A Magnitude do Rádio
A radionovela nasceu para nunca mais morrer! Ao longo das décadas, o formato da radionovela evoluiu. Nas radioemissoras da atualidade pode haver poucos resquícios do gênero radionovela tradicional. Mas, analisando atentamente a programação de toda e qualquer rádio, é possível notar a influência da radionovela nos outros gêneros radiofônicos. A radionovela originou também os Seriados de Aventura, episódios produzidos em estilo radionovela e transmitidos em datas e horários pré-estabelecidos, tal qual se dá com os seriados na televisão. Exemplos de Seriados de Aventura: "O Anjo", playboy justiceiro, produzido e apresentado por Álvaro Aguiar, com episódios de 10 minutos, veiculados de 1948 a 1967; "Jerônimo", herói do sertão, criado por Moysés Weltman; "Instantâneos Sonoros do Brasil", de Henrique Fôreis Domingues, cognominado de "Almirante, a Maior Patente do Rádio". No ano 2003, em Curitiba (PR), houve uma Oficina Prática que ensinava a produzir radionovela na Escola Superior de Estudos Empresariais e Informática (ESEEI).
14.1 - As extensões dos cinco sentidos - O avanço tecnológico da eletrônica vem propiciando extensões aos cinco sentidos do corpo humano, fazendo ultrapassar as categorias de tempo e espaço. Onde um olho individual não pode estar, pode haver uma câmera filmadora (objetiva); onde um ouvido individual não pode estar, pode haver um microfone. No final de 1870, Edison, com seu fonógrafo, tinha conseguido gravar e conservar a voz humana; agora, aquela voz, mesmo não estando a ser falada, podia alcançar nossas casas e tornar-se mídia alternativa ao jornal. A humanidade evoluiu, do sílex ao silício. Para cada um dos sentidos - visão, audição, olfato, paladar e tato - foram criadas extensões, possibilitando as sensações à distância. O rádio foi inventado como uma extensão do falar (captura do som e transmissão da onda eletromagnética) e do ouvir (captura da onda eletromagnética e reprodução do som). Assim, uma boca artificial (alto-falante) pode falar lá onde a boca real não está; e, um ouvido artificial (microfone) pode ouvir lá onde o ouvido real não está. Assim, a tecnologia concede extensões aos cinco sentidos, possibilitando ao indivíduo se deslocar no tempo e no espaço através da ficção.
14.2 - Os privilégios da audição - a audição está diretamente ligada às emoções. Exemplificando: um fanático torcedor explode em euforia quando ouve o grito do 'gol' do seu time favorito; uma mãe tem um choque psíquico ao ouvir a notícia de que o filho dela acaba de perder a vida num acidente. Ver para crer. Ouvir para se emocionar. Um surdo de nascença também é mudo, pois não há como desenvolver o falar sem o ouvir. Ouvindo rádio, a pessoa se informa, se instrui, se diverte, sonha, se perverte, se entretém, se tranqüiliza, se emociona, ora, ganha dinheiro, se transforma, mantém o status quo. O rádio gera um relacionamento interpessoal entre o radialista e o ouvinte. Muito mais do que na televisão, o apresentador estabelece uma espécie de ligação com o ouvinte. Uma emissora bem-sucedida é mais do que a soma de seus programas; ela entende a natureza dessa amizade e seu papel de líder e prestador de serviços. Uma emissora de rádio é capaz de funcionar a um simples toque de botão, mandando para o ar, durante 24 horas do dia, em som estereofônico Hi-Fi, quadrifônico, música clássica ou popular, mensagens comerciais, noticiosos, prestação de serviços, hora certa... comandada por sofisticados computadores. O rádio continua forte e imbatível, já que, com a ajuda do transistor, o veículo ampliou seu poder de penetração a públicos inatingíveis pela televisão ou pelos jornais; a público de lugares onde não existe energia elétrica e onde o percentual de analfabetos é muito grande; o analfabeto não lê, mas pode ouvir.
