povo (8,1; 14,1-3; 20,1-3). Mas na temática da pregação e nos gêneros literários usados depende de seus predecessores imediatos. Destacam-se em seu livro as visões (1-3; 8-11; 37,1-14; 40-48). Freqüentes são também as ações simbólicas (Ez 4-5; 12; 21; 24; 37). Mas não faltam a alegoria (Ez 16; 17; 19; 23), as elegias (Ez 19; 27-29; 32) e as discussões com os ouvintes (Ez 14; 18; 33).
O livro de Ezequiel apresenta uma divisão básica bem clara: a vocação do profeta (1-3), profecias sobre a destruição de Jerusalém (4-24), oráculos contra as nações (25-32), a salvação para Israel (33-39) e a visão do novo Israel (40-48). Notam-se, porém, remanejamentos, freqüentes acréscimos e reinterpretações no texto, seja da parte do profeta, após a destruição de Jerusalém, seja por obra dos discípulos, na época exílica e pós-exílica. Indícios deste trabalho redacional são as repetições (33,7-9 = 3,17-21; 33,17-20 = 18,25-29; 36,16-28 = 11,6-21) e deslocamentos (assim 3,22-27; 4,4-8; 24,15-27 e 33,21s devem ser lidos juntos) e interrupções de textos (assim 2,1-3,11 interrompe 1,4-28 + 3,12-15). Tudo isto mostra a popularidade e influência exercidas por Ezequiel, considerado por alguns como o "pai do judaísmo", isto é, o mentor principal da piedade e mentalidade pós-exílicas.
A mensagem de Ezequiel está centrada na idéia de Deus, na sua relação com o povo eleito e no futuro desta relação. Deus é absolutamente transcendente, aquele que se manifesta santo no seu modo de agir (20,41; 28,22; 36,23) e revela sua glória (1,28; 3,12; 9,3; 11,22s; 43,2-5).Zela pelo seu santo nome e por causa dele intervém na história de Israel (20,9.14.22.44; 36,20-22). Ao se revelar, punindo ou salvando, Deus quer que todos o reconheçam como o Senhor (6,7; 7,4; 20,28; 23,49, etc.). Este Deus glorioso e transcendente elegeu Israel como seu povo (Ez 20,5), Jerusalém e Samaria como esposas (16,6-13; 23). Mas Israel se mostrou continuamente rebelde (Ez 20). Por isso Deus abandonou o seu santuário (11,23), Jerusalém e seus habitantes ao extermínio. Mas Deus não abandonou os exilados: Apareceu a Ezequiel (1-3) e reside no meio do povo, arrancado de sua pátria (11,16).
A desgraça caída sobre Israel não significa o fim de sua história. Deus agirá novamente por causa de seu nome, salvando Israel. Eis as etapas previstas para a restauração de Israel:
1º) Deus trará os cativos de volta à sua terra (11,17; 20,32-38; 36,24);
2º) Israel e Judá serão reunificados (37,15-22);
3º) Será restituída a felicidade temporal (34,25-29), sem calamidades naturais, com grande fertilidade agrícola (36,20) e populacional (37,26s), produzidas pelas águas regeneradoras que brotarão do templo (47,1-12);
4º) A nova aliança, que será eterna (16,60; 37,26);
5º) A doação de um novo coração e um novo espírito (11,19; 18,31; 36,26s; 37,14);
6º) A retribuição individual (18,1-32; 33,10-20): Deus vai julgar e punir cada um pelos próprios pecados e não pelos dos pais. O acesso à salvação se dará pela conversão individual;
7º) O esmagamento do último inimigo, Gog (38-39);
8º) O novo Davi apascentará o povo em nome de Deus (17,22s; 34,23; 37,24s);
9º) A presença de Deus no meio do povo: Restabelecida a aliança, Deus habitará para sempre no santuário, no meio de seu povo (37,26-28; 43,7-9): "Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo"(37,27). Por isso o novo nome de Jerusalém recordará para sempre esta presença: "O Senhor está lá"(48,35).

6. DANIEL
Daniel no cânon hebraico e nas versões: No cânon hebraico Dn não figura entre os livros proféticos, mas nos assim chamados "Escritos", contando apenas 12 capítulos. Na versão dos Setenta, Vetus Latina e Vulgata Latina se encontra entre os profetas, depois de Ezequiel e como quarto dos "grandes profetas". Ao todo conta 14 capítulos, sendo que o terceiro foi enriquecido pelos cânticos de Azarias e dos três jovens na fornalha. Estes cânticos e Dn 13-14 não constam no texto hebraico-aramaico.
