Características do Rádio Moderno

Com a chegada do computador no estúdio de rádio, a linguagem do rádio mudou. Não há mais fita-de-rolo, cartucheira e disco de vinil. Há apenas computador. A
edição linear foi substituída pela edição digital com o uso de softwares de produção e reprodução do som. Alguns Softwares que editam áudio: Cool Edit Pro, Sound Forge-Vegas Áudio, CakeWalk (Pro Formato Midi), Audigi Logic, Pro Tools, Audacity, GoldWave... Uma rádio pode estar no ar, 24 horas nos sete dias da semana, comandada por uma única pessoa; é o caso da webrádio da UFPP, www.radio.ufpr.br, comandada pelo José Wile, e unicamente por ele. Hoje já há rádios cuja porta é fechada na sexta-feira às 18 horas para ser reaberta na segunda-feira às 9 horas; e no sábado e no domingo, o radiouvinte tem hora-certa, música, comerciais, notícias e informações úteis. O rádio moderno, como toda a mídia eletrônica moderna, caracteriza-se por:

Iconização: o ícone é um signo, ou um sinal ou um símbolo. Em semiologia, ícone é todo objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo, que apresenta relação de semelhança ou analogia com o referente, como fotografia, diagrama, mapa etc. Exemplos: a cruz significando o cristianismo; uma pegada indicando a passagem de alguém; uma seta para a direita indicando o Play num equipamento de áudio/vídeo. Na interface gráfica, o ícone é a figura apresentada na tela, geralmente clicável porque associada a um link, usada para acionar um software ou um recurso de programa executável. Por analogia, pode-se dizer que a informática é toda iconizada por sons; basta considerar os ícones sonoros do ambiente Windows (chimes, chord, ctmelody, ding, logoff, notify, recycle, start, tada, microsoft sound). Há muitos ícones sonoros e metáforas sonoras consagrados pelo uso que indicam: hora certa (tic-tac), noite (pio de coruja), praia (pio de gaivota), amanhecer (canto do galo), cavalgada (tropel), residência (porta abrindo), festa (rojões), ovação (palmas), dinheiro (caixa registradora), telefone (triiimmm, ou pipipopapepipapo), sons espaciais, fax, conexão de internet por linha telefônica (MCLEISH, 1999, p. 188). A música do Plantão de Notícias da Rede Globo imita o Código Morse, com uníssonos breves e mais longos, atiçando a atenção. Quem é que não conhece o Plim-Plim da Globo, certamente o mais expressivo ícone sonoro da TV? O rádio moderno usa o playlist, software que executa no ar um projeto de transmissão; projeto é ter colocado numa lista, por exemplo, a vinheta da rádio, a vinheta da hora-certa, o spot, a vinheta do programa, a música... (www.playlist.com.br. Acesso em 12 Jul. 2004). O playlist permite ao operador de áudio sobrepor ao telefonema uma vinheta com um aplauso, ou um grito de vivas, ou uma buzina, ou intervenções como "Oh, Coitado" (Filomena), "Mais ééé" (Nerso da Capitinga), copiadas da televisão (www.playlist.com.br; acesso 22.08.2005). Em transmissões de futebol, a Rede Globo usa um ícone sonoro que imita um chute na bola toda vez que acontece um gol em alguma partida simultânea do mesmo campeonato; esse som é um código emitido instantaneamente ao acontecimento, antes que o locutor seja informado aonde e de quem foi o gol e antes que o gerador de caracteres possa colocar a legenda na tela, o que leva alguns segundos. Na radionovela, na qual se ouve e não se vê, a iconização sonora é atalho para inúmeras mensagens de ambientação e contextualização (www.wstationradio.com. Acesso aos 13 Set. 2005).