14.3 - O rádio forma imagens - O radiouvinte cria uma imagem visual a partir da imagem auditiva. Se na televisão há imagem visual já pronta e acoplada ao som, no rádio o receptor da mensagem tem que criar uma imagem visual, numa tela imensamente maior do que a tela da televisão. Por meio de um diálogo mental, o ouvinte participa da mensagem.
14.4 - O rádio é simples - A televisão pressupõe uma grande equipe para colocar no ar um programa; são técnicos, operadores de câmaras e microfones, iluminadores, locutores etc. O rádio pode ser operado por um único disjokey, que fala notícias, hora-certa, dedica músicas, vende etc. O custo operacional também é simples. O radioreceptor também é um aparelho simples, sem o complicado controle remoto dos televisores.
14.5 - O rádio é portátil - Algumas mídias, como jornal e televisão, exigem dedicação quase que exclusiva. Já o rádio pode ser ouvido enquanto a pessoa executa outras tarefas. O rádio portátil, por ser alimentado com pilhas, pode ser levado a todo e qualquer lugar; e as ondas eletromagnéticas estão presentes em toda parte do planeta. É comum ver pessoas ouvindo rádio no ônibus ou na rua, munidas de fones de ouvido. Quase todos os automóveis possuem um radioreceptor. O termo radiodifusão indica a dispersão da informação produzida, que abrange cada lar, vila, cidade e país que esteja ao alcance do transmissor. O rádio está na cabeceira do Presidente da República, em forma de rádio relógio, como está pendurado no ramo adejante do pé de café do lavrador humilde e analfabeto, em forma de rádio de pilha; está no leito do enfermo e no carro que leva o cirurgião para a primeira operação do dia. O rádio foi migrando da sala-de-estar para o quarto, para o banheiro, para a cozinha e para os automóveis. A radionovela, ficção, explora por si só o transportar-se no tempo e no espaço.
14.6 - O rádio fala para milhões - O rádio fala para milhões, mas será que os milhões o ouvem? Os pesquisadores de audiência no rádio falam de parcela e alcance. Parcela de audiência é o tempo gasto pelo radiouvinte ouvindo uma determinada emissora, expresso em porcentagem da audiência total de rádio nessa área. Alcance de audiência é o número de pessoas que de fato ouve alguma coisa da emissora num período de um dia ou uma semana, expresso como porcentagem da população total que poderia estar ouvindo. Uma radioemissora pode ter uma parcela bem pequena da audiência total, mas se conseguir obter um substancial acompanhamento de pelo menos um de seus programas, gozará de um amplo alcance. A disputa pela audiência, que significa fatura comercial, é bem acirrada entre as emissoras. A radionovela, indo ao ar, em dia e hora predeterminados tinha a vantagem do público cativo.
14.7 - O rádio fala para cada indivíduo - Ao mesmo tempo que atinge milhares de pessoas, o rádio é voltado para o indivíduo em particular. As palavras, a forma de falar, são pensadas para o ouvinte com suas particularidades e expectativas. O tom íntimo das transmissões, representado pelas expressões "amigo ouvinte", "caro ouvinte", "querido ouvinte", proporciona uma aproximação e uma intimidade únicas, fazendo do rádio um veículo companheiro.
14.8 - O rádio é instantâneo - As radioemissoras especializadas em transmitir notícias exploram a instantaneidade do rádio, falando ao vivo. Ao mesmo tempo em que a notícia é veiculada em tempo real, ela se caracteriza pela efemeridade. Por exemplo, na transmissão de futebol, interessa o momento do gol; o que vem depois já é o comentário. Um jornal impresso pode ser deixado de lado para ser lido mais tarde; já, a magia do rádio está no ser ouvido no instante exato do acontecimento. Isso faz do rádio um agente disseminador da informação e do conhecimento; portanto, o rádio é um agente formador de cultura. A radionovela, por ser ficção, abandona o instantâneo real para trabalhar no instantâneo imaginário.