Divisão e conteúdo: O livro se divide claramente em duas partes que se correspondem (Dn 1-6 e 7-12), mais os suplementos gregos deuterocanônicos. A Primeira Parte (Dn 1-6) tem cunho narrativo, e por cenário a cidade de Babilônia. Daniel e seus companheiros saem vitoriosos das provas e os pagãos reconhecem e glorificam a Deus que os salvou. A Segunda Parte (Dn 7-12) contém quatro visões apocalípticas de Daniel na Babilônia e em Susa, referentes aos grandes impérios da época e especialmente ao ímpio Antíoco, perseguidor dos judeus. As visões são interpretadas por um anjo, especialmente o anjo Gabriel.Seguem-se os apêndices (Dn 13-14), contendo as histórias da casta Susana, de Bel e da Serpente, vencidos por Daniel, e de Daniel na cova dos leões.
As línguas de Daniel: Parte do livro está escrita em hebraico (1,1-2,4a; 8-12), mas a parte maior vem em aramaico (2,4b-7,28). Além disso temos as partes deuterocanônicas em grego (Dn 3,24-90 e Dn 13-14). Até hoje ninguém conseguiu explicar satisfatoriamente esta mistura de línguas. Além disso o texto grego subsiste em duas formas: a versão dos Setenta, representada por apenas 2 manuscritos e alguns fragmentos, e a assim chamada versão de Teodocião, representada por numerosos manuscritos. É sobre este último texto que S. Jerônimo traduziu Dn 3,24-90 e Dn 13-14.
Autor e tempo de origem: Dn 1-6 nos coloca no tempo do exílio babilônico (séc. VI aC). Dn 7-12, onde Daniel fala de si na primeira pessoa, é atribuído a Daniel, judeu deportado em 606 aC. De fato, até o séc. XIX o livro foi atribuído a este profeta exílico; mas desde então tornou-se opinião generalizada entre autores não-católicos e católicos que na realidade o livro foi escrito no séc. II aC, no tempo da perseguição de Antíoco IV, entre os anos 167 e 163 aC, no início do período macabeu. De fato, o Eclesiástico composto pelo ano 190 aC não menciona Daniel (Eclo 48,22; 49,7-10), mas o livro já é conhecido por 1Mc, escrito pelo ano 100 aC (1Mc 1,54; Dn 9,27; 11,31). Portanto, o autor é um desconhecido, talvez pertencente ao grupo assideu (cf. 1Mc 2,27), o que não exclui que o livro contenha elementos mais antigos.
O livro atual de Dn forma uma unidade literária, a favor da qual falam não poucos indícios, tanto da primeira como da segunda parte: Dn 7 é esclarecido por Dn 8 e é paralelo a Dn 2; além disto Dn 7 está escrito no mesmo aramaico de Dn 2-4.
Fim visado e mensagem religiosa: O autor desconhecido quis oferecer aos seus contemporâneos, cruelmente perseguidos pelo rei Antíoco, um livro de conforto e consolação. Segundo Dn 1-6 os que, a exemplo de Daniel e seus companheiros, ficam fiéis à Lei e à religião dos pais, são recompensados por esta fidelidade e salvos por Deus. Dn 7-12 mostra que está próximo o fim da perseguição e de seu promotor, dando assim ânimo e coragem para perseverar; a vitória final será de Deus e não do rei. Deus salva os seus fiéis, mesmo que seja no último instante (3,24s; 6,20s; 13,42s; 14,31).
Os que não viram a realização deste futuro salutar ou que sofreram o martírio pela verdadeira religião, podem contar com a gloriosa ressurreição dos justos (12,2; 2Mc 7,9). O próprio autor do livro, talvez já adiantado em anos, pode repousar em paz e esperar a ressurreição, como lhe assegura um anjo (12,13).
Também os apêndices de Dn 13-14 visam de modo geral o mesmo fim: Deus salva os inocentes (Susana) e especialmente os campeões da fé (Daniel na cova dos leões), enquanto o culto dos ídolos é ridículo.
O livro mostra também que só Deus tem todo o poder. Se tolera até certo ponto os poderes terrestres, acaba por triunfar sobre eles, obrigando-os a reconhecê-lo como o único todo-poderoso (Dn 3-6). As visões de Dn 7-12 também mostram que os sofrimentos dos justos perseguidos não são obra do acaso, mas há muito estavam previstos por Deus; está próximo o dia em que Deus quebrará o poder do tirano, inaugurando ele mesmo o seu reinado universal e eterno (7,14; 2,44; 3,33; 6,28).
Com este reinado de Deus temos um último elo na corrente dos oráculos messiânicos: a irrupção do reinado de Deus representa o tema central dos evangelhos sinóticos e Jesus é chamado muitas vezes de "Filho do homem", título que aparece em Dn 7,13; além disto ele se identifica com o "Filho do homem" que vem com as nuvens do céu (Mc 13,26).
Digna de menção é também a insistência do livro no tema da oração e na angelologia, especialmente nas figuras dos grandes anjos Gabriel e Miguele nos anjos protetores dos persas e gregos.
