SÍMBOLOS LITÚRGICOS

INTRODUÇÃO

O ser humano é, ao mesmo tempo, corporal e espiritual. É matéria e espírito. Sua percepção, pois, das realidades espirituais depende de imagens e de símbolos, e sua comunicação só é plenamente objetiva na linha de comunhão. Em todas as civilizações e culturas e em todos os momentos da história, esse dado antropológico é registrado, sem discussões. O homem percebe as coisas pela linguagem própria, viva e silenciosa das coisas e se situa - ele próprio - no mundo do mistério. Tendo consciência de sua realidade transcendente, o homem busca, pois, a comunhão no mistério, que se dá sobretudo na linguagem silenciosa dos símbolos.
De fato, os símbolos nos mostram, em sua visibilidade, uma realidade que os transcende, invisível. Falam sempre a linguagem do mistério, apontando para além deles próprios. Por aqui pode-se perceber o quanto é útil e necessária na liturgia esta linguagem misteriosa dos símbolos, e eles não têm, como objetivo, explicar o mistério que se celebra, pois o mistério é para ser vivido, mais portanto que ser explicado. A finalidade dos símbolos é adornar, na linguagem simples das coisas criadas, a expressão profunda do mistério, que é invisível.
Todo símbolo litúrgico deve, pois, mergulhar-nos na grandeza do mistério, sem reduzir este, e sem banalizá-lo, e, como símbolo, deve ser simples, como simples é toda a criação visível. Sua principal função, sobretudo na liturgia, é, pois, comunicar-nos aquela verdade inefável, que brota do mistério de Deus e que, portanto, não se pode comunicar com palavras. Na participação litúrgica devemos passar da visibilidade do símbolo, isto é, de seu sentido imediato, de significante, para a sua dimensão mistérica, invisível, atingindo o significado, que é o objetivo final de toda realidade simbólica. Se o símbolo não nos leva a essa passagem para um nível superior de crescimento espiritual, ou ele já não tem mais força expressiva, simbólica, ou somos nós que falhamos na nossa maneira de participar da liturgia. Um exemplo de perda de significação simbólica, podemos citar a batina dos padres, ou o uso do véu na igreja pelas mulheres. Insistir, em nossa cultura, no uso de tais símbolos litúrgicos, seria forçar uma prática já inexpressiva e que até causaria espanto em muitas cabeças, para não dizer em toda a assembléia.
Na liturgia - saibamos - tudo, pois, é simbólico. E a liturgia é descrita como ação simbólica, no sentido mais pleno. Desde a assembléia reunida até a pequenina chama da vela que arde, tudo é expressão simbólica, que nos remete ao abismo do mistério de Deus. Na compreensão desse dado litúrgico está a beleza de todo ato celebrativo, e de sua consciência brota já a alegria pascal, como antecipação sacramental das alegrias futuras, definitivas e eternas.
Vejamos então algumas noções dos símbolos e procuremos descobrir sua ministerialidade na liturgia.

ALFAIAS

01 - ALFAIAS LITÚRGICAS - Nome que se dá ao conjunto dos objetos litúrgicos usados nas celebrações. Deve-se também considerar aqui a Arte Sacra, que se estende, por sua vez, a tudo o que diz respeito ao culto e ao uso sagrado. "Com especial zelo a Igreja cuidou que as sagradas alfaias servissem digna e belamente ao decoro do culto, admitindo aquelas mudanças ou na matéria, ou na forma, ou na ornamentação que o progresso da técnica da arte trouxe no decorrer dos tempos" (SC 122c). Aqui, pode-se ver como a reforma conciliar do Vaticano II se preocupa com a dignidade das coisas sagradas. Templo, altar, sacrário, imagens, livros litúrgicos, vestes e paramentos, e todos os objetos devem, pois, manifestar a dignidade do culto, que, como expressão viva de fé, identifica-se com a natureza de Deus, a quem o povo, congregado pelo Filho e na luz do Espírito Santo, adora "em espírito e verdade" (Cf. Jo 4,23-24).