14.9 - O rádio é local - Pela natureza das ondas eletromagnéticas do rádio AM e FM, transmitidas em quilohertz e megahertz, o rádio é local. As ondas curtas podem ser captadas a milhares de quilômetros, como um hobby de dexistas (D = Distance; X = Incógnita; dexistas são aqueles que pesquisam a sintonia das radioemissoras); mas, o normal é que o rádio seja ouvido por ouvintes da localidade próxima. Em muitos casos, o ouvinte conhece pessoalmente o radialista; em outros casos, mesmo que o ouvinte não conheça a fisionomia do locutor, ele se familiariza com a voz e o estilo dele. É até folclórico o fato de que muitos colonos ao irem para a cidade passam na radioemissora para mandar um recado para a família que ficou em casa! Quando o assunto é a notícia, a notícia local desperta mais interesse do que a notícia proveniente de regiões distantes. A radionovela não precisa se prender necessariamente a uma localidade determinada, mas, quanto mais inculturada na localidade, seu impacto será maior.
14.10 - O rádio é acessível - A maioria da população tem possibilidade de adquirir um aparelho de rádio. Segundo pesquisas recentes, praticamente toda residência tem pelo menos um ou vários aparelhos; a proporção é de um rádio por pessoa. Tal fato ocorre porque seu preço é quase sempre acessível e sua abrangência alcança basicamente qualquer lugar, mesmo onde não existe energia elétrica ou as transmissões televisivas ainda não chegaram. Sendo assim, o rádio está sempre por perto, ao alcance da mão ou do ouvido, atingindo todos, da criança ao idoso.
14.11 - O rádio é barato - Comparado com outros veículos de comunicação, o rádio é barato para o 'proprietário' e barato para o radiouvinte. Um aparelho de rádio portátil custa menos do que um livro. Uma vez obtida a concessão pública (no Brasil) para colocar uma radioemissora no ar, o custo dos equipamentos e da manutenção é relativamente pequeno. Aí o rádio incorre, infelizmente, num entrave: a mão-de-obra de não-profissionais e a conseqüente falta de qualidade na programação. A radionovela é uma produção que requer a contratação de profissionais para que haja qualidade. A falta de espaço para profissionais certamente é um dos motivos da atual pouca produção de radionovela.
14.12 - O rádio vende - Pelo Decreto-Lei nº 21.111, de 1º de março de 1932, o Presidente Getúlio Vargas autorizou a veiculação de publicidade e propaganda no rádio brasileiro. O rádio passava a ser um entreposto de vendas. Na medida em que o rádio vendia os produtos dos outros, ele recolhia a verba publicitária. As emissoras foram se transformando em empresas. Nos dias atuais, o rádio sobrevive dos anúncios de marketing, produzidos e veiculados de uma forma profissional. A radionovela sempre esteve entrelaçada com a produção de reclames publicitários, porque o estilo de produção da publicidade é muito parecido com a produção de radionovela, pois é um estilo para se ouvir e imaginar, e não para ver. Um anúncio comercial, normalmente segue o esquema: a) contextualizar uma situação; b) identificar um problema; c) apontar uma solução, através da venda de um produto ou serviço. Em rádio e televisão, é muito fácil reproduzir esse esquema através de pequenas ficções.
14.13 - O rádio tem função social - Atua como agente de informação e formação do coletivo. É um serviço de utilidade pública. Fornece informações sobre empregos, produtos e serviços. Atua como vigilante sobre os que detêm o poder, propiciando o contato entre eles e o público. Ajuda a desenvolver objetivos comuns e opções políticas, possibilitando o debate social e político e expondo temas e soluções práticas. Contribui para a cultura artística e intelectual, dando oportunidades para artistas novos e consagrados de todos os gêneros. Divulga idéias que podem ser radicais e que levem a novas crenças e valores, promovendo assim diversidade e mudanças. Facilita o diálogo entre indivíduos e grupos, promovendo a noção de comunidade. Mobiliza recursos públicos e privados para fins pessoais e comunitários, especialmente numa emergência.