Daniel, livro profético e apocalíptico: O livro de Daniel vai na linha dos antigos profetas, enquanto acredita firmemente que Deus é o senhor da história e em breve revelará o seu domínio, prostrando todos os poderes pagãos e glorificando os judeus fiéis à Lei. A intervenção corajosa do jovem Daniel a favor de Susana inocente (13,45-61) lembra o empenho dos profetas a favor dos fracos e indefesos (cf. Am 5,7-12.24s; 6,12; Is 1,17; 10,2; Jr 22,15s; Mq 6,8).
As diferenças entre Dn e os profetas, porém, prevalecem sobre as semelhanças. Os profetas anteriores primariamente se ocupam do presente, visando à conversão e penitência e com isto à renovação moral e religiosa dos contemporâneos. Esta preocupação pastoral falta quase por completo em Dn; o que preocupa é o futuro, isto sobretudo nas visões (7-12). Elas descerram o futuro, fazendo esquecer a tribulação presente e procurando dar conforto. Em suma, podemos dizer que, depois da apocalíptica incipiente em Ez 38-39 (cf. Is 24-27; Zc 9-14 e Joel), este livro representa o primeiro exemplo do gênero apocalíptico plenamente desenvolvido, gênero que teve ampla aceitação no judaísmo contemporâneo e posterior, por exemplo nos livros apócrifos de Henoc e também no Apocalipse do NT, que tantas vezes cita Dn.

7. OSÉIAS
O livro de Oséias em sua forma atual é claramente dividido em duas grandes partes: c. 1-3 e 4-14. Os três primeiros capítulos giram em torno do tema do casamento de Oséias, que recebe em seu atual contexto um significado simbólico profundo. A segunda parte (c. 4-14) reúne uma grande coleção de oráculos, que tratam de temas bastante variados e se originaram em diferentes épocas da vida do profeta. Esses oráculos em sua maioria podem ser considerados autênticos. Mas a redação atual do livro de Oséias sofreu a inclusão de diversas glosas e acréscimos posteriores (cf. 2,1-3.6-8.12-14; 4,15; 5,5; 7,13b-14; 11,11; 12,1; 14,10).
O título introdutório (cf. 1,1) do livro de Oséias no-lo apresenta como um contemporâneo do rei Jeroboão II (782-753 aC). É o único profeta escritor originário do reino do Norte. Sua atividade profética se estendeu por quase trinta anos (755-725 aC). Ele assistiu a uma época de apogeu econômico e político durante o reinado de Jeroboão II, mas presenciou, também, confusões internas e assassinatos de reis após a morte do grande Jeroboão (cf. 7,7; 8,4). Viveu, outrossim, os tempos atribulados da guerra siro-efraimítica (cf. 5,8-6,6). Sua atividade profética parece ter terminado antes da queda de Samaria (722 aC).
Os três primeiros capítulos do atual livro de Oséias são, sem dúvida, objeto de muita controvérsia entre os exegetas modernos. Hoje, porém, são poucos os exegetas que atribuem um valor meramente alegórico ao relato do casamento de Oséias. Trata-se, sem dúvida, de uma experiência real na vida do profeta. Oséias vê nessa sua experiência negativa um simbolismo profundo do relacionamento entre Deus e o seu povo, como se deduz dos nomes simbólicos atribuídos a seus filhos (Jezrael, Não-Amada, Não-meu-povo).
A mensagem de Oséias gira em torno das exigências fundamentais da teologia profética expressa nos quatro termos: direito (michpat), justiça (sedaqah), fidelidade ('emet) e amor (hesed). Ele não conhece uma teologia da aliança. Oséias descreve a relação profunda entre Deus e seu povo com categorias do matrimônio (1-3) ou da paternidade (11,1). Nos oráculos de Oséias aparece claramente a profunda corrupção moral, social e religiosa de Israel (4,1-3.4-19; 5,15-6,6; 8,4-7 etc.). Mas a mensagem de Oséias apresenta, também, acentos de profundo carinho (11,1-4) e de esperança. O caminho da conversão continua aberto a Israel (5,15-6,6). O profeta exige do povo um verdadeiro "conhecimento de Deus" (da'at 'elohîm) como único caminho para uma conversão sincera.

8. JOEL
O livro de Joel se divide em duas grandes partes claramente distintas, unidas entre si pelo tema comum do "dia do Senhor". Na primeira parteé descrita uma invasão de gafanhotos (1,2-4), considerada pelo autor como presságio do "dia do Senhor"(cf. 1,15; 2,1.11). A região fica tão desolada pela praga de gafanhotos e provavelmente, também, por uma seca, que o profeta convoca uma liturgia penitencial (1,5-2,17). No fim é descrita a intervenção salvífica de Deus (2,18), que anuncia ao povo atribulado um oráculo salvífico (2,19-27). Na segunda parte o elemento escatológico predomina. É anunciada a efusão do espírito de Deus sobre toda carne (c. 3) e o julgamento das nações no vale de Josafá (4,1-17). O livro termina descrevendo a paz paradisíaca que haverá no fim dos tempos para Judá (4,18-21).