LIVROS LITÚRGICOS
02 - MISSAL - Livro usado pelo sacerdote na celebração eucarística.
03 - LECIONÁRIO - Livro que contém as leituras para a celebração. São três:
I - Lecionário dominical - Contém as leituras dos domingos e de algumas solenidades e festas.
II - Lecionário semanal - Contém as leituras dos dias de semana. A primeira leitura e o salmo responsorial estão classificados por ano par e ímpar. O evangelho é sempre o mesmo para os dois anos.
III - Lecionário santoral - Contém as leituras para as celebrações dos santos. Nele também constam as leituras para uso na administração de sacramentos e para diversas circunstâncias.
04 - EVANGELIÁRIO - É o livro que contém o texto do evangelho para as celebrações dominicais e para as grandes solenidades.

ESPAÇO CELEBRATIVO
05 - ALTAR - Mesa fixa, podendo também ser móvel, destinada à celebração eucarística. É o espaço mais importante da Igreja. Lugar onde se renova o sacrifício redentor de Cristo.
06 - AMBÃO - Chama-se também Mesa da Palavra. É a estante de onde se proclama a palavra de Deus. Não deve ser confundida com a estante do comentador e do animador do canto. Esta não deve ter o mesmo destaque do ambão.
07 - CREDÊNCIA - Pequena mesa onde se colocam os objetos litúrgicos, que serão utilizados na celebração. Geralmente, fica próxima do altar.
08 - PRESBITÉRIO - espaço ao redor do altar, geralmente um pouco mais elevado, onde se realizam os principais ritos sagrados.
09 - NAVE DA IGREJA - Espaço do templo reservado aos fiéis.
10 - SACRÁRIO - Chama-se também Tabernáculo. É uma pequena urna onde são guardadas as partículas consagradas e o Santíssimo Sacramento. Recomenda-se que fique num lugar apropriado, com dignidade, geralmente numa capela lateral.
PÚLPITO - Lugar nas igrejas antigas de onde o presidente fazia a pregação. Hoje, praticamente não é mais usado.