Paratatização: em gramática, parataxe significa a coordenação assindética na construção do período, onde as orações são interligadas sem o recurso às conjunções; exemplo: cheguei, vi, venci. É uma justaposição. Na linguagem cinematográfica, para mostrar que uma pessoa saiu de casa, entrou num automóvel e se deslocou para a fábrica, antigamente era necessário mostrar passo a passo o que acontecia com o personagem; hoje, basta mostrar que ele está em casa, se levanta e já está na fábrica. Na cena seguinte, o personagem já pode estar num estádio, que o espectador saberá entender o trajeto que ele percorreu. Na história contada pelo rádio ou no radiojornal, os assuntos são justapostos e o radiouvinte os entende. Em vez de se usar uma exposição linear, usa-se uma narração rizomática, em forma de mosaico. Na radionovela esse recurso é muito útil sobretudo na hora de se passar de uma cena para outra, ocasião em que precisa contextualizar o novo ambiente. Tal qual no cinema, o radiouvinte de hoje tem a capacidade de assimilar o novo ambiente com muita facilidade.

Hibridização: é a mistura das mídias. Supõe-se que o leitor de jornal é também radiouvinte e telespectador. As mídias eletrônicas (rádio, televisão, cinema, internet) e impressas (jornal, boletim, revista, livro) interagem entre si. Assim como na televisão surgiu o clip, no rádio se usam vinhetas, gerando uma programação com a aparência de um mosaico. Por exemplo, se no rádio for dito que aconteceu uma 'videocassetada' com alguém, o radiouvinte já vai associar o personagem aos episódios humorísticos exibidos no Programa do Faustão na Rede Globo; o rádio não precisa ficar explicando o que vem a ser uma 'videocassetada'. O músico Eduardo Souto Neto compôs para a Rede Globo a música que ficou conhecida como "a música do Ayrton Senna" para a transmissão das corridas da Fórmula-1; hoje essa música é tocada no rádio para simbolizar a vitória. Theodoro e Sampaio, dupla atual de música rurbana, canta que se procura uma "mulher boa como a mulher do 21"; quem escuta a música já sabe que se trata de Ana Paula Arósio, que gravou o anúncio comercial da Embratel. Um som ou uma palavra criados e estereotipados pela televisão ou pelo cinema passam a ser usados pelo rádio. E também acontece o caminho inverso: o rádio inventa sons e palavras que passam a ser usados nas outras mídias.

Espetacularização: na televisão, já não basta mostrar uma notícia ou uma missa. É necessário mostrar o espetáculo. O espetáculo de notícias policiais está no Linha Direta e no Carandiru Outras Histórias da Rede Globo. A missa deixou de ser missa de estúdio para ser a missa estrelada pelo padre Marcelo Rossi e folclorizada, ocasionalmente, pelos Arautos do Evangelho. O rádio também tende a apresentar notícias, músicas e reclames publicitários de uma forma espetacular para prender a atenção do ouvinte. O anúncio comercial no rádio explora o lado do espetacular quando faz ofertas-relâmpago. Espetacularização no rádio é quando há entradas ao vivo de repórteres ou quando se coloca o radiouvinte no ar. Aliás, o rádio foi perdendo um dos seus formatos tradicionais que era o radioteatro, no qual as peças radiofônicas eram apresentadas num palco e o radiouvinte podia acompanhar o espetáculo na sua casa. O rádio brasileiro produz verdadeiros espetáculos ao transmitir partidas de futebol.

Estereotipatização (ou estereotipização): tipo significa um exemplar igual ao outro. Em comunicação, tipo é o personagem paradigmático da ficção ou da tradição oral, que é sempre o mesmo, que não varia. O estereótipo fala sempre as mesmas palavras e tem sempre o mesmo comportamento. No rádio e na televisão, há pessoas que incorporam um personagem típico e jamais se separam dele. Exemplos: o apresentador Chacrinha (Abelardo Barbosa), o cantor Tiririca (Francisco Everardo Oliveira Silva), o repórter Gil Gomes. Outros assumem um estereótipo ao longo de uma novela ou peça humorística seriada, como o Zeca Diabo (Ariclenes Venâncio Martins, o Lima Duarte), o Seu Creysson (Claudio Manoel) do Casseta & Planeta, o Nerso da Capitinga (Pedro Bismark). Os tipos criados pelo rádio foram se mudando para a televisão, como o Grande Otelo (Sebastião Bernarde de Souza Prata).