Em geral, os exegetas admitem, hoje, que o livro tenha sido escrito por um único autor. Mas a brevidade do título introdutório, que fala de um Joel filho de Fatuel (1,1), torna impossível maiores determinações sobre o autor e dificulta enormemente a datação do livro. A referência ao exílio (cf. 4,1-3) e a falta de alusões à pessoa do rei, bem como a menção à existência do templo (cf. 1,9.14.16; 2,14; 4,18) e das muralhas da cidade (cf. 2,7.9), colocam como limite superior de datação o tempo de Neemias (445 aC). É provável que o livro tenha sido composto pelo ano 400 aC.
Joel foi, provavelmente, um profeta cúltico e exerceu sua atividade profética no templo de Jerusalém. Sua mensagem alimenta-se das antigas tradições do "dia do Senhor"e de oráculos contra os povos, comuns aos profetas pré-exílicos. Mas é completamente diferente da mensagem dos grandes profetas individuais pré-exílicos. Seu horizonte é escatológico. Parte de uma calamidade concreta para anunciar a transformação escatológica de Judá e de Jerusalém.

9. AMÓS
A estrutura literária do livro de Amós parece bastante clara. Os dois primeiros capítulos contêm uma série de oráculos contra os povos vizinhos (1,3-5.6-8.9-10.11-12.13-15; 2,1-3.4-5) e culmina com um oráculo contra Israel (2,6-16). A segunda parte do livro compõe-se de diversas coleções de oráculos isolados contra Israel (3-6). Os c. 7-9 formam a terceira parte do livro que reúne o relato de cinco visões do profeta (7,1-3.4-6.7-9; 8,1-3; 9,1-4). Entre a terceira e quarta visão, o redator introduziu um relato em terceira pessoa, o episódio de Betel, que narra o encontro de Amós com o sacerdote Amasias e a expulsão do profeta. Em 8,4- 9,10 encontra-se uma outra coleção de oráculos isolados. O livro termina com um oráculo salvífico (9,11-15). No processo de formação do livro de Amós foram acrescentados palavras e oráculos de época posterior. Assim são certamente acréscimos posteriores as doxologias (4,13; 5,8-9; 8,8; 9,5-6). De origem secundária são provavelmente também 1,2.9.11-12; 2,4-5 bem como 9,8-15.
Amós é apresentado como um vaqueiro e cultivador de sicômoros (7,14) originário de Técua, ao sul de Belém (1,1). Como é dito claramente em 7,14, ele não era nabi, isto é: membro de uma corporação profética a serviço do culto. Foi Deus que o chamou e tirou de sua atividade civil e o enviou ao reino do Norte para denunciar os abusos aí existentes. Sua atividade profética deve ter começado nos últimos anos do reinado de Jeroboão II entre os anos 760-750 aC. Sua missão não durou muito. Acusado pelo sacerdote Amasias junto ao rei como subversivo, ele é expulso do reino do Norte e volta à sua pátria (7,10-17).
Amós revive em seus oráculos as antigas tradições de Israel. O tipo de sociedade que ele encontra em Betel e Samaria está em contradição gritante com a vontade do Senhor. Toda sua mensagem representa um"não"claro e decidido a esse tipo de sociedade. Ele denuncia a falsa confiança do povo baseada numa compreensão mecânica do dogma da eleição (9,7; 3,2). Acusa, sem compromissos, as injustiças sociais (2,6; 3,15; 5,7.11-13; 6,12; 8,5-6 etc.). O culto de sua época é vazio de sentido, sua finalidade não é louvar a Deus, mas ostentar o luxo e o poderio econômico dos que oferecem os sacrifícios (4,5; 5,21-23). A violação do direito divino na vida comunitária, especialmente em relação aos socialmente mais fracos, provocará o castigo divino (5,2s.16-17; 6,9-10 etc.). O povo será banido da Terra Prometida (4,1-3; 6,7; 7,16).

10. ABDIAS
Este é o menor dos escritos proféticos, contendo apenas vinte e um versículos. Os exegetas o dividem, em geral, em duas parte: v. 1-14 + 15b e 15a + 16-18. A primeira parte é formada por vários pequenos oráculos contra Edom por seus ataques e invasões ao sul de Judá durante e imediatamente após a catástrofe de 586 aC, quando Jerusalém foi destruída por Nabucodonosor II. Na segunda parte o tema do "dia do Senhor" é aplicado contra Edom. Os v. 19-21 formam um oráculo salvífico de origem secundária acrescentado posteriormente conforme o esquema escatológico do Deuteronomista (anúncio de condenação dos povos estrangeiros - anúncio de salvação para o próprio povo).
O autor deste opúsculo é apresentado no título introdutório como alguémchamado Abdias, sem maiores indicações. Pela temática de seus oráculos pode-se, provavelmente, concluir tratar-se de um profeta cúltico que permaneceu em Jerusalém após a destruição de 586 aC. Seus oráculos são, portanto, de época exílica (séc. VI aC). Os v. 2-9 de Abdias encontram-se também em ordem diferente em Jr 49,7-22. Mas os exegetas negam a autenticidade jeremiana desses versículos. Eles foram, certamente, acrescentados por um redator posterior à obra de Jeremias.