OBJETOS LITÚRGICOS

11 - CORPORAL - Tecido em forma quadrangular sobre o qual se coloca o cálice com o vinho e a patena com o pão.
12 - MANUSTÉRGIO - Toalha com que o sacerdote enxuga as mãos no rito do Lavabo. Em tamanho menor, é usada pelos ministros da Eucaristia, para enxugarem os dedos.
13 - PALA - Cartão quadrado, revestido de pano, para cobrir a patena e o cálice.
14 - SANGUINHO - Chamado também purificatório. É um tecido retangular, com o qual o sacerdote, depois da comunhão, seca o cálice e, se for preciso, a boca e os dedos.
15 -VÉU DE ÂMBULA - Pequeno tecido, branco, que cobre a âmbula, quando esta contém partículas consagradas. É recomendado o seu uso, dado o seu forte simbolismo. O véu vela (esconde) algo precioso, ao mesmo tempo que revela (mostra) possuir e trazer tal tesouro. (O véu da noiva, na liturgia do Matrimônio, tem também esta significação simbólica, embora, na prática, não seja assim percebido, muitas vezes passando como mero adorno de ostentação).
16 - ÂMBULA, CIBÓRIO OU PÍXIDE - É um recipiente para a conservação e distribuição das hóstias aos fiéis.
17 - CÁLICE - Recipiente onde se consagra o vinho durante a missa.
18 - CALDEIRINHA E ASPERSÓRIO - A caldeirinha é uma pequena vasilha, onde se coloca água benta para a aspersão. Já o aspersório é um pequeno instrumento com o qual se joga água benta sobre o povo ou sobre objetos. Na liturgia são inseparáveis.
19 - CASTIÇAL - Utensílio que se usa para suporte de uma vela.
20 - CANDELABRO - Grande castiçal, com várias ramificações, a cada uma das quais corresponde um foco de luz.
21 - PATENA - Pequeno prato, geralmente de metal, para conter a hóstia durante a celebração da missa.
22 - BACIA E JARRA - Em tamanho pequeno, contendo a jarra a água, para o rito do "Lavabo", na preparação e apresentações dos dons.
23 - CÍRIO PASCAL - Vela grande, que é benzida solenemente na Vigília Pascal do Sábado Santo e que permanece nas celebrações até o Domingo de Pentecostes. Acende-se também nas celebrações do Batismo. Pode ser usado em todas as Missas Dominicais, pois simboliza o Cristo Ressuscitado.
24 - CRUZ - Não só a cruz procissional, isto é, a que guia a procissão de entrada, mas também uma cruz menor, que pode ficar sobre o altar. A cruz simboliza o sofrimento de um povo que caminha em direção ao seu Senhor.
25 - VELAS - As velas comuns, porém de bom gosto, que se colocam no altar, geralmente em número de duas, em dois castiçais.
26 .- OSTENSÓRIO - Espécie de vaso onde a hóstia grande consagrada é colocada numa abertura coberta por dois vidros, como uma janela redonda. Nele fica exposto o Santíssimo Sacramento para adoração dos fiéis. É usado na procissão de Corpus Christi, ficando sempre entre duas velas acesas. Também é usado para dar a bênção eucarística.
27 - CUSTÓDIA - Parte central do Ostensório, onde se coloca a hóstia consagrada para exposição do Santíssimo. É parte fixa do Ostensório.
28 - LUNETA - Peça circular do Ostensório, onde se coloca a hóstia consagrada, para a exposição do Santíssimo. É peça móvel.
29 - GALHETAS - São dois recipientes para a colocação da água e do vinho, para a celebração da missa.
30 - HÓSTIA - Pão não fermentado (ázimo), usado na celebração eucarística. Aqui se entende a hóstia maior. É comum a forma circular.
31 - PARTÍCULA - O mesmo que hóstia, porém em tamanho pequeno e destinado geralmente à comunhão dos fiéis.
32 - RESERVA EUCARÍSTICA - Nome que se dá às partículas consagradas, guardadas no sacrário e destinadas sobretudo aos doentes e à adoração dos fiéis, em visita ao Santíssimo. Devem ser consumidas na missa seguinte. Pede-se que a Comunhão seja distribuída com as partículas consagradas na Missa do dia. As reservas eucarísticas devem ser utilizadas na Missa somente em caso de necessidade.
33 - INCENSO - É uma resina aromática, extraída de várias plantas, usada sobre brasas, nas celebrações solenes (Ver também a referência do nº 66).
34 - NAVETA - Pequeno vaso onde se transporta o incenso nas celebrações litúrgicas.
35 - TECA - Pequeno estojo, geralmente de metal, onde se leva a Eucaristia para os doentes. Usa-se também, em tamanho maior, na celebração eucarística, para conter as partículas.
36 - TURÍBULO - Vaso utilizado nas incensações durante a celebração. Nele se colocam brasas e o incenso.

OUTROS SÍMBOLOS
37 - IHS - Iniciais das palavras latinas Iesus Hominum Salvator, que significam: Jesus Salvador dos homens. Empregam-se sempre em paramentos litúrgicos, em portas de sacrário e nas hóstias.
38 - ALFA E ÔMEGA - Primeira e última letra do alfabeto grego. No Cristianismo aplicam-se a Cristo, princípio e fim de todas as coisas.
39 - TRIÂNGULO - Com seus três ângulos iguais (equilátero), o triângulo simboliza a Santíssima Trindade. É um símbolo não muito conhecido pelo nosso povo.
40 - INRI - São as iniciais das palavras latinas Iesus Nazarenus Rex Iudaerum, que querem dizer: Jesus Nazareno Rei dos Judeus, mandadas colocar por Pilatos na crucifixão de Jesus (Cf. Jo 19,19).
41 - XP - Estas letras, do alfabeto grego, correspondem em português a C e R. Unidas, formam as iniciais da palavra CRISTÓS (Cristo). Esta significação simbólica é, porém, ignorada por muitos.

VESTES LITÚRGICAS
Vestes usadas pelos ministros ordenados. São elas:
42 - ALVA - Túnica longa, de cor branca.
43 - TÚNICA - O mesmo que alva. Atualmente pode ser de cor neutra.
44 - AMITO - Pano que o ministro coloca ao redor do pescoço antes de outras vestes litúrgicas.
45 - CASULA - Veste própria do sacerdote que preside a celebração. Espécie de manto que se veste sobre a alva e a estola.
46 - ESTOLA - Veste litúrgica do sacerdote. Os diáconos também a usam, porém a tiracolo, sobre o ombro esquerdo, pendendo-a do lado direito.
47 - CAPA PLUVIAL - Capa longa, que o sacerdote usa ao dar a bênção do Santíssimo ou ao conduzí-lo nas procissões. Usa-se também no rito de aspersão da assembléia.
48 - CÍNGULO - Cordão com o qual se prende a alva ao redor da cintura.
49 -VÉU UMERAL - Chama-se também véu de ombros. Manto retangular, de cor dourada, usado pelo sacerdote na bênção do Santíssimo.
50 - DALMÁTICA - Veste própria do diácono. É colocada sobre a alva e a estola.