14.14 - O rádio plasma a cultura - O rádio plasma a cultura, cultura entendida como "o conjunto de características humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade." O rádio funciona como um agente multiplicador e reforçador da cultura; atua como um vigilante sobre os que detêm o poder, propiciando o contato entre eles e o público; controla a opinião pública; faz a difusão da produção artística e intelectual; capacita os indivíduos a exercitar o ato da escolha, tomar decisões e agir como cidadãos, em especial numa democracia, graças à disseminação de notícias e informações imparciais. Há gêneros radiofônicos que são muito espontâneos e acontecem sem muito planejamento ou previsão. Já a radionovela é um gênero pensado, planejado e produzido; portanto, um produto cultural, onde se trabalha com conceitos universais estereotipados.
14.15 - Outros atributos - José Ignacio Lopes Vigil, cubano de nascimento e radialista em vários países da América Central, entre os quais na República Dominicana, em Manual Urgente para Radialista Apaixonados elenca ainda outros atributos sobre a grandeza do rádio: O rádio é o melhor dos pianos, pois se o piano de Mozart tinha 85 teclas, o ouvido humano - o órgão de Corti - tem 25 mil 'teclas'. O rádio privilegia o riso, emoção que todos gostam. O rádio é a maior tela do mundo. O rádio dialoga com todos.
14.15 - Radionovelas veiculadas hoje - A Rádio
América, AM 1410 KHZ, de São Paulo (SP), possui (ano 2004) um
departamento de produção de radionovelas. De segunda a sexta,
às 21:30 h, dentro do programa "Boa Noite Família",
apresentado por Hernando Gutiérrez, Luis Miguel Duarte e Pereira Junior,
vai ao ar um episódio denominado "Milagres da Fé". O
ouvinte envia a sua história para a emissora; a Sra. Alcima de Toledo
faz a adaptação da história, produzindo o script. Com direção
da Sra. Rita de Souza, a história é interpretada por um elenco
de alto nível, destacando-se nomes como Arlete Montenegro, Pereira Júnior,
Eduardo Cury, Gessy Fonseca, Lilian Loy, Basílio Magno, Raul Gonzalez;
a sonoplastia é de Luiz Veronezi. Cada episódio é de 20
minutos, sendo que é veiculado nas 60 emissoras da Rede Paulus Sat. "Milagres
da Fé" está no ar desde fevereiro de 2002.
Nas radioemissoras de propriedade das igrejas evangélicas, também
há resquícios de radionovela, especialmente nos programas que
simulam depoimentos sobre milagres e graças recebidas. É o caso
das emissoras da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhadas pelo Brasil e
pelo exterior. Em São Paulo (SP), o Bispo Gregório de Morais,
da Rádio Musical FM, tem utilizado o estilo radionovela em suas pregações
eletrônicas.
Considerações - O rádio é
barato, instantâneo, portátil, popular, plasmador de cultura. No
passado, a radionovela já esteve bem mais presente no rádio do
que hoje. Talvez, porque no passado o radiouvinte tinha tempo de habitualmente
sentar-se ao lado do rádio para ouvir os capítulos de um seriado.
O mundo de hoje (ano 2004), caracterizado pela pressa, não permite sentar-se
para ouvir, pois se vive de fragmentos cerebrais, onde importa apenas a emoção
momentânea. O mesmo fenômeno se passa com o produtor de programas
radiofônicos: ele não tem tempo para produzir peças radiofônicas.
Até o operador de áudio lhe foi subtraído. O DJ tem que
fazer a locução, programar músicas, apertar botões,
ler notícias da internet, vender, atender ao telefone... caso contrário,
não há salário no final do mês. O encanto da radionovela
fica por conta da agilidade do DJ, num eterno presente, sem passado e sem futuro.
Lourenço Mika