A mensagem de Abdias não se baseia, apenas, em elementos de caráter nacionalista, mas principalmente em sua fé na justiça eqüitativa de Deus (cf. v. 15b). O tema vétero-testamentário do "dia do Senhor" como um dia de castigo contra os povos opressores é aplicado por Abdias a Edom. Nesse dia de justiça divina Edom receberá a sorte que mereceu por seus atos.

11. JONAS
O livro de Jonas não contém oráculos proféticos, mas uma narração envolvendo a pessoa de um tal de Jonas filho de Amati. O livro refere-se provavelmente ao mesmo Jonas mencionado em 2Rs 14,25. Não se trata, porém, de um relato histórico. O livro de Jonas pertence ao gênero literário midráxico e é um ensinamento didático de caráter sapiencial.
O livro narra a fuga de Jonas diante da ordem de Deus de pregar em Nínive. Para fugir a essa ordem, Jonas entra em um navio e dirige-se a Társis. Durante a viagem, porém, desencadeia-se uma grande tempestade e o navio está prestes a afundar. Jonas se faz atirar ao mar (c. 1). Então Jonas é engolido por um grande peixe que o vomita após três dias, na praia (c.2). A seguir ele obedece a ordem divina e Nínive realmente se converte (c. 3). Jonas se aborrece por causa do efeito de sua pregação e Deus lhe mostra à luz do exemplo da mamoneira que sua ira é infundada (c. 4).
O autor deste livro é desconhecido. Mas o estilo e o linguajar do livro, bem como a tese aqui defendida, nos levam a situá-lo no séc. IV aC. No contexto atual o canto de ação de graças de Jn 2,3-10 é, sem dúvida, um acréscimo posterior.
Jonas, o hebreu (1,9), encarna aqui o povo de Israel. O livro fustiga a atitude particularista do povo de Israel. Como exemplo é escolhida a cidade de Nínive, destruída em 612 aC, que continuava, contudo, como protótipo da inimiga de Israel. O autor do livro de Jonas mostra uma grande abertura sapiencial. Ele reage violentamente contra a tendência de seus contemporâneos - especialmente a partir da reforma de Esdras-Neemias - de restringir a salvação a Israel. A misericórdia divina não tem limites.

12. MIQUÉIAS
Miquéias é apresentado no título introdutório do livro como um judeu originário de Morasti, uma pequena localidade situada a sudoeste de Jerusalém. Embora Mq 1,1 situe a atividade profética de Miquéias nos reinados de Joatão (750-734 aC), Acaz (734-727 aC) e Ezequias (727-698 aC), é mais provável que tenha atuado apenas durante o reinado de Ezequias e mais precisamente entre os anos de 725 e 711 aC (cf. Jr 26,18). Foram anos terríveis para os dois reinos irmãos, Judá e Israel. A hegemonia assíria tornava-se cada vez mais forte e ameaçadora. Miquéias assistiu, sem dúvida, à queda de Samaria e do reino do Norte em 722 aC. Não parece, contudo, ter presenciado a invasão de Senaquerib em Jerusalém no ano 701 aC.
O atual livro de Miquéias pode ser dividido em quatro partes. Os c. 1-3 contêm ameaças contra Israel e Judá. Em Mq 4-5 foram reunidas várias promessas salvíficas. O mesmo esquema se repete com Mq 6,1-7,7 contendo ameaças e Mq 7,8-20 promessas. A primeira parte - com exceção de Mq 2,12s - é, em geral, atribuída a Miquéias. Mas é muito controvertida a autenticidade das outras partes do livro. Os oráculos reunidos na segunda parte do livro (c. 4-5) são, com toda probabilidade, da época pós-exílica, pressupondo a queda de Jerusalém (4,8), o exílio (4,6s) e a falta de um descendente davídico (5,1-3). O oráculo 4,1-5 foi, também, incorporado pelo Redator de Isaías em Is 2,2-5. A influência da teologia sapiencial na terceira parte nos leva a datá-lo no séc. V aC. Mq 7,8-20 é uma liturgia profética e foi composta na época pós-exílica.
É verdade que apenas uma pequena parte do atual livro pode ser atribuída a Miquéias. Mas os poucos oráculos de Miquéias conservados mostram uma personalidade marcante. Seu linguajar é duro e sem compromissos. Assemelha-se muito ao de Amós. A Samaria e a Jerusalém ele anuncia o julgamento divino. Ataca violentamente a idolatria e a injustiça social reinante (cf. 1,2-7; 2,2-11). Acusa os dirigentes de Judá, que desprezam o direito divino e oprimem o povo, que edificam "Sião com sangue e Jerusalém com injustiça" (3,10). Denuncia a venalidade de juízes, sacerdotes, e profetas cultuais (cf. 3,10-11). A perspectiva é sombria: "Por isso, por culpa vossa, Sião será um campo de lavoura, Jerusalém se tornará um monte de ruínas e a montanha do templo uma colina coberta de mato" (3,12).

