A Homilia
Genésio Zeferino da Silva Filho *
Introdução
Freqüentemente ouvimos críticas às homilias feitas. Elas deixam de ser momentos privilegiados de comunicação entre o celebrante (sacerdote ou ministro) e os fiéis e passam a ser exemplos de in-comunicação ou anti-comunicação. Se elas são feitas de forma vertical, autoritária, massiva e impessoal não serão atraentes. O celebrante não conseguirá uma boa comunicação.
As críticas às homilias procedem muito mais pela forma do que pelo conteúdo. Portanto, não basta preocupar-se com o conteúdo. Hoje, sobretudo, é preciso dar maior peso à forma, ao como apresentar a homilia. Basta ver como fazem os meios de comunicação social. A publicidade é um bom exemplo para isso. Nela a preocupação é toda voltada para a forma: atraente, dinâmica, clara, curta, sem rodeios ou divagações, dirigida diretamente ao público alvo, não intelectualizada, utilizam-se da comunicação total, não só através da palavra, etc. São todas características de comunicação que devem ser observadas também na homilia. Nesse caso, a preocupação com a forma se justifica ainda mais pelo conteúdo que ela carrega. Se é Palavra de Deus e isto é o conteúdo de maior importância que possa haver, ela deve estar revestida de uma forma comunicacional que não a desmotive, não a torne desinteressante, cansativa.
A homilia deve ser evangélica
Toda homilia deve constituir-se em mensagem evangélica, em mensagem bíblica. Isso não significa que se deva, necessariamente, partir dos textos bíblicos. Às vezes, uma ocasião particular, um acontecimento marcante, um fato recente que está na memória dos ouvintes podem ser motivo interessante para se estabelecer a comunicação na homilia. As homilias nas missas de ocasião (aniversário, 15 anos, casamento, sétimo dia, etc.) são um espaço privilegiado que a Igreja dispõe para evangelizar aqueles que, em outras circunstâncias, não viriam à Igreja. É preciso nessas ocasiões evangelizar iluminando a realidade da vida com a Palavra de Deus.
A homilia deve ser o momento em que as pessoas, auxiliadas por quem a faz, possam estabelecer a ligação entre a Palavra de Deus e sua vida concreta. Por isso, toda homilia é evangélica, porque ela deve motivar as pessoas não só a compreenderem a Palavra de Deus, mas, sobretudo, a viverem-na. Não é o lugar para análises exegéticas. Não é lugar para tratados teológicos. Não é lugar para longas explicações litúrgicas ou catequéticas. Muito menos ainda, é lugar para recados e avisos.
Na homilia, o celebrante deve desempenhar um papel estimulador, incentivador, para que as pessoas unam a Palavra de Deus à vida da comunidade e à própria vida particular nas circunstâncias que se está vivendo. Não é necessário forçar para estimular. Assumir uma postura ameaçadora, autoritária, apelando para a obrigatoriedade, para a autoridade da Igreja ou para um sentimentalismo pessoal não ajuda em nada. Motivar não significa impingir, obrigar, ameaçar. Não existe nada mais detestável do que fazer alguma coisa simplesmente porque se está obrigado. Uma ação só encontra sentido quando há motivação profunda para agir. A vida cristã deve ser assumida na liberdade de cada pessoa. É opção livre e pessoal.
O destinatário da homilia
A homilia não pode ser impessoal. Não se fala para um público alheio, indiferente. É preciso tocar o ouvinte. E isso se faz mexendo com seus sentimentos, com suas crenças e valores, com sua imaginação e sentidos, por meio da exploração do som, da cor, da imagem, provocando e despertando o interesse por aquilo que está sendo passado.
