Comunicação Tem Remédio:
A Comunicação nas Relações Interpessoais em Saúde
Maria Paes da Silva, São Paulo, Ed. Gente 6º edição
1996
* Paulo André Céo Rosa - 2001
1) Introdução
Somos por excelência seres de comunicação.
No encontro comunicativo com os outros, nós descobrimos quem somos, nos
compreendemos, crescemos em humanidade, mudamos para melhor e nos tornamos fator
de transformação da realidade em que vivemos. Isso significa,
simplesmente, viver em estado de graça, com paixão pelas pessoas
e pela vida.
A comunicação não se constitui apenas na palavra verbalizada.
Temos de aprender a ser artistas, no sentido de captar as mensagens, interpretá-las
adequadamente e potencializá-las criativamente. É o tesouro da
linguagem verbal e não verbal que precisa ser descoberto e lapidado.
2) Comunicação interpessoal
"É impossível não se comunicar:
Ativamente ou inativamente, palavras ou silêncio, tudo possui um valor
de mensagem".
A comunicação interpessoal ocorre no contexto da interação
face a face. Entre os aspectos envolvidos nesse processo, estão as tentativas
de compreender o outro comunicador e de se fazer compreendido. Nesse processo,
incluem-se ainda a percepção da pessoa, a possibilidade de conflitos
(que pode ser intensificado ou reduzido pela comunicação) e de
persuasão (indução a mudança de valores e comportamento).
A percepção pessoal funciona como uma espécie de filtragem
que condiciona a mensagem segundo a própria lente. Ouvimos e vemos conforme
a nossa percepção. Assim, um indivíduo não pode
não comunicar.
Podemos dizer, então, que comunicar é o processo de transmitir
e receber mensagens por meio de signos, sejam ele símbolos ou sinais.
Signos, são estímulos que transmitem uma mensagem; qualquer coisa
que faça referência a outra coisa ou idéia. São convencionais
e arbitrários.
Símbolos, são signos que têm uma única decodificação
possível.
Sinais, são signos que têm mais de um significado.
As finalidades básicas da comunicação são entender
o mundo, relacionar-se com os outros e transformar a si mesmo e a realidade.
A comunicação é, antes de mais nada, um ato criativo.
3) Tipos de comunicação
Comunicação verbal, refere-se às palavras
por meio da fala ou escritas.
Comunicação não-verbal, não está associada
às palavras e ocorre por meio de gestos, silêncio, expressões
faciais, postura corporal etc.
Sabemos que na interação face a face o códigos de comunicação
são auditivos e, também, visíveis e sensíveis. Comunicamo-nos
com a linguagem verbal, ou seja, com os sons emitidos pelo aparelho fonador
e com o corpo todo, inclusive com os objetos e adornos utilizados.
Estudos feitos sobre a comunicação não-vebal estimam que
apenas 7% dos pensamentos (das intenções) são transmitidos
por palavras, 38% são transmitido por sinais paralingüísticos
(entonação de voz, velocidade com que as palavras são ditas)
e 55% pelos sinais do corpo.
A nossa dificuldade é aprender como o silêncio pode ser terapêutico
e nos proporciona a possibilidade de exercitar mais a faculdade de observação,
principalmente no que diz respeito aos sinais não-verbais. Diz um provérbio
indiano, que quando pensarmos em falar algo, cuidar para que nossas palavras
tenham maior valor que o nosso silêncio.
4) A linguagem do corpo: cinésica
"Erguemos a sobrancelha por incredulidade. Esfregamos
o nariz por atrapalhação. Cruzamos os braços para nos proteger.
Encolhemos os ombros por indiferença, piscamos os olhos por intimidade,
batemos os dedos por impaciência, batemos na testa por esquecimento."
Pressupostos básicos para a compreensão da cinésica:
1. Nenhum movimento ou expressão corporal é
destituída de significado no contexto em que se apresenta.
2. A postura corporal, o movimento e a expressão facial são padronizados,
ou seja, culturalmente determinados.
Normalmente, é pela cultura que se identificam determinadas mensagens.
Por exemplo, quando um árabe arrota à mesa, significa que sentiu
prazer pela comida ingerida.
3. A atividade corporal visível, assim como a atividade fonética
audível influenciam o comportamento dos outros membros de um grupo. É
a sincronia da comunicação, ou seja, uma exerce influência
sobre a outra.
4. Determinado comportamento, ou seja, a atividade corporal visível,
encerra significados socialmente reconhecidos e válidos. Os sinais identificados
pela pessoa são igualmente captados por seu grupo. Por exemplo, em um
velório existe um comportamento cultural esperado por partes das pessoas
presentes.
Categorias gestuais básicas
Podemos classificar os gestos humanos em cinco categorias:
1. Emblemática; são gestos culturais, aprendidos, e admitem transposição
oral direta. O gesto de dar uma banana indica desafio, a figa representa torcida
ou esperança.
2. Ilustrados; são gestos aprendidos por imitação. Acompanham
a fala, enfatizando a palavra ou a frase como se desenhassem a ação
descrita. Quando alguém diz: "pesquei um peixe bem grande!",
e o gesto da mão acompanha o bem grande.
3. Regulador; são gestos que regulam e mantêm a comunicação
entre duas ou mais pessoas. O meneio positivo da cabeça reforça
a continuidade da fala do outro.
4. Manifestação afetivas; são configurações
faciais que assinalam estados afetivos. Podem ser consciente ou não.
5. Adaptadores; funcionam como "muletas", isto é, são
partes do nosso corpo que usamos para compensar sentimentos como insegurança,
ansiedade e tensão. Exemplo: roer unha, mexer no bigode ou adaptadores
objetuais, brincar com jóias, cigarro, lápis, etc.
Concluindo
Sabemos que a comunicação não tem conclusão, ela
é um eterno evoluir, vale a ressalva ou a consideração
de que é difícil se tratar da comunicação não-verbal
por meio da comunicação verbal. Isso implica dificuldades, já
que a comunicação não-verbal também se realiza fora
do alcance da consciência. Um dos objetivos é trazer a consciência
essa linguagem silenciosa.
Termino contando um estória: Um monge zen que passou dez anos meditando
em sua caverna, procurando descobrir o caminho da verdade. Certa tarde, enquanto
orava, um macaco se aproximou.
O monge tentou concentrar-se. O macaco, porém aproximou-se de mansinho
e pegou a sandália do monge.
"Macaco danado!", disse o ermitão. "Porque veio perturbar
as minhas orações?"
Disse o macaco, "estou com fome".
"Vá embora! Você atrapalha a minha comunicação
com Deus!"
Perguntou o macaco, "Como pretende isso, se não consegue comunicar-se
com os mais humildes, como eu?"
E o monge, envergonhado, pediu desculpas.
* Paulo André Céo Rosa - 2001