13. NAUM
O pequeno livro de Naum começa com um hino alfabético incompleto -vai apenas até a letra hebraica "mem"-que desenvolve um tema bem conhecido no AT. Ele descreve a manifestação da ira do Senhor (1,2-8). Este hino serve em seu contexto atual de introdução aos oráculos do profeta. Ao hino seguem dois oráculos salvíficos para Judá (1,12-13; 2,1-3) e um oráculo de condenação contra Nínive (1,9-11.14). Em Na 2,4-3,19 é introduzido, então, o grande oráculo contra Nínive, tema principal do livro, que é apresentado no título como "oráculo sobre Nínive" (cf. Na 1,1). Este grande poema descreve a ruína de Nínive com tanta força de expressão e tanta riqueza literária, que fazem de Naum um dos grandes poetas do Antigo Testamento.
Do autor deste livro é conhecido apenas o nome Naum e a tradição de que nasceu em uma localidade chamada Elcós. Contudo, a situação geográfica exata desta localidade escapa, hoje, ao nosso conhecimento. Naum exerceu sua atividade profética certamente depois da queda de Tebas, destruída pelos assírios em 663 aC (cf. 3,8-17, onde a queda de Tebas aparece como um fato conhecido). A vivacidade com que ameaça Nínive e o ressentimento profundo que demonstra contra a cidade, parecem situar o profeta em uma época antes da queda de Nínive, mas ao mesmo tempo em um período em que os inimigos dos assírios já se articulavam contra o reino assírio. Naum deve ter proferido seus oráculos pouco antes da queda de Nínive em 612 aC.
A mensagem de Naum coloca-se em uma linha de oráculos de ventura com acentos marcadamente nacionalistas. Abundam, também, elementos litúrgicos. Por isso um bom número de exegetas consideram Naum como um representante da profecia cúltica.

14 HABACUC
O livro de Habacuc apresenta uma estrutura bastante artificial. Começa com uma lamentação em 1,2-4, onde o autor deplora a opressão e a violência. Segue em 1,5-11 a resposta divina, que anuncia o aparecimento dos caldeus na história como instrumentos de Deus. Em 1,12-17 o autor coloca uma segunda lamentação, que recebe a resposta divina em 2,1-4. Em 2,5-20 são introduzidas cinco imprecações contra o Opressor. No c. 3 o autor coloca a descrição de uma teofania, que recebe do redator um novo título: "uma oração do profeta Habacuc no tom das lamentações" (3,1). Por causa deste esquema "lamentação + oráculo" o livro de Habacuc é considerado por alguns estudiosos como uma liturgia profética. Em geral, consideram-se os c. 1-2 como uma unidade literária. Apenas 2,6a.8b.13a.14.18.20 podem ser interpolações e adaptações posteriores. Hab 3 com seu título próprio e com o uso do termo musical selah (pausa: cf. 3,3.9.13) demonstra um caráter tipicamente litúrgico. Este hino foi, provavelmente, só em época mais recente acrescentado ao núcleo inicial do livro de Habacuc.
Do autor sabe-se, pelo título introdutório, que era um nabi chamado Habacuc. O título nabi indica, certamente, que Habacuc era membro de um grupo de profetas cúlticos. Para determinar o tempo de composição das palavras do profeta é necessário conhecer a interpretação dos termos "ímpio" (1,4) e "caldeus" (1,6). Não há argumentos textuais suficientes para considerar a menção aos caldeus como uma interpolação posterior. O ímpio, que será destruído pelos caldeus, pode simbolizar o reino assírio, cuja capital Nínive foi destruída em 612 aC por Nabucodonosor e seus aliados. Nesta perspectiva de interpretação pode-se situar a composição do livro de Habacuc pelo ano 600 aC.
A mensagem de Habacuc tem um caráter bem nacionalista. Faltam completamente exortações ou ameaças contra Israel. Habacuc lamenta o fato da opressão do justo, questionando assim a justiça divina. Os dois oráculos querem ser uma resposta a este questionamento. O núcleo da mensagem encontra-se na célebre frase: "O justo viverá por sua fidelidade" (2,4), usada por Paulo nas cartas aos Romanos e Gálatas.

15. SOFONIAS
O livro de Sofonias apresenta, na redação que chegou até nós, uma estrutura tripartida. Começa com um grupo de oráculos contra o próprio povo (1,2-2,3). Na segunda parte do livro são reunidos os oráculos contra os outros povos (2,4-3,8). O livro termina com um conjunto de promessas salvíficas (3,9-20). Mas esta construção não é, certamente, original e sim obra de um redator deuteronomista.