"O que o povo espera daqueles que fazem a homilia é que sejam alguém que não fala a um público imaginário, mas que conheça seus ouvintes. Alguém que não faça uma reflexão fora do contexto, nem das leituras, mas que saiba unir as leituras à vida das pessoas". (Vicente Paulo Alves)
Dentro da Igreja, infelizmente, a preocupação com a formação dos futuros comunicadores (sacerdotes ou ministros) é muito pequena. Há grande preocupação com o conteúdo e, quase nada, com a forma, a maneira de se comunicar. Quando se fala em comunicação, pensa-se, quase que exclusivamente, nos meios de comunicação social, como se esses fossem o único espaço onde se dá a comunicação. Esquece-se por completo da comunicação como dimensão humana. Esse é um fato curioso. O êxito do ministério sacerdotal depende, quase que cem por cento, de sua capacidade comunicativa e isso não é levado em conta quando se elaboram os currículos formativos dos futuros ministros (sacerdotes ou leigos).
Ao se preparar uma homilia, a preocupação maior deve ser com a forma, ou seja, com os dispositivos que criam, despertam o interesse e fazem com que a comunidade participe do assunto que se está refletindo. As homilias longas, em geral, são mal preparadas e denunciam que quem a pronuncia é autoritário, centralizador, e acaba levando para a homilia esta prática do dia-a-dia.
Em geral, as homilias não chegam a atingir o povo, não levam a pessoa a viver, no hoje, a mensagem evangélica. Talvez a formação deficiente seja responsável por termos na Igreja sacerdotes e ministros tão desencarnados, tão fora da realidade.
O diálogo na homilia
A homilia é um diálogo entre o presidente (aquele que preside) e a comunidade. Onde há possibilidade e for conveniente, pode-se abrir para um diálogo, uma conversa com o público. A homilia pode-se tornar um momento para as pessoas se manifestarem, comunicarem suas experiências, ligando a Palavra de Deus à sua vida concreta. Esta pode ser também uma boa forma para despertar o interesse do público. As pessoas sentem-se envolvidas, motivadas, participantes.
É preciso ver a conveniência de tal procedimento. Numa comunidade grande, pode tornar-se difícil e, às vezes, impraticável. É preciso cuidar para que todos possam ouvir aquilo que alguém esteja dizendo. É importante que a pessoa que esteja falando seja também vista e não apenas ouvida. Afinal, nós não comunicamos apenas com a voz. Caso contrário, provoca o desinteresse. O testemunho das pessoas na homilia fortalece a fé, ajuda a canalizar as forças em direção aos trabalhos da comunidade. À luz da Palavra, torna-se mais fácil entender o que a gente está vivendo hoje.
O presidente deve coordenar o diálogo, evitando que mais de uma pessoa fale ao mesmo tempo, evitando divagações, ou mesmo exposição de experiências ou circunstâncias muito pessoais que possam constranger. Ele deve cuidar também para que a conversa não se prolongue muito e que fique dentro do tema proposto. Ele deve ser capaz de garantir a ligação entre tudo o que está sendo dito e a liturgia que se está celebrando. A homilia não pode ser desvinculada do restante da celebração.
A preocupação que o presidente deve ter constantemente
é a de envolver os ouvintes em sua homilia. Ele deve procurar a melhor
forma de fazê-lo. O Projeto Construir a Esperança da Arquidiocese
de Belo Horizonte sugere um pequeno folheto, previamente distribuído,
que ajuda as pessoas a acompanhar a homilia. O celebrante procura desenvolver
o esquema do folheto distribuído aos fiéis, facilitando assim
acompanhar a homilia.
Deve-se cuidar, porém, para não transformar a homilia num momento
de estudo.
A postura do celebrante
É uma boa tática iniciar o discurso interpelando o ouvinte: dessa forma se entra pela porta do coração, estabelecendo um certo grau de cumplicidade entre o que se fala e o que se ouve, ganhando-lhe a atenção e a confiança. Isso ajuda criar a empatia, abrindo o canal para a comunicação eficaz. O caminho para uma comunhão mais profunda entre ambos está então facilitado. Colocar-se no lugar do ouvinte, identificar-se com ele, diminui a distância psicológica de preconceito e discriminação entre quem fala e quem ouve.