CORES LITÚRGICAS
As cores dizem respeito à toalha do altar e do ambão e às vestes litúrgicas. São elas:
51 - O BRANCO - Simboliza a vitória, a paz, a alma pura, a alegria. Usa-se: na Quinta-feira Santa, na Vigília Pascal do Sábado Santo, em todo o Tempo Pascal, no Natal, no Tempo do Natal, nas festas dos santos (quando não mártires) e nas festas do Senhor (exceto as da Paixão). É a cor predominante da ressurreição.
52 - O VERMELHO - Simboliza o fogo, o sangue, o amor divino, o martírio. É usado: no Domingo de Ramos e da Paixão, na Sexta-Feira da Paixão, no Domingo de Pentecostes, nas festas dos apóstolos, dos santos mártires e dos evangelistas.
53 - O VERDE - É a cor da esperança. Usa-se no Tempo Comum. (Quando no TC se celebra uma festa do Senhor ou dos santos, usa-se então a cor da festa).
54 - O ROXO - Simboliza a penitência. Usa-se no Tempo do Advento e da Quaresma. Pode-se também usar nos ofícios e missas pelos mortos. (Quanto ao Advento, está havendo uma tendência a se usar o violeta, em vez do roxo, para distinguí-lo da Quaresma, pois Advento é tempo de feliz expectativa e de esperança, num viver sóbrio, e não de penitência, como a Quaresma).
55 - O PRETO - É símbolo de luto. Pode ser usado nas missas pelos mortos, mas nessas celebrações pode-se usar também o branco, dando-se então ênfase não à dor, mas à ressurreição.
56 - O ROSA - Simboliza também a alegria. Pode ser usado no 3º Domingo do Advento, chamado "Gaudete" , e no 4º Domingo da Quaresma, chamado aqui "Laetare", ambos domingos da alegria.

POSIÇÕES CORPORAIS
Na liturgia toda a pessoa é chamada a participar. Sentido, corpo, espírito. Assim, os gestos corporais são também vivamente litúrgicos. E como no corpo humano cada membro tem uma função própria, a serviço, porém, de todo o corpo, assim, na liturgia, cada gesto do corpo recebe um simbolismo próprio, a serviço de todo o ato celebrativo. Assim, temos:
57 - AS MÃOS - Que ora se erguem em louvor; ora se estendem em abertura e oferecimento; ora se elevam em súplica; ora se juntam em recolhimento; ora se abrem em oferta. Também se faz a imposição de mãos nas ordenações.
58 - OS PÉS - Não só caminham nas procissões litúrgicas, em sentido simbólico de peregrinação, como também se prestam para o ritmo de danças. Na missa da Quinta-Feira Santa são lavados em memória do mandamento novo da última Ceia do Senhor com seus discípulos. Podemos pensar nos pés do Cristo Peregrino, nas estradas difíceis da Palestina, identificados com os nossos pés, na difícil caminhada de nossa vida.
59 - OS OLHOS - Na leitura eucarística, principalmente, os olhos devem ver, enxergar, contemplar. Aqui o mistério é "visto". Daí, a atenção que se requer para os movimentos litúrgicos que se realizam no altar.
60 - OS OUVIDOS - Na Liturgia da Palavra, nosso sentido auditivo é chamado a participar mais vivamente. Trata-se de ouvir, como no Antigo Testamento: "Ouve Israel...", a oração judaica mais preciosa (o Xemá judaico, no convite de Dt 6,4).
61 - OUTROS MOVIMENTOS E GESTOS CORPORAIS - Podemos falar ainda: de ajoelhar-se, de prostrar-se, de sentar-se, de ficar de pé, como também de persignar-se, de traçar o sinal da cruz. Ainda falamos de genuflexão, do gesto sereno da vênia, este como reverência diante do Santíssimo e de autoridades eclesiásticas. Atente-se pelo fato de a posição "de pé", na liturgia, ser a mais expressiva, por indicar prontidão e nos revelar a atitude de ressuscitados. É como Cristo se mostra depois da ressurreição (Cf. Jo 20,14; 21,4; Ap 5,6).