Como autor dos oráculos, o título introdutório do livro menciona um certo Sofonias, cuja lista de antepassados é citada até a quarta geração. O título indica, também, como tempo de atividade profética de Sofonias, o reinado de Josias (640-609 aC). Os oráculos autênticos de Sofonias mostram alguns indícios que permitem situar a atividade profética de Sofonias entre os anos 640-630 aC.
Da primeira parte do livro pode-se atribuir, com certeza, a Sofonias os cinco oráculos sobre Judá e Jerusalém (1,4-5.7-9.12-13.14-16; 2,1-3). Dos oráculos contra os povos são certamente autênticos os oráculos contra as cidades filistéias (2,4), contra a Assíria (2,13-14) e a ameaça final em 3,6-8. Da última parte do livro, provavelmente só o oráculo 3,11-13 é da autoria de Sofonias. Os outros oráculos foram introduzidos mais tarde durante o processo de formação do atual livro de Sofonias.
A mensagem de Sofonias é, sem dúvida, influenciada por Isaías, Amós e Miquéias. O tema do "dia do Senhor"é explanado e desenvolvido na perspectiva de Isaías e de Amós. O terrível julgamento divino atingirá principalmente as camadas dirigentes da sociedade judaica, os verdadeiros culpados da idolatria existente e da injustiça social reinante. A esperança está na conversão! Mas apenas o povo pobre e humilde, um pequeno Resto, compreenderá e procurará refúgio em Deus (cf. 3,12-13).

16. AGEU
O livro de Ageu contém em seus dois capítulos cinco discursos proféticos (1,1-15; 2,1-9.10-14.15-19.20-23), cuja formulação literária difere completamente da dos profetas pré-exílicos. O redator do livro atribui esses discursos a Ageu, um homem que pertencia ao grupo dos que tinham regressado do exílio babilônico após o edito de Ciro (cf. Esd 5,1; 6,14). Ageu é chamado em 1,1 de nabi, o que parece indicar ter pertencido a um grupo de profetas ligados ao culto. Seu papel na formação da nova comunidade judaica é importantíssimo. O tempo da atividade profética de Ageu é bem delimitado pela datação que é atribuída a cada um de seus discursos. Esse tempo vai desde o primeiro dia do sexto mês (29 de agosto) até o dia vinte e quatro do nono mês (18 de dezembro) do ano 520 aC.
No plano internacional, a época de Ageu é marcada por uma crise política no reino persa. Após a morte de Cambises em 522 aC a estabilidade político-social do reino persa foi abalada. Conflitos internos, revoltas e intrigas dificultaram enormemente a ascensão ao trono do jovem Dario. Ageu entreviu nessa situação conturbada e abalada o momento exato da intervenção salvífica do Senhor. Era o momento da libertação plena e total do povo de Deus. E essas esperanças foram imediatamente relacionadas com a figura do descendente davídico, Zorobabel. Nele o profeta coloca as esperanças messiânicas da comunidade.
A mensagem de Ageu é -como aliás a de todos os profetas pós-exílicos -uma mensagem de renovação. Ele procura interpretar os sinais do tempo, em favor da nova comunidade. O Senhor está prestes a salvar o seu povo, mas é necessário que este colabore na reconstrução do templo. Ageu atribui a pobreza do povo, a fome, a falta de boas colheitas ao desinteresse do povo pela casa do Senhor. Os repatriados pensavam apenas na reconstrução de suas próprias casas. Mas era necessário que eles vencessem os obstáculos e recomeçassem a construção do templo. O lançamento da pedra fundamental do novo templo significa para Ageu o início da mudança, o começo da era escatológica. A mensagem de Ageu é, contudo, marcada por um particularismo judaico, vetando aos samaritanos e a outros habitantes do país a participação na construção do templo (cf. Ag 2,10-14; Esd 4,1-5).

17. ZACARIAS
O atual livro de Zacarias se compõe de duas partes temática e cronologicamente bem distintas. A exegese moderna introduziu neste contexto os termos "Proto-Zacarias"(c. 1-8) e "Dêutero-Zacarias"(c. 9-14). Alguns exegetas dividem ainda c. 9-14 em Dêutero (c. 9-11) e Trito-Zacarias (c. 12-14).
A primeira parte do livro é de autoria de um profeta chamado Zacarias, que conforme Esd 5,1 e 6,14 era filho de Ado (a menção a Baraquias em Zc 1,1.7b é uma glosa influenciada por Is 8,2). No livro de Neemias, Zacarias é apresentado como um sacerdote, chefe da família de Ado. Como Jeremias e Ezequiel, era, portanto, um profeta de linhagem sacerdotal. As informações cronológicas apresentadas em Zc 1,1 e 7,1 nos levam a datar a atividade profética de Zacarias entre o oitavo mês do segundo ano do reinado de Dario (520 aC) e o nono mês do quarto ano do mesmo rei (518 aC). Mas é provável que essa atividade se tenha estendido até à consagração do novo templo pelo ano 515 aC. Zacarias foi, pois, um contemporâneo de Ageu.