Quem faz uso da palavra oral precisa cativar logo de início a atenção e o interesse de seu destinatário se não quiser correr o risco de perdê-lo, e, quem sabe, para sempre. É imprescindível cuidar do modo de se apresentar, se não quiser que o conteúdo, por melhor que seja, fique prejudicado.
Não é bom que o celebrante inicie seu discurso de modo frio, mantendo o ouvinte distante, mas utilize dispositivos que favoreçam a comunicação mais profunda entre ambos. Se o celebrante concluir o discurso de modo seco, brusco, utilizando palavras que não são suas manterá os destinatários distantes, fazendo da comunicação um ato simplesmente formal, mecânico, desprovido de sentido de comunhão de vida. Deixará transparecer que é apenas um "profissional" do culto, que nada tem a ver com a assembléia, a não ser o cumprimento exato de normas e ritos preestabelecidos.
Uma homilia para uma grande multidão deve ter um tom coloquial, alternando oratória vibrante e entusiasta com interpelações bem familiares, mantendo assim o ouvinte próximo a quem faz a homilia.
A imagem que o celebrante faz de seu povo se manifesta na transparência das palavras e colocações. Assumir a postura de uma Igreja que se volta para o homem, assumindo-o na sua totalidade, no anúncio da Palavra, na denúncia de tudo que fere ou ameaça a vida e a dignidade humana é uma postura que cativa o público. É importante não menosprezar o público, pensando que ele não sabe nada. Uma atitude assim levaria a um discurso simplista que, na maioria das vezes, é percebido pelos ouvintes. Ninguém gosta de ser tratado de maneira inferior ao que é. Isso não significa que se deva fazer um discurso intelectualizado, cheio de expressões e palavras difíceis, pensando que assim se está sendo eloqüente. O ideal é conhecer o público ao qual se dirige e preparar a homilia especificamente para este público.
A preparação da homilia
Este é um elemento fundamental. A homilia deve ser preparada, e da melhor maneira possível. Não dá para fazer improvisações. Percebe-se claramente a homilia que foi preparada e aquela que não o foi.
Observa-se que o celebrante preparou a homilia quando há ordem, lógica, clareza nas idéias e que utiliza um tempo relativamente breve para expô-la. Quase sempre, a homilia longa é sinal de não preparação.
Alguns elementos que devem ser observados na preparação e na exposição da homilia:
· A articulação das palavras. Palavras mal pronunciadas ou mal articuladas podem provocar um "atropelamento" verbal, prejudicando o raciocínio de quem fala e a compreensão de quem ouve;
· a construção das frases. Aqui é necessário uma habilidade para quem faz uso da palavra em público. Para uma boa comunicação é necessário uma boa construção das frases, do texto, da concordância verbal. Não há nada mais desagradável do que perceber erros graves de concordância verbal da parte de quem fala em público;
· as idéias ou assuntos na homilia. Aqui vale também a observação de uma regra da publicidade. É a chamada "lei USP" - Uma Só Proposta. De fato, em cada publicidade só há uma proposta. Se houver mais de uma confunde o possível cliente. Essa regra vale também para a comunicação em público, portanto também para a homilia. Quanto maior for o número de idéias ou assuntos, menor será a compreensão. Quanto mais forem as propostas, menor será a possibilidade de serem aceitas e assumidas;
· falar em nome da Igreja. A comunicação litúrgica é comunicação em nome da Igreja. O celebrante não preside em nome próprio, mas em nome da Igreja. É um ato eclesial. Portanto, deve ter responsabilidade sobre o que diz. Não significa não ter opinião própria, mas ter a consciência de não estar diante do público em nome próprio. Não emitir opiniões muito pessoais, sobretudo, em assuntos polêmicos e controversos. Se, por acaso, o fizer, que diga explicitamente que o que está dizendo é opinião sua, particular e não está falando em nome do Magistério. Por outro lado, não colocar na "boca de Deus" ou de Jesus Cristo palavras que não são d'Eles e, às vezes, de maneira que Eles jamais fariam;
· problemas de dicção, nervosismo, insegurança no momento de falar podem surgir. Estes tendem a diminuir na medida em que se ganha prática, experiência. Porém, quanto menos alguém se encontra preparado para falar em público, maior será a probabilidade desses problemas. Quem se dispõe a falar em público, mas não sabe o que vai dizer, com que objetivo, não domina o assunto ou não se preparou para falar, fatalmente enfrentará problemas graves na hora de expô-lo.