SÍMBOLOS LITÚRGICOS LIGADOS À NATUREZA
62 - A ÁGUA - A água simboliza a vida (remete-nos sobretudo ao nosso batismo, onde renascemos para uma vida nova). Pode simbolizar também a morte (enquanto por ela morremos para o pecado). Nesse sentido, ela é mãe e sepulcro, de acordo com os Santos Padres. (Ver a referência litúrgica do nº 67, em que se fala da água, nos ritos do Batismo, do Lavabo e do "asperges").
63 - O FOGO - O fogo ora queima, ora aquece, ora brilha, ora purifica. Está presente na liturgia da Vigília Pascal do Sábado Santo e nas incensações, como as brasas nos turíbulos. O fogo pode multiplicar-se indefinidamente. Daí, sua forte expressão simbólica. É símbolo sobretudo da ação do Espírito Santo (Cf. Eclo 48,1; Lc 3,16; 12,49; At 2,3; 1Ts 5,19), e do próprio Deus, como fogo devorador (Cf. Ex 24,17; Is 33,14; Hb 12,29).
64 - A LUZ - A luz brilha, em oposição às trevas, e mesmo no plano natural é necessária à vida, como a luz do sol. Ela mostra o caminho ao peregrino errante. A luz produz harmonia e projeta a paz. Como o fogo, pode multiplicar-se indefinidamente. Uma pequenina chama pode estender-se a um número infinito de chamas e destruir, assim, a mais espessa nuvem de trevas. É o símbolo mais expressivo do Cristo Vivo, como no Círio Pascal. A luz e, pois, a expressão mais viva da ressurreição.
65 - O PÃO E O VINHO - Símbolos do trabalho e alimento humano. Trigo moído e uva espremida, sinais do sacrifício da natureza, em favor dos homens. Elementos tomados por Cristo para significarem o seu próprio sacrifício redentor.
66 - O INCENSO - Como se falou no número 33, com sua especificidade aromática. Sua fumaça simboliza, pois, a oração dos santos, que sobe a Deus, ora como louvor, ora como súplica (Cf. Sl 140 (141)2; Ap 8,4).
67 O ÓLEO - Temos na liturgia os óleos dos Catecúmenos, do Crisma e dos Enfermos, usados liturgicamente nos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Unção dos Enfermos. Nos três sacramentos, trata-se do gesto litúrgico da unção. Aqui vemos que o objeto - no caso, o óleo - além de ele próprio ser um símbolo, faz nascer uma ação, isto é, o gesto simbólico de ungir. Tal também acontece com a água: ela supõe e cria o banho lustral, de purificação, como nos ritos do Batismo e do "lavabo" (abluções), e do "asperges", este em sentido duplo: na missa, como rito penitencial, e na Vigília do Sábado Santo, como memória pascal de nosso Batismo. A esses gestos litúrgicos e tantos outros, podemos chamar de "símbolos rituais". A unção com o óleo atravessa toda a história do Antigo Testamento, na consagração de reis, profetas e sacerdotes, e culmina no Novo Testamento, com a unção misteriosa de Cristo, o verdadeiro Ungido de Deus (Cf. Is 61,1; Lc 4,18). A palavra Cristo significa, pois, ungido. No caso, o Ungido, por excelência.
68 - AS CINZAS - As cinzas, principalmente na celebração da Quarta-Feira de Cinzas, são para nós sinal de penitência, de humildade e de reconhecimento de nossa natureza mortal. Mas estas mesmas cinzas estão intimamente ligadas ao Mistério Pascal. Não nos esqueçamos de que elas são fruto das palmas do Domingo de Ramos do ano anterior, geralmente queimadas na Quaresma, para o rito quaresmal das cinzas.
Encerrando esse pequeno subsídio, guardemos então que toda a liturgia é ação simbólica. Assim, poderíamos ainda falar: do templo, da assembléia, dos sinos, do jejum, da esmola, das bênçãos, da ceia, da coroa do Advento, da palma, das flores, do anel, do canto, do abraço, da música, do cordeiro, da hóstia, dos ícones, do confessionário, do batistério, da arte sacra (em toda a sua vasta extensão) etc., como também, ainda, de tudo aquilo que diz respeito aos sentidos, tais como: olfato: o cheiro do incenso e das flores; paladar: o gosto do pão e do vinho; tato: o toque, seja na imposição de mãos de ritos sagrados, seja nas mãos que se unem às dos irmãos, seja no toque de coisas sagradas; visão e audição: como se falou nos nºs. 59 e 60 deste trabalho etc.. Enfim, é todo um universo simbólico, que nos convida a mergulhar cada vez mais no mistério infinito do amor de Deus.