Rizomatização: em botânica, rizoma é uma espécie de raiz aérea auto-reprodutiva. Na construção de sentidos, o pensamento pode ser linear ou rizomático. É linear quando é lógico, cartesiano, conseqüente; portanto, com raiz, caule e ramos. É rizomático quando é holístico ou mosaical. Na filosofia, rizoma se refere a sistemas a-centrados e não hierárquicos que realizam conexões, ligamentos e junções sempre horizontalmente num mesmo plano ou não. Em comunicação, rizoma expressa desterritorializações e nomadismos. Diante de um público heterogêneo, veladamente, são respeitadas as preferências de moda, futebol, política, crença, arte, cultura; mas, intencionalmente, é veiculado este assunto e não aquele, ou aquele e não este. A mídia impressa e eletrônica é comparável a uma feira-livre, onde, em barracas vizinhas, se vendem produtos totalmente diferentes um do outro. Para causar estranhamento no radiouvinte, surgem sons e falas os mais esquisitos. O tempo dos programas é cada vez mais curto; em certos boletins noticiosos, a cada ato de respirar o locutor fala de outro assunto. A opinião pública é condicionada por modismos políticos, financeiros e culturais. A massa consumidora das informações se caracteriza pela volatilidade e vai fluindo como as ondas do mar, sobrando pouco espaço para a dedução e opinião pessoal (GUATTARI, 2005, p. 209).

Tribalização: Numa cidade como Curitiba, com 36 radioemissoras em AM e FM, cada radiovinte vai se identificando com determinado estilo de programa e vão se formando as tribos de ouvintes. Aqui entra a noção de paradigma e sintagma: ligar o rádio ou ligar a televisão, e ouvir ou assistir ao quê? Todo radiouvinte ou telespectador escolhe um programa ou uma emissora, de acordo com suas preferências e interesses. E entra a noção de repertório, que significa o conjunto de conhecimentos por parte de cada indivíduo. O dial do rádio contém um conjunto de emissoras sintonizáveis, quer dizer, uma série de possibilidades de escolha, o que pode ser chamado de paradigma. A partir do momento em que o radiouvinte ou o telespectador liga o seu aparelho e sintoniza o programa predileto, ele faz o sintagma, direcionando a sua atenção para aquilo que vai ao encontro de seus interesses. E invisivelmente vão se formando as tribos dentro da sociedade. Cada formato vai encontrando o seu espaço, nos mais variados estilos: música, futebol, jornalismo, radionovela... Para exemplificar: um programa musical pode servir à tribo do rock, ou da música gauchesca, romântica, clássica etc. Essa característica se refere mais ao receptor da mensagem do que ao emissor.

- Rádio Digital: As emissoras brasileiras podem a qualquer momento adotar a transmissão de rádio digital pelo sistema IBOC, pois não há necessidade de novas freqüências. Em nenhum momento está dito que as concessões de rádio não podem ser usadas para a transmissão digital. É apenas uma questão empresarial, de decidir quando é o momento de investir. Fontes do governo, sobretudo na Casa Civil e no Ministério das Comunicações, não acham que a questão seja tão simples. Entende-se que, apesar de não ser o caso de se pensar em desenvolver um padrão nacional de rádio digital, é necessário ainda testar e conhecer os padrões existentes, que ainda não estão homologados e completamnete estabelecidos. O Brasil já firmou convênio, por exemplo, com o padrão Europeu (DRM - Digital Radio Mondiale) para testes, e pretende fazer o mesmo com os demais padrões. Mas não se sabe como o governo reagirá se alguma emissora tentar partir para a digitalização sem o sinal verde das autoridades. O fato é que o simples rádio em Amplitude Modulada, Ondas Curtas e Freqüência Modulada está com os dias contados.

Lourenço Mika - Jornalista e Professor-Mestre

lmaikol@uol.com.br