As partes da homilia
Não existe uma fórmula de como se preparar uma homilia. Não é como uma receita de bolo onde você tem os ingredientes na medida exata e, logo em seguida, o modo de fazer. Ela deve seguir as exigências do público ao qual se dirige, as circunstâncias em que é expressa e as potencialidades de quem a faz.
Porém, alguns elementos são importantes. São uma espécie de "espinha dorsal" da homilia:
1) Contextualização
É preciso contextualizar os textos bíblicos possibilitando uma compreensão mais abrangente dos mesmos dentro do tema da celebração litúrgica. A celebração possui uma dinâmica que se desenvolve a partir de um tema. A homilia deve ajudar a essa contextualização. Esse é o momento da compreensão do texto bíblico. Não significa dar uma aula de exegese bíblica. Nem se deve usar o procedimento do celebrante contar com suas palavras o que foi lido, como se se contasse uma história - o que é muito comum em certas homilias. Isto, quase sempre, só serve para empobrecer o texto, além de tornar-se repetitivo. Ora, se o texto já foi lido, e foi bem lido, não precisa ser repetido. Aliás, essa é uma regra básica para a fala em público: a não repetição de idéias ou de palavras desnecessariamente. Contextualizar, é mostrar o significado das leituras dentro do sentido maior da celebração.
2) Atualização
Significa mostrar o caráter prático, vivencial do que se está celebrando. É o momento da motivação para a vivência, do auxílio para a integração fé e vida. É a oportunidade de auxiliar para a encarnação da mensagem evangélica. Essa encarnação deve ser não só em nível pessoal, mas também comunitário, eclesial. Esta parte deve ocupar o maior tempo da homilia.
3) Incentivo ao compromisso
Essa parte está diretamente ligada à anterior. Deve motivar para o empenho de vida, provocar a mudança, a desinstalação, a conversão. Significa provocar o crescimento. Também aqui, tanto em nível pessoal, quanto comunitário.
4) Convite à oração
A homilia deve favorecer para que tudo desemboque numa atitude de oração. Isso fará com que as pessoas sintam-se mais motivadas na continuação da celebração litúrgica e as ajudará para sua vida de oração, para além daquela celebração. Esse é um elemento que freqüentemente falta nas homilias. E, muitas vezes, é por falta desse elemento que a homilia se torna um discurso desvinculado do restante da celebração. Às vezes, as pessoas acham que a homilia foi interessante, mas não encontram a ligação com o restante do que se está celebrando.
Esta deve ser a estrutura básica da homilia. Como dissemos anteriormente, não se trata de receita. É apenas o esqueleto. Faltam os músculos, a carne, o revestimento, etc. Também a ordem, não precisa ser necessariamente esta aqui apresentada. Segundo o clima da celebração, a facilidade comunicativa do celebrante tudo pode variar. Mas, devemos repetir: nada disso é possível se não há preparação anterior. Se a preparação não vier por amor à Palavra da qual o celebrante é instrumento, nem por respeito ao público, que se dê, ao menos, por orgulho pessoal: não se apresentar diante dos outros sem se estar preparado.
Nota - Esse capítulo (CAPITULO 8) foi
extraído do livro: "Comunicação e Pastoral - Como
melhorar a comunicação nas ações e eventos pastorais",
Pe. Genésio Zeferino da Silva Filho, Editora Salesiana, São Paulo-SP,
2001.