Os gestos Litúrgicos
O tato, o tocar, o gesto das mãos e dos braços ocupam um lugar importante numa fenomenologia dos sentidos relacionados com a liturgia, da sensorialidade e da sensibilidade no âmbito da ação litúrgica.
Neste sentido, a Liturgia é, antes de tudo comunicação entre pessoas que se explicitam nos gestos externos, motivados por sentimentos e uma atitude interna. Por isso é de suma importância o correto uso dos gestos na Liturgia. Cada um deles deve ter a sua coerência e sentido. Seguem alguns apontamentos sobre os gestos litúrgicos.
Genuflexão: é um gesto usado somente para o Santíssimo Sacramento, quando se entra e sai da igreja, como também depois de aberto o Sacrário e antes de fechá-lo. Tal gesto significa adoração e respeito pelo Corpo do Senhor. Existem duas formas de genuflexão: com um dos joelhos (o direito) quando o Santíssimo não está exposto e com os dois joelhos quando o Santíssimo está exposto no ostensório.
Vênia: é uma pequena inclinação com o corpo feita para o altar ou para a cruz, cujo significado é de reverência e solenidade.
Imposição de mãos: significa transmissão de algo, principalmente em Sacramentos como o da Ordem e da Unção dos Enfermos (transmissão do Espírito Santo).
União das mãos: é uma forma de oração suplicante ou de fusão amorosa e de compenetração. Podem-se cruzar as mãos sobre o peito, num movimento de recolhimento e de concentração. Mas podemos juntá-las num gesto de entrega ou de unidade e de integração.
Mãos orantes: são mãos levantadas com as palmas voltadas para o alto, denotam a oferenda de si mesmo e a acolhida do dom divino, entrega e esperança, um dar e receber. Este gesto é normalmente usado na oração do "Pai Nosso" e na invocação do Espírito Santo. Se levanta os braços e se volta as palmas das mãos para a frente, para adiante, esboça-se um gesto de rendição diante de Deus, uma atitude de acolhimento.
Persignação: é um sinal da cruz feito sobre si mesmo, designando a condição de cristãos e a benção de Deus sobre si.
O beijo na face: é na Liturgia o sinal de transmissão da paz, mais amplamente é expressão de carinho e afeto, como também de intimidade e amizade.
Abraço: é sinal de acolhida, união, unidade de fé e comunhão.
Prostração: o homem que busca o contato com a terra através de todo o seu corpo e manifesta uma atitude de submissão e de oração diante de Deus, expressando humildade.
Ficar em pé: é um dos importantes gestos da tradição litúrgica, pois demonstra a nova condição do batizado em Cristo, a saber, a do homem ressuscitado, livre de toda escravidão (Gl 5,1; Ap 7,9; 15,2), levantando da queda (Lc 21,28). O gesto de orar em pé e de mãos levantadas, é o gesto mais freqüente nas celebrações.
Gestos em Movimentos
Procissão: exprime o caminhar para o Reino definitivo lembrando o destino itinerante do Povo de Deus.
Dança: sempre foi sinônimo de festa e alegria. Em muitas religiões e dança faz parte integrante da celebração, pois, por meio dela se expressa exteriormente o que se sente interiormente. Mas é preciso tomar cuidado na dança litúrgica, principalmente quando esta não consegue transmitir seu significado, com o movimentos vazios e profanos.
A dança litúrgica tem um momento certo para ser usada. Não se pode cair no extremo de dançar em toda a celebração, pois, acaba por banalizar a mesma. Algumas sugestões de dança litúrgica podem ser as seguintes: durante o hino de louvor pode-se introduzir o balanço horizontal acompanhando o ritmo do hino; na entrada com a Sagrada Escritura; numa apresentação de homenagem ou mensagens em geral; durante uma procissão, durante a entronização de algum santo; na coroação de Nossa Senhora, etc. todas essas danças devem construir uma consciência nova de Igreja e evangelização, e por isso sejam feitas de modo respeitoso, criterioso, consciente e breve.
Incensação: é prova da reverência a Deus, aos Santos, às pessoas sagradas simbolizando respeito e significando a oração que sobe aos céus.