A parte central do livro do Proto-Zacarias é constituída pelo relato de oito visões noturnas (1,7-15; 2,1-4.5-9; 3,1-7; 4,1-6a.10b-14; 5,1-4.5-11; 6,1-8). Esses relatos -com exceção do relato da quarta visão -seguem um mesmo esquema literário. Estão, também, unidos entre si pela semelhança temática, tendo como tema o anúncio da proximidade da era escatológica. Em Zc 3,8-10; 4,6b-10a e 6,9-14 são intercalados três oráculos isolados. Aproveitando o relato da questão levantada sobre a validade do jejum do quinto mês, que lembrava a destruição de Jerusalém em 586 aC (7,1-3), e a resposta do profeta (8,18-19) como moldura, o redator introduz em 7,4-6 um oráculo sobre a inutilidade da prática do jejum, em 7,7-14 uma reflexão histórica sobre o passado de Jerusalém, em 8,1-15 um oráculo sobre a iminência da salvação escatológica e em 8,16-17 uma exortação final do profeta. O trecho 8,20-23 é, certamente, um acréscimo posterior. A perícope 1,1-6, que serve de introdução ao livro de Zacarias, é também o resultado do trabalho de um redator que tentou resumir aqui a mensagem moral do profeta.
A mensagem do profeta Zacarias apresenta uma dimensão profundamente escatológica. A salvação escatológica está próxima. Embora contemporâneo de Ageu, as exigências de Zacarias não se limitam, apenas, à reconstrução do templo. Ele exige do povo uma renovação interior. Antes do começo da nova era escatológica é necessário que a comunidade viva conforme as exigências de Deus. O messianismo de Zacarias conhece a figura de dois ungidos (4,14). Ao lado do Messias real tradicional, Zacarias introduz a figura do messias sacerdotal.
A segunda parte do livro é em sua estrutura e temática totalmente diferente. Os diversos oráculos aqui reunidos são anônimos e não são datados. O tema da reconstrução do templo e da comunidade desaparece completamente. Esta parte pode ser subdividida em dois blocos introduzidos por títulos próprios (cf. 9,1 e 12,1). O primeiro (c. 9-11) é quase exclusivamente em forma poética e o segundo é em prosa (c. 12-14). O Dêutero-Zacarias foi composto por volta do ano 300 aC e o Trito-Zacarias na primeira metade do séc. III aC.
A doutrina messiânica é um elemento muito importante desta parte. O messianismo é novamente centralizado na casa de Davi (c. 12). Mas é apresentada em 9,9-10 a figura de um Messias humilde e pacífico. Em 12,10 é introduzida a figura misteriosa do Traspassado.

18. MALAQUIAS
O atual livro de Malaquias começa, como Zc 9,1 e Zc 12,1 com o título 'proclamação'(massa). No início o livro foi transmitido, provavelmente, sem menção ao nome do autor. Mais tarde, por influência de Ml 3,1, foi introduzida no título de Ml 1,1 a notícia "por intermédio de mal'aki"= "meu anjo", que se transformou, aos poucos, no nome próprio Maleaqi = Malaquias.
O opúsculo de Malaquias é formado por seis unidades literárias facilmente delineáveis (1,2-5; 1,6-2,9.10-16; 2,17-3,5.6-12.13-21), compostas por um mesmo autor. A conclusão 3,22-24 pode ser facilmente identificada como dois acréscimos posteriores. O primeiro (3,22) exorta o povo a lembrar-se da Lei de Moisés. O segundo (3,23-24) corrige e adapta às circunstâncias da época o anúncio do mensageiro proclamado em 3,1. O trecho 2,11b-13a é também considerado por muitos como uma adição posterior.
O livro supõe a existência do templo e de um culto organizado, o que nos situa em uma época posterior a Ageu e Zacarias. Mas a menção a abusos por parte dos sacerdotes e a desleixos no culto bem como à leviandade dos maridos que sem motivo abandonam suas esposas parece indicar uma época anterior à reforma de Neemias (445 aC). Nota-se, também, influência do Deuteronômio; enquanto que o escrito sacerdotal parece ainda não existir. Todos esses indícios nos levam a datar o livro na primeira metade do séc. V aC, pelo ano 465 aC aproximadamente.
A mensagem de Malaquias dirige-se a uma comunidade profundamente decepcionada. As promessas de Zacarias e de Ageu não se tinham realizado. A era escatológica, tão esperada pela comunidade, não chegara. A desilusão levara o povo à indiferença religiosa. A fé em Deus vacilava. Mas o profeta apresenta a essa comunidade a certeza da realização do julgamento divino. Esse julgamento é inevitável, ele pode realizar-se a qualquer momento. A comunidade deve estar preparada para a vinda do "dia do Senhor". E a melhor preparação é uma vida conforme as exigências cúlticas e éticas de Deus.