Os Símbolos Litúrgicos
O símbolo ou sinal é antes de tudo, uma realidade sensível que remete a algo diferente de si, mas com o qual está unido mediante uma relação objetiva que eu não projeto nem crio, mas com o qual me encontro, ao contrario do que ocorre com o sinal, sempre convencional.
São símbolos todas as realidades primordiais da natureza e da criação como a terra (um monte, o vale, os frutos da terra), a água (o rio, o mar, a chuva), o fogo (a luz, o sol) e o ar ( o hálito, a respiração).
"É difícil falar ou escrever sobre símbolos, somente pela experiência é que conhecemos e sentimos sua eficácia" diz Ione Buyst.
Para tanto temos algumas pistas aproximativas para símbolos mais ou menos universais.

Água
1 - com sentido de morte (água que destrói): enchente, afogamento, do primitivo ameaçador...

2 - com sentido de vida (água que dá vida): fonte, riacho, rio, mar, chuva..., águas primitivas como força fecunda. Bolsa de líquido aminiótico que envolve o feto no útero da mulher grávida, água para beber, tomar banho, regar a plantação, hidroterapias, chás, banhos, abluções, compressas, duchas.

3 - com sentido de purificação, de destruição do mal e da corrupção (lavagem, limpeza. lustração): banhos, abluções e aspersões rituais de pessoas, coisas, lugares, para lavar a "sujeira" e possibilitar o recomeço.

Cruz
A cruz lembra a morte de Jesus e, também, a Sua ressurreição. É o sinal do cristão, de nossa salvação, sinal do amor de Cristo que nos amou até o fim, sinal de santificação, de pertença, e de compromisso.

Em muitas culturas pré-cristãs, a cruz representa a união dos opostos (em cima e em baixo, à direita e à esquerda). Como símbolo cósmico, refere-se ao curso do sol e aos quatro pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste). Há referências, também, à árvore da vida, firmemente enraizada na terra e com sua copa estendida em direção ao céu.

Incenso
Queimar incenso é um ato de adoração e de oferta (sacrifício), é símbolo da prece que sobe ao céu. Incensar determinados objetos (cruz, altar, livro dos Evangelhos, círio pascal, pão e vinho...) ou pessoas (ministros, assembléia, corpo de um morto) durante a celebração indica respeito e homenagem porque vimos neles uma referência à pessoa de Jesus Cristo. O perfume lembra a fragrância o "bom odor de Cristo" (Cf.: 2Cor 2, 14-17) que será espalhado onde o Evangelho for anunciado.

Óleo
Alimento, lubrificante, para iluminação... uso de óleo com fins terapêuticos e estéticos, cada óleo tendo urna eficácia própria. Com as massagens o óleo penetra e impregna profundamente. Dá a beleza e o brilho à pele, agilidade e protegendo do sol. Misturando a ele uma essência, o óleo transforma-se em perfume e pode realçar o lado prazeroso da vida. Tudo isso é resignificado no âmbito da fé.

Pão e Vinho
Fruto do trabalho do homem no seu dia-a-dia. Refeições diárias, indispensáveis a sobrevivência, matando a fome e a sede, comemorações e refeições festivas que realçam a amizade o prazer da convivência fraterna, social, chamam à corresponsabilidade... refeições sagradas exprimem a comunhão com a divindade e o êxtase vivido na aproximação de Deus.

Por fim, símbolos não são coisas, mas relações. Dependem de um processo de comunicação de intenção e da intensidade de quem faz o gesto, do olhar de quem olha, recebe, interpreta, entra em sintonia e vivência. Depende do contexto cultural, e no caso da Liturgia, do contexto ritual, coerente com as verdades da fé.